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Era um casal bonito aquele. Agora é mais.

O rapaz viajou. Foi uma longa viagem, e a primeira vez – desde a adolescência, que ficara para trás vinte anos antes – que ele havia se afastado dela.

No início, sentiu saudade e solidão. A solidão cresceu. Ele resolveu mexer o corpo para passar o tempo e quem sabe, sentir-se melhor. Emagreceu. Encontrou uma energia que não conhecia. Sentiu-se após alguns meses, pela primeira vez, bem com ele – independente dela. Adaptou-se a poder ser apenas ele. A solidão continuava.

Ele ainda pensava nela todos os dias quando foi cortejado. Meses depois, por um instante não pensou. E viveu aquele romance de exaltação ao próprio eu. Foi curto, já era quase hora de voltar.

Ela sofria de saudades. Sabia que ele também tinha muitas. Era verdade. Mas ao contrário dela, que seguia-se sentindo com um pedaço a menos da própria carne, ele não, se conjuntou em outra conjuntura. Ao menos parcialmente.

No dia do voo, ele tremia de excitação. E culpa. E medo.

O retorno foi a reconjunção do casal bonito, que tanto se amava, que tanto ardia um pelo outro, que tanto era Um.

Mas com um algo qualquer de diferente, inexplicável.

Ele não aguentou. Seu coração decidiu deixar pistas. Ela encontrou. A verdade veio a tona. Ele chorou, chorou, chorou, por ter sido traído por seu próprio ego. Chorou porque nunca quis deixar de ser Um com ela. Nunca, a não ser naquele curto momento, em que o desejo de se firmar como ele mesmo tenha vencido.

E ela chorou, chorou, chorou. Principalmente por raiva. Muita raiva. Raiva de sua própria escolha de ter seguido com um pedaço a menos por todo esse tempo. Raiva por não ter feito nada por si. E obviamente, pela atitude dele. Infiel.

Mas havia verdade na dor e no choro dele, e ela sabia.

E ele curvou-se ante dela, cabisbaixou-se a parti de seu erro, e submeteu-se ao purgatório.

Por que? Chorava ela raivosa, toda noite, por noites e noites?

Por que? Ela gritava irritada, com os dentes amostra.

Você não podia… Ela trazia e meio a uma conversa qualquer sobre qualquer outro assunto.

Foi assim por semanas; Semanas não, meses.

Mas ela sabia do arrependimento, podia senti-lo; E por todo aquele tempo, ele não esteve em nenhum lugar errado, nenhum lugar que não fosse o de pedir perdão, reafirmar o amor, e desejar ali estar.

Ela perguntou tudo o que queria perguntar – e foi bastante doído, mas ela queria saber. E ele contou tudo o que ela pediu. As vezes perguntava a ela se aquilo era realmente tão importante. As vezes era. Uma tortura. Mas dava o que pensar.

A mente dela, a existência dela, não saía mais daquele lugar.

Até que houve um limite. Não foi imposto. Foi sugerido.

– Se não conseguir parar, não conseguiremos.

Foi ele quem disse. E ela sabia que era verdade. Ela já sabia tudo. Inclusive que não era possível apagar, menos ainda voltar no tempo. Ela sabia e o amava e desejava ardentemente.

Doía nos dois. E era inviável seguir sendo apenas memória e dor. Aquele casal de antes havia morrido.

O Amor, semente eterna das transformações que perduram e fazem bem, não!

Inteligente, ela começou a observar que precisava ser Um sem ele, que ele havia voltado uma pessoa melhor em vários sentidos e isso era inspirador.

Ele sabia que não conseguiria mas não ser o Um que era com ela, sem ser um Um ele mesmo.

E ambos agora sabiam que queriam ser Um juntos mas serem Um eles mesmos.

Não podiam esquecer. Nem era para. Mas era preciso limites, era preciso avançar para além da marca que ficou. Era preciso olhar para a cicatriz pensando no tanto que aquilo representava – não só na dor do momento, mas no processo de cura da ferida e o quanto o Todo se tornou mais forte. E o quanto a experiência de ser humano se fazia ali. Muitas lições numa mesma situação.

Foi desse amor que nasceu a cura, o perdão, um casal novo, quente, mais belo e jovial que o de antes.

Foi desse amor que nasceu um fruto que hoje dá muitas alegrias a esse casal. Quem diria, antes, quando eram Um sem serem para si mesmos, perseguiram tanto esse filho e nada. Agora sim, inteiros os dois, vingou aquele que representa um pouco do todo de cada um.

E eles são felizes para quase sempre e assim seguirão.

*-*-*

Essa é uma história verídica que acompanhei em consultório. Um processo muito doído e difícil. E que nos ensina sobre Amor, mas sobretudo, sobre a paciência necessária de quem erra ou representa o erro, e a necessidade de limites em relação a memória.

Eu a trouxe nesse momento, porque é patente que a sociedade entenda a importância da memória. De não se passar borracha nos erros – não devem ser esquecidos. Mas que sim, ao mesmo tempo deve haver um limite sobre isso.

É um tema em Roma e outras cidades históricas na Itália e outros países, o quanto se deve explorar o território em termos arqueológicos. Eles sabem que debaixo das vilas, cidades, debaixo de praticamente toda as casa da Itália, a chance de se encontrarem vestígios importantes da antiguidade são enormes. Mas as pessoas que lá vivem também precisam viver! Precisam ocupar esses espaços, olhar para frente.

Então, trazendo para a realidade brasileira, não, não podemos esquecer a escravidão, a genocídio indígena, a ditadura, as explorações diversas, momentos de sangue e dor por todo o país. É fato. É passado. Deve ter marcos e serem tratados com seriedade e respeito. E ocupar aquele momento do dia e da vida em que devemos nos perguntar: para onde queremos ir?

A dor do negro, dos indígenas, das mulheres, de todos os oprimidos precisa ser ouvida. Será ouvida muitas vezes, à exaustão, por gerações. É NECESSÁRIO! Não se desfaz a dor na psique coletiva em uma vida gente. São várias. O tempo é de aprender a escutar, de baixar a cabeça (os “Eles” – as pessoas que tiveram acesso a uma situação sóciocultural privilegiada – majoritariamente brancas), e humildemente de pedirem perdão (não com comiseração mas agindo pela construção de uma nova história), e afirmarem o Amor ou sair do caminho e deixar que Elas (as pessoas que já nasceram desprivilegiadas, em um Brasil de tantos erros e distorções sociais históricas) encontrem seus espaços (isso é respeito, e é o mínimo).

