O tempo que foge – Ricardo Gondim

rubem alves – mario de andrade –  desconhecido

Autor VERDADEIRO: RICARDO GONDIM

O Tempo que Foge

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui  para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam  poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem  fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial.

*   *   *
Nota: Li esse texto pela primeira vez enviado por e-mail, como sendo de Mario de Andrade. Por conhecer um pouco do estilo de época e do próprio Mario de Andrade, achei aquilo esquisito, e fui verificar. Descobri que esse texto é bem famoso e circula pela Internet como de autoria de Mario de Andrade, Rubem Alves ou com um pouco mais de “decência”, sob “autoria desconhecida”. O texto pertence ao Ricardo Gondim, pastor evangélico e escritor contemporâneo, mais vivo do que nunca, e que com certeza agora será lido por mim com gosto – percebi que sua perpicácia literária misturada com sabedoria faz falta no meu cardápio intelectual (a despeito de minha religiosidade não se fixar em cristianismos ou quaisquer outras crenças institucionais humanas).
(Arnaldo V. Carvalho)

16 thoughts on “O tempo que foge – Ricardo Gondim

  1. Ando agora roendo os caroços da cereja, mas comendo-as lentamente com todo prazer!
    Ando buscando o ser humano fiel e verdadeiro…gasto meu tempo com o nado se for pelo simples e valioso sentimento de doar!
    Ouvir e ver verdades…
    caminhar…seguir o que me faz o bem…ter o que é meu e dividir sempre…
    Texto bom…

    • Prezado José, não é uma adaptação, mas o próprio texto do mesmo. Tenho autorização do próprio Ricardo GONDIM para a publicação, e se você ler a nota de rodapé do post com atenção, entenderá tudo.

      Grato.
      Arnaldo V. Carvalho

  2. Prezado Arnaldo,

    Há outra autoria reivindicada ou requerida na rede mundial de computadores.

    Consta no endereço:

    Diz lá que a autoria é de um escritor angolano:
    Mário Pinto de Andrade
    Escritor e político angolano, de nome completo Mário Coelho Pinto de Andrade.
    (1928-1990)

    E agora? Trata-se de outro Mario de Andrade, além do mais famoso e brasileiro, tem o angolano, e mais o Ricardo Gondim e o Ruben Alves.

    Para esclarecer de vez, o que poderemos fazer, qual pesquisa avançar?
    Abraço, Sérgio Vianna.

  3. Peço perdão, não saiu o endereço aonde consta a autoria distinta da que você publica.

    http://direitoeavesso-pepa.blogspot.com/2010/03/mario-de-andrade-o-valioso-tempo-dos.html

    Tentei de novo.

    Se não sair, porque o sistema deleta, tento dessa forma:
    http dois pontos direitoeavesso ifem pepa ponto blogspot ponto com barra 2010 barra 03 mario ifem de ifem andrade ifem o ifem valioso ifem tempo ifem dos ponto html

    Eh a forma escrita do endereço.

    • Prezado Sergio,

      Já ouviste falar de “Mario Pinto de Andrade”? Será que não é pegadinha?

      Rubem Alves, além de ter um estilo muito próprio e marcadamente diferente do texto, já declarou publicamente que o texto não é dele.

      Já o Ricardo Gondim é um pensador e colunista de alta visibilidade, com imensa quantidade de artigos publicados em jornais de grande circulação. Em seu site pessoal ele oferece uma série de esclarecimentos sobre o caso desse texto. Gondim e qualquer pessoa com sensatez mínima não colocaria em risco sua reputação por causa de um texto, até por sua alta visibilidade. Dessa forma, acho que se fizer um pouco mais de pesquisa confirmarás o que estou dizendo.

      Não tenho motivos para desconfiar do Gondim, que me autorizou em e-mail pessoal a publicação do artigo.

      Aproveito para convida-lo a conhecer outras desmentidas de apócrifos da Internet feitos por minha pessoa. Basta procurar no blog.

