Vida, morte e magia

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A seguir, texto de Ana Francisca Ponzio e matéria de sua autoria publicada no caderno Modo de Vida, do Jornal da Tarde, em 10 de abril de 1986, quando Kazuo Ohno esteve no Brasil pela primeira vez.

“Quando Kazuo Ohno veio ao Brasil pela primeira vez eu começava minha carreira no jornalismo. Em bons tempos do Jornal da Tarde, meu primeiro emprego na área, eu escrevia para um dos novos cadernos do jornal, o Modo de Vida, editado por Maiá Mendonça.

Com sua arte absolutamente nova para mim e para a maioria (ou todos) que o viram em sua estreia em São Paulo, Kazuo Ohno provocava um misto de estranhamento e profundo fascínio. Claro, gerou inúmeras influências e tornou-se uma enorme referência, além de artista muito querido entre os brasileiros. Outro fato que chamava a atenção: naquela época Ohno estava com 80 anos e no auge. Em cena, tinha o frescor de um adolescente.

Agora, diante de sua morte aos 103 anos, reproduzo abaixo o texto sobre o workshop de Ohno que, para mim, também foi uma espécie de estreia. Publicado em 10 de abril de 1986, pelo Modo de Vida do Jornal da Tarde, contém tudo o que ele falou naquele encontro com artistas. Na época, preferi colocar em texto corrido o que ele disse – como se não quisesse interromper o que eu e toda uma plateia absolutamente encantada ouvíamos. Ao mesmo tempo, seria a chance (e ainda é) de difundir um pouco daquele encontro para os que não tiveram o privilégio de estar lá”.

Segue o texto:

Vida, Morte. Magia.

Kazuo Ohno é uma mistura delicada de criança, adolescente, homem e mulher. Por mais estranheza que sua dança cause aos olhos ocidentais, em poucos minutos consegue arrebatar o público. Talvez porque na sabedoria que transmite em seus movimentos, sintetiza a frágil essência da existência humana. Em sua breve passagem por São Paulo, esse octogenário artista japonês conquistou todas as plateias. Consciente do poder que exerce sobre as pessoas, sem pronunciar uma palavra, ele destila carisma em cada gesto.

No workshop realizado anteontem no Teatro Anchieta, aberto para bailarinos, atores e mesmo alguns curiosos, Kazuo Ohno surgiu no palco descalço. Com a maquiagem habitual, cabelos desfiados, sua roupa reduzia-se a uma fina malha de balé. Nas mãos, trazia uma flor branca de papel com a qual, às vezes, escondia o rosto, num trejeito maroto. O público, já familiarizado com sua figura, mais uma vez não economizou aplausos e, por sugestão de um apresentador improvisado, o ator Raul Cortez, cumprimentou-o em coro com um efusivo arigatô. Ladeado pelo filho – frente às calorosas manifestações paulistanas, Yoshito Ohno já esboça sorrisos em seu rosto impassível – e um confuso intérprete, ele declarou: “Nesse momento estou feliz. Lastimo não poder ficar mais tempo entre vocês, mas agradeço a afeição e compreensão que me dedicaram. Quem deve dizer arigatô sou eu”. 

Com a paciência de um velho contador de histórias, disposto a tentar explicar a técnica butô, durante quase uma hora Kazuo desfiou reminiscências filosóficas. Falou da vida brotando no ventre materno. “Esse minúsculo ser, embora microscópico, vibra com intensidade máxima”. Aos poucos, o que parecia uma aula de biologia, semelhante à sua dança, envolveu a atenção de todos.

“Quando a concepção acontece é porque houve a colaboração de milhões de espermatozóides. Os não aceitos são eliminados, como num processo de seleção natural. Quando pensei nesse assunto pela primeira vez, fiquei extremamente entristecido. Percebi que eu era o produto de apenas um espermatozóide. Esse fato me chocou durante anos. Não me conformava: incontáveis seres potenciais tinham perecido. Hoje, acredito que todas essas vidas estão presentes num ser humano. Não posso separar minha existência daquelas que pereceram e que continuam habitando em mim.”

“Do início dos tempos até os dias de hoje, o ser humano lutou para sobreviver. Sozinhos, não conseguiríamos travar essa batalha desesperada. Uma aliança vital está marcada no interior de cada um.” 

“Ambos se influenciam, o que nos rodeia – ou macrocosmo e o que existe no interior de cada ser humano – ou microcosmo. Recebo influências de todas as forças cósmicas, tudo é símbolo de vida.” 