Minha escolha é pelo Amor. Da ação pelo fim das diferenças valorativas enntre as pessoas.

A todos os meus amigos cujo lugar de fala é repleto dessas memórias de repressão, machismo, misoginia, eu digo: sejam como essa “Ela”! Não deixem “Ele” esquecer! Gritem, revoltem-se, e não tolerem nada além de paciência, voz baixa e arrependimento sincero. Fiquem atentas a sinceridade de “Ele”.

Com as gerações sendo continuamente ouvidas, vai passar. Em algum momento, a dor vai tomar outra forma, uma cicatriz dará lugar ao buraco. Poderá a realidade irreparável da cicatriz social ser ponto de olhar e lembrar, com dor mas também para a importância da reparação no crescimento da sociedade. Escolheremos.

Será o tempo de se pensar no fim das armas, das guerras, dos cantos tristes. Será o fim dos cativeiros emocionais, porque cada um poderá ser Um e poderá ser o Um-Todo ao mesmo tempo.

Mas isso é uma outra história, uma história ainda distante de nosso tempo.

***

Arnaldo V. Carvalho e filho de um pai imigrante português (possivelmente com raízes árabes cristãs novas), com uma mãe neta de portugueses, indígenas e sabe-se lá quantas etnias atrás disso. Classe média, vida simples. Educador, pai, terapeuta, cidadão brasileiro.

 

 

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Uma de minhas últimas fotos do MN, na minha ida de 31 de julho de 2018

Infâncias, gerações e um museu.

Arnaldo V. Carvalho

Sem que eu soubesse, minha mãe investia pesado em minha educação. Me ofertou muitas experiências, e dentre elas, pude conhecer museus, exposições, parques, praias, arredores montanhosos, natureza, a leitura e o teatro. No terceiro dia de minha dor e de meu luto pela perda do Museu Nacional, desejo compartilhar lembranças sobre este que fez parte da construção de quem sou hoje. E particularmente, da melhor parte de mim. Esse melhor que me permitiu estender a experiência às minhas filhas.

Minha mãe me levou algumas vezes ao Museu Nacional quando eu era criança. Lembro bem de sua entrada, do meteoro imenso. Lembro dos três dinossauros na entrada do segundo andar. Lembro do caranguejo gigante – a peça que eu mais gostava. E lembro do medo que eu sentia das máscaras rituais indígenas (fugia da ala indígena por causa delas), e do fascínio das exóticas cabeças encolhidas e secas. Ah, havia o setor dedicado às civilizações americanas… Incas, Maias e Astecas, com seus potes, adornos, urnas funerárias… Também havia múmias ali. A mais impressionante era uma preservada de forma natural. Uma possível mãe e seu bebê num cesto ao lado jaziam no amor eterno dessa relação. Se foram juntas, deixando seus corpos percorrerem o tempo (séculos?) até que fossem tragadas pela tragédia do incêndio. Nem tudo ali precisava ser muito grande ou muito antigo. Meus olhos de criança recebiam a explicação de minha mãe sobre os potes de lombrigas e oxiúros, que me davam asco e uma real percepção de que não queria aquilo me habitando – reforçando assim a importância da higiene alimentar. As múmias egípcias (de gatos, jacarés e pessoas) me causavam terror e êxtase. Lembro que olhava a múmia deitada, com seus pezinhos semi-descarnados, bem “de pertinho”, pois não precisava me abaixar para estar na altura de seu corpo. E lembro delas em outra fase, onde já tinha quase o tamanho que tenho e ela andou bem mal cuidada. Sim, de muitas alas e peças, me lembro do cheiro. Um cheiro que não voltei a sentir em outra parte, nem em museus como Louvre e Prado. Era uma antiguidade própria. Esse cheiro agora é só uma memória.

De minha infância para cá, o museu havia crescido. Vinha no rumo de aprender a atrair, de se modernizar… Encontrou-se com um fabuloso artista paleontológico, colocou réplica de fóssil de tiranossauro, expandiu a ala dos dinossauros, preservou melhor a área de arqueologia, salvando as múmias que estiveram num grave sufoco em tempos anteriores. O meteoro que desde o começo abria a exposição agora apresentava a ala do início da formação da vida na terra com auxílio de um belíssimo painel cósmico para fotos e novos fósseis vegetais. A coleção de história natural só foi ficando mais arrumada e bonita. Um sambaqui apareceu em destaque numa bela ala, logo após a Luzia. O museu criou acessibilidade, montou uma pequena exposição tátil, enfim, foi criativo, ousado e organizado. Tentou seguir respirando e tocando as pessoas, mesmo quando já não tinha fôlego.

Minhas filhas, todas elas, eu levei o quanto pude. As maiores chegaram a conseguir fazer uma leitura madura de diversos pontos do museu. Cada um em seu próprio ritmo de aproveitar… Revisitamos o caranguejo gigante, que com as mais novas (com cinco anos), aprendeu a “falar”. As menores conversaram, aliás, com a “múmia princesa”, com a lhama empalhada, com os crânios do hominídeos que fazem parte da história humana. Elas conversaram com eles e descobriram que a realidade do tempo e do espaço é tão imensa.

Eu e minhas filhas tivemos um grande privilégio em termos tido acesso, em nossas infâncias, a um museu a resumir o planeta, seus tempos e espaços. Possivelmente a grande maioria de nossa população jamais terá uma nova chance de um encontro tão forte e fidedigno, “abridor de lata” da lata da mente.

Meu desejo mais profundo é que essas experiências de ida ao Museu Nacional, que pude deixar a elas, assim como minha mãe deixou em mim, siga lhes ajudando a serem pessoas melhores. Agora, cada um de nós terá de levar consigo o pouco que conseguiu. Quem sabe vestir um chapéu imaginário de arqueólogo e vasculhar a mente, em busca de novos detalhes por entre as lembranças.

***

Sou Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, cidadão.

