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Archive for Dezembro, 2015

Crítica ao filósofo Karl Marx e sua vida é marcada por equívocos (ou inverdades?) e tendenciosismos

Focado em denegrir Karl Marx e o socialismo, texto que circula na Internet sob autoria anônima tem como alvo associar um “mau Karl Marx” com o Socialismo, e este com os governos do PT atual. Que salada! Dissecamos o mesmo para quem quer a verdade acima das ideologias (corro delas!).

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Após um seminário sobre Marx e Educação, uma colega me perguntou sobre a veracidade das informações de um texto sobre Karl Marx circulando na Internet.

O texto, de “autoria desconhecida”, demonstra, para alem dos equívocos acerca da vida de Marx, desconhecimento sobre a cultura do século XIX e um numero de preconceitos arraigados ao longo de cada sentença.

Não sou especialista em marxismo ou socialismo. Tudo o que li das fontes originais de Karl Marx me fez ver que não há em Marx (como não há em Engels) Deus ou Diabo, como querem os radicais de todos os lados. Mas, considerando o contexto de época, Marx expõe raciocínios muito interessantes. Por outro lado, o que li não dele mas SOBRE a obra de Marx costura suas ideias com a de muitos outros, e os resultados são os mais variados.
A agressividade dos adjetivos empregados pelo escrito que criticarei aqui deixa a certeza de que seu único propósito é denegrir o pensamento marxista e a visão socialista da sociedade. Em tempos de descontentamento com o poder vigente, encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) – em sua origem um herdeiro ideológico do socialismo -, este tipo de texto costuma surgir, insuflando as massas e aumentando a tensão politica.

Segue o texto na integra e em seguida o mesmo dissecado por mim, oferecendo ao leitor a oportunidade de rever a própria historia de Marx, do socialismo e dos preconceitos entranhados na cultura brasileira. Relativizar é preciso!

Karl Marx foi sustentado pela esposa por 16 anos enquanto escrevia “O Capital” até que ela ficasse pobre. Só teve um único emprego fixo em 64 anos de vida, e foi como correspondente do jornal “New York Herald” por breve período e que não resultava em quantias suficientes para manter a família.
Embora estudioso de economia, era cronicamente irresponsável nas finanças pessoais e sempre passou necessidades. Em 1852, quando morava em Londres sem ter mais para onde correr, Marx tentou penhorar alguns talheres de prata com o brasão da família da esposa quando o dono da loja, desconfiado daquela criatura de cabelos desgrenhados e mal vestida, chamou a polícia.
Viu 4 de seus 7 filhos morrerem ainda bebês pela vida insalubre e miserável que sua vagabundice impôs à família, viu duas de suas três filhas sobreviventes se suicidarem, traiu a mulher que o sustentou por anos a fio com a melhor amiga dela, e ainda deu o bebê nascido desta relação para o amigo rico Engels criar. Morreu pobre, intelectualmente debilitado e com um abscesso no pulmão. Somente 11 pessoas incluindo Engels foram ao seu enterro.
Esse é o ídolo da esquerda. O “pai do socialismo”. Sujeito ordinário, preguiçoso e imoral, que não conseguiu sequer colocar a própria vida em ordem. É este pilantra, em muitos aspectos similar ao Lulla, o criador do sistema que tem a pretensão de trazer a solução para o mundo?
Pois é. Cada um tem a referência que merece.
E o Paul Johnson cita no livro “The Intelectuals” que esse energúmeno, além de tudo, não tomava banho e não fazia a barba por muito tempo. Seus seguidores também deixam a barba crescer sem saber por que.
Mas, suas ideias errôneas, ainda estão por aí, a estrepar com o mundo, a azarar com a sociedade. Pior de tudo é que estamos sendo vítimas desses sórdidos caolhos, gigolôs da miséria, parasitas e aproveitadores, os Schmarotzers, na línguagem de seus conterrâneos alemães. Até quando, como diria Catilina, o senador romano? (autor desconhecido)

Radiografia do tendenciosismo no texto:

Karl Marx foi sustentado pela esposa por 16 anos enquanto escrevia “O Capital” até que ela ficasse pobre.

– Marx e sua esposa passaram por fortes privações em razão da perseguição que sofreram. O filósofo e advogado não levou 16 anos escrevendo “O Capital”. Até onde se sabe, a relação entre Marx e Jenny von Westphalen sua esposa era de grande companheirismo.
– Aqui temos uma grave demonstração de machismo. O autor considera negativo que um homem seja sustentado por sua mulher para estudar, pesquisar e gerar algumas das teses mais importantes de seu tempo. Se O Capital tivesse sido escrito por uma mulher sustentada por seu marido, teria problema? Se foi uma escolha do casal utilizar o patrimônio, fosse originalmente da família do homem ou da mulher, para uma grande realização, haveria problema?
– Os problemas financeiros da Família Marx foram causados pela constante perseguição e necessidade de mudança (de país!), o que somente estabilizou em 1841 quando chegam em Londres (já em complicada situação financeira).

