As salas especiais de cinema do Rio de Janeiro e suas tecnologias: quais as diferenças?

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A melhor sala do RJ para assistir Star Wars Parte 2: Investigando as tecnologias das salas de cinema 3D do Rio de Janeiro

Independente do filme Star Wars, a continuação desse artigo aborda as tecnologias, valores e demais diferenças entre as salas de cinema 3D no Rio de Janeiro. Se você sempre ficou em dúvida, finalmente é hora de esclarecer.

Por Arnaldo V. Carvalho

Eu não imaginava que escolher uma sala para assistir Star Wars: Ascensão Skywalker me levaria a perceber uma situação obscura em relação aos cinemas no Brasil!

Simplesmente, NENHUMA empresa presta informações detalhadas sobre as tecnologias de exibição empregadas em suas salas especiais.

Isso torna a comparação e escolha racional algo na escala do impossível. Há coisas que o espírito investigador não resiste, e o esclarecimento a essa questão é uma delas.

Já dissemos na parte 1 desse artigo que a informação vaga acerca das características das salas especiais se dá porque, provavelmente, os equipamentos adquiridos e os formatos das salas não são sempre os mesmos. As cadeias de cinema compram não um mais diferentes equipamentos 3D standard para as salas standard, e fazem compras diferenciadas, sala a sala, para as exibições especiais. Por exemplo, é claro que um projetor de R$50 mil reais é diferente de um de R$200 mil, mas há uma série de intermediários… É possível que as compras variem de acordo com a quantidade de aparelhos negociada, com a expectativa de custos x valor possível de cobrar do público, etc. Não adianta instalar equipamento de ponta em um bairro onde as pessoas não poderão pagar pelo valor de exibição que justifique a instalação. O segredo pode ser usar projetores intermediários. O tamanho das salas também varia e assim varia o tamanho da tela, etc. O que dá para as empresas prometerem é que as salas especiais possuem maior investimento nos itens mais perceptíveis: projeção, som, cadeiras, tamanho de tela. O quanto? O quanto é a variável que torna o dado sigiloso na medida do possível.

Mas a gente consegue ter umas ideias, especialmente relacionadas a tecnologia de exibição e seu potencial de áudio e vídeo.

As grandes produções hollywoodianas são hoje gravadas para o sistema IMAX, que garante uma resolução e definição de cores absurda. O áudio é gravado em separado e utiliza distintas tecnologias. A mais sofisticada delas aparentemente é a DOLBY ATMOS, que teria condições de fazer um som até 24.1. O concorrente de som do Atmos é o Barco Auro 11.1. Os cinemas brasileiros ao menos não possuem caixas de som acima de 7.1 que eu saiba, mas talvez os sistemas XD ou KinoEvolution tenham mais, possivelmente para tentar cobrir 11.1.

Abaixo, alguns detalhes sobre essas tecnologias:

IMAX: O IMAX Digital (também conhecido como LieMax, Semimax, etc.) é um padrão de projeção para exibição de filmes digitais. Ela envolve a tecnologia DMR (Digital Media Remastering) proprietária que, segundo se diz, fornece cores melhores que os projetores digitais padrão (no caso do 3D, porque utiliza a chamada polarização linear, se você inclinar muito a cabeça, o efeito 3D dará lugar a fantasmas e planicidade).. Eles usam os projetores DLP da Texas Instruments também em uma configuração proprietária. Cada tela IMAX Digital usa dois projetores 2K em execução simultaneamente. As imagens são sobrepostas, produzindo uma imagem mais brilhante que a média. A IMAX afirma que sua imagem parece melhor do que um único projetor 4K, mas há muito debate sobre isso. O IMAX também usa som surround alinhado a laser no formato 7.1, com 12.000 watts de potência. Uma sala nomeada IMAX pode exibir filmes aprovados pelo padrão IMAX – Star Wars incluído. Só há uma sala IMAX no Rio de Janeiro, que eu saiba – a UCI IMAX, na Barra da Tijuca.

Não sei dizer se todas as salas de cinema IMAX no BR tem o mesmo tamanho, nem descobri se qual seria o padrão em lúmens os projetores de IMAX Digital.

CINEMARK XD: XD é o padrão de projeção exclusivo dos cinemas Cinemark. Ele usa projetores Barco em 2K ou 4K e 30.000 lúmens. Existe apenas um projetor, fornecendo potencialmente menos brilho e potencialmente menos detalhes que o IMAX Digital. O tamanho da tela é descrito apenas como 40% maior que a normal, e por experiência própria posso dizer que é mesmo gigante e imersiva. O som do Cinemark XD usa tecnologia “Custom Surround Sound“, não alinhado a laser, de 12.000 watts. Pelo resultado de assistir “Star Wars: Os Últimos Jedi” diria que é no mínimo 7.1.

Como a própria Cinemark é proprietária do padrão XD, essas sala de cinema podem reproduzir qualquer filme digital (e não só o que a IMAX determina, por exemplo).

Não sei dizer a potência precisa do som no XD, nem as variedades de medidas (mínimo e máximo) das telas do padrão XD.

Kinoevolution, Cinépic, X-Plus

Projetor Christie DLP-4K

A diferença entre o padrão XD e as demais salas especiais de cinema não é tanta. Geralmente as telas são compostas por projetores DLP atualizáveis ​​em 4K (o IMAX-Digital é dois projetores 2K). Projetores de empresas como Christie e Barco costumam ser utilizadas. Vale comentar que essas projeções duplas precisam de um projecionista competente para alinhar os dois projetores corretamente.

Em termos de áudio, o layout do alto-falante pode variar dependendo de quantos são usados.

Lembrando que pra se sentir a diferença de som proposta por uma sala especial, o filme precisa estar mixado na tecnologia referente. Isto vale pra todas as salas “especiais”. Descobri que a sala Xplus (Uci Cinemas) usa Dolby Atmos, e a KinoEvolution (Kinoplex) utiliza Auro 11.1 (Barco). Quando isso não acontece, os processadores + amplificadores da sala somente processarão e amplificarão o sinal DOLBY ou DATASAT (Antiga DTS) e enviarão para as caixas acústicas. Por isso, num conjunto imenso de caixas você acaba tendo a sensação de que falta algo. É “apenas” um som 5.1/7.1 alto. A propósito, XD usa 12 alto-falantes. Não sei dizer as outras. A maioria das salas especiais dos cinemas do RJ deve conseguir reproduzir áudio 7.1, mas li em algum lugar que por vezes a apresentação do áudio é de 5.0.