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Externalizo minha tristeza e me solidarizo com todos os que hoje, como eu, não conseguiram dormir plenamente com a notícia trágica de ontem. O Museu ardeu em chamas, mas não por acidente. Foi assassinado, morte premeditada, publicamente anunciada e denunciada.
A imprensa que hoje ganha dinheiro de propaganda para “cobrir” a tragédia, não se sensibilizou enquanto o museu agonizou lentamente com a falta de recursos e verbas (não faltaram súplicas!). Estou fora do Rio e o meu desejo de voltar para casa e viver o luto é enorme. Parece com o sentimento de perda da Mariele; com a tragédia do Rio Doce; com os incêndios anteriores que transformaram em cinzas o acervo do Hélio Oiticica, o prédio da Reitoria da UFRJ, o edifício Wilton Paes de Almeida em SP.
Tristeza, desolação, raiva, revolta. Tantos sentimentos misturados e me pergunto: o que une tudo isso? Como meu coração liga a perda da Mariele ao Museu? Como ele liga a tragédia de São Paulo ao drama das famílias nos acampamentos de sem terras pelos quais passei ontem à tarde, nos arredores de um dos destinos turísticos mais badalados do Brasil? Luta, resistência, identidade, inconformismos, direitos de acesso. Tudo isso nos é espoliado no cotidiano e seguimos o fluxo de mãos atadas, censuradas. Frente às cenas de um prédio que abrigava o passado da humanidade, o presente de pesquisas científicas e o futuro das gerações que não conhecerão a riqueza do acervo perdido, me revolto quando assisto que, apenas nesse momento, quando tudo esta perdido, aí sim os historiadores, os antropólogos, os museólogos entre outros estudiosos do Museu, serem convocados para narradores dessa tragédia. Ironia fina. Modernidade líquida? Bauman talvez não tenha mencionado que o líquido não é só fluido, mas pode ser inflamável.

Nívia Pombo
Prof. Adjunta do Dpto de Historia do IFCH – UERJ

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Misturar para confundir, dividir para conquistar: O caldeirão ferve e a Bruxa ri

Por Arnaldo V. Carvalho

Aos que foram atentos a história do antigo Império Romano, devem saber que sua origem vitoriosa ocorreria com o fim da República de Roma, após o famoso general ditador Caio Júlio César (100a.C-44a.C.) anexar as Gálias (basicamente toda a Europa Ocidental) e reclamar na capital poder absoluto para si.

César desenvolveu uma estratégia quase infalível, que permitiu a Roma anexar territórios inteiros com um uso de força minimizado. A tática divide et vinces* foi descrita pelo César (embora já utilizada com sucesso por Alexandre o Grande e posteriormente por Napoleão Bonaparte) tratava de uma guerra de informação, onde ele basicamente enviava espiões que, infiltrados nos grupos de interesse, tratavam de plantar a “semente da discórdia” entre clãs rivais, criando todo tipo de intrigas, enquanto enviavam preciosas informações que permitiam a ele estudar as características e pontos fracos de cada povo.

Plantar confusão nos dias de hoje envolve misturar conceitos, fatos, etc., e é aí que se forma o caldo das divisões. Formam-se divisões em assuntos os quais na verdade todos querem soluções reais. Ou seja, interessam a todos, dizem respeito a todos, e podem sim alcançar a todos. A mistura quente, que confunde situações tangentes, é a dinamite da bruxa, como denuncia a música Na Pressão (1999), de Lenine (1959-).

Olho na pressão, tá fervendo
Olho na panela
Dinamite é o feijão cozinhando
Dentro do molho dela

A bruxa mexeu o caldo
Se liga aí, ô galera
Tá pingando na mistura
Saliva da besta-fera

Trecho da música Na Pressão, de Lenine.

Temos aí uma multiplicidade de violências institucionalizadas e culturalizadas, e na pressão que o medo provoca, a bruxa ri. Fatos ocorridos e que vão para as notícias de jornal – assassinatos, torturas, discriminações, estupros, roubos, etc., se juntam ao que não vai estar na mídia – como o desprezo e cada um deles é dinamite, cada um deles se soma, temperada pela saliva da besta-fera do ódio, ácida, quente. A bruxa é a anti-vida sorrindo diante de nossas divisões.

O que tenho visto no caso Marielle Franco, por exemplo, é icônico. Tenho recebido em meus grupos sociais uma série incrível de comentários onde diferentes pontos reivindicatórios – todos legítimos – entram em choque.

Uma das maiores confusões é em relação à atenção que se têm dispensado à execução da socióloga versus a de todos os outros assassinatos cometidos diariamente no país. Me repetindo em relação a comentário que fiz em cima de um post do Facebook:

“Nenhuma morte deve passar despercebida. Cada uma deve ser cobrada pela particularidade que a envolve.

Morreu depois de ser assaltado? É uma cobrança, não pode acontecer.

Morreu executada porque se meteu em área “dominada”? É outra cobrança.

Morreu de fome? É outra cobrança.

Matou? É outra cobrança (afinal a sociedade tem sim ligação com a origem de pelo menos a maior parte dos assassinos)

Mandou matar? Mais uma cobrança.

Consumiu o produto que gera uma cadeia de mortes? Outra cobrança.

Enfim, para cada uma deve haver da sociedade uma cobrança. Por respostas, por atitudes.

Misturar tudo não ajuda. Dividir o povo não ajuda”.

Cada pessoa e/ou grupo, que além de se manifestar precisa viver sua vida – trabalhar, estar com os seus em suas alegrias e doenças, cuidar de si, sua mente e corpo, etc. – tem todo o direito de escolher seus temas, e um não diminui o outro. Tudo é muito, muito grave e precisa igualmente de atenção.

Um amigo fez o outro tipo de afirmativa-cobrança, na verdade já uma mistura entre a primeira que comentei – por que a morte dela está parecendo mais importante que outras), e uma segunda: esse barulho todo é porque ela era do partido X (no caso, o PSOL, que se auto-define como um partido “de esquerda”). Minha resposta segue a mesma linha, é simples (em relação à escrita original, adicionei links aqui no blog):

“Amigo, não sou PSOL nem nada disso. Nenhuma morte deve passar em branco, nenhuma.

Agora, você pode usar a memoria e se perguntar: por que o medico morto a facada na Lagoa Rodrigo de Freitas (2015) teve visibilidade da imprensa e um monte de gente assassinada de forma barbara, que no máximo aparece em jornais estilo “O Povo” não tem? E a juiza executada com 21 tiros (2011) em Niterói?

O que traz visibilidade de imprensa a uma morte?