      Um abraço,
      Arnaldo

  4. Queridos seja de quem for este texto, o que é legal fazer? Nos apropriar destas verdades, procurar vivenciar a vida que nos resta com mais qualidade, aproveitar os minutos que nos restam com amor, empatia, misericórdia e graça. Daí então perceberemos o quanto é valioso viver. Que Deus continue os abençoando em Cristo. E obrigado por nos mostrar este tesouro.

  5. seja como for é muito ruim, cliche e simplório. como já li outros textos Ricardo G. acho que pelo tom é bem possível que seja ele mesmo, por duas grandes caracteristicas: primeira: lirismo existencial melodramático, um degrau acima melodrama de Paulo Mendes Campos. A artificialidade da linguagem, isto é, a necessidade da busca de uma linguagem bonita e FORÇADA é um traço Gondim. é uma dificuldade enorme de trazer para fora com sinceridade o que dentro está. Na literatura há autores que tem o dom da falsificação poética em que sua linguagem é tão teatral que lhe foge a percepção a mentira e a autores passionais que vivem com verve que imprimem força nas palavras. Ricardo e nem Mario de Andrade atingiu esse lugar. Ricardo Gondim e Rubem Alves permanecem na artificialização obvias. Sobrou a estes as velhinhas cansadas da pedagogia e os crentes pedantes para o outros. Se tivessemos olhos melhores para a leitura, teríamos olhos melhores para a vida, para nós mesmos, para a nossa mais pessoal escritura. E é para este fato que chamo a atenção tão diretamente quanto educadamente para fazer superar o macaco que há no homem que imita e macaquei sem nada firme tornar-se. é necessário afirma a si mesmo encarniçadamente como disse Artaud.

    • Cada um com seu cada um, gosto é gosto e o seu é respeitável embora diferente do meu. Gosto do texto embora também conheça gente que se comove com mais profundidade que eu… Talvez seja eu o frio e duro, não é qualquer coisa que me mobiliza as entranhas. Mesmo assim reconheço o papel do texto, a sinceridade (mesmo no forçado podemos encontrar sinceridade). Nem tudo do Gondim eu gosto, não compactuo com boa parte de suas crenças, mas não é por isso que vou me furtar a relatar o apócrifo nem em elogiar o que eu gosto. Interessante é a perda de tempo em expressar do que não se gosta. Que tal ir a blogs com textos e pensamentos do Artaud e escrever posts repletos de elogios?

