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Misturar para confundir, dividir para conquistar: O caldeirão ferve e a Bruxa ri

Por Arnaldo V. Carvalho

Aos que foram atentos a história do antigo Império Romano, devem saber que sua origem vitoriosa ocorreria com o fim da República de Roma, após o famoso general ditador Caio Júlio César (100a.C-44a.C.) anexar as Gálias (basicamente toda a Europa Ocidental) e reclamar na capital poder absoluto para si.

César desenvolveu uma estratégia quase infalível, que permitiu a Roma anexar territórios inteiros com um uso de força minimizado. A tática divide et vinces* foi descrita pelo César (embora já utilizada com sucesso por Alexandre o Grande e posteriormente por Napoleão Bonaparte) tratava de uma guerra de informação, onde ele basicamente enviava espiões que, infiltrados nos grupos de interesse, tratavam de plantar a “semente da discórdia” entre clãs rivais, criando todo tipo de intrigas, enquanto enviavam preciosas informações que permitiam a ele estudar as características e pontos fracos de cada povo.

Plantar confusão nos dias de hoje envolve misturar conceitos, fatos, etc., e é aí que se forma o caldo das divisões. Formam-se divisões em assuntos os quais na verdade todos querem soluções reais. Ou seja, interessam a todos, dizem respeito a todos, e podem sim alcançar a todos. A mistura quente, que confunde situações tangentes, é a dinamite da bruxa, como denuncia a música Na Pressão (1999), de Lenine (1959-).

Olho na pressão, tá fervendo
Olho na panela
Dinamite é o feijão cozinhando
Dentro do molho dela

A bruxa mexeu o caldo
Se liga aí, ô galera
Tá pingando na mistura
Saliva da besta-fera

Trecho da música Na Pressão, de Lenine.

Temos aí uma multiplicidade de violências institucionalizadas e culturalizadas, e na pressão que o medo provoca, a bruxa ri. Fatos ocorridos e que vão para as notícias de jornal – assassinatos, torturas, discriminações, estupros, roubos, etc., se juntam ao que não vai estar na mídia – como o desprezo e cada um deles é dinamite, cada um deles se soma, temperada pela saliva da besta-fera do ódio, ácida, quente. A bruxa é a anti-vida sorrindo diante de nossas divisões.

O que tenho visto no caso Marielle Franco, por exemplo, é icônico. Tenho recebido em meus grupos sociais uma série incrível de comentários onde diferentes pontos reivindicatórios – todos legítimos – entram em choque.

Uma das maiores confusões é em relação à atenção que se têm dispensado à execução da socióloga versus a de todos os outros assassinatos cometidos diariamente no país. Me repetindo em relação a comentário que fiz em cima de um post do Facebook:

“Nenhuma morte deve passar despercebida. Cada uma deve ser cobrada pela particularidade que a envolve.

Morreu depois de ser assaltado? É uma cobrança, não pode acontecer.

Morreu executada porque se meteu em área “dominada”? É outra cobrança.

Morreu de fome? É outra cobrança.

Matou? É outra cobrança (afinal a sociedade tem sim ligação com a origem de pelo menos a maior parte dos assassinos)

Mandou matar? Mais uma cobrança.

Consumiu o produto que gera uma cadeia de mortes? Outra cobrança.

Enfim, para cada uma deve haver da sociedade uma cobrança. Por respostas, por atitudes.

Misturar tudo não ajuda. Dividir o povo não ajuda”.

Cada pessoa e/ou grupo, que além de se manifestar precisa viver sua vida – trabalhar, estar com os seus em suas alegrias e doenças, cuidar de si, sua mente e corpo, etc. – tem todo o direito de escolher seus temas, e um não diminui o outro. Tudo é muito, muito grave e precisa igualmente de atenção.

Um amigo fez o outro tipo de afirmativa-cobrança, na verdade já uma mistura entre a primeira que comentei – por que a morte dela está parecendo mais importante que outras), e uma segunda: esse barulho todo é porque ela era do partido X (no caso, o PSOL, que se auto-define como um partido “de esquerda”). Minha resposta segue a mesma linha, é simples (em relação à escrita original, adicionei links aqui no blog):

“Amigo, não sou PSOL nem nada disso. Nenhuma morte deve passar em branco, nenhuma.

Agora, você pode usar a memoria e se perguntar: por que o medico morto a facada na Lagoa Rodrigo de Freitas (2015) teve visibilidade da imprensa e um monte de gente assassinada de forma barbara, que no máximo aparece em jornais estilo “O Povo” não tem? E a juiza executada com 21 tiros (2011) em Niterói?

O que traz visibilidade de imprensa a uma morte?

Te dou duas hipóteses: ou o crime aconteceu em área de alta circulação dos grupos privilegiados (caso do médico) ou a pessoa executada tinha algum tipo de atuação extremamente incomoda, talvez sabendo coisas que “não deveria saber”. Foi o caso da juíza e é o caso da Marielle.

Vejam mais sobre a briga da juíza Patrícia Acioli com o lado podre da polícia

Ambas foram mortas no embate com a “banda podre” da Polícia Militar, e em breve tenho certeza que pessoas começarão a ligar os pontos.

Não esqueça meu amigo que tivemos um colega (no meu caso amigo) morto por assalto no mês passado, e assassinato seguido de roubo é um serio problema a ser denunciado e execução planejada de queima de arquivo é outro problema.

Ambos precisam parar e para isso devemos cobrar das autoridades. Mas por favor não vamos cair no erro de misturar as coisas”.

Nem misturar, nem diminuir qualquer um dos fatos.

Os temas reivindicatórios devem ser sempre claros, para não confundir e enfraquecer. Aqui estamos claramente conversando sobre o eixo da “violência”, e suas ramificações precisam ser desembaraçadas se quisermos enxergar as situações com lucidez.

Então, caros leitores, máxima atenção: se continuarmos confundindo, seguiremos divididos, e permaneceremos presas fáceis da Bruxa que está a solta.

Arnaldo V. Carvalho pai, terapeuta, pedagogo, cidadão.