Te dou duas hipóteses: ou o crime aconteceu em área de alta circulação dos grupos privilegiados (caso do médico) ou a pessoa executada tinha algum tipo de atuação extremamente incomoda, talvez sabendo coisas que “não deveria saber”. Foi o caso da juíza e é o caso da Marielle.

Vejam mais sobre a briga da juíza Patrícia Acioli com o lado podre da polícia

Ambas foram mortas no embate com a “banda podre” da Polícia Militar, e em breve tenho certeza que pessoas começarão a ligar os pontos.

Não esqueça meu amigo que tivemos um colega (no meu caso amigo) morto por assalto no mês passado, e assassinato seguido de roubo é um serio problema a ser denunciado e execução planejada de queima de arquivo é outro problema.

Ambos precisam parar e para isso devemos cobrar das autoridades. Mas por favor não vamos cair no erro de misturar as coisas”.

Nem misturar, nem diminuir qualquer um dos fatos.

Os temas reivindicatórios devem ser sempre claros, para não confundir e enfraquecer. Aqui estamos claramente conversando sobre o eixo da “violência”, e suas ramificações precisam ser desembaraçadas se quisermos enxergar as situações com lucidez.

Então, caros leitores, máxima atenção: se continuarmos confundindo, seguiremos divididos, e permaneceremos presas fáceis da Bruxa que está a solta.

Arnaldo V. Carvalho pai, terapeuta, pedagogo, cidadão.

 

* A célebre frase de Júlio César já havia sido citada por mim no artigo “Risada sem Graça” na ocasião do golpe contra a presidência da república eleita por voto popular. Possivelmente a citarei outras vezes, visto que esse é o principal ingrediente do caldo da Bruxa que destrói a humanidade e seus povos.

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Quando mestres livros e memórias se vão… E é preciso encarar tudo isso

Por Arnaldo V. Carvalho*

Passou por esta vida meu querido mestre Douglas Carrara. Encerrando-se a passagem do sol pelo signo de Leão em fins de agosto, despediu-se após 74 anos dedicados à Vida, em seu sentido mais verdadeiro, intenso, puro.

Mais do que qualquer outro professor que tenha tido, a naturopatia era Douglas: o antropólogo, botânico, fitoterapeuta, tinha na visão científica sua forma de ir ao encontro e defender a natureza e os povos que nela vivem mais integrados do que nós. Sertanejos, indígenas, seus fazeres e saberes, e o meio que os cercava foram a principal bandeira deste homem que se mostrou incansável por tantas e tantas décadas.

Douglas também foi responsável pelo Naturo-data, o banco de dados sobre plantas medicinais mais completo que já vi. Escrito inteiramente em uma “língua morta” de computador, Douglas preparava-se para finalmente ver seu projeto, executado de forma rigorosa, ganhar asas sendo convertido para Java(1) através de uma parceria. Torço que sua esposa Jania e seus filhos levem o projeto adiante, pois é um bem da humanidade, e creio, seria de profundo desejo dele.

Primeiras memórias

Lembro-me de meu primeiro contato com o Professor Douglas. O Centro de Estudos de Naturopatia Aplicada (CENA) aguardava por um palestrante, que falaria aos novos alunos, numa espécie de cerimônia para marcar o início da formação. Eu era um dos alunos que aguardava e, no atraso, um dos presentes começou a conversar conosco, demonstrando grande conhecimento acerca dos saberes naturopáticos.  Lá estava aquele senhor magro, barbado, óculos e fala pausada, a costurar tramas de pensamentos cuja profundidade se fazia alcançar pela eloquência. Quando a coordenadora do curso desistiu de aguardar o palestrante, pediu ao Douglas que falasse a nós. Ele já falava, e nós já estávamos todos encantados. Lembro de olhar para os olhos de algumas colegas, e todos – como o meu – brilhavam.

A fitoterapia era a área mais forte na formação do CENA. Dedicada a ela, uma constelação de professores atuou diretamente conosco por um ano e meio somente nos desdobramentos deste assunto: o biólogo e raizeiro Ary Moraes, o fitoterapeuta Fernando Fratane, o médico suíço Dario Laüppi e o Professor Douglas. Quando as disciplinas de botânica e fitoterapia começaram, foi Douglas quem nos introduziu a esse conhecimento. Estudamos a taxonomia vegetal com alguém que falava dela como se referisse a parentes bem conhecidos. O conhecimento fluía naturalmente dele para nós, e de suas lições, nunca esqueci.

A consciência das políticas nacionais e internacionais de proteção à fauna, à flora e aos povos da floresta, a biopirataria, o indigenismo, os bancos de sementes e DNA vegetal, bem como os últimos estudos nestas e outras áreas, eram assuntos que permeavam os conteúdos de aula. Assim, descobríamos como identificar labiadas ou asteráceas, que vegetais produziam alcalóides, mucilagens, terpenóides, etc., onde cada espécie crescia, como se aclimatava, que usos tradicionais se observava em diferentes grupos sociais no Brasil e mundo, mas aprendíamos também sobre um todo na interação humanidade-natureza. Após a formatura de minha turma, o CENA fechou. Em uma cascata que levou embora uma série de cursos similares, na mesma época.

A velha naturopatia, alternativa mais a margem das profissões de saúde que qualquer outra, por se aproximar “perigosamente” das falas e saberes de raizeiros, rezadores, parteiras e indígenas, daria lugar à renovada Naturologia, que fugia de competir com a alopatia e se firmava pelas evidências científicas produzidas no loco acadêmico.

Praxis naturopática

Mas minha atividade continuou, e meus contatos e aprendizados com Professor Douglas persistiram… até hoje. Douglas me narrou muitos casos de tratamento, verdadeiros mistérios por ele desvendados após exaustivas pesquisas. E me enveredou por esse espírito detetive, que habitua meu caminho profissional e me torna bastante dedicado em compreender um caso clínico com profundidade bem além dos protocolos. Esse espírito investigativo nos aproximava muito e rendeu muitos encontros entusiasmados, onde um inspirava o outro em novas elaborações e conjecturas no resolver de casos de saúde.

No tempo do Portal Verde(2) convidei-o mais de uma vez para dar palestras, cursos, participar de debates. Juntos, estivemos em congressos, e seguimos trocando ideias confabulando oportunidades de levar a público o conhecimento sobre a relação entre o ser humano e as coisas da natureza. E assim ele seguiu sendo meu mestre informal, de quem aprendi e por quem gostaria de ter feito muito mais do que fiz.