Bem pessoal, essa é a informação que consegui levantar e compilar aqui para vocês. Na prática, a situação não muda: é experimentar cada sala e comentar. Aos poucos espero receber mais informação, e se você puder ajudar com isso ou mesmo inserindo nos comentários relatos de suas experiências pelas salas especiais de cinema do Rio de Janeiro, será maravilhoso!

Não perca em breve aqui no blog a parte 3 desse artigo: As salas especiais de cinema do RJ: quais são, onde ficam, quais seus preços? Assine para receber em seu e-mail as atualizações!

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*Arnaldo V. Carvalho, pai, pedagogo, terapeuta, adora qualidade de vida, tecnologia, cinema e compartilhar descobertas com amigos!

 

Qual é a melhor sala de cinema no Rio de Janeiro para assistir o último Star Wars (e seus outros filmes preferidos)?

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Nota prévia: esse artigo analisa como um todo a qualidade salas de cinema de Niterói e da Zona Sul e Zona Norte do Rio de Janeiro.

Parte 1: Sala especial? O que são exatamente? São diferentes? Vale a pena assistir Star Wars: Ascensão Skywalker numa delas?

Por Arnaldo V. Carvalho*

Ainda lembro da sensação. As luzes se apagam e logo após o icônico texto em scroll, o gigantesco cruzador espacial, maior nave do Império surge em 3D como detrás de nós na direção do espaço infinito da tela. Valeu cada centavo ter assistido ao Star Wars anterior (o “8”, “O Último Jedi”) na sala XD do Cinemark em Niterói, RJ! Big tela, resolução excelente, som excelente. O som aliás é capaz de reproduzir até mesmo o som de um objeto se deslocando de um lado para o outro. Isso faz uma incrível diferença lúdica nas incríveis batalhas à laser.

Como a tecnologia melhora a cada ano, mais uma vez fui ao encalço da melhor experiência visual, sonora e de conforto no Rio de Janeiro, que não fosse absurdamente longe de mim (sinto muito Barra da Tijuca), nem absurdamente cara (sinto muito cadeirinhas que tremem).

Na busca por encontrar o melhor, quebrei a cabeça no emaranhado de informações dispersas e superficiais na Internet, e finalmente entendi o que significa realmente o conceito de “sala especial de cinema” para as empresas. Independente da sala pertencer à UCI, Kinoplex, Cinemark, etc.: as empresas padronizam um “pacote” de recursos oferecidos e lhes dão um nome. Esse pacote inclui equipamentos de exibição melhores (projetor de vídeo, equipamento de som e suas caixas e distribuição), formato das cadeiras e seu espaçamento e a arquitetura geral da sala. Mas as diferenças são apontadas sempre de forma vaga. Qual então será a melhor sala especial para vermos Star Wars no Rio de Janeiro?

A resposta não é simples. Basicamente, porque há três fatores principais que influenciam no resultado final:

  1. A adequação da tecnologia de exibição à tecnologia utilizada para a gravação do filme;
  2. A adequação arquitetônica aos aparelhos;
  3. O fator presencial humano.

O fator 1 é: Star Wars: Ascensão Skywalker foi gravado com a tecnologia IMAX, e seu som é disponibilizado em mais de um formato (os principais são Dolby Atmos e Auro 11.1). Em tese, a melhor sala é a que oferece o máximo potencial de exibição que a própria gravação permite. Trocando em miúdos: não adianta colocar um filme gravado com tecnologia de última geração numa TV dos anos de 1980 e esperar fidelidade de som ou imagem. A tecnologia de exibição tem que acompanhar ao máximo a de reprodução. Então a priori, a melhor sala em termos visuais seria a IMAX, no UCI Barra da Tijuca. Mas como já adiantei, lá é longe para mim.

O fator 2 pode reduzir a experiência. O tamanho da tela, importante para que se favoreça a imersão do expectador, passa por aí também. É preciso que, para ter uma tela gigante, o aparelho dê conta de projetar sem perda de resolução. Em conversa com a professora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, minha amiga Renata Palheiros, ela explicou que por vezes a sala de cinema não está preparada adequadamente para os aparelhos de última geração que recebe, o que justifica diferença de desempenho entre salas diferentes usando os mesmos projetores. Será que a incrível sala IMAX da UCI consegue alcançar o máximo potencial da tecnologia de gravação do Star Wars? Testem e comentem aqui!

O fator 3, me explicou Renata, é que hoje não há projetistas profissionais que preparem a exibição dos filmes de modo personalizado. Um projecionista poderia fazer diferença na exibição de um filme, checando e adequando volume de som, brilho etc. de sala para sala. Com o aumento da tecnologia, essa é uma profissão praticamente extinta.

Talvez porque essa padronização de salas sofra variáveis dentro das unidades de uma mesma empresa parece haver uma espécie de “acordo secreto”, onde as empresas de compromete a falarem de forma superficial sobre as características dessas salas. Como saber quais são as diferenças reais entre as salas especiais? Isso explica porque qualquer tentativa de buscar a informação na Internet parece inútil, e as experiências relatadas em fóruns e redes sociais é uma verdadeira confusão de opiniões, para além de uma questão de gosto pessoal.

Quando assisti o Star Wars: Os Últimos Jedis, a sala XD do Niterói Plaza Shopping foi realmente incrível. Ela continua sendo top, mas esse ano não pretendo atravessar a Baía de Guanabara. Por aqui, na Zona Sul do Rio, há um concorrente de peso: as salas Kinoevolution, do Kinoplex, instaladas no Rio Sul. Como o Cinemark e sua sala XD, Kinoevolution promete tela gigante e som fabuloso. Essa será minha escolha essa ano, e depois conto para vocês.

Quer saber mais sobre as salas especiais do Rio de Janeiro e as tecnologias nelas empregadas? Na parte 2 escrevo detalhes sobre as tecnologias 3D usadas nas salas do Rio de Janeiro: IMAX, XD, XPLUS, Kinoevolution, etc., Assine o blog que você passa a receber as atualizações por e-mail!

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*Arnaldo V. Carvalho, pai, pedagogo, terapeuta, adora qualidade de vida, tecnologia, cinema e compartilhar descobertas com amigos!

Dia de chamamento.

Arnaldo V. Carvalho

Esse dia é um chamamento. É só um chamamento. Um chamamento aos irmãos de África, ao que há de África em você. Você sabe. És humano. Todos viemos de lá.

