Um tempo para o corpo e o coração – Compreenda o processo terapêutico e o que ele pode fazer por você!

Escrevi o texto abaixo para meus clientes em São Paulo. Mas percebo que pode ser útil a qualquer um que esteja pensando em fazer terapia. Que seja útil. Arnaldo. http://www.arnaldovcarvalho.com

Um tempo para o corpo e o coração
Compreenda o processo terapêutico e o que ele pode fazer por você!

Dar-se um tempo. Observar-se. Redescobrir sua própria força. Aparar arestas. Revisar a base. Torna-la firme. Resolver. Resolver. Resolver.

Quando alguém busca um profissional de saúde, seja para tratar uma dor de cabeça, seja para tratar um coração partido, está buscando tornar-se alguém melhor – nem que seja para que as dores cessem!

Dores no corpo, doenças, emoções, hábitos e atitudes… Cada passo que damos na vida gera conseqüências, e as conseqüências desses passos formam aquilo que somos, em termos de saúde física, mental, emocional. Mas com quem aprendemos nossos passos? Que impressão de mundo tivemos desde os primeiros tempos? Como foi que adquirimos a maneira de caminhar que hoje nos faz estar na exata condição em que estamos, com todas as nossas virtudes, defeitos, prazeres, desprazeres?

Fazer uma terapia é propor ao próprio corpo e mente que se resolva a caminhada. Não é fácil. Haverá dias em que o terapeuta nos chateia. Quase sempre, isso acontece nos dias em que a terapia nos facilita a aproximação com emoções difíceis de serem vividas. Emoções que estariam bem guardadas para que se impeça o sofrimento… Haverá outros em que o corpo se sentirá desorganizado, porque para arrumar as prateleiras de uma estante, as vezes é preciso tirar os livros do lugar.

Porém… Haverá o tempo necessário para se tornar forte e enfrentar aquilo que se escondia dentro de si, caixas de pandora que se não forem abertas, geram das hérnias ao câncer, dos maus sentimentos à uma vida com menos prazer. E pensar que escondemos nossos problemas justamente para evitar o sofrimento e o desprazer!

Quem opta por fazer uma terapia mista, que envolve corpo (não verbo) e mente (verbo), vivencia a possibilidade de atingir estruturas psíquicas que foram constituídas antes mesmo da estruturação verbal, neurolinguística, ao mesmo tempo em que se integra tal fenômeno imediatamente na mente estruturada do hoje.

Essa é a minha proposta para você, e para isso me preparei. Meus estudos em naturopatia, medicinas tradicionais e psicoterapias e terapias corporais diversas aconteceram (e ainda acontecem!) pela noção de que um trabalho mais completo poderá ser realizado se pudermos agir nas diversas facetas humanas, não apenas em uma. O desafio de enfrentar as situações negativas da vida na real origem dos problemas é enorme: poderosas devem ser as ferramentas.

Ainda por isso é que é preciso no mínimo três meses de terapia continuada para que se possam observar os efeitos globais de um tratamento terapêutico. Claro que antes disso muitas dores e dissabores desaparecerão; Porém, tenha a certeza, essa é uma etapa introdutória, básica, inicial do processo terapêutico – o início das obras de uma verdadeira reengenharia do ser.

Estar em processo terapêutico não significa apenas estar presente no momento das sessões. O processo terapêutico é algo que se iniciou quando surgiu, em você, a percepção da necessidade de mudanças e melhoras, e a isto se esboçou uma reação. Dessa feita, o processo terapêutico ocorre 24H por dia; A terapia formal fornecerá ferramentas para que se possa observar o processo e seja possível viver este processo de maneira consciente. Coloca à disposição da cura toda a plasticidade cerebral da qual o ser humano é capaz. As ferramentas que são desde a sessão terapêutica aos exercícios propostos para casa, além de possíveis suplementos, seguem pela semana reforçando as propostas de conscientização, mudança e reequilíbrio efetuadas ao longo da semana.