A partida do meu professor decreta meu próprio fim na atividade profissional que abracei por bastante tempo: a naturopatia. É um momento difícil, mas são horas.

O fim da minha naturopatia

Até aqui, guardei meu trabalho de curso sobre a Salvia officinalis, corrigido por ele. Chegou a hora de me despedir. Assim como este simplório trabalhinho, o restante de minha biblioteca sobre plantas medicinais, alimentação natural, geoterapia e outros temas relevantes da naturopatia, que levei vinte anos compondo com autores selecionados e algumas preciosidades, vão embora para outros ares, outras mentes – e que possam ser tão úteis, lidos e luminosos como foram para mim.

Com os livros, vai-se embora mais um naturopata, atrás de seu mestre. Um lado inteiro de mim.

Talvez possa dizer que me despedi mais aos poucos do que ele. Já não sou um verdadeiro naturopata. Meu contato com a natureza tem se tornado cada vez mais circunscrito. Tenho feito pouco pela causa natural, já não divulgo minha expertise profissional e apenas aqueles que me conhecem há mais tempo ainda me procuram para orientação profissional nesses termos. A medida que reduzi minha experiência ao contexto da somatopsíquica(3), foram ficando para trás meus anos de estudos sobre ervas medicinais, alimentação, e técnicas diversas oriundas da natureza, aprendidas sobretudo na fusão Carrariana da etnomedicina com a ciência.

Agora, me restará  buscar fundo a naturopatia e Prof. Douglas em recônditos de mim, para não permitir a insipidez da mente humana dissociada do corpo natural, do indivíduo e de Gaia.

***

* Arnaldo V. Carvalho: pai, terapeuta, gente. Ex-naturopata.

Notas

(1) Java é uma linguagem de computador, amplamente utilizada na atualidade, e que pode permitir ao Projeto Naturo-data alcançar finalmente a Internet.

(2) Portal Verde é um projeto de fomento à saúde e a qualidade de vida iniciado em 1999 por mim e dois parceiros (Luiz Otávio Miranda e Altamiro V. Carvalho). Entre 2000 e 2008 funcionou como centro de terapias em Niterói. Desde seu fechamento, permaneceu na Internet como um site divulgador de notícias relacionadas à uma vida naturalmente mais saudável.

(3) Somatopsíquica é como podemos chamar a compreensão de como os processos corporais (soma) interferem na mente (psiquê). É o inverso da Psicossomática. Atualmente basicamente meu trabalho consiste em observar como a mente transfere informações para o corpo e como este lhe retorna. O trabalho terapêutico passa essencialmente pela compreensão desse endo-relacionamento, e de como isso se comunica com o meio externo, em especial nos interrelacionamentos.

Mais sobre Douglas Carrara:

http://www.bchicomendes.com/cesamep/poscurri.htm

http://www.recantodasletras.com.br/autores/douglascarrara

http://www.constelar.com.br/constelar/121_julho08/mapatestedouglas_mapa2.php

 

 

 

 

 

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Em seu livro “O que é História Cultural”, Peter Burke declara, a respeito dos estudos da Nova História Cultural (NHC, os estudos combinados da historiografia e da antropologia dos anos de 1990 para cá) acerca do corpo:
Se existe um domínio da NHC que hoje é muito próspero, mas que pareceria quase inconcebível uma geração atrás, este é a história do corpo”.
Fiz questão de copiar o trecho do livro a respeito do tema, repleto de referências de autores importantes, para compartilhar com vocês leitores e os interessados em conhecer mais esse corpo-cultura-história da humanidade. (Arnaldo)
A história do corpo
Se existe um domínio da NHC que hoje é muito próspero, mas que pareceria quase inconcebível uma geração atrás —
em 1970, digamos —, este é a história do corpo. As raras contribuições feitas nesse campo em décadas anteriores eram pouco conhecidas ou consideradas marginais.
Da década de 1930 em diante, por exemplo, o sociólogo-historiador brasileiro Gilberto Freyre estudou a aparência física dos escravos tal como registrada em anúncios de fugitivos publicados nos Jornais do século XIX. Observou as referências às marcas tribais que revelavam de que parte da África os escravos provinham, às cicatrizes dos repetidos açoitamentos e aos sinais específicos do trabalho, tais como a perda de cabelo em homens que levavam cargas muito pesadas na cabeça. Da mesma forma, um estudo publicado em 1972 por Emmanuel Le Roy Ladurie e dois
colaboradores usou os registros militares para estudar o físico dos recrutas franceses no século XIX, observando, por exemplo, que eles eram mais altos no Norte e mais baixos no Sul, diferença de altura que quase certamente se deve a diferenças de nutrição.
Em compensação, do início da década de 1980 em diante, uma corrente cada vez maior de estudos concentrou-se nos corpos masculino e feminino, no corpo como experiência e como símbolo, nos corpos desmembrados, anoréxicos, atléticos, dissecados e nos corpos dos santos e dos pecadores. A revista Body and Society, fundada em 1995, é um fórum para historiadores e sociólogos. Já se dedicaram livros à história da limpeza dos corpos, da dança, dos exercícios, da tatuagem, do gesto. A história do corpo desenvolveu-se a partir da história da medicina, mas os historiadores da arte e da literatura, assim como os antropólogos e sociólogos, se envolveram no que poderia ser chamado de “virada corporal” — como se já não houvesse tantas viradas que os leitores correm 0 risco de ficar tontos.
Alguns dos novos estudos podem ser mais bem descritos como tentativa de reivindicar outros territórios para o historiador. A história do gesto é um exemplo óbvio. O medievalista francês Jacques Le Goff inaugurou 0 campo; um grupo Internacional de acadêmicos, de classicistas a historiadores da arte, contribuiu também, enquanto um ex-aluno de Le Goff, Jean-Claude Schmitt, dedicou um trabalho importante ao gesto na Idade Média. Schmitt percebeu o crescente interesse pelo tema no século XII, que deixou um corpus de textos e imagens que lhe permitiu reconstituir gestos religiosos, como rezar, e gestos feudais, como armar um cavaleiro ou prestar homenagem a um
senhor. Ele argumenta, por exemplo, que rezar com as mãos postas (e não com os braços abertos) e também se ajoelhar para rezar eram transferências para o domínio religioso do gesto feudal de homenagem, ajoelhar-se diante do senhor e colocar as mãos entre as dele.3
Um exemplo vindo da história russa mostra como é importante prestar atenção histórica a diferenças aparentemente pequenas. Em 1667, a Igreja Ortodoxa Russa cindiu-se em duas, quando um conselho reunido em Moscou apoiou inovações recentes e excomungou os defensores da tradição, mais tarde conhecidos como “velhos crentes”. Uma das questões em debate era se o gesto de abençoar deveria ser feito com dois dedos ou três. Não é difícil imaginar como os historiadores racionalistas de épocas posteriores descreveram tais debates, encarando-os como típicos da mentalidade religiosa ou supersticiosa, distante da vida real e incapaz de distinguir 0 significante do insignificante. No entanto, aquele gesto mínimo implicava uma escolha importante. Três dedos significavam seguir os gregos; dois, manter as tradições russas. Citando mals uma vez Bourdieu, ‘ia identidade social está na diferença’ .
Outros estudos sobre a história do corpo também desafiam suposições tradicionais. Por exemplo, o livro de Peter Brown The Body and Society (1988) ajudou a solapar a visão convencional do ódio cristão ao corpo. O mesmo foi feito por Holy Feast and Holy Fast (1987), de Caroline Bynum, discutido anteriormente (ver p.67) como exemplo de história das mulheres, mas igualmente importante por Sua discussão sobre o corpo e o alimento como meio de comunicação.
Como observou Roy Porter, um dos pioneiros do campo, a rápida ascensão do interesse pelo assunto sem dúvida alguma foi encorajada pela disseminação da Aids, que chamou a atenção para “a vulnerabilidade do corpo moderno”. O aumento do interesse pela história do corpo segue paralelo ao interesse pela história do gênero (ver p.65-6). No entanto, as referências ao corpo presentes nas Obras dos teóricos discutidos no começo deste capítulo sugerem uma explicação mais profunda para uma tendência mais gradual. A discussão de Mikhail Bakhtin sobre cultura popular na Idade Média, por exemplo, tem muito a dizer sobre corpos grotescos e especialmente sobre o que o autor descreveu como “o estrato corporal inferior”. Na história de Norbert Elias sobre o autocontrole, estava implícita, se não explícita, uma preocupação com o corpo.
Na obra de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, os suportes filosóficos do estudo sobre o corpo tornam-se visíveis. Como o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, Foucault e Bourdieu romperam com a tradição filosófica que remontava a Descartes e separava 0 corpo da mente, a ideia do “fantasma na máquina’ como descreveu galhofeiramente o filósofo inglês Gilbert Ryle.
O conceito de habitus, de Bourdieu, foi expressamente designado para cobrir o intervalo ou para evitar a oposição simples entre mentes e corpos.
Fonte: BURKE, Peter. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 94-97