Mas você também sabe. Diferente de nossos mais antigos ancestrais nômades, desbravadores do globo, nossos irmãos de África viveram espalhamento forçado nos últimos 600 anos. Por todos os continentes, homens, mulheres e crianças, enviados em tumbeiros fétidos. Escravizados.

Nenhum território recebeu tantos como o nosso Brasil. 4,8 milhões, quase a metade do total de negros que vieram às Américas. Você sabe, nossos irmãos foram humilhados, torturados, tratados como bicho nenhum jamais fora tratado por seus semelhantes. Mas você sabe? Você consegue admitir?

Eles continuam sendo.

De muitos territórios da África, seguem emigrando, forçados pela fome, pelas guerras, pela miséria. Migram da África para todo lado. Por aqui, migram também: dos miseráveis interiores de um Brasil afroindígena para suas bordas mesquinhamente mais ricas.

A africanidade, porém, nunca deixou de ser e sempre será riqueza fundamental da humanidade. As histórias tristes que costumam nos marcar como “o que é África” não devem e não podem ofuscar tantas outras, tão diferentes e esplendorosa. Lembra-nos a escritora Chimamanda, a história única é um perigo! Lembra-nos a historiadora Nívia Pombo,  a África é um caleidoscópio de riquezas culturais, étnicas, linguísticas. Seus indivíduos têm o dom de construir histórias de vida plenas de significado humano.

Então é hora de voltar a reconhecer os irmãos e sua força, a origem comum, a humanidade.

Esse dia é um chamamento.

Negro não é cor da consciência que nos chama. Negra é a cor de tudo o que está sob a terra onde não bate a luz e as plantas vão buscar alimento. É a cor do inconsciente e da raiz que nutre a todos nós.

Eu quero trazer uma música para esse dia. Uma música de chamamento. Um hino. Pensei em “Carne” da Elza Soares.

Eu quero algo brasileiro, quero trazer a vocês uma cantora preta, poderosa, para a todos dizer: preta é poder!

Elza Soares, Teresinha de Jesus, Carmen Costa, Jovelina Pérola Negra; quem sabe Teresa Cristina ou Alcione, quem sabe Iza, Nara Couto ou Bia Ferreira (por favor, descubram esse nomes todos no Youtube, são fundamentais).

Aí vem minha infância branca de classe média e apartamento de bairro bom, amante dos brancos Beatles e Carpenters… E tudo o que não é brasileiro. Que teve mãe preta (que saudades, Antonieta!), “tratada com carinho” pela família (embora comesse só, na cozinha, embora seu quartinho fosse minúsculo, mal arejado e jamais pudera ser arrumado a seu gosto, tendo de dividi-lo com trapos e quinquilharias da minha avó). Ela era “minha”, minha “Tia Anastácia” pessoal –  a fazer bolinhos de arroz deliciosos e a me ameaçar com a colher de pau quando eu tentava furtar alguns antes de irem para mesa. Eu tinha mais prazer da ameaça falsa, da fuga da cozinha às risadas do que pelo bolinho. Naturalmente a minha segurança de patrãozinho branco revelava uma relação de poder impensável em minha visão de mundo atual. Foi esse mesmo Eu que teve seu primeiro amigo preto somente aos sete anos de idade, e que já rapaz jamais pensara um dia em se apaixonar por uma preta, “não por preconceito só não me atrai”.

A memória de quem já fui ainda se ancora em mim, e me tornou mais permeável à música americana. Então não me entenda mal, a música que oferecerei a você nesse dia de chamamento é americana. É aquela que me fez tremer pela primeira vez ao ouvir uma música. E ela é negra, feminina, poderosa, libertada/libertadora. É verdade, não me permiti tremer ante à força de uma música, antes de ouvir Nina Simone pela primeira vez. Quando digo tremer, é a catarse física mesmo, que começou por um arrepio na espinha, do dorso ao alto da cabeça, e em trechos dos braços e pernas; passou por um marejado de olhos e finalizou em tremedeira. Atribuo a tremedeira a um passo dado à uma importante ruptura de identificações estabelecidas no meu Eu.

Ain’t got no / I got Life marcou meu chamamento, há uns anos atrás. “Eu sou negro”, eu dizia ouvindo Simone dentro de mim, talvez iludido. “Eu sou negro!” “Somos negros!”, “Somos todos negros!”, “TEMOS DE SER NEGROS!”, “ENTENDI”!

Não há caminho, meus amigos. Porque não há negros. Não há brancos. Há oprimidos marcados pela forma. Os oprimidos devem e estão nos ensinando. Nos ensinando a nos Libertar – de verdade – por dentro e por fora.

A cor? A cor é uma construção das relações destrutivas de poder. Esse poder que cala corpos e polui a humanidade com a malévola névoa de diferenças pela aparência e escolhas. Como se houvesse mais de um tipo de humano!

Que possam ouvir Nina Simone em silêncio, estando só para ela. Que se permitam ao impacto. Que ela chacoalhe a alma de vocês e liberte. O que é nosso jamais poderá ser tirado de fato.

Arnaldo V. Carvalho, 20 de novembro de 2019.

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Posfacio (ou agradecimentos às lembranças)

Este texto foi feito sob a permissão interna de uma chuva de lembranças distantes do meu passado. Apenas algumas relatada no escrito. Mas não posso deixar de agradecer por outras que me acompanharam no meu processo de escrita. Agradeço ao escotismo, com sua diversidade econômica e étnica presente no grupo no qual fiz parte, que me deu muitos amigos pobres e pretos (não lembro de um único amigo escoteiro preto que não fosse pobre). Minha amizade por eles me fez subir os morros e comunidades da cidade de Niterói, onde cresci. Salvou-me a acolhida negra dos amigos do hospital universitário onde minha mãe trabalhava. Pobres de grana, riquíssimos em amor, alegria, vida. Nadia, Cristina, Maurício, Antonio Carlos. O carinho do preto para com o molequinho branco não será esquecido. Obrigado amados amigos, onde quer que estejam. Acho que foi nessa época em que minha mãe aos poucos começou a me salvar do Apartheid que ainda acomete alguns conhecidos da infância branca por mim vivida.