 

* A célebre frase de Júlio César já havia sido citada por mim no artigo “Risada sem Graça” na ocasião do golpe contra a presidência da república eleita por voto popular. Possivelmente a citarei outras vezes, visto que esse é o principal ingrediente do caldo da Bruxa que destrói a humanidade e seus povos.

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Quando mestres livros e memórias se vão… E é preciso encarar tudo isso

Por Arnaldo V. Carvalho*

Passou por esta vida meu querido mestre Douglas Carrara. Encerrando-se a passagem do sol pelo signo de Leão em fins de agosto, despediu-se após 74 anos dedicados à Vida, em seu sentido mais verdadeiro, intenso, puro.

Mais do que qualquer outro professor que tenha tido, a naturopatia era Douglas: o antropólogo, botânico, fitoterapeuta, tinha na visão científica sua forma de ir ao encontro e defender a natureza e os povos que nela vivem mais integrados do que nós. Sertanejos, indígenas, seus fazeres e saberes, e o meio que os cercava foram a principal bandeira deste homem que se mostrou incansável por tantas e tantas décadas.

Douglas também foi responsável pelo Naturo-data, o banco de dados sobre plantas medicinais mais completo que já vi. Escrito inteiramente em uma “língua morta” de computador, Douglas preparava-se para finalmente ver seu projeto, executado de forma rigorosa, ganhar asas sendo convertido para Java(1) através de uma parceria. Torço que sua esposa Jania e seus filhos levem o projeto adiante, pois é um bem da humanidade, e creio, seria de profundo desejo dele.

Primeiras memórias

Lembro-me de meu primeiro contato com o Professor Douglas. O Centro de Estudos de Naturopatia Aplicada (CENA) aguardava por um palestrante, que falaria aos novos alunos, numa espécie de cerimônia para marcar o início da formação. Eu era um dos alunos que aguardava e, no atraso, um dos presentes começou a conversar conosco, demonstrando grande conhecimento acerca dos saberes naturopáticos.  Lá estava aquele senhor magro, barbado, óculos e fala pausada, a costurar tramas de pensamentos cuja profundidade se fazia alcançar pela eloquência. Quando a coordenadora do curso desistiu de aguardar o palestrante, pediu ao Douglas que falasse a nós. Ele já falava, e nós já estávamos todos encantados. Lembro de olhar para os olhos de algumas colegas, e todos – como o meu – brilhavam.

A fitoterapia era a área mais forte na formação do CENA. Dedicada a ela, uma constelação de professores atuou diretamente conosco por um ano e meio somente nos desdobramentos deste assunto: o biólogo e raizeiro Ary Moraes, o fitoterapeuta Fernando Fratane, o médico suíço Dario Laüppi e o Professor Douglas. Quando as disciplinas de botânica e fitoterapia começaram, foi Douglas quem nos introduziu a esse conhecimento. Estudamos a taxonomia vegetal com alguém que falava dela como se referisse a parentes bem conhecidos. O conhecimento fluía naturalmente dele para nós, e de suas lições, nunca esqueci.

A consciência das políticas nacionais e internacionais de proteção à fauna, à flora e aos povos da floresta, a biopirataria, o indigenismo, os bancos de sementes e DNA vegetal, bem como os últimos estudos nestas e outras áreas, eram assuntos que permeavam os conteúdos de aula. Assim, descobríamos como identificar labiadas ou asteráceas, que vegetais produziam alcalóides, mucilagens, terpenóides, etc., onde cada espécie crescia, como se aclimatava, que usos tradicionais se observava em diferentes grupos sociais no Brasil e mundo, mas aprendíamos também sobre um todo na interação humanidade-natureza. Após a formatura de minha turma, o CENA fechou. Em uma cascata que levou embora uma série de cursos similares, na mesma época.

A velha naturopatia, alternativa mais a margem das profissões de saúde que qualquer outra, por se aproximar “perigosamente” das falas e saberes de raizeiros, rezadores, parteiras e indígenas, daria lugar à renovada Naturologia, que fugia de competir com a alopatia e se firmava pelas evidências científicas produzidas no loco acadêmico.

Praxis naturopática

Mas minha atividade continuou, e meus contatos e aprendizados com Professor Douglas persistiram… até hoje. Douglas me narrou muitos casos de tratamento, verdadeiros mistérios por ele desvendados após exaustivas pesquisas. E me enveredou por esse espírito detetive, que habitua meu caminho profissional e me torna bastante dedicado em compreender um caso clínico com profundidade bem além dos protocolos. Esse espírito investigativo nos aproximava muito e rendeu muitos encontros entusiasmados, onde um inspirava o outro em novas elaborações e conjecturas no resolver de casos de saúde.

No tempo do Portal Verde(2) convidei-o mais de uma vez para dar palestras, cursos, participar de debates. Juntos, estivemos em congressos, e seguimos trocando ideias confabulando oportunidades de levar a público o conhecimento sobre a relação entre o ser humano e as coisas da natureza. E assim ele seguiu sendo meu mestre informal, de quem aprendi e por quem gostaria de ter feito muito mais do que fiz.

A partida do meu professor decreta meu próprio fim na atividade profissional que abracei por bastante tempo: a naturopatia. É um momento difícil, mas são horas.

O fim da minha naturopatia

Até aqui, guardei meu trabalho de curso sobre a Salvia officinalis, corrigido por ele. Chegou a hora de me despedir. Assim como este simplório trabalhinho, o restante de minha biblioteca sobre plantas medicinais, alimentação natural, geoterapia e outros temas relevantes da naturopatia, que levei vinte anos compondo com autores selecionados e algumas preciosidades, vão embora para outros ares, outras mentes – e que possam ser tão úteis, lidos e luminosos como foram para mim.

Com os livros, vai-se embora mais um naturopata, atrás de seu mestre. Um lado inteiro de mim.

Talvez possa dizer que me despedi mais aos poucos do que ele. Já não sou um verdadeiro naturopata. Meu contato com a natureza tem se tornado cada vez mais circunscrito. Tenho feito pouco pela causa natural, já não divulgo minha expertise profissional e apenas aqueles que me conhecem há mais tempo ainda me procuram para orientação profissional nesses termos. A medida que reduzi minha experiência ao contexto da somatopsíquica(3), foram ficando para trás meus anos de estudos sobre ervas medicinais, alimentação, e técnicas diversas oriundas da natureza, aprendidas sobretudo na fusão Carrariana da etnomedicina com a ciência.