“Vivo com os mortos. Acredito que todos os seres humanos que já existiram estão vivendo em mim atualmente. Em outras palavras, para mim isso significa criatividade.”

“Acredito em dois tipos de criatividade: uma cerebral, através do pensamento, imaginação, invenção. Outra, através da percepção, quando sentimos esses outros seres dentro de nós. Em mim, a presença desses mortos ajuda-me a sobreviver. Eles vivem e criam, participam do meu dia a dia. Creio também que crescem e se desenvolvem junto comigo. Minha força se exprime através deles, que me ajudam e às vezes me castigam também.”

“Sou uma pessoa egoísta e exigente. Entretanto, acredito que esse não seja um egoísmo gratuito mas uma satisfação íntima, que impele um ser humano em busca de alguma coisa. Nesse sentido, ser exigente e egoísta não faz mal a ninguém.”

“Butô é como um espaço pequeno, porém infinitamente grande e infinitamente pequeno ao mesmo tempo. É como se fosse um peixe em água turva, para enxergá-lo é preciso muito esforço. Como a dança que, antes de chegar a um momento de explosão, requer muita paciência.” 

“Através do contato com o útero, o embrião recebe amor. Quando suga a energia da mãe, esse movimento que, de certa forma, reproduz uma bomba de sucção, representa o ritmo do universo. Esse ritmo é como uma música que se pode sentir com o corpo, enquanto se dança. Aquele que está começando a estudar butô deve retirar sua experiência sentindo o movimento dessa força cósmica.” 

Depois dessa simbólica conversa, junto com Yoshito, Kazuo dançou uma seleção de excertos durante mais uma hora. Antes, anunciou: “Meu filho é também meu pai. Eu me refiro a ele como meu pai-meu filho e a mise-em-scène é dele”. Com movimentos naturais, econômicos, expressivos, sem um mínimo de tensão, Kazuo Ohno dançou dando a impressão de que qualquer outra pessoa pode fazer tudo o que ele faz.

No final, embora se dispusesse a um debate com o público, o artista dava a entender que quaisquer considerações mais objetivas seriam irrelevantes. Quando alguém lhe perguntou se suas coreografias obedecem a uma marcação, com começo, meio e fim ou mesmo improvisações, respondeu: “Nasci sem memória. Tudo que dancei ontem já esqueci hoje”. Para outra questão, um tanto provocativa, sobre os efeitos cósmicos de uma bomba atômica, rebateu: “É uma arma de extermínio mas acredito que um homem, particularmente quando dança, pode sentir a mesma carga de energia”. 

Para quem ainda exigia explicações plausíveis sobre butô, ele completou: “Butô significa sentir e perceber a vida”. Pouco preocupado se havia ou não convencido a plateia com tais teorizações, ele despediu-se com a alegria de uma criança. Como sempre, tinha o público inteiro nas mãos.

FONTE: http://www.conectedance.com.br/memoria-viva/kazuo-ohno-morre-aos-103-anos/

Taxistas selvagens: Tenho medo

Por Arnaldo V. Carvalho

Os motoristas de Uber tem sido atacados com frequencia, e por vezes também passageiros e pessoas totalmente nada a ver com a história (confundidas com motoristas Uber!). Ontem, um amigo que opera o serviço por pouco não teve o carro destruído por esses que são os verdadeiros bandidos.

A verdade é que, desde que o Uber chegou ao Rio de Janeiro (em 2014), os taxistas sairam de “falar mal” para tentar, a base da força, impedir esse tipo de serviço. Só para ilustrar, em abril desse ano eles fizeram a vida dos cariocas se tornar um pequeno inferno por um dia, bloqueando pistas vitais, causando tumulto em áreas fundamentais da cidade… Com esse ato, mostraram que os taxistas hostis não são “casos isolados”, mas muitos. Conquistaram em definitivo a antipatia das pessoas daqui, inclusive a minha. Em julho, os taxichatos resolveram exibir cartazes dizendo que “não iriam permitir Uber nas Olimpíadas“. Aliás, um dos locais com maior índice de vandalismos contra o Uber – o aeroporto Santos Dumont vem tornando-se uma espécie de “símbolo” desse movimento.