  6. Arnaldo, há vida hoje sofre de uma artificialidade nas coisas mais biológicas e afetivamente impossível. O cristianismo produziu uma cultura de consolo.. É interessante esta relação Rubem Alves e Ricardo Gondim. Ambos, de m odo geral, pastores, doutrinados pela experiencia cristã. Esta atitude sobretudo pentecostal, tendo em vista que eu não sei como exatamente era a forma de vida do evangelho primitivamente. Provavelmente, fortemente marcado pela cultura helênica, portanto, em relação a hoje, outro evangelho. A vida moderna é feita do distanciamento do homem sobre a vida. a vida moderna implica naturalmente em outra relação com a vida. É a vida moderna e sua condição de angustia fundamentada na saudade do que perdemos que fundamenta o sentimento que gera a necessidade do cristianismo e é o mesmo modo que faz com que busquemos o que perdemos: a vida, o belo. Mas não temos mais o poder do belo. o belo está perdido, amor sincero, amizade, enfim, o que na verdade chamam hoje de perda dos valores não é outra coisa senão a aceitação de uma nova modalidade de vida que perverte a situação do homem tal como ele era. Veja, isto não é dizer que o homem primitivo é melhor e que a vida moderna não presta mas, é dizer que a situação da vida atual corrompe tudo o que nela nasce pois ela está apodrecida. Assim, a minha exigencia é sobre a vida. Que vida é essa que se contenta com os farelos poéticos. Não é uma questão de gosto é de vida.
    Não é uma questão de elogio ou gosto, mas, de exigência de uma melhor escritura, pois, ler já não é mais uma necessidade estética, nem a poesia que dissimula a vida o é. escrever é uma ato dado a quem vive pois a linguagem o lugar onde se move o espírito de quem escrever. o que na verdade chamam de extravasar não é verdade em relação a palavra, pois a palavra não sai, ela continua como uma emanação do sujeito que afirma o seu ser escrituralmente. E eu cito o Artaud porque acho que ele está exatamente neste lugar e acho que é deste tipo de humanidade que falta a vida e a escritura. Como disse Goethe (citado por Nietzsche) eu detesto qualquer coisa que meramente instrui sem aumentar ou diretamente me (beleben) vivificar, intensificar, movimentar, animar – ativar. A palavra em alemão é interessante se quissermos pensar o que Nietzsche está dizendo. Mas não acho que seja o caso, mas, se você pengar um dicionário de alemão e for ver as palavras que derivam de beleben seria interessante – o sentido é de dar atividade, movimento. E cito isto para dizer que esta modalidade de escritura moderna que artificializa o belo, o bem, todos os sentimentos, é de uma cultura em que falta sinceridade. Quando um homem escreve mal, deveria pensar sua vida e não fazer um curso de redação. Acho que autores artificiais e superficiais estão tão absolutamente ligados a vida moderna que não conseguem se desvencilhar dela nem mesmo quando são sinceros como diz Fernando Pessoa que ao tirar a mascará já não se reconhecia pois já estava enlameado de mais para poder se reconhecer fora da lama e comno aprendeu a viver na lama preferiu não abandoná-la: é este tipo de interioridade que produz a vida, a literatura, a educação, a filosofia, teologia, o direito, a política, como não estaria a vida corrompida. Como eu sou afetado pelo vida, pretendo olhá-la no olho e dizer a ela o que ela rouba do mundo quando se ausenta, quando falta-lhe coragem. E agora, falo apenas de literatura e todos que escrevem assim, é já hoje extemporâneo porque é inteiramente atual. Seu gosto, sinceramente, não me importa, pois a vida não é fundamentada no sabor, mas, na responsabilidade, no pacto com a vida, no pacto consigo mesmo. Porém, enquanto forem escravos do trabalho, da sobrevivência, do conforto, do belo, e da saudade, os homens encontrarão em todo tipo de mentira, um repouso e uma serenidade para poder encobrir o que poderiam ter de admitir se pensassem isto tudo que proponho como verdade. Portanto, falo. Não mal, nem contra, mas a favor de uma literatura, ainda, porvir.
    Para isso, deve-se abandonar toda noção já dada de belo, de afetividade. Um literatura atemporal. Trocar os exemplos por nada, não saber nada e operar na vivência este nada sem nada querer ser. O mundo está preso no seu vício em toda parte. Um mundo envelheceu e as mentiras que fundamentou a nova ordem é para mim insuportável e toda está humanidade soberba que criou. é nesse ponto que me comove Artaud.

  7. poxa vida, Arnaldo, eu posto no seu blog, colaboro para o debate, coloco minhas mais profundas coisas e você exclui? Qual é a sua intenção: é meramente ouvir frasezinhas positivas e politicagem poética que cria uma espaço imaginário e fictício de amizade e respeito, isto é, fingimento sobre fingimento? Seja como for, colabora comigo também, debata, converse, se dê a posibilidade de pensar e mesmo a outros que visitam o seu blog. Aceite isto como um Recurso. Abraço.

    • Caro William,

      Eu agradeço e gosto de suas postagens. Cada postagem de comentário é enviada ao meu e-mail, e para ser publicada eu preciso aprovar. Isso evita spans e posts ofensivos. Vou aprovando a medida que o tempo me permite, tem dias que não acesso a Internet, pois o tempo… me foge.

      Espero em breve comentar sua defesa a Artaud em contraponto a Alves e Gondim.

      Abraços,
      Arnaldo

    • Oi Rosa, eu adoro seu site! E quando posto algo que li na Internet, é um dos que procuro informação. No caso do texto “do Gondim”, na época o mesmo me autorizou, como sendo dele. Que não é o Rubem Alves já sabia que não era. Gostei muito de suas explicações, você poderia ativar os links que você recomenda no artigo, para que possamos acessa-los? Um abraço e obrigado novamente.

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