Agora, me restará  buscar fundo a naturopatia e Prof. Douglas em recônditos de mim, para não permitir a insipidez da mente humana dissociada do corpo natural, do indivíduo e de Gaia.

***

* Arnaldo V. Carvalho: pai, terapeuta, gente. Ex-naturopata.

Notas

(1) Java é uma linguagem de computador, amplamente utilizada na atualidade, e que pode permitir ao Projeto Naturo-data alcançar finalmente a Internet.

(2) Portal Verde é um projeto de fomento à saúde e a qualidade de vida iniciado em 1999 por mim e dois parceiros (Luiz Otávio Miranda e Altamiro V. Carvalho). Entre 2000 e 2008 funcionou como centro de terapias em Niterói. Desde seu fechamento, permaneceu na Internet como um site divulgador de notícias relacionadas à uma vida naturalmente mais saudável.

(3) Somatopsíquica é como podemos chamar a compreensão de como os processos corporais (soma) interferem na mente (psiquê). É o inverso da Psicossomática. Atualmente basicamente meu trabalho consiste em observar como a mente transfere informações para o corpo e como este lhe retorna. O trabalho terapêutico passa essencialmente pela compreensão desse endo-relacionamento, e de como isso se comunica com o meio externo, em especial nos interrelacionamentos.

Mais sobre Douglas Carrara:

http://www.bchicomendes.com/cesamep/poscurri.htm

http://www.recantodasletras.com.br/autores/douglascarrara

http://www.constelar.com.br/constelar/121_julho08/mapatestedouglas_mapa2.php

 

 

 

 

 

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Em seu livro “O que é História Cultural”, Peter Burke declara, a respeito dos estudos da Nova História Cultural (NHC, os estudos combinados da historiografia e da antropologia dos anos de 1990 para cá) acerca do corpo:
Se existe um domínio da NHC que hoje é muito próspero, mas que pareceria quase inconcebível uma geração atrás, este é a história do corpo”.
Fiz questão de copiar o trecho do livro a respeito do tema, repleto de referências de autores importantes, para compartilhar com vocês leitores e os interessados em conhecer mais esse corpo-cultura-história da humanidade. (Arnaldo)
A história do corpo
Se existe um domínio da NHC que hoje é muito próspero, mas que pareceria quase inconcebível uma geração atrás —
em 1970, digamos —, este é a história do corpo. As raras contribuições feitas nesse campo em décadas anteriores eram pouco conhecidas ou consideradas marginais.
Da década de 1930 em diante, por exemplo, o sociólogo-historiador brasileiro Gilberto Freyre estudou a aparência física dos escravos tal como registrada em anúncios de fugitivos publicados nos Jornais do século XIX. Observou as referências às marcas tribais que revelavam de que parte da África os escravos provinham, às cicatrizes dos repetidos açoitamentos e aos sinais específicos do trabalho, tais como a perda de cabelo em homens que levavam cargas muito pesadas na cabeça. Da mesma forma, um estudo publicado em 1972 por Emmanuel Le Roy Ladurie e dois
colaboradores usou os registros militares para estudar o físico dos recrutas franceses no século XIX, observando, por exemplo, que eles eram mais altos no Norte e mais baixos no Sul, diferença de altura que quase certamente se deve a diferenças de nutrição.
Em compensação, do início da década de 1980 em diante, uma corrente cada vez maior de estudos concentrou-se nos corpos masculino e feminino, no corpo como experiência e como símbolo, nos corpos desmembrados, anoréxicos, atléticos, dissecados e nos corpos dos santos e dos pecadores. A revista Body and Society, fundada em 1995, é um fórum para historiadores e sociólogos. Já se dedicaram livros à história da limpeza dos corpos, da dança, dos exercícios, da tatuagem, do gesto. A história do corpo desenvolveu-se a partir da história da medicina, mas os historiadores da arte e da literatura, assim como os antropólogos e sociólogos, se envolveram no que poderia ser chamado de “virada corporal” — como se já não houvesse tantas viradas que os leitores correm 0 risco de ficar tontos.
Alguns dos novos estudos podem ser mais bem descritos como tentativa de reivindicar outros territórios para o historiador. A história do gesto é um exemplo óbvio. O medievalista francês Jacques Le Goff inaugurou 0 campo; um grupo Internacional de acadêmicos, de classicistas a historiadores da arte, contribuiu também, enquanto um ex-aluno de Le Goff, Jean-Claude Schmitt, dedicou um trabalho importante ao gesto na Idade Média. Schmitt percebeu o crescente interesse pelo tema no século XII, que deixou um corpus de textos e imagens que lhe permitiu reconstituir gestos religiosos, como rezar, e gestos feudais, como armar um cavaleiro ou prestar homenagem a um
senhor. Ele argumenta, por exemplo, que rezar com as mãos postas (e não com os braços abertos) e também se ajoelhar para rezar eram transferências para o domínio religioso do gesto feudal de homenagem, ajoelhar-se diante do senhor e colocar as mãos entre as dele.3
Um exemplo vindo da história russa mostra como é importante prestar atenção histórica a diferenças aparentemente pequenas. Em 1667, a Igreja Ortodoxa Russa cindiu-se em duas, quando um conselho reunido em Moscou apoiou inovações recentes e excomungou os defensores da tradição, mais tarde conhecidos como “velhos crentes”. Uma das questões em debate era se o gesto de abençoar deveria ser feito com dois dedos ou três. Não é difícil imaginar como os historiadores racionalistas de épocas posteriores descreveram tais debates, encarando-os como típicos da mentalidade religiosa ou supersticiosa, distante da vida real e incapaz de distinguir 0 significante do insignificante. No entanto, aquele gesto mínimo implicava uma escolha importante. Três dedos significavam seguir os gregos; dois, manter as tradições russas. Citando mals uma vez Bourdieu, ‘ia identidade social está na diferença’ .
Outros estudos sobre a história do corpo também desafiam suposições tradicionais. Por exemplo, o livro de Peter Brown The Body and Society (1988) ajudou a solapar a visão convencional do ódio cristão ao corpo. O mesmo foi feito por Holy Feast and Holy Fast (1987), de Caroline Bynum, discutido anteriormente (ver p.67) como exemplo de história das mulheres, mas igualmente importante por Sua discussão sobre o corpo e o alimento como meio de comunicação.
Como observou Roy Porter, um dos pioneiros do campo, a rápida ascensão do interesse pelo assunto sem dúvida alguma foi encorajada pela disseminação da Aids, que chamou a atenção para “a vulnerabilidade do corpo moderno”. O aumento do interesse pela história do corpo segue paralelo ao interesse pela história do gênero (ver p.65-6). No entanto, as referências ao corpo presentes nas Obras dos teóricos discutidos no começo deste capítulo sugerem uma explicação mais profunda para uma tendência mais gradual. A discussão de Mikhail Bakhtin sobre cultura popular na Idade Média, por exemplo, tem muito a dizer sobre corpos grotescos e especialmente sobre o que o autor descreveu como “o estrato corporal inferior”. Na história de Norbert Elias sobre o autocontrole, estava implícita, se não explícita, uma preocupação com o corpo.
Na obra de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, os suportes filosóficos do estudo sobre o corpo tornam-se visíveis. Como o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, Foucault e Bourdieu romperam com a tradição filosófica que remontava a Descartes e separava 0 corpo da mente, a ideia do “fantasma na máquina’ como descreveu galhofeiramente o filósofo inglês Gilbert Ryle.
O conceito de habitus, de Bourdieu, foi expressamente designado para cobrir o intervalo ou para evitar a oposição simples entre mentes e corpos.
Fonte: BURKE, Peter. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 94-97