Image result for lounge uber santos dumontA Uber investiu com um Lounge bacana no Shopping anexo ao aeroporto (mais um ponto para eles), e ontem os taxivândalos foram lá e quebraram tudo. Isso mesmo, invadiram o Shopping e tomaram a rua em frente ao aeroporto, com direito inclusive a motoristas mascarados (usando camisas no rosto para não serem identificados), portando pedaços de pau e xingando Deus e o mundo. Foi lá em frente que meu amigo e muitos motoristas de passagem (inclusive que não são Uber) foram agredidos.

 

Acham que é novidade? Ontem mesmo fiz uma pesquisinha para ver como anda o grau de agressões oficialmente noticiadas, e é sinistro.

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Lounge Uber totalmente destruído pelos taxistas.

A verdade é que agora, a antipatia virou medo. Tenho medo dos taxistas, a gente nunca sabe o que se passa na cabeça de quem está no volante de um amarelinho. Me desculpem os bons taxistas, taxi nunca mais. Vejo vocês no Uber!

***

 

Shiatsu, Butô e a longa dança da vida

Shiatsu, Butô e a longa dança da vida

Por Arnaldo V. Carvalho*

Há vinte anos, pude ajudar a cuidar, mesmo que por poucos meses, da saúde do Dr. Mario Negreiros, renomado endocrinologista de Niterói.

Havia passado por uma experiência de dança, e lá fui apresentado por sua filha ao Butô, a dança contemporânea japonesa, repleta de significado, expressão profunda, transpessoal, além da pequenez da alma do indivíduo, aproximado a energia cósmica que faz a dança celeste do infinito enamorar-se dos sutis e profundos anseios intraterrenos da mãe natureza de nosso planeta.

Hoje me deparo com a notícia do falecimento do pai da arte Butô, Kazuo Ohno, aos 103 anos.

Junto com ela, palavras de Ohno, a própria dança traduzida na limitação linguística que nos habita.

A dança que mexeu comigo há mais de vinte anos é passada como um filme dentro de mim… Todos os pas de deux que vivi, toda a dança que dancei para e pela vida, todo o Shiatsu que se efetua no Kanji da dança (Odori), afixado na parede de meu consultório (arte Shodo original da mestra Kazuko Hagiwara).

Sou dança. Sou shiatsu. Sou butô. Sou Cosmos.

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* Arnaldo V. Carvalho é professor de Shiatsu e faz dele seu Butô e seu Do.

 

 

 

Uma mensagem ao Universo

Kazuo Ohno: Mensagem ao Universo – 1998

Ohno

“Uma Mensagem ao Universo”

por Kazuo Ohno, 1998

TRADUÇÃO: Arnaldo V. Carvalho

“À beira da morte, as pessoas revisitam os momentos alegres de uma vida.

Seus olhos ficam olhando admirados para a palma  da mão, vendo a morte, vida, alegria e tristeza com uma sensação de tranquilidade.

Este estudo diário da alma, será este o início da jornada?

Sento-me perplexo no playground dos mortos. Aqui eu desejo dançar e dançar e dançar e dançar, a vida da grama selvagem.

Eu vejo a grama selvagem, eu sou a grama selvagem, eu me torno um com o universo. Essa metamorfose é a cosmologia e o estudo da alma.

Na abundância da natureza eu vejo as bases da dança. Será que é porque minha alma deseja fisicamente tocar a verdade?

Quando minha mãe estava morrendo eu acarinhei seu cabelo por toda a noite, sem conseguir emitir uma única palavra de conforto. Depois disso, percebi que não era eu quen estava cuidando dela, mas era ela quem estava cuidando de mim.

As palmas da mão de minha mãe são uma preciosa grama selvagem para mim.

Eu desejo dançar a dança da grama selvagem até o mais alto limite de meu coração”.

Ohno, 1998.

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Palavras de Chris Way acerca de Ohno e sua obra (publicado em janeiro de 2009)

I fico pensando sobre o que Ohno quis dizer. A dança da grama selvagem:  pode ser que aqui nós convergimos, se é que isso é possível, com a mãe uterina com a mãe natureza; com ambas ao mesmo tempo? Onde nós expressarmos criativamente (na dança, na arte, em sorrisos, no amor, no canto) tanto prazer na vida – “prazer” não como função da felicidade, mas simplesmente fluidez do sangue e expiração – que nós nos misturamos com a essência dentro de nós [nosso passado, nossos genes, nossa biologia] e externamente nós [nossos parceiros no solo, no ar, na terra, nas minúsculas celulas das menores das partículas; tudo o que também é nós, composto da mesma coisa que nós]?