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Em 2005, Eliane Brum entrevistou para a Época o Dr. Diaulas. E eu li. E me impressionei. O então promotor lida de forma muito sóbria com temas delicados, cujas discussões não podem ser simplificadas.

Da entrevista (que segue abaixo) para hoje, Diaulas seguiu sua carreira pública e ano passado, aos 54 anos, foi nomeado desembargador do TJDFT. Em paralelo, a vida acadêmica é profícua, e inclui participação em grupos de pesquisa, a escrita de artigos, a atividade docente e diretora. De fato, seu curriculum lattes demonstra uma atividade febril. Pós doc que coordena o curso de direito respeitadíssima UCB, e ao mesmo tempo integra o comitê de ética da faculdade de medicina da UNB, é membro de conselhos editoriais sérios, enfim. É um currículo não somente político, como se costuma esperar dos advogados que galgam posições como a que ele se encontra.
Image result for as sessoes helen huntForam doze anos da entrevista abaixo para cá. E os assuntos nela contidos seguem como tabu no Brasil. Nem mesmo com a exibição do primiadíssimo filme “As Sessões” (já fica a indicação!), em 2012, questões como a sexualidade de deficientes, e o surgimento de uma demanda profissional especializada que ofereça alternativas concretas à questão permanecem no silêncio da sociedade.
Segue a entrevista, para abrir a cabeça de quem nunca pensou sobre tais assuntos, e quem sabe trazer a superfície das casas conversas sobre uma sociedade que respeita as diferentes condições humanas.
(Arnaldo)

Autor de interpretações ousadas da lei, ele se prepara para enfrentar dois tabus: eutanásia e sexo para pessoas com paralisia cerebral

O promotor do Distrito Federal Diaulas Costa Ribeiro tornou-se uma voz singular no mundo pouco permeável a mudanças da Justiça brasileira. A Pró-Vida, promotoria de Direito Médico e Biodireito, idealizada e coordenada por ele, autoriza há anos a troca de sexo para transexuais e a interrupção da gestação de fetos sem cérebro. Com o mesmo empenho, já processou dezenas de profissionais de saúde por erros médicos. Entre os casos mais famosos, destacam-se o do ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana Joaquim Roberto Costa Lopes, que deixou uma paciente em estado vegetativo, e o da acusação por duplo homicídio do falso cirurgião plástico Marcelo Caron.

Corajoso, polêmico (e vaidoso em igual medida), Diaulas coleciona na mesma proporção fãs e desafetos. Popular pelos temas que enfrenta, é um caso raríssimo de homem da Justiça que distribui autógrafos pela rua. Nascido na roça, alfabetizado pela tia, ex-datilógrafo e ex-bancário, orgulha-se de ser dono de uma biblioteca com alguns milhares de livros jurídicos. Entre as preciosidades, uma edição francesa de 1883 de Madame Bovary, composta do romance e do processo por imoralidade movido contra seu autor, Gustave Flaubert, pelo governo da França. Da Europa, onde mantém um intercâmbio acadêmico com diversas universidades, vem a base jurídica para as interpretações mais ousadas da lei. Mas são as pessoas que batem à sua porta com queixas variadas que lhe dão a percepção das necessidades do novo século não-contempladas numa leitura mais ortodoxa do Código Penal.

Diaulas se prepara agora para botar a mão em dois vespeiros: a eutanásia e a garantia de acesso ao sexo por pessoas com paralisia cerebral. Como tudo o que faz, espera muito barulho no caminho. Na segunda-feira, embarcou para uma temporada acadêmica de três meses na Europa, onde dará aulas de Direito Penal no programa de pós-graduação Erasmus Mundus, da União Européia. Antes, recebeu ÉPOCA em sua casa, em Brasília, para a seguinte entrevista.