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Em 2005, Eliane Brum entrevistou para a Época o Dr. Diaulas. E eu li. E me impressionei. O então promotor lida de forma muito sóbria com temas delicados, cujas discussões não podem ser simplificadas.

Da entrevista (que segue abaixo) para hoje, Diaulas seguiu sua carreira pública e ano passado, aos 54 anos, foi nomeado desembargador do TJDFT. Em paralelo, a vida acadêmica é profícua, e inclui participação em grupos de pesquisa, a escrita de artigos, a atividade docente e diretora. De fato, seu curriculum lattes demonstra uma atividade febril. Pós doc que coordena o curso de direito respeitadíssima UCB, e ao mesmo tempo integra o comitê de ética da faculdade de medicina da UNB, é membro de conselhos editoriais sérios, enfim. É um currículo não somente político, como se costuma esperar dos advogados que galgam posições como a que ele se encontra.
Image result for as sessoes helen huntForam doze anos da entrevista abaixo para cá. E os assuntos nela contidos seguem como tabu no Brasil. Nem mesmo com a exibição do primiadíssimo filme “As Sessões” (já fica a indicação!), em 2012, questões como a sexualidade de deficientes, e o surgimento de uma demanda profissional especializada que ofereça alternativas concretas à questão permanecem no silêncio da sociedade.
Segue a entrevista, para abrir a cabeça de quem nunca pensou sobre tais assuntos, e quem sabe trazer a superfície das casas conversas sobre uma sociedade que respeita as diferentes condições humanas.
(Arnaldo)

Autor de interpretações ousadas da lei, ele se prepara para enfrentar dois tabus: eutanásia e sexo para pessoas com paralisia cerebral

O promotor do Distrito Federal Diaulas Costa Ribeiro tornou-se uma voz singular no mundo pouco permeável a mudanças da Justiça brasileira. A Pró-Vida, promotoria de Direito Médico e Biodireito, idealizada e coordenada por ele, autoriza há anos a troca de sexo para transexuais e a interrupção da gestação de fetos sem cérebro. Com o mesmo empenho, já processou dezenas de profissionais de saúde por erros médicos. Entre os casos mais famosos, destacam-se o do ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana Joaquim Roberto Costa Lopes, que deixou uma paciente em estado vegetativo, e o da acusação por duplo homicídio do falso cirurgião plástico Marcelo Caron.

Corajoso, polêmico (e vaidoso em igual medida), Diaulas coleciona na mesma proporção fãs e desafetos. Popular pelos temas que enfrenta, é um caso raríssimo de homem da Justiça que distribui autógrafos pela rua. Nascido na roça, alfabetizado pela tia, ex-datilógrafo e ex-bancário, orgulha-se de ser dono de uma biblioteca com alguns milhares de livros jurídicos. Entre as preciosidades, uma edição francesa de 1883 de Madame Bovary, composta do romance e do processo por imoralidade movido contra seu autor, Gustave Flaubert, pelo governo da França. Da Europa, onde mantém um intercâmbio acadêmico com diversas universidades, vem a base jurídica para as interpretações mais ousadas da lei. Mas são as pessoas que batem à sua porta com queixas variadas que lhe dão a percepção das necessidades do novo século não-contempladas numa leitura mais ortodoxa do Código Penal.

Diaulas se prepara agora para botar a mão em dois vespeiros: a eutanásia e a garantia de acesso ao sexo por pessoas com paralisia cerebral. Como tudo o que faz, espera muito barulho no caminho. Na segunda-feira, embarcou para uma temporada acadêmica de três meses na Europa, onde dará aulas de Direito Penal no programa de pós-graduação Erasmus Mundus, da União Européia. Antes, recebeu ÉPOCA em sua casa, em Brasília, para a seguinte entrevista.

