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Archive for Junho, 2010

“Devo danto que, se eu chamar alguém de meu bem, o banco toma”.

Aparício Torelly, o Barão de Itararé

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Recebi do amigo Luis, e divulgo aqui um interessante texto da política Marina Silva sobre suas impressões ao assistir o filme. As minhas foram muito diferentes, e em breve o leitor deste blog poderão ter acesso à mesma.

Arnaldo

Avatar e a síndrome do invasor – por Marina Silva

Teve um momento, vendo Avatar, que me peguei levando a mão à frente para tocar a gota d´água sobre uma folha, tão linda e fresca. Do jeito que eu fazia quando andava pela floresta onde me criei, no Acre. A guerreira na’vi bebendo água na folha como a gente bebia. No período seco, quando os igarapés quase desapareciam, o cipó de ambé nos fornecia água. Esse cipó é uma espécie de touceira que cai lá do alto das árvores, de quase 35 metros, e vai endurecendo conforme o tempo passa. Mas os talos mais novos, ainda macios, podem ser cortados com facilidade. Então, a gente botava uma lata embaixo, aparando as gotas, e quando voltava da coleta do látex, a lata estava cheia. Era uma água pura, cristalina, que meu pai chamava de água de cipó. E aprendíamos também que se nos perdêssemos na mata, era importante procurar cipó de ambé, para garantir a sobrevivência.

Me tocou muito ver a guerreira na’vi ensinando os segredos da mata. Veio à mente minhas andanças pela floresta com meu pai e minhas irmãs. Ele fazia um jogo pra ver quem sabia mais nomes de árvores.
Quem ganhasse era dispensada, ao chegar em casa, de cortar cavaco para fazer o fogo e defumar a borracha que estávamos levando. A disputa era grande e nisso ganhávamos cada vez mais intimidade com a floresta, suas riquezas e seus riscos.

A gente aprendia a reconhecer bichos, árvores, cipós, cheiros.
Catávamos a flor do maracujá bravo pra beber o néctar, abrindo com cuidado o miolinho da flor. Lá se encontrava um tiquinho de mel tão doce que às vezes dava até agonia no juízo, como costumávamos dizer.

É incrível revisitar, misturada à grandiosidade tecnológica e
plástica de Avatar, a nossa própria vida, também grandiosa na sua simplicidade. Sofrida e densa, cheia de riscos, mas insubstituível em beleza e força. Éramos muito pobres, mas não passávamos fome. A floresta nos alimentava. A água corria no igarapé. Castanha, abiu, bacuri, breu, o fruto da copaiba, pama, taperebá, jatobá, jutai, todas estavam ao alcance. As resinas serviam de remédio, a casca do jatobá para fazer chá contra anemia. Folha de sororoca servia pra assar peixe e também conservar o sal. Como ele derretia com a umidade, tinha que tirar do saco e embrulhar na folha bem grande, que
geralmente nasce em região de várzea. Depois amarrava com imbira e deixava pendurado no alto do fumeiro para que o calor mantivesse o sal em boas condições. Aprendi também com meu pai e meu tio a identificar as folhas venenosas que podiam matar só de usá-las para fazer os cones com que bebíamos água na mata.

O filme foi um passeio interno por tudo isso. Chorei diversas vezes e um dos momentos mais fortes foi quando derrubam a grande árvore. Era a derrubada de um mundo, com tudo o que nele fazia sentido. E enquanto cai o mundo, cai também a confiança entre os diferentes, quando o personagem principal se confessa um agente infiltrado para descobrir as vulnerabilidades dos na’vi. E, em seguida, a grande beleza da cena em que, para ser novamente aceito no grupo, tem a
coragem de fazer algo fora do comum, montando o pássaro que só o ancestral da tribo tinha montado, num ato simbólico de assunção plena de sua nova identidade.

O filme também me remeteu ao aprendizado ao contrário, quando fui para a cidade e comecei a aprender os códigos daquele mundo tão estranho para mim. Ali fui conduzida por pessoas que me ensinaram tudo, me apontaram as belezas e os riscos. E também enfrentei, junto com eles, o mal e a violência da destruição.

Impossível não fazer as conexões entre o mundo de Pandora, em Avatar, e nossa história no Acre. Principalmente quando, a partir da década de 70 do século passado, transformaram extensas áreas da Amazônia em fazendas, expulsando pessoas e comunidades, queimando casas, matando índios e seringueiros. A arrasadora chegada do “progresso” ao Acre
seguiu, de certa forma, a mesma narrativa do filme. Nossa história, nossa forma de vida, nosso conhecimento, nossas lendas e mitos, nada disso tinha valor para quem chegava disposto a derrubar a mata, concentrar a propriedade da terra, cercar, plantar capim e criar boi.
Para eles era “lógico” tirar do caminho quem ousava se contrapor. Os empates, a resistência, a luta quase kamikaze para defender a floresta, usando os próprios corpos como escudos, revi internamente tudo isso enquanto assistia Avatar.