Só teve um único emprego fixo em 64 anos de vida, e foi como correspondente do jornal “New York Herald” por breve período e que não resultava em quantias suficientes para manter a família.
– Na verdade, Marx foi correspondente do New York Tribune. Desconfio que autor saiba disso, pois à época, o “Herald” era tido como jornal sensacionalista, enquanto que o Tribune, uma alternativa mais séria aos leitores americanos. Ambos os jornais se fundiram muitos anos depois (1924).

– Esse, porém, não foi o único trabalho de Marx, que aliás, trabalhou por toda a sua vida. Infelizmente, a renda obtida por direitos autoriais de “O Capital” somente foram repassados a família de Marx após sua morte.

– Seu contrato no Tribune, embora tenha lhe gerado proventos estáveis, não funcionava exatamente como um “emprego fixo” como entendemos hoje. O  pensamento empregatício, amplamente impregnado em nossa sociedade, é algo que não corresponde. Marx era filósofo. Era um profissional liberal, e liberais não trabalham obrigatoriamente em “emprego fixo”, ou seja, não necessariamente possuem um patrão, uma carteira assinada, etc. Essa frase indica que o autor do texto está escrevendo para as massas, já alienadas e presas à mentalidade empregatícia.

– Também busca hierarquizar as próprias condições de emprego, onde o fixo tem mais idoneidade que o temporário, o sob demanda, freelance etc. Desvaloriza-se assim o trabalho intelectual, ressaltando a virtude capitalista de valorização dos que “vencem por meio do suor braçal” (vale lembrar que são poucos os que tem essa trajetória de sucesso no capitalismo).

– A importância de sua obra foi reconhecida por Engels e foi em boa parte patrocinada. Muitos intelectuais, cientistas e artistas dependem de mecenas para seguirem realizando suas obras.

 

Embora estudioso de economia, era cronicamente irresponsável nas finanças pessoais e sempre passou necessidades.

– “Sempre passou necessidades” não é verdade. Mas com certeza priorizou seu dinheiro para seus estudos, suas campanhas junto às massas, deixando o necessário para o “sobreviver”.
Em 1852, quando morava em Londres sem ter mais para onde correr, Marx tentou penhorar alguns talheres de prata com o brasão da família da esposa quando o dono da loja, desconfiado daquela criatura de cabelos desgrenhados e mal vestida, chamou a polícia.

– Não consegui apurar essa informação, mas é bem possível. dado o contexto em que se encontrava nesse ano, onde passava os dias mais difíceis de sua vida. Sujeito mal trapilho, entra em uma loja com objetos caros, qual é o raciocínio? “Só pode ser roubado”. Jean Valjan (personagem de Victor Hugo, protagonista do clássico “Os Miseráveis”) encarna o popular que já passou por isso. Você já passou? Então com certeza não sabe o que é.

 

Viu 4 de seus 7 filhos morrerem ainda bebês pela vida insalubre e miserável que sua vagabundice impôs à família,

– Após ser expulso de três países diferentes, por insistir em fazer a aplicação prática de suas teses cientificas, denunciando a exploração junto aos trabalhadores, chegou em condições muito difíceis mesmo na Inglaterra. Os anos 50 os castigaram, e apesar de “O Capital” ser nesse momento um best-seller na Europa, Marx jamais recebeu os royalties por sua publicação (o dinheiro chegou a família vários anos após sua morte). A miséria fez com que eles passassem fome e frio, com impossibilidade de contar com assistência médica ou outras. Vagabundice?

 

viu duas de suas três filhas sobreviventes se suicidarem,

– Os suicídios ocorreram apos a morte de Marx, e portanto ele não os viu. As razões foram bem diferentes e em nada se relacionam com o pai ou sua criação.
traiu a mulher que o sustentou por anos a fio com a melhor amiga dela, e ainda deu o bebê nascido desta relação para o amigo rico Engels criar.

– Embora não haja provas documentais, tudo leva a crer que Isso de fato aconteceu. A mulher em questão se chamava Helene Demuth, trabalhava na casa de Marx e lá vivia. Ela fôra empregada na casa dos Westphalen, e após o casamento de Marx e Jenny, foi viver com o casal e com eles ficou até o fim dos dias. Politizada, era também do partido comunista e ajudava a rever os escritos de Marx. Apesar de sua contribuição e atividade, viveu no ostracismo intelectual por ser mulher, amante, condenada até mesmo pelos marxistas da época, que elaboraram o comportamento idealizado de um cidadão comunista.