Diaulas Costa Ribeiro

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Dados pessoais
Mineiro de Monte Carmelo, solteiro, 42 anos, uma filha

Carreira
Promotor do Distrito Federal, idealizador da Promotoria Pró-Vida, sobre temas de Direito Médico e Biodireito, doutor em Direito Penal pela Universidade Católica Portuguesa, pós-doutor em Medicina pela Faculdade Complutense de Madri, seis livros publicados sobre Ministério Público e Biodireito

ÉPOCA – O senhor mexe com as grandes questões da Bioética. Quando e como percebeu que estes são os temas que iriam desafiar a Justiça?
Diaulas Costa Ribeiro –
Quando estava na Europa, fazendo o doutorado, nos anos 90. Saí do Brasil com essas idéias, mas só lá fora percebi que havia interesse em me ouvir. Percebi que os problemas do século XXI seriam de inserção e proteção de Direitos Humanos. Questões sobre como é duro ter sido estuprada e ter de abrir mão de sua intimidade para ir à Justiça pedir autorização para abortar. Sobre como deve ser triste você ter uma falta de sincronia entre seu corpo e sua sexualidade e descobrir que você não é gay, não é homem, não é mulher, não sabe quem você é. Sobre como é triste não ter o direito de decidir o lugar de sua morte, se vai ser numa UTI ou em sua cama, com a pessoa que você gosta segurando a sua mão. Percebi que a Justiça nunca havia pensado nesses temas e que, logo, teria de dar respostas a estas novas demandas. Comecei então a fazer um plano para o Ministério Público, que na minha volta resultou na Pró-Vida, uma promotoria de Direito Médico e Biodireito, com dois médicos-legistas e um odontolegista, além de uma equipe de apoio. Investigamos 90% do que mandamos para a Justiça. As pessoas chegam sem advogado, sem marcar hora, falando a língua que sabem.
ÉPOCA – O senhor vai criar um protocolo para garantir o acesso ao sexo a pessoas com paralisia cerebral grave. Como será isso?