Refutando a Filó

REFUTANDO A FILÓ

(Arnaldo V. Carvalho)

Corre nos meios eletrônicos um texto de frases curtas atribuídas à uma “Dra. Filó”. De fácil sedução, possui diversos pequenos componentes ideologicos, que comprometem os pensamentos gerais com alguma importância. Me chamou atenção que tenha sido repassado a mim por pessoas esclarecidas. Eles não perceberam mesmo. Viram o geral, se identificam com questões que são mesmo fundamentais na criação de filhos (limites, comunicação, verdade, superficialidades, necessidades, etc.) que estão presentes no texto, mas não chegaram a uma análise mais profunda de entrelinhas. É complicado mesmo. Afinal, o texto foi escrito para elas: uma classe média que tem capacidade de oferecer objetos caros aos filhos, como celulares e televisão no quarto, que recebe influências conservadoras das instituições que lhes perpassam, e que hoje trabalha muito, (ainda) tem seus filhos mas encontra imensa dificuldade de dedicação a eles, por uma série de razões que normalmente se combinam e geram muitas angústias.

Com a corrida do dia a dia, a enxurrada de informações que lhes chegam, por vezes caem nesse tipo de armadilha textual… É compreensível. Lê-se as palavras chaves, aprova-se o que se avaliou superficialmente como compatível com os próprios pensamentos, e repassa-se sem muito mais. Aí vem o chato aqui, leitor lento por natureza, crítico semi-permanente, e habituado a caçar apócrifos, mensagens subliminares e tendenciosismos, para frear esse repasse um mínimo. Alguns amigos acham inútil (já circulou, “já era”). Eu sigo matando a baratinha e acreditando que, mesmo tendo pisado em uma só, posso ter evitado muitas que viriam daquela.

O texto é esse aqui (e em seguida suas orações dissecadas por mim):

Extratos da palestra da Dra. Filó, pediatra, em BH.
13/3/2019

"Rio só existe porque tem margem.
A criança só será um adulto completo se tiver limites".

Criança tem que ser monitorada.

Mãe tem que ser chata.

Filho só pode ver aquilo que é próprio para a idade dele.

Filho não pode ver aquilo que está além da sua capacidade de compreensão.

Tome a frente das regras da sua casa.

Criança não dorme com celular no quarto. Recolha. Vigie.

Criança tem que dormir com tranquilidade.

Quarto não tem que ter televisão. Quarto é para dormir.

Não compare a casa do outro com a sua.

Na sua casa você tem que cuidar da integridade mental dos seus filhos.

Criança não fica trancada no quarto jogando.

Filho tem que 'socializar', tem que ver, estar com pessoas. Corpo a corpo. Olho no olho.

Criança que é rejeitada por outros tem uma tendência a buscar redes sociais. Cuidado. Isso pode causar dependência.

Precisamos ter a coragem de olhar para a vida dos nossos filhos.
As coisas acontecem debaixo dos nossos olhos. 
Criança é esperta, mas temos que ser mais ainda. Pai e mãe têm que estar perto.

Criança não tem que ter senha.

Essa tal de privacidade é só quando eles saem de casa, só quando pagam as próprias contas.

O celular do filho não pode ser igual ao do pai. 
Tem que haver hierarquia.

Cada mãe conhece o filho que tem. Mãe, no fundo, sabe o que está acontecendo com o filho. Não ignore suas sensações como mãe. 
Elas são verdadeiras. 
A mãe não erra o diagnóstico. Confie nos seus sentimentos de mãe.

A missão como pais é muito maior do que podemos imaginar. 
E não é uma missão fácil.

Mais do que dar coisas, se dêem a seus filhos.

Questione seus filhos. Pergunte! Vigie! Investigue!

Existem muitos e muitos distúrbios psiquiátricos na infância.

O segredo da prevenção é família e amor.

Criança tem que ser amada.

Filho vai tentar se impor. Mas regras devem existir. 
Tem que haver respeito. 
Tem que haver hierarquia.

Filho tem que desejar! 
Tem que querer ganhar alguma coisa! 
Tem que esperar ansiosamente pelo presente.

As coisas não são descartáveis.

Coloque na vida do seu filho que somos criadores, que vamos criá-los e que temos sonhos para eles.

Que a vida tem que ter sentido, além do dinheiro, do poder e de todas as possibilidades.

Que a vida os desafiará, mas a vida não encerra. 
Cuidado!

O que os filhos trazem para o mundo é o que plantamos neles.

Estimule-os a serem verdadeiros. A verdade abre caminhos.

Converse. Incansavelmente.

Temos que nutrir a confiança.

Olhe para os seus filhos e entenda o que eles precisam."

Mande para todos seus contatos... Formação das crianças brasileiras.

Não sei se a Dra. Filó sequer existe. Mas aqui vai uma radiografia comentada do texto dela, linha por linha, e depois no encadeamento ideológico geral. Que seja útil, e que possamos refletir sobre o texto com o tempo. (Arnaldo).

_”Rio só existe porque tem margem. A criança só será um adulto completo se tiver limites”._

Eu acho que todo mundo concorda com isso. Nas entrelinhas, no entanto, vou provocar a “Dra. Filó”. Quem dá limite ao Rio é a natureza, quando é o ser humano que dá, vira canal, em geral de esgoto. Quanto a isso preciso explicar uma coisa para vocês, chamada “elemento frustrador”. Faz MUITA diferença QUEM frustra uma criança. E frustração é outro nome para o que dá contorno e limite, no começo. Para de frustrar depois que a margem está definida, porque a energia (pensamentos, sentimentos, ações) encontra outro caminho para fluir. O elemento frustrador não deve ser apenas uma pessoa o tempo todo. Não deve ser o tempo todo uma voz humana. A frustração tem de vir também daquilo que não tem cara nem boca nem braços. Tem de vir do cair no chão porque tentou andar no meio fio, do susto que tomou ao querer desafiar o mar, da coisa errada que resolveu botar na boca e doeu. O limite também tem que vir das experiências de viver e se frustrar, e receber em seguida orientação, cuidados, etc. As crianças não podem mais viver isso, e talvez para muitas o que salve é a bronquinha que tomam de um eventual irmãozinho canino. Da importância dos limites e do equilíbrio entre o sim e o não ninguém tem dúvida. Mas é preciso compreender como estão sendo vividas tais experiências nos dias de hoje. Outra coisa: dê um pito na mãe e ou no pai sobre isso, mas também ofereça soluções concretas e viáveis a eles. Primeiro porque muitos foram crianças já criados com muitas ausências de contato com os pais, o que implica também nessa falta de limites. Então eles nem tem uma referência sobre por onde começar. Segundo porque é preciso resolver a necessidade (mental, material, etc) dos dois trabalharem o dia inteiro o tempo todo, senão esse discurso Dona Filó, é só um elemento a mais para toda a culpa que as mães e pais de hoje já carregam. O que só prejudica ainda mais essas relações. “Dê seu jeito” é jogar na piscina para ver se nadam… Alguns pais até conseguirão, outros ficarão ainda mais frustrados, e podem ter certeza, transmitirão isso aos filhos, que não vão mesmo querer saber de ter os seus (uma escolha que não teria problema, caso não fosse por esse motivo).