 

Morreu pobre, intelectualmente debilitado e com um abscesso no pulmão.

– Pois é, morrer pobre é um problema. Na programação neoliberal, um homem de vulto, “bem sucedido” tem que morrer com dinheiro. Esse é o projeto de vida do capitalista.
Somente 11 pessoas incluindo Engels foram ao seu enterro.

– Os números divergem, mas até onde consta, foram poucos mesmo, talvez uns quinze. É preciso levar em conta que Marx passou por muitas agruras na Inglaterra, e seu círculo mais próximo era sem dúvida limitado. Talvez, mais do que o número, devêssemos levar em conta a qualidade das pessoas que lá estavam.

– A doutora em história Nívia Pombo**, ao revisar esta minha refutação acrescentou que: “Em uma época de severa repressão do Estado, dificilmente algum trabalhador (se é que seriam esses os homens que o autor do texto esperava localizar no funeral) poderia faltar um dia de trabalho para homenagear uma persona non grata por todos os empresários”.

 

Esse é o ídolo da esquerda. O “pai do socialismo”. Sujeito ordinário, preguiçoso e imoral, que não conseguiu sequer colocar a própria vida em ordem.

– Seria possível, sem se dobrar ao status quo do capitalismo que nascia na total ausência de direitos trabalhistas?

 

É este pilantra, em muitos aspectos similar ao Lulla, o criador do sistema que tem a pretensão de trazer a solução para o mundo? Pois é. Cada um tem a referência que merece.

– Finalmente o autor declara seu propósito: sujar para sujar. Associou a imagem prejudicada de Marx a do Lula, (escrito com dois eles para vincular ao rejeitado ex-presidente Collor), e assim atacou simultaneamente o PT, o socialismo, e finalmente – esse é o ponto, contextualizado pelo momento atual em que o texto circula (o governo Dilma).

 

E o Paul Johnson cita no livro “The Intelectuals” que esse energúmeno, além de tudo, não tomava banho e não fazia a barba por muito tempo.

– Não conhecia o Paul Johnson e sua obra. Mas dando uma olhada, é assustador. Um escritor que se “especializou” em criar livros com “Mini-biografias” depreciativas, com olhar destrutivo sobre todo tipo de gente famosa. E acima de tudo, um hipócrita, cuja vida pessoal, pelo que consegui perceber, é facilmente alvo de críticas muito semelhantes à que ele faz a Marx.

– A barba de Marx não é exótica em seu tempo, pelo contrario, era o costume típico da elite dominante da época. Veja Charles Darwin, Engels, Dom Pedro II, todos bem barbados. A barba caiu em desuso com o tempo, e as culturas que a mantiveram (como a árabe), propositalmente rebaixada, é associada a sujeira e a barbárie… A estrategia aqui esta sendo usada contra a aparência de Marx.

 

Seus seguidores também deixam a barba crescer sem saber por que.

– o autor aqui tenta associar a imagem das pessoas que compreendem o socialismo como alternativa ao sistema neoliberal à de pessoas crédulas, alienadas, que seguem às cegas uma ideologia.
Mas, suas ideias errôneas, ainda estão por aí, a estrepar com o mundo, a azarar com a sociedade. Pior de tudo é que estamos sendo vítimas desses sórdidos caolhos, gigolôs da miséria, parasitas e aproveitadores, os Schmarotzers, na línguagem de seus conterrâneos alemães.

– O autor acredita que, a essa altura, o leitor já estará bem incomodado com Marx, por força de sua retórica. Isso lhe dá permissão para borrifar uma linha de xingamentos inconsistentes e mais uma vez com doses de preconceito (caolhos são sórdidos), e acaba em sua empolgação até mesmo errando no português.

 

Até quando, como diria Catilina, o senador romano?

– A frase é: “Qvosque tandem abvtere, Catilina, patientia nostra? (Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?)

E é desferida por Cícero (106-43 a. C.) contra Lúcio Sergio Catilina (108-62 a. C.) senador condenado por conspirar contra a República Romana. Seus contemporâneos o tinha como uma pessoa ambiciosa, ardilosa e cruel.

– A citação equivocada nos faz pensar, tamanho seu absurdo, que o texto é apenas uma piada de mau gosto, que tenta testar a cultura, ou a inteligencia, ou a visão critica de quem o lê.

– Por curiosa coincidência, refutei esse texto (apenas acrescentando este parágrafo posteriormente) pouco antes e publiquei esse texto dias após a atual fase da “Operação Lava Jato”, denominada Catilinárias. Trata-se de uma referência aos homens públicos investigados que atentam contra a democracia e o interesse geral da nação.