Diaulas – Nós defendemos direitos sexuais para todo mundo, para os presos na cadeia, os adolescentes da Febem. Mas ninguém pensa que as pessoas com lesões cerebrais têm sexualidade normal, têm desejo, têm ereções, têm loucuras. Elas têm uma aparência física que pode não ser bonita, têm automatismos, muitas não têm coordenação motora para se masturbar. Estes são os verdadeiros excluídos da sexualidade. Familiares começaram a me procurar para contar essas histórias, uma mãe me contou, morrendo de vergonha, que é obrigada a masturbar o filho. Pais disseram que levam os filhos a prostitutas e têm medo de ser presos por isso. Então comecei a pensar no que poderia fazer por essas pessoas, em como garantir o direito fundamental que é o do exercício da sexualidade. Pelo Artigo 227 do Código Penal, o pai ou a mãe que levarem seu filho a uma prostituta podem ser condenados a até três anos de prisão pelo crime de mediação (”induzir alguém a satisfazer à lascívia de outrem”). Mas tornar possível o exercício da sexualidade para alguém que não tem outro meio de exercê-la não é prostituição. O papel do MP, neste caso, é viabilizar o acesso e afastar o crime. Vou fazer um protocolo em que o MP se torna o avalista deste excludente de crime, mostrando que não há tipicidade penal neste caso. A figura jurídica que ampara esta tese é a do estado de necessidade, o mesmo que permite o furto de um pão para comer. A Organização Mundial da Saúde preconiza que saúde não é falta de doença, mas o bem-estar físico e mental. Portanto, esta será uma conduta de saúde.
”Uma mãe me contou que é obrigada a masturbar o filho, pais
disseram que levam os filhos a prostitutas e têm medo de ser
presos por isso. O papel do MP é viabilizar o acesso e afastar o crime”
ÉPOCA – Mas como isso vai funcionar na prática?
Diaulas –
Vou procurar as associações de profissionais do sexo e fazer uma triagem, com um cadastro das mulheres que aceitam ter relações sexuais com esse tipo de paciente. Por outro lado, vamos reunir as famílias que querem esse tipo de serviço. E então criar condições de segurança, com a garantia de controle de saúde e o uso obrigatório de preservativos. No primeiro momento, vou iniciar com pessoas com paralisia cerebral, homens. Depois, pretendo ampliar para doentes mentais, o que deve causar maior resistência. E, se houver demanda para isso, vou estender o programa para mulheres com o mesmo tipo de problema. Vou aproveitar esta viagem à Europa – e quero esclarecer que todas as despesas saem do meu bolso – para visitar programas semelhantes. Um deles, na Holanda, foi criado por uma enfermeira para garantir sexo a pacientes com problemas neurológicos. O hospital local fez um convênio com o serviço. E os pacientes são recebidos com carinho. Neste caso, não é comprar sexo, mas cuidado.
ÉPOCA – Não há risco de o MP ser chamado de cafetão?
Diaulas
– Essas pessoas não têm cidadania senão aquela que a gente consegue imaginar para elas. Não estou preocupado com preconceitos. Já enfrentei isso com a luta dos transexuais. Temos de humanizar o debate. Eles não são bonitos como astros de cinema, mas têm desejo. Quem for contra que faça a experiência de suspender sua vida sexual para se colocar no lugar deles. Não o celibato por opção, mas o compulsório. Quem nunca teve impulso sexual que atire a primeira pedra.
#Q#
ÉPOCA – O senhor defende o papel social da prostituta…
Diaulas
– Sou contra a prostituta escravizada, explorada, que tem um rufião. Minha idéia de prostituta é a que tem um papel social. É uma profissão como qualquer outra. Sei que o movimento feminista pode entender mal o meu projeto, mas a prostituta não vende a si mesma nem vende suas partes sexuais ou o seu corpo. Vende seus serviços. Não há nenhuma diferença entre ela e qualquer outro prestador de serviços. Quem protesta dizendo que a prostituta é humilhada ou degradada não é capaz de compreender qual é o objeto desse contrato. O corpo e a dignidade da mulher não são oferecidos ao mercado. Ela pode contratar a prestação dos seus serviços sem que o faça em detrimento de si mesma. Não há sequer incompatibilidade entre a preservação dos Direitos Humanos e a prestação remunerada de serviços sexuais por pessoa adulta. Ofensa aos Direitos Humanos é restringir a autonomia e a liberdade das mulheres a esse negócio.
ÉPOCA – O senhor teve iniciação sexual com uma prostituta?
Diaulas –
Tive. Eu vivia na zona rural e isso era normal. Foi uma pessoa muito importante naquele momento da minha vida. Eu era um menino de 12 para 13 anos, não sabia nem por onde começar a coisa e ela disse: vem cá que eu te ensino tudo, não se preocupe com nada, deixe as coisas acontecer. Uma pessoa humilde, modesta, muito simples, que era tudo o que eu precisava naquele momento. Compreendeu a minha angústia. E me ajudou. Não tenho preconceito contra isso. Depois da maioridade, nunca mais saí com prostitutas no Brasil. E aqui eu coloco uma vírgula, porque vivi no estrangeiro por anos, não vou dizer que não fiz minhas estripulias por lá. No Brasil sempre tive namoradas. Mas, quando precisei de prostitutas, fui muito bem atendido.
ÉPOCA – Mudando de assunto, o senhor afirma que Terri Schiavo não é um caso de eutanásia, mas de Suspensão de Esforço Terapêutico (SET). A diferença é semântica?
Diaulas –
A eutanásia pode ser vista como um gênero de assistência à saúde no fim da vida, mas não foi essa a idéia inserida na opinião pública. Virou sinônimo de nazismo, de matar velhinhos e doentes. Da mesma forma que a palavra aborto virou um monstro, as pessoas fazem sinal-da-cruz quando a ouvem. É preciso tirar o estigma da expressão ou encontrar uma expressão paralela. Não adianta seguir neste caminho, com palavras como ortotanásia ou distanásia, o sufixo ”tanásia” causa arrepios. É preciso criar soluções novas e inteligentes para fenômenos mais antigos. É como uma empresa que está desgastada na opinião pública e pode continuar a mesma se trocar de nome. Esta será minha próxima bandeira.
ÉPOCA – No que consiste a SET?
Diaulas –
Primeiro, não é crime. Não há reação contra a vida. É a natureza que extingue a vida no seu caminho normal. A SET evita a medicalização da morte. As pessoas já estão mortas, mas são mantidas por equipamentos, transformando o que é chamado de ”boa morte” numa morte horrorosa. Isso é aceito em todo o mundo, em nome da autonomia do paciente. No Brasil também existe base jurídica para isso, mas nunca foi feito do ponto de vista formal. As decisões ocorrem na esfera privada da família, dentro de casa. Estamos preparando um protocolo para a SET, com médicos e bioeticistas, formando uma linha para entrar nesse assunto com bases formadas.
ÉPOCA – O que há por trás dessa obsessão pela vida a qualquer preço?
Diaulas
– Os espanhóis chamam essa obstinação de manter o paciente vivo sem vida de ”encarniçamento terapêutico”. Ou seja, reduz a pessoa à carne pura, não à alma. Deixam de ser gente e são reduzidos a um monte de tecidos. O coração bate, mas a pessoa já desapareceu há muito tempo.
ÉPOCA – Por que é tão difícil aceitar a morte?
Diaulas –
Primeiro porque as pessoas passaram a acreditar que existe vida eterna na Terra. Segundo, porque a Medicina passou a dar a idéia de que era possível a vida eterna na Terra. As pessoas começaram a entender a Medicina como um instrumento de vida e esqueceram que o médico é fundamental na morte. A morte passou a ser uma falência da estrutura social, da obra divina ou da Ciência. Esqueceram que a vida eterna só existe se houver uma perspectiva religiosa, mas essa possibilidade não existe para a Ciência. Morrer é muito triste, mas gera muito mais angústia se você viver numa cultura que divulga a idéia de que morrer é inaceitável.
ÉPOCA – Morrer virou antinatural?
Diaulas –
Exato. A coisa mais natural da vida virou antinatural. Um sacrilégio, um pecado. Temos de repudiar a morte através do trauma, da guerra civil que vivemos no Brasil. Mas não a ”morte oportuna”, em que morrer é chegar também a um bom porto, ao outro lado do rio.
ÉPOCA – Essa resistência tem a ver com uma idéia de Medicina que encara a morte como fracasso?
Diaulas –
Os médicos foram educados para ser deuses e a morte é a prova de que são humanos. Não têm culpa de ser arrogantes, são formados pelas faculdades de Medicina para ser arrogantes. Os modelos de ditadura foram caindo um a um. Na política, dentro de casa, onde o chefe de família perdeu o lugar, até a ditadura de Deus caiu. Tudo é negociado. Você faz uma troca, uma promessa, pede uma coisa, dá outra. O último foco de ditadura é o do médico com o paciente. O médico manda, o paciente obedece. Os médicos precisam ser formados para estabelecer dois diálogos. Um com o paciente, outro com a morte. Deixar transparecer que vão estar ao lado do paciente quando chegar o momento em que não vão mais poder fazer nada. Estar ao lado também para ajudar a morrer. A SET entra na esfera do direito clínico, um direito novo da relação médico-paciente na condução do diagnóstico e do prognóstico. É a expressão da autonomia, um conceito já bem fundamentado. Aceito esse remédio, não aceito a intubação, quero ou não quero oxigênio. E assim por diante. Do que é necessário ter certeza é sobre a vontade do paciente. Se ele não a deixou expressa numa escritura pública, num testamento vital, então é preciso provar por testemunhas qual era o desejo dele. Estou sendo procurado por pessoas que contam que seu pai ou mãe morreu na UTI pedindo para ir para casa. Mas a maior parte de nossa clientela não serão velhos, mas jovens, vítimas de trauma. ASET é um ato médico de cuidado.
ÉPOCA – O senhor não teme novos problemas com a Igreja Católica?
Diaulas –
Quem me estimulou a tocar esta questão adiante foi o papa João Paulo II, com seu exemplo, ao deixar o hospital para morrer no Vaticano, perto de quem gostava, sem aceitar o esforço terapêutico. Essa última encíclica silenciosa será a mais importante para o mundo não-católico. Sem dúvida, uma grande contribuição para a causa.
FONTE: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI50183-15228,00-DIAULAS+COSTA+RIBEIRO+PROMOTOR+DE+POLEMICA.html

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Revista IHU Online

Fonte: Elo e sentido na maternidade indígena

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Marcel Marceau, dança, terapia e eu

Por Arnaldo V. Carvalho*

Quando criança, era deslumbrado com o controle corporal e suas ilusões de movimento. Minhas primeiras lembranças mais organizadas (cinco, sei anos de idade) são permeadas pelo fascínio pela mímica, apresentada por minha mãe, com referências, é claro, a Marcel Marceau.