_Criança tem que ser monitorada._

Me pergunto como um cidadão do século XIX se sentiria ao ler os dizeres “sorria, você está sendo filmado”, ou caso a ele fosse apresentado um concurso onde as pessoas que não se conhecem morariam por um tempo numa casa no centro da cidade toda feita de paredes de vidro, de modo que todos pudessem vê-los. Me pergunto como se sentiria uma mãe indígena a ver o parto de uma irmã sendo exibido na tela de um cinema no hospital, com direito a zoom e close na perereca? E como a parturiente se sentiria ao saber dessa exposição? São tempos e realidades onde imagino questionarem: que tipo de gente seria essa que se permite a esse nível de monitoramento?

Criança tem que ser monitorada sim, mas não o tempo todo. Não é honesto com ela nem com os pais. É paranoico. Criança tem que ter certeza de que as vezes fica sozinha e pode ficar sozinha. Pode dormir sozinha. Pode mexer nas genitais. Pode fazer uma arte também que as vezes provocará irritações sim. E as vezes o contrário. Pode também, nesses momentos, aprender até a concertar o que fez. E pode criar surpresas verdadeiras para os pais, que só se surpreenderão se permitirem. Ter momentos de privacidade na infância é o cultivar de um sentido que mais tarde se revela em identidade própria, em relação de confiança mútua para com quem delas cuida.

Legitimar esse pensamento sem critérios de bom senso é se aproximar de uma ideologia autoritária e nociva.

_Mãe tem que ser chata_.

Mãe não tem que ser chata. Primeiro porque é sacanagem com a mãe, atribuir a tal chatice só à mãe e eximir o pai de sua co-participação na educação (eu entendi Dra. Filó, você quer dizer: não pode ter medo de dizer não e de dar limite – mas mandou mal, sabe). A frase também evidencia a desconsideração que a família mononuclear do ponto de vista da criação de filhos, não é um modelo sábio. Crianças precisam de crianças e o revezamento de mais adultos facilita muita coisa o processo. Então a frase também reforça e legitima a regra de uma criação solitária ou semi-solitária. Eu torço que a gente consiga avançar social e relacionalmente para um outro patamar, em que haja maior alinhamento parental, e se possam viver regimes de criação mais coletivos, com creches parentais parceirísimas das escolas. Melhor: tudo uma coisa só, e com regime de vizinhança física presente. Algumas ecovilas estão vivendo isso, e a gente precisa aqui na cidade grande saber que dá certo, e sim podemos tentar isso aqui. E terceiro, uma coisa é o ato chato, outra é a pessoa chata. Pode ser chato frustrar e ser frustrado. Mas isso não resume ou conclui o que é ser mãe. Ser mãe, ser pai, ser responsável por criança(s) pode ser MUITO LEGAL PARA TODOS OS LADOS! A frase desencentiva qualquer jovem não mãe a ser mãe. Ninguém quer ser chato, ou visto como chato, embora seja possível peitar certas coisas chatas de fazer de vez em quando.

_Filho só pode ver aquilo que é próprio para a idade dele._

Qual é a idade de ver o que? O corpo do vovô no caixão? A mamãe chorando porque brigou com o papai? O mendigo nu a apontar o falo para as pessoas na rua (e ao expor seu calamitoso estado denunciar o escândalo que é a própria sociedade)? O batalhão do BOPE com seus fuzis para fora da janela do carro indo para uma operação na favela ao lado de casa? O prefeito, o governador ou o presidente falando? Os tios discutindo os rumos que a vida coletiva está tomando?

Ah, você deve estar falando de TV e Internet né… Entendi. Então devemos confiar no que os censores do governo determinam? A criança pode ver Tom&Jerry ou Pica-pau masocas, ou a propaganda da Barbie “você pode ser tudo o que quiser?”. Dificilmente a criança não pode ver aquilo que já não seria impróprio para todos os adultos. Ninguém deveria assistir diariamente assassinatos cruéis e crimes sem fim, relações conflituosíssimas de todos os tipos.

Nós temos que discutir melhor o que é ou não para ser visto, baseado numa percepção real de impactos subjetivos e objetivos em curto e longo prazo. Até porque talvez isso varie muito de uma criança para outra.

Temos que discutir essas visibilidades do mundo e também as invisibilidades.


_Filho não pode ver aquilo que está além da sua capacidade de compreensão._

Errou de novo, Dra. Filó. Então filho não pode ver uma obra de arte porque não a entende? Ou você quer com essas frases dúbias dizer que não pode ver sexo? Ou não pode ver política porque não tem condição de opinar? Será que você está tentando cooptar as pessoas para que elas apoiem o “escola sem partido” deixem de ouvir os professores para terem a mente menos pronta para resistir à doutrinação autoritária disfarçada de liberal?

Você não é inocente Não pode estar dizendo com essa frase que não criança não pode ver cubo mágico sendo feito, não pode ver uma mesa de resolução de problemas, não pode ser levado ao observatório para ver as estrelas… Por que não compreende? Não, você não está falando disso.

Aliás, como se compreende aquilo que não se compreende sem que se veja? O que você acha que a criança faz com o que não compreende? Fica um registro. E não é registro morto não: é registro em processo. Está lá na pessoa e subsidiará entendimentos mais complexos posteriormente. Os registros não compreendidos são Koans mentais, quebra-cabeças incompletos aguardando as demais peças. É assim que se encontram respostas, se tomam atitudes e se formulam novas perguntas. A senhora não deve ter estudado sobre registros e sobre memórias né Doutora?

Talvez esteja preocupada com registros negativos, traumas e complexos… Deixa eu dizer como um trauma se estabelece: não tem só a ver com o que aconteceu, não. Tem a ver com o quanto a psique é capaz de expressar e elaborar. Sabe qual é o jeito mais seguro e infelizmente o mais raro para isso acontecer? Com uma qualidade de vínculo com alguém tal que a pessoa sinta no seu mais íntimo que pode diante dela expressar o que houve, comunicar o que houve, elaborar o que houve. Era para todo mundo ter essa pessoa até ficar um pouco mais velha e a pessoa poder partir. Mas é raro porque os pais assimilaram o projeto de terem uma vida própria – o que é mesmo fundamental – e como não tem opção tiram do tempo com filhos o tempo para fazerem isso. O resultado é escassez e incompetência relacional. Sou melhor não. Faço isso também. Mas compreendo que a gente tem que desconstruir que isso que a sociedade oferece é normal, é natural ou é saudável. Não é nada disso. O começo é estudar, ouvir os estudos, colocar em discussão, exigir que haja tempo para haver essa pauta nas falas e mesmo nas leis.

