Desconhecido

DESCONHECIDO

Por Arnaldo V. Carvalho

Algumas pessoas pensam que me conhecem.

Me julgam, me avaliam, baseados no que chega de mim a elas.

Por um pequeno conjunto de atos dentre meus tantos atos totais, avaliam-me por esses atos como quem avalia uma coreografia inteira por uma única pose.

Parecem-se com os cientistas que tentam julgar a natureza das estrelas por meio de pequenos traços dstorcidos de luz. Luz que chega aos telescópios terráqueos bilhões de anos luz depois… Será possível? Aqueles fachos traduzem uma estrela inteira? Se ao menos aquele facho chegasse completo, fidedigno, sem influências do caminho que trilharam… Será possível traduzir o macro integral em sua real fidelidade pelo micro defeituoso? Que seria do DNA caso a molecula que armazena tudo sobre a biologia de um ser esteja incompleta?

Algumas pessoas pensam que me conhecem

Avaliam-me por meus atos ou por atos cometidos num certo espaço de tempo em que houve convivência.

Mas a convivência, mesmo que fosse de 24H, não seria suficiente. Ninguém pode avaliar o que se passa dentro de mim. Ninguém entra nos meus sonhos. Ninguém me avalia quando estou só, ou quando me sinto só.

Não espere de mim ser o mesmo sempre. Não esperem de mim ser o mesmo, sempre.

É um ledo engano.

Algumas pessoas pensam que me conhecem.

Criam a ilusão de interpretar minha alma por uma ou outra expressão.

Não sou o que expresso. Minha expressão é modulada por um agente semi-inteligente, criação minha, mas não eu. É meu caráter, fruto dos embates de minha essência com minha educação e experiências, meus traumas e couraças. Minha expressão se modifica pela sintonia simbiótica que faço para com a vida tal como ela se apresenta num dado momento, com suas pessoas, estímulos, ambiente. A expressão é tão diferente de mim quanto essas letras com que escrevo são diferentes da minha fala. Minha fala é revestida da música do meu idioma na versão da minha voz, esta envolvida pelo que estou sentindo, e dos gestos que meu corpo faz, e do meu olhar, e do meu cheiro. Como você me leu? Pareço raivoso, recalcado, sábio e sereno, realista, romântico ou pessimista? É a sua voz que vai dar canto a essas letras, cuidado.

Algumas pessoas pensam que me conhecem.

Ledo engano.

Certa vez, postulei que o corpo é expressão da alma. Não é. É no máximo poético. O suficiente para que pessoas com ideias românticas sobre a vida abracem a idéia. Grandes psiquiatras e psicoterapeutas de abordagem corporal pensam muitas vezes pensam assim. Claro que deveria se assim. Claro que a alma clama por expressar-se no corpo ,e o corpo regozija-se de expressar a alma em detrimento do caráter. Deveria ser assim em indivíduos saudáveis. Mas não o somos. Resta-nos expressar não o que somos no íntimo, mas talvez aquilo que conseguimos ser (expressar).

Algumas pessoas pensam que me conhecem.

Dentro de cada um, pode ser que haja um algo que me conheça. Esse algo, contudo, está além das palavras. Ele segue sentindo a estranha energia de ligação que está além do tempo, do espaço, da cultura e dos atos, sejam quais forem.

Para me conhecer, é preciso ir além do que fiz ou faço. É preciso estar despido da própria capa, para me enxergar além da minha.

A coragem de seguir me olhando, independente do caminho que escolhi, se o que fiz foi bom ou ruim seja para mim mesmo, seja lá para quem for é algo que equivale a Arte de Viver. É sagrado, atributo da rara incondicionalidade que habita os homens e abunda nas utopias celestes.

Por isso, poucas são as esperanças de que alguém me conheça de fato, além dos bebês, animais e por vezes os velhos caducos, que já não defendem tanto o comportamento social aceito, nem defendem a si próprios, já saíram do mundo, já não estão nem aí… Não têm mais força, saco, e interiormente provavelmente entenderam que passaram uma vida de coisa não vivida por conta de regras, apegos e morais tolas.

Algumas pessoas pensam que me conhecem.

Não, também não me conheço. Ao menos sigo a tentar. Sigo me apresentando. E faço isso com paciência e carinho. Não me conheço por completo, mas me permiti finalmente a incondicionalidade sobre mim mesmo. Não o tempo todo; às vezes recuo, encontro sombras… A mesquinhez é um lado sombrio que por vezes, me acua. Mas já não dominam; As luzes chegam a cada dia, nesse processo belo, existencial e vital de sempre poder ser mais saudável, amoroso, maduro.

Algumas pessoas pensam que me conhecem.

Arrogantes. Permaneço desconhecido.

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Homofobia: até quando?! (um relato recente, um retrato da realidade interna do povo).

Aconteceu um episódio homofóbico/ homorábico (neologismo meu) em Curitiba no início deste mês, até aqui impune.

Segue carta púbica de minha amiga pessoal Maitê Schineider, onde ela relata o testemunho de um ato de intolerância, mal caratismo e completa contradição, dentro do contexto em que se apresentou. As pessoas do Paraná talvez tenham mais chance, lendo a mesma, de ajudar efetivamete com informações. Os demais podem prestar toda forma de apoio.

Precisamos reagir, na Satyagraha, na Verdade da não-violência, contra tais atos de selvageria de ser humano para ser humano.

Um jovem capaz de tais atos ou está com o estado de consciência alterado, ou foi muito, mas muito mal amado mesmo.

