Poemas do Tio Manel: Estrada Larga e Em mim foi que anoiteceu

ESTRADA LARGA

O mundo não acaba na paisagem reflectida

No vidro da minha janela. Nem a vida

Morreu toda na noite que choveu sobre os meus olhos.

Os relâmpagos fugazes duma nostalgia antiga,

Pintando a memória dos meus sentidos,

Fazem vibrar-me como se a hora fosse de lembranças

Ou de mágicos desejos incontidos…

Mole e lento, penetrante e agudo,

O nevoeiro é um chicote de mil pontas indistintas,

Mãos de polvo aprisionando tudo,

Tudo esmagando numa confusão de tintas.

Guardo para mim cada coisa encoberta.

Desejá-las é o mesmo que possuí-las.

Possuí-las é ainda tê-las tido,

Embora a esperança do regresso seja incerta.

Quem guia as naus é o leme. E o leme é a vida

Continuada para além da noite que choveu sobre os meus olhos

E para além do nevoeiro mole e lento, penetrante e agudo,

Onde se afoga a paisagem reflectida

No vidro embaciado da janela…

*   *   *

EM MIM FOI QUE ANOITECEU

Apedrejaram o sol.

Ficou-me a alma dorida

Como se cada pedrada

A mim fosse dirigida.

Roubaram todas as sombras

Aos fantasmas do poente.

Penduraram-nas das árvores

E só eu fiquei doente.

Ai a dor de não saber

Porque isto aconteceu:

Apedrejaram o sol

E em mim foi que anoiteceu!

(Escritos pelo me querido Tio Manel, em 1951, então com 22 anos.)

Linda foto deste Tio Poeta, amante da vida, da lucidez  e da natureza.
Saudades do tio que em única visita, muitas fotos e sobretudo pelo contato com tudo aquilo que sua alma frutificou na terra, me fez ama-lo para além do sangue!

Vai um chugatinho aí? Reflexão e crítica sobre e-mail contra os coreanos comerem cães e gatos

Vai um “chugatinho” aí?

Uma reflexão e uma crítica sobre o texto que circula há tempos pela internet, sobre cães e gatos que são comida para alguns povos (vejam textos em links abaixo)

Só quem é vegetariano absoluto poderia, em princípio, falar mal da matança de cães e gatos para fins de alimentação. Porque quem não é faz exatamente o mesmo com coelhos, porcos, cordeiros, frangos e todo o tipo de aves, bois, bodes, peixes, crustáceos, macacos, lagartos, e até jegues!

Li só até a parte do cão, mas não imagino ser diferente com os gatos. Não encontrei diferença nos métodos de criação e abate de cães em relação aos métodos utilizados com outras espécies. Marteladas, eletrochoques, tudo isso eu já vi pessoalmente em criações de frango e porco… O fato é: Para (um) comer, (outro) tem que morrer. E quando é muito bicho pra morrer de uma vez, tem que ser prático. A morte dos animais do e-mail até que é rápida comparada a outros métodos. Podia ser mais bem bolada, mas até que é rápida.

Se você é vegetariano, provavelmente desejará o fim de todas as mortes de animais, independente da espécie. Se você não é vegetariano, poderá ao menos se preocupar com a forma com que os animais morrem.

Em ambos os casos, vegetarianos e não vegetarianos devem pensar que a qualidade de vida desses animais é importante. Ficamos o tempo todo fixados no fenômeno da morte, e esquecemos que esses animais são muitas vezes criados sob condições extremamente grotescas. Matérias como essa fazem grande confusão para mexer com os sentimentos de todos. Vou explicar: boa parte do que se descreve é a situação do cão após a morte dele. Gente, após a morte não interessa mais o que eles fazem com o corpo do bicho! A gente tem que rever o que acontece do nascimento à morte do animal, não depois que ele já morreu.