Finalmente, deixo aqui um pensamento de W. Reich, com o qual concordo e que define como compreendo para que fazemos terapia (sim, eu também me trato, sou gente, quero melhorar-me, e quero sentir plenamente a experiência de estar vivo!):

“Fui acusado de ser um utópico, de querer eliminar o desprazer do mundo e defender apenas o prazer. Contudo, tenho declarado claramente que a educação tradicional torna as pessoas incapazes para o prazer encouraçando-as contra o desprazer. Prazer e alegria de viver são inconcebíveis sem luta, experiências dolorosas e embates desagradáveis  consigo mesmo. A saúde psíquica não se caracteriza pela teoria do nirvana dos iogues e dos budistas, nem pela hedonismo dos epicuristas, nem pela renúncia monástica; caracteriza-se, isso sim, pela alternância entre a luta desprazerosa e a felicidade, o erro e a verdade, o desvio e a correção da rota, a raiva racional e o amor racional; em suma, estar plenamente vivo em todas as situações da vida. A capacidade de suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem se refugiar na rigidez, anda de mãos dadas com a capacidade de aceitar a felicidade e dar amor.”

Wilhelm Reich (1942) em “Function Of The Orgasm – Vol 1 Of The Discovery Of The Orgone”, Ed. Farrar, Straus and Giroux, 1989

Nas entranhas da Vida e Anti-vida

A vida é simples. a anti-vida é complicada.
Somos educados pelas duras liçoes anti-vida.

Vida é prazer, e é simples. É comer, fazer cocô, xixi, beijar (e tudo o mais ligado a carinho), dormir, relaxar, observar, brincar. Simples. É presente. É vida.

O futuro se faz presente também, e também é parte da vida. Aqui (lá!) vida é arrumar-se para uma festa, preparar-se com gosto para uma prova de algo com que se tenha paixão, fazer e assar o bolo preferido de alguém que se goste.

E o passado? Também conta: quando a gente relembra algo gostoso que fez, que comeu, que viveu.

Mas… a gente é anti-vida porque aprendemos a fazer tudo o que seria vida de forma deslocada:

Como não se pode parar para fazer cocô, como não se pode mostrar que se faz cocô, não se pode acessar o prazer no cocô. Além disso o cocô é feio, “sujo”, fedorento… Não se pode admitir que um ser humano tenha como produto final daquilo que absorveu – em todos os sentidos – algo assim!

Como se devem formalidades, fidelidades, pudores, cumprimento de normas, obrigação de “etiquetas” e demais agruras sociais, não se pode acarinhar quem e quando se quer.

Como xixi é perda de tempo, e se acumula até o limite, se faz cistite – o oposto do prazer nos vem.

Como não se pode dormir quando se está cansado, como acessar sonhos é coisa que a exaustão e a repressão não permitem nunca… não há prazer em dormir, e este vira, das duas uma: o sono péssimo onde se acorda de forma arrastada, ou.. evapora: é a insônia chegando. É perda de tempo dormir e fantasia ridícula o sonhar!

Brincar é coisa de criança… Se bem que nem criança brinca mais. Porque tem que ficar 4 horas na aula, e depois tem que ir pro inglês, natação informática… As crianças, exaustas de tanto pensar e tão pouco fantasiar… Não amadurecem para a realidade, tornam-se os eternos esperançosos adultos do futuro-que-nunca-será.

Ah, sim, observar a vida, apreciar um inseto a voar ou uma criança a brincar é coisa de quem não tem o que fazer. Não se pode coisa nenhuma – não se tem prazer.

Comer é permitido, mas comer bem não. O tempo, contado, dá só para engolir a comida. A qualidade de alimento incentivada é aquela que satura o cérebro de sensações de prazer-substituto, e que logo pedem para a gente achar outra coisa para ser feliz? Não achou? É só comer mais um pouco dessas coisas! Prazer verdadeiro, daquele que permanece na gente, é raro, vai ficando para trás, sem que se perceba…

Relaxar é coisa de gente relaxada, Observar e contemplar é coisa de religião, de lunático ou dos excêntricos – gente que não tem valor, porque não tem os pés no chão. O resultado é ser tenso contra ser relaxado, é ser cético-científico-negativóide contra ser “viajandão”.

Em geral, o ser humano prefere ser aprovado por ser doente do que ser condenado por ser são.

A anti-vida destroi o valor do futuro quando aprisiona a gente num tempo que não foi, para que se sofra das deformidades do agora. Ela infecta o passado, e assim o faz emergir para também roubar o presente, e não integrar-se a ele de forma saudável.

E é assim, que a anti-vida está em tudo, nos envolve, nos estraga.

As entranhas, a intimidade consigo mesmo e os sentidos deformaram-se em prol de uma adequação repressora.

Mas existe Vida. Vida é presente. E toda a vez que a gente conseguir fazer de verdade qualquer uma dessas coisas mais primitivas, viscerais, pulsantes, com todo o prazer, vive-se; e a anti-vida fica pra trás.

beijos com amor.
Arnaldo