_Tome a frente das regras da sua casa._

No documentário sobre o Edifício Master, o então síndico afirma que na resolução de conflitos, tenta Piaget, e quando não dá certo ele vai de Pinochet. Aquilo que é brincadeira é muito sério porque fala da desistência da democracia (“o ideal”) para a adoção autoritária como saída. De novo, eu também ajo assim muitas vezes. Especialmente quando represento “a ordem”. Especialmente, a ordem do relógio: “olha o atraso”, “já está tempo demais”, etc. Mas quer saber? Somos melhores que isso. Merecemos ter mais tempo para não precisarmos de tantas regras. E mais do que isso, precisamos de mais tempo para oferecermos mais escuta e participação dos pequenos. Se cobramos tanto dos governos, se desejamos democracia, precisamos começar. Então a cobrança aqui é para que possamos ter um reconhecimento justo do que damos para o mundo, para haver tempo disso se estabelecer. Relações mais horizontais, sabe? 100%? Não, não dá. Não dá para esquecer que nós temos décadas e as crianças menos de uma. Faz diferença. Mas não dá para acreditar que elas não tenham direito a voz e a voto. Em Summerhill, a escola inglesa que briga com o mundo por não aceitar se submeter aos ditames do que se considera “a boa escola”, todos os alunos, do pequenote ao adolescente tem semanalmente uma reunião. Todos sem exceção tem um voto cada. Com o mesmo peso do voto de cada um dos professores, e com o mesmo peso do voto dos funcionários todos. Todos tem um voto. O resultado é surpreendente, e não se pode mais dizer que é uma situação “experimental”: afinal de contas, a escola já tem oitenta anos de vida funcionando assim! (empresto livros sobre, para quem quiser).

_Criança não dorme com celular no quarto. Recolha. Vigie._

Você está supondo que criança tem celular. Criança nem deveria ter celular. Aliás, as sociedades de pediatria do mundo todo alertam dos perigos do uso de telas, especialmente na primeira infância. O uso de eletrônicos deve ser visto com muita cautela. Mas, como falei do “que não pode ser visto por eles não deveria ser visto por nós”, guardadas as devidas proporções, também aqui se aplica a lógica: todos nós deveríamos usar as telas eletrônicas por um número limitado de horas/dia. Mas tente nos dias de hoje? Criou-se um mecanismo onde estamos dependentes, por mil motivos. Mais um problema para enfrentarmos e cobrarmos. Queremos segurança nas ruas para não ficarmos ligando e vendo se nossos parentes já chegaram em casa. Queremos que o banco pague por seus computadores e funcionários para que efetuem os serviços que paguei para ter. Queremos ter viabilidade de ir e vir para não ser tão atrativo jogar pelo computador porque o trânsito faz os amigos do bairro vizinho parecerem distantes. Queremos, aliás, ter praças e muitos outros equipamentos de lazer e encontro. A solução que estão nos dando – o mundo virtual – está sendo mais nociva do que se pensa.

_Criança tem que dormir com tranquilidade._

Todos nós né?

_Quarto não tem que ter televisão. Quarto é para dormir._

Ah, entendi. Uma frase curta correta acima para se vincular a essa outra aqui abaixo. Eu sou contra também, sabe Dra.? Mas não tenho dúvidas de que a TV é ligada quando não há algo mais atrativo. E aí a gente volta para a necessidade de espaço, ar livre e segurança para tudo isso… Tendo essas coisas, a TV fica beemmm menos perigosa, sabe? Mas tem razão. Nesse esquema de vida que a gente leva, melhor não ter.

_Não compare a casa do outro com a sua._

Agora já fiquei implicante. Você solta uma frasezinha para comprar seu leitor e depois vem o xarope ideológico por cima. 😦

_Na sua casa você tem que cuidar da integridade mental dos seus filhos._

E fora de casa, não? Esse “você” é a mãe lá de cima né? Meu Deus, de novo o peso só para cima dela [a mãe].

_Criança não fica trancada no quarto jogando._

Some todas as coisas que já escrevi antes e: 1) entenda porque isso acontece; 2) por favor sugira algo viável, concreto, real que solucione o problema com relação a um filho único, de uma família mononuclear, onde ambos trabalham “ao infinito e além”. Senão, de novo, é culpa culpa culpa que não resolve, não esclarece e é justa até a página 2.

_Filho tem que ‘socializar’, tem que ver, estar com pessoas. Corpo a corpo. Olho no olho._

Isso é fácil e natural. Parece que virou um grande esforço. E o pior doutora Filó, depois de um tempo, se os pais conseguirem retomar uma rotina de contato com o mundo, terão que enfrentar um período “de abstinência” algumas vezes. Muitas crianças criaram vínculos de segurança e atenção para com o eletrônico e passam a apresentar dificuldades na relação física direta, preferindo ir para a TV ou Game, sendo capazes inclusive de deixarem seus amigos que lhe foram visitar no quarto ou no quintal e indo buscar o eletrônico.

_Criança que é rejeitada por outros tem uma tendência a buscar redes sociais. Cuidado. Isso pode causar dependência._

A frase precisa é: quem não tem atenção vai buscar. E uma fonte certa de “atenção” (ainda que pseudoatenção) é muito atraente. Simples assim. As redes são ilegais para as crianças, é bom que se diga.

_Precisamos ter a coragem de olhar para a vida dos nossos filhos. As coisas acontecem debaixo dos nossos olhos. Criança é esperta, mas temos que ser mais ainda. Pai e mãe têm que estar perto._

Olhar não, participar, ser mais time! Em toda relação existem três entes: eu, você e nós. Cada um na família precisa buscar e dar espaço para si e para o nós. Sem esse equilíbrio as coisas não funcionam. É preciso ter um espaço do nós mais forte nas famílias. Como os adultos estão com os Eus sufocados (e por vezes deficitários porque não tiveram o devido espaço para se fortalecerem nas fases certas), acabam usando o pouco tempo para suas vidas e não sobra quase nada para o “nós” que envolve os filhos. Como quebrar o círculo vicioso (pais que não são plenos por conta da própria educação que receberam cheia de deficiências de tempo, referências, afeto, estabilidades etc.)? Conseguir isso nesse mundo louco é que é a senha. Sem eela, o texto fica no apoio da vigia neurótica, que não resolve de verdade o verdadeiro buraco, bem mais embaixo.

