Elas brilham, brilham muito!

Musical impossível de se ver na Broadway ou em qualquer outro teatro do mundo homenageia mulheres, inspira, expõe questões sociais e encanta plateias

Por Arnaldo V. Carvalho

Esta é uma resenha de

Semana passada uma conhecida comentou ter ido a um musical em Copa: “Elas brilham, já ouviu falar? É sobre mulheres”. Ela, que já havia assistido a grandes espetáculos no Rio, em Nova York e países da Europa, estava impressionada. “Qualidade Broadway?”, eu provoquei, e ela me disse um sim tímido, como quem quer expressar: “tão bom quanto, mas muito diferente”.

É essa a essência de “Elas Brilham”, Musical que também fui assistir, e conseguiu a façanha de me emocionar do primeiro ao último número.

Uma resenha profissional e maravilhosa (bem melhor que a minha), escrita por Andréia Bueno, está aqui: https://acessocultural.com.br/2022/08/doc-musical-elas-brilham-realiza-curta-temporada-no-rio-de-janeiro/. Caso prefira, me ler é só continuar!

Para quem já havia assistido a 60! Década de Arromba, 70? Década do Divino Maravilhoso, sabe que essa é a terceira criação do gênero Doc. Musical assinada por Frederico Reder e Marcos Neuer – uma proposta original e diferente de espetáculo, cheio de lirismo mas com uma narrativa que aproxima os expectadores de recortes da história bastante relevantes do país. E sem dúvidas, esse novo espetáculo demonstra que a dupla chegou ao seu auge de maturidade no que tange ao Doc. Musical, e quanto a isso aponto aqui algumas observações:

  • A primeira marca disso é que foi possível sentir a obra como fruto da coletividade, uma coletividade quase 100% feminina. Quase toda a orquestra e todo o elenco, inclusive, é composto por mulheres. Afinal, como encenar sobre mulheres históricas sem a escuta e participação direta de mulheres? Até por isso, vou me referir aos méritos da peça como simplesmente “a peça” ou “o musical”, e não apenas aos seus criadores.
  • A segunda marca é a ousadia extrema. Desapegaram-se de algumas referências típicas dos grandes musicais, como elencos enormes, coreografias hipercomplexas e atrizes e atores exibindo corpos de beleza normotípica. Ao invés disso, concentraram-se em qualidade e diversidade. Escolhidas a dedo, foram arrebatadas estrelas da música e do canto: Sabrina Korgut, Ivanna Domenyco, Diva Menner, Jullie, Thalita Pertuzatti, Débora Pinheiro e Ludmillah Anjos. Sete incríveis mulheres, brancas e pretas, mais novas e mais velhas, mais magras e mais gordas, descobertas por si mesmas mulheres em diferentes momentos de vida… Todas maravilhosas e impecáveis. Uma elite de voz e emoção.
  • A terceira é a marca da autenticidade: as atrizes, que se revezam dando corpo e voz a história das mulheres através dos séculos, do Brasil, da música, também tem seu momento de narrarem-se. É um dos mais emocionantes números, sem dança, em “cru” de voz falada e cantada, onde a plateia descobre que não se tratam de entidades místicas descidas à terra apenas para entreter os mortais. Ali por trás da magia, há mulheres, mulheres com suas histórias e dores, e que se estão ali foi por uma construção de muita luta, dedicação e superação.

Do ponto de vista artístico e crítico, as brasileiras que marcaram da história da música às conquistas sociais do gênero, no país, seriam mais do que suficientes para compor uma narrativa de peso (se houve quem tivesse acusado os musicais sobre os anos 60 e 70 como “chapa branca”, Elas Brilham não deixa dúvidas do posicionamento artístico acerca das realidades violentas que vivemos). Mas para um público de ouvido e lentes acostumadas com as americanidades, talvez tenha sido inevitável que a peça oferecesse momentos destacando personalidades e cantoras estadunidenses, entremeadas a momentos que marcaram a história da Mulher naquele país e mundo a fora.

É assim, em harmonia entre mulheres de lá e de cá e de outras partes, que no palco e em telas auxiliares (o espetáculo não economiza em recursos audiovisuais), somos trazidos à música e à causa da mulher. Deparamo-nos com Rosa Parks, Elza Soares, Aretha Franklin e Ella Fitzgerald, Annie Lennox, Marielle Franco, Tina Turner e Janis Joplin, Elis Regina, Elba Ramalho, Dercy Gonçalves, Alcione e Madonna… dentre muitas outras!

Aliás, é digno de nota a qualidade e originalidade com que as combinações e fractais musicais vão surgindo sempre com força, em uma variedade de gêneros incomum. A atmosfera é de valorização da mulher em sua diversidade, o que passa pelo reconhecimento de uma sociedade machista e seus problemas, pela indignação que brota mesmo nos espíritos engajados com esta que talvez seja nos tempos atuais a principal causa a ser enfrentada pela humanidade. Mas, como parte do Girl Power em seu melhor aspecto, tudo é feito com muita força e muita beleza. De cabeça, posso lembrar das lindas composições música/interpretação/luz/figurino e trazer ao leitor que a peça passa por samba, MPB, rock, disco, pop, axé e mesmo o chamado “feminejo”, que mesmo para quem não gosta (como eu), entra ali com uma pertinência mais que cabível…

Não dá para terminar sem dizer que não, essa peça jamais poderia ter sido criada na ou para a Broadway. Nada se viu de parecido, nem lá nem aqui. Não tenho dúvida, porém, que por onde passar, Elas Brilham terá como resultado o arrebatamento das plateias de qualquer canto. Assim como Carmen Miranda encantou os americanos no início do século XX, agora é esse coletivo o que parece ser a contribuição mais genial do teatro musical nos últimos tempos.

Você pode saber sobre muitas das escolhas musicais, das mulheres enaltecidas e dos vínculos entre a música e o fortalecimento de uma sociedade melhor para todos no PDF oficial da peça: https://drive.google.com/file/d/1vhgmZtbcijI9r6V2c0gy0qGsodKH-jlO/view

Esse será o último final de semana de Elas Brilham no Rio de Janeiro. Mas soube que a peça estará em diversas capitais do país. Fiquem de olho, preparem-se, NÃO PERCAM. Vale cada centavo. Vai para a Vida.

Site oficial da peça: https://www.elasbrilham.com.br/

A peça Elas Brilham e minha conhecida do início do texto: um curto relato de empoderamento feminino

A minha conhecida, cuja trajetória conheço bem, já passou por muitos ciclos em sua terapia. Anos atrás, começou a se tratar de sintomas difusos como ansiedade e desconfortos pelo corpo…. Na época, ela quase não associava o que vivia com uma antiga má relação afetiva. Viveu por muitos anos com um homem que de amor e respeito pouco ofereceu. Viúva, trabalhou na terapia a importância de encontrar valor em si mesma. Recentemente, deu-se conta, experimentando uma nova relação, que da velha restara um certo preferir estar “mal acompanhada do que só”. Não durou: mais forte, mais ela, minha conhecida experimentou, pela primeira vez em seus 62 anos de vida, estar só como preferência a estar mal acompanhada. Semana passada, me contou que está de paquera nova. Mas já adiantou que a recusa a ir com ela em Elas Brilham (ela contou para ele que veria de novo para lhe fazer companhia, já que a peça era excelente e tinha certeza de que valeria a pena para ele) era um sinal de alerta. Não, ela decidiu que brilha e homem nenhum lhe tirará isso mais. Agora vejam só: criativamente, Elas Brilham tornou-se para ela, um teste anti-machista de primeira qualidade. Genial.

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