Diaulas Costa Ribeiro

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Dados pessoais
Mineiro de Monte Carmelo, solteiro, 42 anos, uma filha

Carreira
Promotor do Distrito Federal, idealizador da Promotoria Pró-Vida, sobre temas de Direito Médico e Biodireito, doutor em Direito Penal pela Universidade Católica Portuguesa, pós-doutor em Medicina pela Faculdade Complutense de Madri, seis livros publicados sobre Ministério Público e Biodireito

ÉPOCA – O senhor mexe com as grandes questões da Bioética. Quando e como percebeu que estes são os temas que iriam desafiar a Justiça?
Diaulas Costa Ribeiro –
Quando estava na Europa, fazendo o doutorado, nos anos 90. Saí do Brasil com essas idéias, mas só lá fora percebi que havia interesse em me ouvir. Percebi que os problemas do século XXI seriam de inserção e proteção de Direitos Humanos. Questões sobre como é duro ter sido estuprada e ter de abrir mão de sua intimidade para ir à Justiça pedir autorização para abortar. Sobre como deve ser triste você ter uma falta de sincronia entre seu corpo e sua sexualidade e descobrir que você não é gay, não é homem, não é mulher, não sabe quem você é. Sobre como é triste não ter o direito de decidir o lugar de sua morte, se vai ser numa UTI ou em sua cama, com a pessoa que você gosta segurando a sua mão. Percebi que a Justiça nunca havia pensado nesses temas e que, logo, teria de dar respostas a estas novas demandas. Comecei então a fazer um plano para o Ministério Público, que na minha volta resultou na Pró-Vida, uma promotoria de Direito Médico e Biodireito, com dois médicos-legistas e um odontolegista, além de uma equipe de apoio. Investigamos 90% do que mandamos para a Justiça. As pessoas chegam sem advogado, sem marcar hora, falando a língua que sabem.
ÉPOCA – O senhor vai criar um protocolo para garantir o acesso ao sexo a pessoas com paralisia cerebral grave. Como será isso?