_Criança não tem que ter senha._

Criança não tem que ter eletrônico. Lembra, estamos falando de criança. Adolescente é outro papo, e uma discussão ainda mais complexa.

_Essa tal de privacidade é só quando eles saem de casa, só quando pagam as próprias contas._

Peraí, estamos falando de criança ou de adolescente? A doutora sabe o papel do respeito à privacidade na formação identitária na adolescência? Acho que não. Não é a falta de privacidade que resolve o problema. É a falta de cumplicidade. Sem ela, você pode vigiar a vontade. O adolescente vai dar o jeito dele de fazer sem você saber. E se você for muito neurótico e vigiar DE VERDADE 24H por dia tudo o que faz, pode ter certeza, criará alguém com MUITOS problemas. Mas não vou discutir isso hoje, porque o texto começa direcionado para crianças e de repente descamba para assuntos que são território da adolescência.

_O celular do filho não pode ser igual ao do pai. Tem que haver hierarquia._

A responsabilidade da criação é da mãe. Aí na hora da posse de eletrônico a doutora Filó se refere ao pai… Dá a sensação de que é um homem quem escreve, ou no mínimo, fica claro que se trata de um texto machista.

É repetitivo eu seu, mas vamos lá: criança não tem que ter celular. Hierarquia baseada em coisas não é sinônimo de aprendizagem de respeito mútuo, menos ainda de carinho mútuo. A família precisa pensar junto o *consumo* das coisas. Um consumo saudável é baseado em *necessidades* individuais e coletivas reais, e não na propaganda ou na “hierarquia das coisas”. Por falar nisso, já assistiu ao pequeno vídeo “A História das Coisas”? Deveria.

_Cada mãe conhece o filho que tem. Mãe, no fundo, sabe o que está acontecendo com o filho. Não ignore suas sensações como mãe. Elas são verdadeiras. A mãe não erra o diagnóstico. Confie nos seus sentimentos de mãe._

Que interessante, saiu do celular, voltou a falar com a mãe. “Suspeitei desde o princípio”. Agora é enaltecer a mãe e seus sentidos tentando seduzi-la.

Me desculpem mães mas…. Sim, mães podem errar no diagnóstico, erram muitas vezes. E isso não é nenhum crime! A criação solitária pressupõe erros até certo ponto. Doutora Filó a senhora não tem o direito de fazer pesar a responsabilidade materna desse jeito, e deprimir as mães que te leem e varrendo a memória lembram que já erraram. Não funciona assim. Mais gente na criação, mais gente para pensar junto, mais suporte e atenção, menor chance de errar. Isso só para começar.

_A missão como pais é muito maior do que podemos imaginar. E não é uma missão fácil._

É, do jeito que a sociedade está é mais complicado ainda. E textos como o seu Filó não ajudam em nada.

_Mais do que dar coisas, se dêem a seus filhos._

Ah, que bom, esquecemos da hierarquia do celular. Convém. Um alerta apenas para se você comprou o discurso da Dra. Filó: pense bem no que é se dar para seus filhos. Pense na importância de haver equilíbrio eu, você e nós, para o nós e o ele (filho) fluírem. Pense no que é se dar. Não adianta voltar para casa para estar lá no computador de costas para o filho. Não adianta dar seu tempo e não ter energia. Não adianta também se conformar com o que estou escrevendo e não buscar o equilíbrio. Equilíbrio é uma busca. Vai erros e acertos na trajetória dessa infância. Com dedicação, sabedoria e a sorte de bons suportes, a tendência é de dar muito mais certo do que errado.

_Questione seus filhos. Pergunte! Vigie! Investigue!_

Por que será que lembrei de “Vigiar e Punir” de Michel Foucault? Acho que o que escrevi acima já explica um monte de coisas. Mas se me pedirem posso falar bastante mais sobre qualidade de vínculo, parceria e a verdade aberta que se estabelece naturalmente quando isso rola.

_Existem muitos e muitos distúrbios psiquiátricos na infância._

Me diga você, leitor@, o que essa frase está fazendo aqui?

Na leitura rápida da Internet, ela simplesmente entra como elemento amedrontador, colocando pressão sobre sua doutrina. É demais isso. Não tem nada a ver com o texto nem antes nem depois da frase. Bizarro!

_O segredo da prevenção é família e amor._

Seara complicadíssima, essa. Toca o terror e chantagia a emoção d@ leitor@, coagindo para que a pessoa se submeta a questão da família e do amor. O que é família? O que é amor? É o amor familiar a la Damares? Isso previne todos os problemas psiquiátricos? A escrita genérica é indutiva mesmo. Para mim perversa até.

_Criança tem que ser amada. Filho vai tentar se impor. Mas regras devem existir. _

_Tem que haver respeito._

_Tem que haver hierarquia._

Filho tenta se impor quando observa e ou vivencia comportamentos de imposição, e ou não se sente parte da estrutura. A “família alfa” é assim: os jovens desafiam os mais velhos até que ganham… Ou vão embora (quando não são destruídos pelo alfa que lhes deu vida!).

_Filho tem que desejar!_

_Tem que querer ganhar alguma coisa!_

_Tem que esperar ansiosamente pelo presente._

É. Assim pode doer bastante quando você tira, e isso estabelece a relação de poder pelas coisas entre genitor@s e filhos. Que grave isso. Aí está a raiz da meritocracia, essa coisa linda que cria a ideologia do empreendedorismo como fosse saudável se colocar pessoas tão diferentes em permanentes disputas tão desiguais. Os meritocratas estão no poder hoje, se tocaram? Junte essa frase com a da família e temos a essência do governo Bolsonaro. Podes crer. “Que beleza”

_As coisas não são descartáveis._

Dra Filó, misturando chaves de novo? O filho tem que valorizar o que ganha e o que tem. Certo. Tem que cuidar. Certo. É verdade, os pais estão loucos com o desvalor que as crianças muitas vezes dão às coisas. Em especial, as coisas caras. E essa chave seduz de novo. Quanto a isso, já comentei, é preciso repensar consumo. Totalmente. Mas sabe, noto que essa frase intermedia a ideia anterior com a próxima. E isso não é bom.