Nos anos 70, década em que nasci, Marceau passou pelo Rio de Janeiro, apresentando-se na Monsieur Pujol (casa de espetáculos do falecido Miele). Também teria quadros exibidos no “Fantástico”… O pantomimo estava no auge, o mundo se encantava, e eu, tão pequeno, simplesmente não sabia mas respirava tal encanto.

Como eu gostava de empurrar paredes invisíveis e sentir-lhes a forma! Foi natural que já maiorzinho, “criança anos 80”, tivesse, através deste gosto Marceaunesco o apreço por Michael Jackson, que à época lançava seu Moonwalker e os sucessos “Billy Jean”, “Bad” e “Thriller”. E não é que Michael também era fã de Marceau?

O “break-dance”, filho do soul e do funk, pai do Hip-hop e do Rap estava nascendo e eu comprava revistas que ensinavam o passo-a-passo de manobras, entre as quais me atraiam as que simulavam o “robô” – pura mímica dançada.

A adolescência veio e me distraiu com a descoberta do amor, com acampamentos, esportes, e com escola (a “má distração”)… Mas do coração a mímica nunca saiu.

Em 1997 tive minha grande oportunidade de assistir Marcel Marceau no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e compreendi profundamente o sentido da materialização pelo vazio. O silêncio e o movimento me fizeram rir e chorar, e hipnotizado e agradecido, saí do teatro com uma lembrança eterna.

A mímica inspira a dança, e a dança inspira o Shiatsu

Nesse momento eu já praticava Shiatsu, e pouco depois estudei um pouco de ballet, jazz e sapateado, em paralelo com outras formações corporais terapeuticas. Conheci e tornei-me fã da obra do mestre Kazuo Ohno, da dança Butô (mesmo mais velho, Ohno fez aulas com Marceau, vejam só). E ao mesmo tempo, ao longo desses anos, segui estudando diversos trabalhos de contato corporal. Foi assim que passei pela massagem thai, o lomilomi, a massoterapia ocidental, espondiloterapia, ayurvedica, aromaterapia, drenagem linfática e outros. Mas foi o professor de Ohashiatsu Marco Duarte, bailarino, que me apontou o caminho para que eu encontrasse a dança dentro de minha terapia. Ohashi é o maior mestre vivo de Shiatsu, e trouxe para a terapia uma organicidade inédita, um sistema de movimentação que é base para todas as demais formas de expressão e estilos de Shiatsu fluídos.

Mesmo assim, mesmo com tantas formações, eu queria mais. Queria descobrir um corpo diferente daquele visto pela terapia, pois em minha área, chega a um momento em que sentimos como se todas terapias se repetissem – já não há nada novo, porque o corpo é um só, e no fim das contas, as terapias corporais são apenas variações de umas poucas fontes originais(1).

Para seguir crescendo, percebi que precisava ir para fora da terapia, precisava ir ao corpo são, ao corpo expressivo, às possibilidades ainda não exploradas… E lembrei da mímica. E foi ali que, na busca por ela, encontrei o mímico Alberto Gaus e o Solar da Mìmica. Descobri um outro gênero expressivo, e o trouxe para a terapia.

Foi assim que, aos poucos, a mímica em mim inspirou a dança, que fez imergir a terapia para dentro da alma; e a terapia, finalmente, se percebeu impossível fora do contexto de uma relação – da superfície da racionalidade e das palavras, à imensidão oceânica do inconsciente eu-outro. Se terapia é relação, se faço dela uma dança onde convido meus atendidos a dançar a Dança da Vida, então ela tem de ser boa e saudável para os dois envolvidos. Sobre isso, tenho insistido junto aos meus alunos: terapia não pode ajudar ao Outro e torna-lo doente! Essa percepção profunda tem sido uma das minhas bandeiras enquanto professor.

Em 2009, no Congresso Internacional de Shiatsu em Madrid, encantei-me com o ideograma “Odori” (dança) na versão Shodo de Kazuko Hagiwara. Arrematei a peça, então a venda, e desde então ela segue me inspirando no movimento de yin-yang.

Nessa mesma época, Sylvio Porto me mostrava, através de duras sessões de massagem e terapia reichiana, a arte da expressão da alma sem condicionamentos. Tais movimentos me permitiram uma sustentação para momentos pessoais muito difíceis.

Iniciava-se em minha vida um período de sofrimento, perdas na carne, reviravoltas na vida e nas relações. Mas também vieram novas descobertas, pessoas e possibilidades. Tudo muito intenso. Afinal, é na temperatura alta que se forja o aço e se fundem especiarias em novos sabores. Independente da dor e do prazer, lá estava minha mãe para seu eterno filho pródigo, com a sabedoria de seu silêncio acolhedor e cheio de arestas invisíveis, pantomímicas.

Por volta de 2010, minha “Fênix Interior”, minha identidade tal como eu havia construído, tão cheia de divisões, morrera para ressurgir com uma qualidade mais complexa.

Surgiu aí o encontro derradeiro da mímica-terapia-dança em mim, junto com a experiência um tanto inédita de integração-integridade psicoafetiva. No processo, aprendi mais sobre a ver, ouvir, expressar, e coloquei tudo na dança de minha terapia, a serviço das pessoas.

Não foi um processo rápido: Sete anos se passaram.

Em 2016, me fiz em silêncio, reduzi meus cursos e imergi em outra esfera de aprofundamento e maturidade. Iniciei a travessia de minha quadragésima década com a paz do reconcílio com meus referenciais masculinos e femininos. Mergulhei na pedagogia, e para ela, o terapeuta oferece o que sabe. Mas principalmente aprende para, quem sabe, deixar de existir – por tornar-se desnecessário. Odori mais uma vez me transportou, do butô para a mímica, da mímica ao butô, da somas destes para a terapia. Não há dança nem terapia que não seja relacional, e no movimento do silêncio operam-se transmutações das almas ali alinhadas. Expectador-Artista, Atendido-Terapeuta, expansões e recolhimentos encarnados a guardar um a semente do outro.