 

(Desconheço o autor)

– Nada como se esconder atrás do anonimato, após ter a coragem de publicar algo tão ofensivo, repleto de calúnias e tendenciosismo!

– Sete adjetivos e muitas mais interjeições depreciativas, em seis parágrafos que, de fato, não merecem atenção, e se gasto alguma energia nisto é porque, como minha colega, muitas outras pessoas podem estar nesse momento – por desconhecimento, ou até uma pré-construção cultural – lendo o livro e sendo incitadas ao ódio.

 

*  *  *

 

* Arnaldo V. Carvalho, polímata, adora caçar apócrifos e desmascarar idólatras. Deixa claro que nunca votou no Lula, na Dilma ou no PT. Não é filiado a partido algum, não é socialista ou liberal, comunista ou conservador. Detesta rótulos. E relativiza.

** Doutora Nívia Pombo, atualmente professora de História da UERJ, é também minha digníssima esposa – nada como ter uma cientista ao lado, para me revisar e evitar gafes!

 

Referências úteis

  • GAY, Peter. O Século de Schnitzler –  a formação da cultura da classe média (1815-1914). São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

 

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Recebi por e-mail mais um apócrifo, dessa vez atribuído a Millôr Fernandes. O texto é uma apologia à ditadura militar brasileira que governou o país por quase um quarto do século XX. Quem substituiu a autoria verdadeira pelo nome de Millôr parece se prover da ironia, tendo o cartunista combatido com sua “arma-caneta” tal regime (aos mais novos lembro que Millôr Fernandes foi um dos ativos artistas de “O Pasquim“), e inclusive tendo sido perseguido por ele.

Não vou reproduzi-lo aqui, pois seria dar bola de mais para o que não merece. Mas ele pode ser encontrado neste link. Caso um dia tenha disposição poderei contrapor os argumentos do texto com uma infinidade de outros, para tornar o cenário menos irreal.

Vejam o que diz o próprio Millôr sobre o texto:

Seu verdadeiro autor é Anselmo Cordeiro (veja a carta do próprio em http://elvisrossi.blogspot.com.br/2011/06/militar-e-incompetente-demais-militares.html). Ele se orgulha. Eu sentiria vergonha. Aliás, sinto. Vergonha alheia.

Arnaldo.

NOTA DO DIA 30/07/2017: Fui alertado pela leitora “liaseal” de que o vídeo saiu do ar, e o link para o texto estaria quebrado. O link pelo que visitei, voltou ao ar. Já o vídeo, sumiu e não encontrei nem uma outra na Internet, no momento. Deixo aqui como “compensação” e prova do repúdio de Millor ao texto e à equivocada atribuição de autoria, um comentário do próprio em sua página oficial:

– Bom dia Millôr. Recebi um texto intitulado “Militares nunca mais” que fala sobre as atividades desenvolvidas por militares durante o regime militar. O que eu gostaria de saber é se o texto foi realmente assinado pelo Senhor e em qual meio foi publicado originalmente. Sou um leitor assíduo de seus textos e admirador de suas charges e até então não havia visto esse tal texto. Fico grato se puder me responder. Atenciosamente,
Cristiano, Curitiba-PR

Caro Cristiano – acho o texto primário. Que posso fazer? É o lado escroto da Internet. Abrassão. O Millôr.

FONTE: http://www2.uol.com.br/millor/aberto/email/061.htm

 

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Este semestre, ofereci aos colegas estudantes e professores do ISERJ o minicurso “O Sono e o Sonhar”, destinado a ser ferramenta de trabalho dos pedagogos, a aprenderem a lidar com as experiências do sono em sala de aula. Para o próximo semestre, a proposta de trabalho gira em torno da boa postura. Na realização do intento, levarei ao ISERJ o laboratório da Boa Postura, com o projeto Lagartinha da Boa Postura, destinado à crianças pequenas. O projeto tem duas pontas: instrumentalizar os professores na observação postural das crianças e sua orientação junto aos pais; e exercer no dia a dia atividades lúdicas com a lagartinha da boa postura, facilitando a consciência corporal e integrando corpo e mente nos processos de aprendizagem.

Todos estão convidados a transitar do mundo onírico para o mundo corporal através da palestra/vivência Sono, Sonhos e a Postura Mágica, que resumirá a proposta do curso dos sonhos e introduzirá às ideias da Lagartinha da Boa Postura, sendo uma prévia do que ocorrerá em 2016.

Dias e horários seguem em anexo no cartaz.

chamada_sonhar_lagartinha.jpg

 

 

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