_Coloque na vida do seu filho que somos criadores, que vamos criá-los e que temos sonhos para eles._

Egotrip divinal pra cima da gente não né. “somos criadores” soou mal, tipo falar pro filho: “reconheça criatura que sou seu Deus”. Ele criou o homem à sua imagem e semelhança né. É. Tem certeza que você não é parente da Damares? Não é baixo o número de adultos que recebo em meu consultório trazendo em sua história os conflitos de quem teve uma “vida sonhada pelos pais”. É melhor ajuda-los a se tornarem criadores de suas próprias vidas. Leia mais Dra. Filó. Que tal começar pela Marcia Nader e o texto “Mãe (Desnecessária)”? https://www.viva50.com.br/a-mae-desnecessaria-por-marcia-neder/ É pequeno mas bem útil.

_Que a vida tem que ter sentido, além do dinheiro, do poder e de todas as possibilidades._

Você fala sobre hierarquia de consumo, de meritocracia e alfismo. E agora existe uma vida além disso? Agora, desmembre a sentença escrita por você mesma e me diga: o que é uma vida com sentido “além de todas as possibilidades”? A senhora pode escrever um “tratado de retórica para leituras apressadas de whatssapp”.

_Que a vida os desafiará, mas a vida não encerra. Cuidado!_

De novo! “A vida desafiará mas não encerra”. Devo imaginar que a vida não encerra os desafios? A vida não se encerra? É infinita e além? Explique melhor isso Dra, porque seus aforismos estão por fora mesmo.

_O que os filhos trazem para o mundo é o que plantamos neles._

Mais um indício de damarismo aqui. Ah Caetano, que saudade do seu dadaísmo. Agora é isso o que temos: damarismo, com suas afirmações do século XVIII. Tipos as que Fröebel (“pai” do jardim de infância, um fofo da virada do XVIII pro XIX, você precisa conhecer). As crianças NÃO SÃO TÁBULA RASA. E quanto às influências do meio, por favor, um pingo de humildade vale a pena! O que é “semeado” é o coletivo de experiências que cada um, o que inclui o contato com mãe, pai, outros parentes, os adultos e crianças da escola, etc., etc., etc. Então claro que vale reforçar: quanto mais presença de qualidade melhor gente! Mas por favor doutora, não afirme isso para as mães e pais como se elas não soubessem. Não desvalorize a inteligência delas. Ao invés disso, o meu conselho para você é puxar o assunto de preferência oferecendo pequenas ideias acerca de prioridades da mente, gerenciamento de tempo, e dicas de como driblar o dia a dia para encontrar esses momentos tão importantes.

_Estimule-os a serem verdadeiros. A verdade abre caminhos._

A senhora é mesmo sedutora. Quem não se comove? Acrescento: a melhor forma de ter fihos verdadeiros é sendo. Mas cuidado com as punições graves, cuidado com um código simples de reprovação que os pequeninos aprendem muito rápido: se mentir passa e a verdade é reprovação, como a mente infantil – amoral – se posiciona? No final das contas, é o nível de intimidade, confidência, confiança que pais e filhos vivenciam que gera um compromisso natural e saudável com a verdade.

_Converse. Incansavelmente. Temos que nutrir a confiança._

É verdade. A senhora acertou aqui. Lembrando que conversa não é monólogo, é diálogo. É preciso não só dizer, é preciso escutar. E sim, é preciso repetir as coisas um milhão de vezes. É muita informação, código, regra, estrutura para assimilar e gerenciar ao mesmo tempo. Há uma pequena competição entre essas coisas todas que estão sendo vividas e aprendidas no dia a dia de uma criança. É preciso repetir e dizer de jeitos diferentes, é preciso explorar os assuntos de muitas formas, inclusive pelo aspecto lúdico quando possível. Quanto maior conexão o aprendente tem com o que está aprendendo, melhor.

_Olhe para os seus filhos e entenda o que eles precisam.”_

Por aí. Melhor que olhar, que é mais objectual, é ouvir e sentir, é prestar atenção. Prestar atenção nas necessidades da criança – inclusive a de limites é vital. Mas repara doutora, que você deixa por último o que de certo modo contradiz muito do que você escreveu no texto todo. E isso é retórica vil. Você compra @s leitor@s com frases no início e no fim, além de pequenos reforços nos subtextos ao longo que o colocam do seu lado, para vender-lhes no pacote um conjunto de valores conservadores que se fossem bons teriam feito o mundo de hoje ser lindo, as famílias serem perfeitas, as pessoas não serem tão doentes, perversas e infelizes. Por favor, não misture o que realmente é necessário para uma reforma íntima necessária aos indivíduos, suas famílias e a criação de seus filhos, com esse discurso cheio de afirmações imperativas, que gera culpa, não aponta soluções reais, não traz a discussão para uma situação de realidade. Seu texto entra em contato com premissas que habitam as pessoas e ativa o dispositivo associativo por pura manipulação. A senhora deveria ser desmascarada. Deviam dizer quem é exatamente ou quem são exatamente a(s) voz(es) por trás da “Doutora Filó”. Mesmo que tenha sido escrito por uma pessoa só, mesmo que essa Filó exista e tenha escrito de punho ou digitalmente essa mensagem que circula de forma viral por aí, não me admiraria compreender que seu texto fala por muitos. O que é um desalento.

_*Mande para todos seus contatos… Formação das crianças brasileiras.*_

Atualmente eu tenho morrido de medo do uso de “Brasil”, e “brasileiro”. Me soa de uma ideologia conservadora e hostil – a mesma que elegeu nosso prefeito, governador e presidente. Exatamente como a desse texto.

O todo do texto é construído com objetivos claros e lembra bastante o sistema de inteligência que tornou Bolsonaro e vencedor na corrida presidencial. Atacando pontos que hoje são lacunas educacionais difíceis de resolver pelos pais de hoje em dia, com os recursos que dispõem (dinheiro, tempo, orientação, suportes humanos, etc., etc.), apela para valores rasos, para o misto entre desqualificação/culpa e bajulação para introduzir ou reforçar uma mentalidade cheia de prerrogativas estudadamente erradas, cujos efeitos práticos não são bons. Como terapeuta, pedagogo e pai, recomendo não repassarem.

* Arnaldo V. Carvalho

PS: Logo após a publicação deste escrito, uma pessoa próxima me falou que uma notória Dra. Filó existe. Não soube me dizer, no entanto, se as palavras do texto que refuto são mesmo dela, ou se é uma transcrição filtrada, etc. A “Dra. Filó” com quem dialogo e cujo texto critíco é o ente por trás do texto, seja ele quem for, que fique claro.