Obrigado por lerem Maitê.

Arnaldo

“Peço desculpas por escrever esta mensagem em primeira pessoa, fugindo às regras de envio de pauta do jornalismo, mas a escrevo com o coração doído de uma situação de extremo preconceito que aconteceu em Curitiba, a cidade onde moro desde que nasci, agora há pouco, nesta noite de terça feira dia 08/06/2010, e peço que ajude a divulgar este caso, para que possamos identificar o tal sujeito que fez a violência para que isto não continue.

Os manifestantes pediram na noite de hoje, no centro de Curitiba, a destituição do presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, Nelson Justus (DEM), por causa de denúncias envolvendo desvio de dinheiro dos cofres da Casa. A concentração foi promovida pelo movimento “O Paraná que Queremos”.

Fui liberada de minhas aulas da Faculdade de Artes do Paraná, onde curso o segundo ano de bacharelado em interpretação, para participar deste importante movimento político que Curitiba, junto com outras 12 cidades organizou, pela ética e transparência.

Do nada, um dos alunos usando uniforme de agasalho da Faculdade de Direito de Curitiba, começa a fazer uma manifestação muito calorosa atacando um grupo de 4 homossexuais que empunhavam durante a manifestação a bandeira rainbow do movimento GLBT. A bandeira rainbow era somente uma dentre outras tantas de movimentos e partidos que ali estavam lutando por este mundo melhor e mais justo.

Eu estava com minha amiga, perto deste grupo com a bandeira rainbow e comecei a perceber uma rapaz exaltado, que aos poucos foi se tornando violento, e sendo segurado pelos seus colegas de curso de direito. Este grupo de estudantes de direito estavam formando uma espécie de bateria organizada na manifestação da Boca Maldita. Comecei a perceber que um dos meninos que segurava o standard rainbow, começou a baixar a bandeira que segurava e começou a ficar com expressão de assustado e medo. Foi então que me aproximei e vi a gravidade do fato.

O tal estudante de Direito, que fiquei sabendo depois por pessoas que estudam nesta faculdade, é uma espécie de líder do movimento ou centro acadêmico e está num dos últimos anos do curso da Faculdade de Direito de Curitiba, estava violentamente ameaçando agredir e tirar a força o grupo de homossexuais. Eu e minha amiga escutamos quando ele falou: “Tirem esta bandeira de viados daqui de trás de nossa manifestação e bateria. Não queremos nossa imagem vinculada a nada de vocês.”

E minutos antes de tudo isto acontecer, estes mesmos estudantes, que chegaram ali na parte da frente do palco minutos antes da manifestação acabar, por volta das 20:30h, foram tomando conta deste espaço empunhando seus instrumentos e empurrando com seus braços fortes e pesados, as pessoas à sua volta, dizendo que a bateria queria passar. Sem o mínimo respeito e usando de força e “empurra-empurra”.

Eu e minha amiga, vendo o pequeno grupo de 4 homossexuais que tinham faixa etária de 14 a 20 anos, sendo praticamente achincalhado em praça pública, por este acadêmico de direito, nos aproximamos, tomamos a frente e começamos a dar força e coragem aos homossexuais que estavam com medo até de serem violentamente agredidos, não deixando que eles saíssem dali daquela maneira e tentando mostrar ao tal estudante de direito o absurdo de sua atitude de preconceito e homofobia.

O estudante de Direito gritava cada vez mais e tentava partir para a violência física, inclusive sobre eu e minha amiga que nos juntamos ao grupo discriminado. Só não conseguiu porque foi segurado por uma rodinha destes amigos de bateria da mesma faculdade, que o impediram. Mas nada fizeram em defesa da liberdade de manifestação de todos, contra o colega preconceituoso.

No final, o grupo de jovens homossexuais, ficou com medo de ir embora, passei meu fone e agradeci pela consciência política deles e por não terem baixado a cabeça e terem vergonha do que eles acreditam. Escrevo com o coração em dor este email, pedindo ajuda ao seu meio de comunicação que me ajude a identificar quem é este estudante, pois somente assim poderemos talvez ensinar um pouco de cidadania e direitos humanos, pois parece que esta matéria não está sendo levada a sério por alguns acadêmicos e futuros “doutores da lei” do nosso país.

Sei que este aluno e espero não perder as esperanças nisto, é um caso raro e sui generis de preconceito extremo dentro da Faculdade de Direito de Curitiba, pois eu mesma, já fui aluna por anos da mesma faculdade, quando na mesma só havia o curso de Direito, e nos ensinavam a igualdade e respeito ao próximo já no início de nossa vida acadêmica.

Triste episódio acontecido nesta noite do dia 08/06/2010. Peço que se você, que esteve perto do acontecido e sabe quem é este estudante, ou é amigo de bateria do mesmo e não concorda com este fato absurdo e calou-se na hora por “amizade”, que possa estar nos apontando o referido cidadão para que as devidas medidas sejam tomadas ou, no mínimo, um encaminhamento seja feito.

Sem dúvida, o Paraná que queremos, não inclui as atitudes como a deste infeliz estudante.

Meu email direto é casadamaite@ gmail.com , estudo à noite na Faculdade de Artes do Paraná e seu contato pode ser anônimo, até pelo fone (41) 9824-2424 begin_of_the_skype_highlighting              (41) 9824-2424      end_of_the_skype_highlighting

Obrigada pela ajuda possível.. e chega de intolerância!!!!”