Galeano e o direito de sonhar

Anos antes de 2000, Eduardo Galeano deu-se o direito de sonhar com um mundo melhor a partir do novo século e milênio. Seu texto foi lido por mim desde 1998 nos cursos que dei vida a fora, e até alguns anos depois do ano 2000, a despeito de uma aparente data de validade de seu texto. Isto porque os sonhos de Galeano permanecem sonhos, e o  sonhar vale para a vida toda, enquanto inconcretos forem. Como já antes de mim apregoou Quintana em sua beleza leve e romantica de passarinho: “Se as coisas são inatingíveis… ora! / Não é motivo para não querê-las… / Que tristes os caminhos, se não fora  / A presença distante das estrelas!”.

Mas sim, o escritor uruguaio queria mais com seu texto. Queria a reverberação, queria o acender de olhos acinzentados pela desesperança. Queria provocar, e ver o quanto palavras terão poder de mudança para este mundo. Repleto de intenção, desejo de ultrapassar a utopia e galgar o terreno insólito (para nós) da concretude para com o que é bom.

Galeano profetiza, em tom de devaneio onírico, que mulheres assumam o poder nas américas. Elege uma negra para o Brasil, outra para os EUA, e índias para o Perú e Guatemala. Quem diria que teríamos num mesmo momento um presidente negro nos EUA, um índio na Bolívia, uma mulher no Brasil? É no mínimo uma constatação, embora um tanto distorcida e atrasada em dez anos, curiosa. Será o panorama americano atual uma caricatura de mau gosto do mundo harmonioso pretendido pelo povo e Galeano? Veremos um dia os demais sonhos de Eduardo Galeano tornarem-se, ao menos, meias realidades?

Arnaldo

 

O Direito de Sonhar

 

Eduardo Galeano*

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Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher – negra – vai ser presidente do Brasil, e outra – negra – vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: “Festejarás o corpo”. E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”. Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

*   *   *

* Eduardo Galeano (1940-) é jornalista e escritor uruguaio. O texto foi publicado no diário argentino Página 12, em 29 de outubro de 1997, com o título “El derecho de soñar”.

One thought on “Galeano e o direito de sonhar

  1. Vale sempre a pena ler Eduardo Galeano…
    “Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.”

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