Diaulas – Nós defendemos direitos sexuais para todo mundo, para os presos na cadeia, os adolescentes da Febem. Mas ninguém pensa que as pessoas com lesões cerebrais têm sexualidade normal, têm desejo, têm ereções, têm loucuras. Elas têm uma aparência física que pode não ser bonita, têm automatismos, muitas não têm coordenação motora para se masturbar. Estes são os verdadeiros excluídos da sexualidade. Familiares começaram a me procurar para contar essas histórias, uma mãe me contou, morrendo de vergonha, que é obrigada a masturbar o filho. Pais disseram que levam os filhos a prostitutas e têm medo de ser presos por isso. Então comecei a pensar no que poderia fazer por essas pessoas, em como garantir o direito fundamental que é o do exercício da sexualidade. Pelo Artigo 227 do Código Penal, o pai ou a mãe que levarem seu filho a uma prostituta podem ser condenados a até três anos de prisão pelo crime de mediação (”induzir alguém a satisfazer à lascívia de outrem”). Mas tornar possível o exercício da sexualidade para alguém que não tem outro meio de exercê-la não é prostituição. O papel do MP, neste caso, é viabilizar o acesso e afastar o crime. Vou fazer um protocolo em que o MP se torna o avalista deste excludente de crime, mostrando que não há tipicidade penal neste caso. A figura jurídica que ampara esta tese é a do estado de necessidade, o mesmo que permite o furto de um pão para comer. A Organização Mundial da Saúde preconiza que saúde não é falta de doença, mas o bem-estar físico e mental. Portanto, esta será uma conduta de saúde.
”Uma mãe me contou que é obrigada a masturbar o filho, pais
disseram que levam os filhos a prostitutas e têm medo de ser
presos por isso. O papel do MP é viabilizar o acesso e afastar o crime”
ÉPOCA – Mas como isso vai funcionar na prática?
Diaulas –
Vou procurar as associações de profissionais do sexo e fazer uma triagem, com um cadastro das mulheres que aceitam ter relações sexuais com esse tipo de paciente. Por outro lado, vamos reunir as famílias que querem esse tipo de serviço. E então criar condições de segurança, com a garantia de controle de saúde e o uso obrigatório de preservativos. No primeiro momento, vou iniciar com pessoas com paralisia cerebral, homens. Depois, pretendo ampliar para doentes mentais, o que deve causar maior resistência. E, se houver demanda para isso, vou estender o programa para mulheres com o mesmo tipo de problema. Vou aproveitar esta viagem à Europa – e quero esclarecer que todas as despesas saem do meu bolso – para visitar programas semelhantes. Um deles, na Holanda, foi criado por uma enfermeira para garantir sexo a pacientes com problemas neurológicos. O hospital local fez um convênio com o serviço. E os pacientes são recebidos com carinho. Neste caso, não é comprar sexo, mas cuidado.
ÉPOCA – Não há risco de o MP ser chamado de cafetão?
Diaulas
– Essas pessoas não têm cidadania senão aquela que a gente consegue imaginar para elas. Não estou preocupado com preconceitos. Já enfrentei isso com a luta dos transexuais. Temos de humanizar o debate. Eles não são bonitos como astros de cinema, mas têm desejo. Quem for contra que faça a experiência de suspender sua vida sexual para se colocar no lugar deles. Não o celibato por opção, mas o compulsório. Quem nunca teve impulso sexual que atire a primeira pedra.
#Q#
ÉPOCA – O senhor defende o papel social da prostituta…
Diaulas
– Sou contra a prostituta escravizada, explorada, que tem um rufião. Minha idéia de prostituta é a que tem um papel social. É uma profissão como qualquer outra. Sei que o movimento feminista pode entender mal o meu projeto, mas a prostituta não vende a si mesma nem vende suas partes sexuais ou o seu corpo. Vende seus serviços. Não há nenhuma diferença entre ela e qualquer outro prestador de serviços. Quem protesta dizendo que a prostituta é humilhada ou degradada não é capaz de compreender qual é o objeto desse contrato. O corpo e a dignidade da mulher não são oferecidos ao mercado. Ela pode contratar a prestação dos seus serviços sem que o faça em detrimento de si mesma. Não há sequer incompatibilidade entre a preservação dos Direitos Humanos e a prestação remunerada de serviços sexuais por pessoa adulta. Ofensa aos Direitos Humanos é restringir a autonomia e a liberdade das mulheres a esse negócio.
ÉPOCA – O senhor teve iniciação sexual com uma prostituta?
Diaulas –
Tive. Eu vivia na zona rural e isso era normal. Foi uma pessoa muito importante naquele momento da minha vida. Eu era um menino de 12 para 13 anos, não sabia nem por onde começar a coisa e ela disse: vem cá que eu te ensino tudo, não se preocupe com nada, deixe as coisas acontecer. Uma pessoa humilde, modesta, muito simples, que era tudo o que eu precisava naquele momento. Compreendeu a minha angústia. E me ajudou. Não tenho preconceito contra isso. Depois da maioridade, nunca mais saí com prostitutas no Brasil. E aqui eu coloco uma vírgula, porque vivi no estrangeiro por anos, não vou dizer que não fiz minhas estripulias por lá. No Brasil sempre tive namoradas. Mas, quando precisei de prostitutas, fui muito bem atendido.
ÉPOCA – Mudando de assunto, o senhor afirma que Terri Schiavo não é um caso de eutanásia, mas de Suspensão de Esforço Terapêutico (SET). A diferença é semântica?
Diaulas –
A eutanásia pode ser vista como um gênero de assistência à saúde no fim da vida, mas não foi essa a idéia inserida na opinião pública. Virou sinônimo de nazismo, de matar velhinhos e doentes. Da mesma forma que a palavra aborto virou um monstro, as pessoas fazem sinal-da-cruz quando a ouvem. É preciso tirar o estigma da expressão ou encontrar uma expressão paralela. Não adianta seguir neste caminho, com palavras como ortotanásia ou distanásia, o sufixo ”tanásia” causa arrepios. É preciso criar soluções novas e inteligentes para fenômenos mais antigos. É como uma empresa que está desgastada na opinião pública e pode continuar a mesma se trocar de nome. Esta será minha próxima bandeira.
ÉPOCA – No que consiste a SET?
Diaulas –
Primeiro, não é crime. Não há reação contra a vida. É a natureza que extingue a vida no seu caminho normal. A SET evita a medicalização da morte. As pessoas já estão mortas, mas são mantidas por equipamentos, transformando o que é chamado de ”boa morte” numa morte horrorosa. Isso é aceito em todo o mundo, em nome da autonomia do paciente. No Brasil também existe base jurídica para isso, mas nunca foi feito do ponto de vista formal. As decisões ocorrem na esfera privada da família, dentro de casa. Estamos preparando um protocolo para a SET, com médicos e bioeticistas, formando uma linha para entrar nesse assunto com bases formadas.
ÉPOCA – O que há por trás dessa obsessão pela vida a qualquer preço?
Diaulas
– Os espanhóis chamam essa obstinação de manter o paciente vivo sem vida de ”encarniçamento terapêutico”. Ou seja, reduz a pessoa à carne pura, não à alma. Deixam de ser gente e são reduzidos a um monte de tecidos. O coração bate, mas a pessoa já desapareceu há muito tempo.
ÉPOCA – Por que é tão difícil aceitar a morte?
Diaulas –
Primeiro porque as pessoas passaram a acreditar que existe vida eterna na Terra. Segundo, porque a Medicina passou a dar a idéia de que era possível a vida eterna na Terra. As pessoas começaram a entender a Medicina como um instrumento de vida e esqueceram que o médico é fundamental na morte. A morte passou a ser uma falência da estrutura social, da obra divina ou da Ciência. Esqueceram que a vida eterna só existe se houver uma perspectiva religiosa, mas essa possibilidade não existe para a Ciência. Morrer é muito triste, mas gera muito mais angústia se você viver numa cultura que divulga a idéia de que morrer é inaceitável.
ÉPOCA – Morrer virou antinatural?
Diaulas –
Exato. A coisa mais natural da vida virou antinatural. Um sacrilégio, um pecado. Temos de repudiar a morte através do trauma, da guerra civil que vivemos no Brasil. Mas não a ”morte oportuna”, em que morrer é chegar também a um bom porto, ao outro lado do rio.
ÉPOCA – Essa resistência tem a ver com uma idéia de Medicina que encara a morte como fracasso?
Diaulas –
Os médicos foram educados para ser deuses e a morte é a prova de que são humanos. Não têm culpa de ser arrogantes, são formados pelas faculdades de Medicina para ser arrogantes. Os modelos de ditadura foram caindo um a um. Na política, dentro de casa, onde o chefe de família perdeu o lugar, até a ditadura de Deus caiu. Tudo é negociado. Você faz uma troca, uma promessa, pede uma coisa, dá outra. O último foco de ditadura é o do médico com o paciente. O médico manda, o paciente obedece. Os médicos precisam ser formados para estabelecer dois diálogos. Um com o paciente, outro com a morte. Deixar transparecer que vão estar ao lado do paciente quando chegar o momento em que não vão mais poder fazer nada. Estar ao lado também para ajudar a morrer. A SET entra na esfera do direito clínico, um direito novo da relação médico-paciente na condução do diagnóstico e do prognóstico. É a expressão da autonomia, um conceito já bem fundamentado. Aceito esse remédio, não aceito a intubação, quero ou não quero oxigênio. E assim por diante. Do que é necessário ter certeza é sobre a vontade do paciente. Se ele não a deixou expressa numa escritura pública, num testamento vital, então é preciso provar por testemunhas qual era o desejo dele. Estou sendo procurado por pessoas que contam que seu pai ou mãe morreu na UTI pedindo para ir para casa. Mas a maior parte de nossa clientela não serão velhos, mas jovens, vítimas de trauma. ASET é um ato médico de cuidado.
ÉPOCA – O senhor não teme novos problemas com a Igreja Católica?
Diaulas –
Quem me estimulou a tocar esta questão adiante foi o papa João Paulo II, com seu exemplo, ao deixar o hospital para morrer no Vaticano, perto de quem gostava, sem aceitar o esforço terapêutico. Essa última encíclica silenciosa será a mais importante para o mundo não-católico. Sem dúvida, uma grande contribuição para a causa.
FONTE: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI50183-15228,00-DIAULAS+COSTA+RIBEIRO+PROMOTOR+DE+POLEMICA.html

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