Fuga dos funcionários das galinhas

 

Anos atrás, fui convidado por uma empresa de consultoria a analisar o perfil de stress dos funcionários de uma fábrica de frango instalada no Rio de Janeiro. O motivo era descobrir porque a mesma tinha um índice de pedidos mensais de demissão na ordem de 30%, por longo tempo (estamos falando de um universo de 2000 (dois mil) funcionários . A quantidade de funcionários afastados por lesão e L.E.R./DORT também era impressionante.

A primeira coisa que me chamou a atenção é que o responsável geral pelo processo produtivo, um veterinário, me mostrava entusiasticamente como o frango era processado, como o ambiente era higienizado, como eles eram eficientes  – mas em nenhum momento se remetia aos funcionários. Contou-me sem remorsos que no início de cada turno a esteira (linha de produção) começava com uma velocidade x, mas aos poucos era acelerada para render mais. Os frangos, que já não tinham boa vida na granja, também não tinham boa morte. Tal como na animação “Fuga das Galinhas” mostra, eles são brutalmente manipulados, tomam choque, chegam as vezes na máquina que os depena ainda com um fio de vida… É muito fácil esquecermos diante de um quadro desses, das pessoas que lá estão.

Estive nas instalações da fábrica por três vezes*, acompanhando todo o processo produtivo, e meus olhos lacrimejavam o tempo todo, por conta do forte odor dos produtos de  limpeza misturados aos vapores dos frangos; o barulho em alguns setores era excessivo, e as proteções auriculares desconfortáveis – com adesão muito limitada da parte dos funcionários. Acessórios de proteção como as luvas de aço usadas pelo pessoal do corte não impediam ferimentos, embora sem dúvida evitasse que o funcionário perdesse dedos ou a mão inteira. Manipular os frangos antes a potente serra de corte era trabalho de homens grandes e fortes, que sob tensão eram os principais candidatos a lesão por esforço repetitivo. Mesmo com vestimentas especiais, o setor de refrigeração congela o que fica de fora do seu corpo (especialmente o rosto) em poucos minutos, e a ordem é que não se fique mais de dez minutos lá dentro. Mas é impossível, porque os homens precisam empilhar, descarregar e carregar, e as vezes ficam bem mais que o estipulado. Há uma carga horária brutal e uma supervisão truculenta. Homens e frangos são tratados de um só modo, nessa RICA indústria. O que mais esperar? A industria avícola é uma fábrica anti-vida.

Ao ler o artigo abaixo, publicado na revista Radis, não pude deixar de me lembrar de tudo o que vi. Já não como frango há muitos anos; Se quando tomei essa atitude foi por pensar em mim mesmo (o frango de granja oferece a menos saudável das carnes), hoje digo que o mais importante em deixar de consumir frango industrializado é não alimentar essa cadeia produtiva nociva.

Arnaldo V. Carvalho, naturopata

* Infelizmente, quando chegamos na fase das entrevistas individuais, a consultoria foi dispensada e o trabalho foi interrompido.

 

Dores e excesso de trabalho

A Comissão de Justiça e Direitos Humanos da Câmara dos Deputados analisou em dezembro as conseqüências do ritmo intenso de trabalho na indústria avícola, que vem gerando uma legião de trabalhadores lesionados e inválidos, vítimas da aceleração do ritmo das nórias (as correntes que transportam o frango até os trabalhadores na linha de produção). Segundo a Folha de S. Paulo, os parlamentares acompanharam os depoimentos com lágrimas nos olhos. “A situação é bem mais grave do que se imaginava. Ficamos emocionados com o grau de crueldade dessa guerra econômica, que produz um exército de mutilados”, disse a deputada Luci Choinacki (PT-SC).

As exportações do setor avícola vêm crescendo vertiginosamente — de 879 milhões de dólares, em 2000, para 2 bilhões e 862 milhões de dólares, até outubro de 2005. Para atender a essa demanda, as empresas aceleram a produção. Um dos problemas dos trabalhadores é a síndrome do túnel do carpo, inflamação do nervo mediano que causa dor aguda da mão ao ombro, incapacitando a vítima e exigindo cirurgias.

FONTE: Revista Radis Súmula, fevereiro e 2006 (ed. 46)

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Aproveito para convida-los a conhecer a animação MEATRIX e suas continuações, que retratam em pouquíssimos minutos boa parte dos sérios problemas da indústria de criação de frangos, porcos e gado confinado em todo o mundo:

 

One thought on “Fuga dos funcionários das galinhas

  1. Oi, Arnaldo! Esse seu artigo pode juntar-se ao Meatrix que eu j tenho num dos m eus blogs. Gostei mas entristeci. E j tenho tantos problemas… incrvel como tudo funciona neste desgraado mundo onde s impera o dinheiro e nada mais. Infelizmente, comer frango ainda uma das opes mais baratas e por isso mesmo dificilmente terminar. Quanto mais o tempo avana pior est o mundo. Seria de esperar o contrrio, mas no. H mais descoberta cientfica, mais informao, sabemos melhor como tudo funciona, poderamos ter uma vida bem melhor. A cada ano parece que trabalhamos mais, descansamos menos e vivemos pior. Somos arrastados pela vida moderna que nem vida nem nada. Abc

    Laura B. Martins

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    Date: Mon, 3 Mar 2014 12:55:32 +0000 To: laurabmartins.blogs@hotmail.com

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