Seguirei recolhido em 2017 ou estarei pronto para uma nova expansão? Já não importa verdadeiramente. Importa-me o agora. Neste momento, a quietude me alcança,  e reencontro minha Mãe-Marcel_Marceau, após um dia de sessões em que danço, no chão e descalço, a dança da vida.

Posfácio

Um presente da minha mãe

Estamos em tempo de comemorar a possibilidade de existir da Sagrada Família, em cada lar. Através da imagem do nascimento, nossa cultura homenagem a chegada do novo, da esperança, e do ciclo de aprendizagem do casal através de seu abençoado filho.

Para mim, esse texto é sobre um filho que cresceu. E reconheceu. É um presente de Natal para mim mesmo e para minha mãe. E está estendido a vocês que me leem. Pequeno texto-memória-ensaio, está pleno de ternura em direção aos meus atendidos, tão vitais em minha caminhada. Através dele, saberão que, não fosse também por minha mãe, eu não poderia atende-los do jeito particular com que o faço. Muito obrigado a todos.

É a primeira vez que falo das influências dela no meu trabalho, aliás. Então o texto fica também como uma correção histórica. O sentimento de gratidão não costuma ser expressado em público para além dos prêambulos rituais dos livros… Mas quem sabe, essa homenagem poderá inspirar outros filhos a também agradecerem às suas mães? Tenho pessoalmente agradecido ela sempre, há anos. Porque não ia querer que aquela árvore generosa saísse desse mundo sem saber – mesmo que jamais me cobre.

Aqui, a gratidão se direciona a oportunidade que sua sensível alma me ofereceu lá atrás – e eu agarrei. Mas para as tantas outras coisas, que não caberia em texto ou livro nenhum, vale ser genérico: Obrigado por tudo mãe.

***

* Arnaldo V. Carvalho é terapeuta e trabalha na ilusória linha entre corpo-mente-energia.

(1). A consciência disso me fez ousar ao apresentar em 2007, no congresso internacional Fitness Brasil, um curso ensinando três técnicas “distintas”, utilizando a análise comparada para obter bons resultados.

 

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Pelo direito de escolher como ir e vir

E porque eu escolho o Uber

Por Arnaldo V. Carvalho

Sabe por que tem que ter Uber? Porque pessoas querem Uber. Pessoas querem poder escolher como se transportar. Querem decidir com quem se relacionar profissionalmente – inclusive na hora de decidir ir de ônibus, navio, avião, taxi ou uber.

Estamos em um mundo onde a escolha precisa ser respeitada. Escolhe-se o sexo, a religião, como se tem filho, e não se pode escolher o transporte? Não dá né? Imagine se os fabricantes de GPS devem tentar impedir aplicativos como o Waze, ou quem sabe, se o telégrafo deveria fazer protesto contra o telefone, e este contra o celular; e as  estações de rádio deveriam reclamar do surgimento da TV, e esta da Internet… Século XXI, please. As tecnologias vieram para dar mais alternativas, novas possibilidades em todos os segmentos humanos. Ir e vir é básico, e eu quero poder escolher como faço isso.

Taxi e Uber são serviços diferentes

Taxi e Uber são totalmente diferentes, é preciso entender isso. A única relação entre eles é que o taxi é o fóssil do Uber.

Eu nunca fui um cliente de taxi. Não é meu perfil. Acho caro, e não gosto ficar esperando por um carro “acidentalmente” passar pelas ruas para poder chamar. Também não ando com dinheiro e quase nunca o taxista aceita cartão. Enfim, não pegava taxi regularmente antes do Uber, e por isso mesmo, não vejo o Uber como uma “alternativa” ao taxi, apenas como um novo serviço.

Mas é claro que já peguei taxis ocasionais. Infelizmente, minha experiência pessoal em Niterói, São Paulo e Rio de Janeiro me trouxe corridas agradáveis do que gostaria. Carros esquisitos (quando cheira a cigarro erghh nem se fala), motoristas mau humorados ou de “direção truculenta”, tipos “malandrões”, as vezes com músicas que não gosto, e por vezes ainda tendo que ouvir abobrinha (que não paguei para ouvir). Ou vocês acham que Agostinho, o personagem encarado por Pedro Cardoso em “A Grande Família” só existe na ficção? Tem aos montes! E na vida real, quase nunca são “divertidos”.

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Por essas e outras, nunca fui cliente de taxi.

Mas sou cliente Uber. O Uber é a minha cara. Baseado em aplicativo (eu adoro); Não mexo com dinheiro ou cartões ao final da corrida (ótimo, simplesmente agradeço e tchau, sem perda de tempo); Quando peço, me falam qual é o carro e mostram a cara do sujeito com uma nota (posso desistir por precisar de um carro maior ou simplesmente querer outro que me agrade mais – adoro). Todo motorista tem Waze (adoro); Se estiver com sede, posso pedir uma aguinha. E o percentual de carros e motoristas decentes é muito mais alto que do taxi (ufa). Ah, sim, se eu esquecer o celular ou o guarda-chuva, é fácil localizar o motorista e combinar de buscar (quando aconteceu comigo, ele mesmo fez contato e deixou o que esqueci no local que pedi!). Também posso economizar e ter ótimos papos usando o Uber Pool, dividindo o carro com outras pessoas, otimizando o trânsito com isso. Em uma ocasião especial, posso contratar o Uber Black, quem sabe. Mas o principal de tudo é que, se o serviço for abaixo do ideal, eu dou nota, e notas ruins tiram os maus motoristas do serviço. Simples assim. O “mundo dos taxis” seria outro se isso fosse possível!

Taxi e Uber são totalmente diferentes, é preciso entender isso. A única relação entre eles é que o taxi é o fóssil do Uber.

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* Arnaldo V. Carvalho é escritor, cidadão brasileiro e adepto da liberdade de escolha da forma de ir e vir.

 

 

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