A ficção dialoga muito profundamente com a realidade. Seres humanos, sem conhecimento sensível do que é a natureza, chegam destruindo tudo em nome de um resultado imediato, com toda a virulência de quem não atribui nenhum valor àquilo que está fora da fronteira estreita do seu interesse imediato. No filme, como o valor em questão era a riqueza do minério, a floresta em si, com toda aquela conectividade,
toda a impressionante integração entre energias e formas de vida, não vale nada para os invasores. Pior, é um estorvo, uma contingência desagradável a ser superada.

Encontrei na tela, em 3D e muita beleza plástica e criatividade, um laço profundo e emocionante com a nossa saga no Acre, com Chico Mendes. E percebi que, assim como no filme, éramos considerados praticamente alienígenas, não humanos, não portadores de direitos e interesses diante dos que chegavam para ocupar nosso espaço.

É uma visão tão arrogante, tão ciosa da exclusividade do seu saber, que tudo o mais é tido como desimportante e, consequentemente, não deve ser levado em conta. É como se se pudesse, por um ato de vontade e comando, anular a própria realidade. Como se o que está no lugar que se transformou em seu objeto de desejo, fosse uma anomalia, um exotismo, uma excrescência menor.

E, afinal, essa arrogância vem da ignorância e da falta de
instrumentos e linguagem para apreender a riqueza da diferença e extrair dela algum significado relevante e agregador de valor. Numa inversão trágica, a diferença é vista apenas como argumento para subjugar, para estabelecer autoritariamente uma auto-definida superioridade. Poderíamos chamar tudo isso de síndrome do invasor,
cujo principal sintoma é a convicção cega e ensandecida, movida a delírios de poder de mando e poder monetário, de ser o centro do mundo.

No Acre nos deparamos com muitos que viam nossos argumentos como sinônimo de crendices, superstição. Coisa de gente preguiçosa que seria “curada” pelo suposto progresso de que eles se achavam portadores. Por outro lado, também chegaram muitos forasteiros que, tal como a cientista de Avatar e o grupo que a seguiu, compreenderam que nosso modo de vida e a conservação da floresta eram uma forma de
conhecimento que poderia interagir com o que havia de mais avançado no universo da tecnologia, da pesquisa acadêmica e das propostas políticas de mudanças no modelo de desenvolvimento que eram formuladas em todo o mundo. Com eles, trocamos códigos culturais, aprendemos e ensinamos.

Fiquei muito impressionada como esse processo está impregnado no personagem principal de Avatar. Ele se angustia por não saber mais quem é, e só recupera sua integridade e identidade real quando começa a se colocar no lugar do outro e ver de maneira nova o que antes lhe parecia tão certo e incontestável. Sua perspectiva mudou quando viu a
realidade a partir do olhar e dos sentimentos do outro, fazendo com que a simbiose presente no avatar, destinado a operar a assimilação e subjugação dos diferentes, se transformasse num poderoso instrumento para ajudá-los a resistir à destruição.

Pode-se até ver no filme um fio condutor banal, uma história de Romeu e Julieta intergalática. Não creio que isso seja o mais importante.
Se os argumentos não são tão densos, a densidade é complementada pela imagem poderosa e envolvente, pelo lúdico e a simplicidade da fala.
Se houvesse uma saturação de fala, de conteúdos, creio que perderia muito. A força está em, de certa maneira, nos levar a sermos avatares também e a tomar partido, não só ao estilo do Bem contra o Mal, mas em favor da beleza, da inventividade, da sobrevivência de lógicas de vida que saiam da corrente hegemônica e proclamem valores para além do cálculo material que justifica e considera normais a escravidão e
a destruição dos semelhantes e da natureza.

E, se nada mais tenho a dizer sobre Avatar, quero confessar que aquele povo na’vi tão magrinho e tão bonito foi para mim um alento.
Quando fiquei muito magra, na adolescência, depois de várias malárias e hepatite, me considerava estranha diante do padrão de beleza que era o das meninas de pernas mais grossas, mais encorpadas. Sofria por ser magrinha demais, sem muitos atributos. Agora tenho a divertida sensação de que, finalmente, achei o meu “povo”, ainda que um pouco
tarde. Houvesse os navi na minha adolescência e, finalmente, eu teria encontrado o meio onde minhas medidas seriam consideradas perfeitamente normais.

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Devido ao imenso sucesso do post “Todo Cambia”, onde tem vídeo, letra original e traduzida e comentários sobre a música de autoria do chileno Julio Numhauser e cuja voz a consagra-la foi a da argentina Mercedes Sosa, insiro aqui um pequeno resumo biográfico de cada um. No final, de bônus a canção para baixar Mi río, outra pérola da musica ameríndia composta por Numhauser, aqui interpretada por Charo Chofré.