A descrição só serve para gerar repulsa. A repulsa acontece porque nos identificamos com cães e gatos. Questão cultural. Para nós, é anormal matar um gato ou um cão, mas é normal ir ao açougue e pedir um quilo de carne bovina. Na Índia, matar um boi é visto por muitos com a mesma repulsa que nós temos quando matamos cães e gatos.

Enfim: Foquem a mente no animal vivo. Utilizem a informação para refletir sobre se os animais que vivem na casa de vocês são bem tratados, se você sai para passear o suficiente, se ele tem contato com outros animais, se você castra ele ou não, se ele tem espaço o suficiente. Aproveitem a matéria e reflitam sobre o confinamento dos animais nas fazendas, sobre a vida inteira de opressão em que eles vivem. Aproveitem a matéria e pensem nas condições de vida dos animais de laboratório que são submetidos a todo o tipo de teste em nome da ciência dos humanos. Aproveitem e pensem nos animais enormes que estão em lugares minúsculos lá no zoológico divertindo as crianças. Aproveitem e pensem na vida dos humanos que estão expremidos nos morros cariocas e nas singapuras paulistanas, nas pessoas que comem lixo. Não me choca bife de cachorro, me choca ver criança de um ano peladinha no meio da rua com a mãe dando banho de garrafa de refrigerante (como vi hoje mesmo).

Amigos, quem escreve aqui e pode estar despertando sentimentos negativos em alguns é semi-vegetariano há mais de 10 anos (restrinjo meu consumo de carne a peixes, sem regularidade). Mas acho que é imprescindível para qualquer um que faça uma opção de vida, seja na alimentação, seja em qualquer outra área, ser consciente. Não seguir as coisas como doutrina, não estar com preconceitos por trás de suas escolhas. Há uma frase entre os vegetarianos que é “os animais são meus amigos, e eu não como meus amigos”. Ora, os vegetais também são meus amigos, e eu como os vegetais!

Existem inúmeras questões pelas quais é preferível ou mesmo vantajoso ser vegetariano, e podemos nos remeter a elas em ocasiões oportunas. Mas pense que tudo o que você puser na boca está morrendo para uma vida e nascendo para outra. Exatamente da mesma maneira que suas células mortas todos os dias, da mesma maneira que seu corpo um dia será devorado por milhões e milhões de boquinhas… Somos seres transformadores da natureza, tanto quanto a natureza é transformadora do homem. É preciso reverenciar isso. Sem preconceito.

Um abraço a todos.

Arnaldo
Escrito em março de 2006 para grupo fechado do yahoo e adaptado para o blog, em resposta a e-mail noticiando sobre os hábitos alimentares de outros países como se eles fossem maus ou piores do que os nossos. O e-mail também tentava chocar as pessoas com fotos dos animais engaiolados de forma deplorável – mas o autor se esquece que isso acontece aqui nos mercados municipais, em vários pet shops, no ver-o-peso, em casas de artigos religiosos, entre outros… Assim como minha crítica ao e-mail da matança de golfinhos, aqui fica o pedido para que abram os olhos para com a propagação do xenofobismo, intolerância e preconceito através do fomento ao ódio pelas diferenças culturais, sempre colocadas de modo a atingir onde uma cultura é particularmente rígida.

O texto está disperso:

http://kamilasanatomy.blogspot.com/2009/07/o-tratamento-dado-aos-gatos-na-coreia.html)

http://arcadenoe.sapo.pt/forum/viewtopic.php?p=39051 /

http://www.seucachorro.com/caes-nos-mercados-da-coreia-imagens-fortes/

http://fotolog.terra.com.br/tacc.

http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/wordofmouth/2009/oct/23/korea-dog-meat-food-livestock

http://www.koreananimals.org/index.htm

Nota: O e-mail que circulava na época do meu texto juntava duas matérias que segundo o texto final teria sido tirado do http://www.koreananimals.org/, bem como as muitas fotos dos animais abatidos, estirpados, etc. Fui ao site e encontrei o que parece ser o texto em inglês, mas sem a mesma quantidade de fotos que choca a maioria.