Vale a pena conhecer.

https://i1.wp.com/userserve-ak.last.fm/serve/64s/8692539.jpgMercedes Sosa (San Miguel de Tucumán, 9 de julho de 1935Buenos Aires, 4 de outubro de 2009) foi uma cantora argentina de grande apelo popular na América Latina. Com raízes na música folclórica argentina, ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva canción. Apelidada de La Negra pelos fãs devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos “sem voz”.

https://i0.wp.com/userserve-ak.last.fm/serve/64s/38374557.jpgJulio Numhauser (1940), é um músico, cantor e compositor de Chile, destacado na composição e execução de música foclórica de Chile, especialmente como fundador do grupo Quilapayún, em que permaneceu até 1967. Em 1973 , a ditadura de Augusto Pinochet o obrigou a exilar-se na Suécia, onde permaneceu desde então. Integrou também o duo Amerindios e o grupo Somos.

Compôs várias canções de famosas, que integram o cancioneiro folclórico latinoamericano, entra elas Todo Cambia . Em 1973 sua canção Mi río ganhou o Festival de Viña del Mar interpretada por Charo Cofré.

Em 2000 foi designado pelo Presidente Ricardo Lagos agregado cultural da embaixada chilena na Suecia.

(Tradução do Wikipedia espanhol, por Arnaldo V. Carvalho)

*  *  *

Para baixar Mí Rio:

http://musicapopularlatinoamericana.blogspot.com/2009/06/charo-cofre-el-canto-de-chile.html

http://www.chilecomparte.cl/lofiversion/index.php/t541233.html

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Pearl Jam

Daughter

Pearl Jam

Composição: Dave Abbruzzese / Jeff Ament / Stone Gossard / Mike McCready / Eddie Vedder

Alone, listless, breakfast table in an otherwise empty room
Young girl, violins, center of her own attention
Mother reads aloud, child tries to understand it
Tries to make her proud

The shades go down, it’s in her head
Painted room, can’t deny there’s something wrong

(2x)
Don’t call me daughter, not fit to
The picture kept will remind me

Don’t call me

She holds the hand that holds her down
She will, rise above

Don’t call me daughter, not fit to
The picture kept will remind me

Don’t call me daughter, not fit to me
The picture kept will remind me

Don’t call me daughter, not fit to
The picture kept will remind me

Don’t call me daughter, not fit to me
The picture kept will remind me

Don’t call me

The shades go down (2x)
The shades go, go, go

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Que fiz da vida?

Fernando Pessoa

Que fiz da vida?
Que fez ela de mim?
Quanta coisa feliz ignorada e perdida!
Quanto princípio que não teve fim!

Que sinto ante estas águas e este céu?
Ai de mim! Só o coração que é meu…

E no súbito azul em que reparo
Do mar, do antigo mar,
Pois despertei do sonho em que caíra,
Há uma carícia vaga, há um sorriso raro
Que parece falar
De qualquer paz além de gozo e dor,
De qualquer novo amor
Que transcende a verdade e a mentira.
E, desperto de todo, eu que dormia
O sono natural da sensação,
E que por isso não ouvia,
Oiço o som das ondas, claro, fresco, e uma
Brisa me passa pelo coração,
E estendo ao mar a mão
E o mar me estende sua mão, a espuma.

entre 31 e 35

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Marina Bernardi foi minha aluna no curso de Shiatsu Emocional ano passado, e trabalha na Clínica Hara, que virou notícia após tratar com sucesso o caso de dois irmãos pobres com grave quadro de obesidade. Marina foi uma das profissionais destacadas para realizar o atendimento, e o fez muito bem. Repasso aqui a notícia, que deixou esse professor feliz com a postura da Marina, e principalmente com o gesto de solidariedade desta e da Hara.

http://noticias.r7.com/videos/irmaos-obesos-passam-por-tratamento-diferente-para-perder-peso/idmedia/8aefaeeedb9ad1fff387c69daf0ed027.html

Irmãos obesos passam por tratamento diferente para perder peso

Os irmãos gêmeos, Glauber e Gleison, lutam para perder peso e conquistar uma melhor qualidade de vida. Com exercícios físicos e alimentação balanceada, eles já conseguiram perder vários quilos. Para ajudar ainda mais, os irmãos passaram por um tratamento diferente.

*   *   *

Vale dizer que essa notícia complementa e confirma o que já havia afirmado antes no post: “massagem emagrece?

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Gostaria muito de creditar-lhe devidamente.

A publicação, no entanto, é inevitável:

“Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta  melhor
para os nossos filhos e, esquece-se da urgência de deixarmos
filhos melhores para o nosso planeta”.

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