Criatividade e expressão como atos de reconciliação radical entre nós mesmos e nós mesmos.

Oferecemos a melhor atenção possível a seu outono, já lamentando por seu fim após passarmos a primavera e o verão de nossa vida humana com ela, movimentando-a num desconfortável conjunto de gestos. Na realidade, ela é quem cuida de nós, e segue permitindo-nos viver e respirar, comer, e usufruir e sobreviver pela teia que, embora desgastada lentamente, permanece bem entrelaçada, com sua vitalidade conectando abelhas, flores, pássaros, vento, solo, sol, folhas, oxigênio, nós, nós.

Não há nada a fazer além de sentir isso na raiz.

Ser grama selvagem, mesmo que ela morra de novo, e que mais uma vez tombe nas ranhuras dos paralelepípedos, raízes lentamente brotando em lajes num crescente de prazerosa revolta.
Chris.

Ohno

FONTE: Blog Snail Crow, do Chris Way. O autor publicou isso em seu Blog um ano antes da morte de Ohno. Muito lindo, obrigado, Chris!

Corpo concreto, Universo abstrato: Kazuo Ohno e Marcel Marceau

 e 

Fizeram parte de minha invisível vida emocional. Partes de mim que quase ninguém mais conhece, nem mesmo alguns de meus eus… Mas eles vivem aqui, e participam da orquestração do que sofro, do que expresso, do que gozo, respiro, choro e sorrio.

Um é a forma concreta, trazida do invisível. Materializa em pleno ar o limite, e brinca com a liberdade dentro dos contornos rígidos que mais ninguém via até então. O outro, é a própria expressão sentimental que não pode, não pode ser contida. Um é o Ocidente fazendo o raso enxergar o que não se pode ver, mimetizando a própria forma no etéreo. O outro é a entranha da terra, é o próprio magma a vazar da falésia funda da Alma Cósmica.

Ohno é a única possibilidade humana de, através do próprio anthropos, fazer-se Universo.

Marceau é o Universo em alma dizendo ao humano: “é tão simples! aceite, seja!… És pequeno mas isso… É divertido, aproveite”!

Arnaldo V. Carvalho*

– Homenagem à mímica e ao butoh, que em minha alma habitam; ao Marceau e ao Ohno que me atravessam inteiro, a me fazer mais Ser.

***

*Arnaldo V. Carvalho, fazedor diário da própria alma.


“Não sou um homem feito por mim mesmo”, diz Arnold

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Não sou fã de auto-ajuda, do “você pode ser tudo o que quiser”. Pelo contrário, cada vez mais, invisto em querer ser o que sou e tão somente o que sou (e isso obviamente passa pela descoberta gradativa de quem sou, um processo permanente e inerente a estar vivo).

E acho ótimo quando uma figura pública que faz tanta gente acreditar em sucesso por si mesmo vem e desconstroi esse tipo de ilusão. O mito do “self-made man“, do homem que se fez por si mesmo, sem depender ou precisar de ninguém já passou da validade há tempos.

Sobre isso, o famoso político, ator e fisiculturista Arnold Schwarzenegger escreveu muito bem, e mesmo que este meu ‘xará” austro-norteamericano tenha uma visão de mundo inversa a minha em muitos sentidos, aqui concordamos plenamente.

Ninguém se faz sozinho.

Convido o leitor à leitura do inspirador texto de Schwarzenegger, prefácio do livro “Tools of Titans” [Ferramentas de Titãs], de Tim Ferris (ainda não publicado no Brasil).

O original em inglês você encontra em: http://fourhourworkweek.com/2016/11/07/tools-of-titans-foreword-arnold-schwarzenegger-i-am-not-a-self-made-man/

Aqui, segue tradução livre de minha autoria. Boa leitura!

 (Arnaldo)

Não me fiz sozinho

Eu não sou um homem que me fiz sozinho, sem a ajuda de ninguém.

Toda vez que falo em uma conferência de negócios, ou com os estudantes universitários, ou respondo a perguntas para um site, alguém me diz isso.

“Governador / Governator* / Arnold / Arnie / Schwarzie / Schnitzel (dependendo de onde estou), como um homem que venceu por si próprio, qual é o seu modelo para o sucesso?

Eles ficam sempre chocados quando agradeço os elogios, mas digo: “Eu não me fiz sozinho. Tive muita ajuda”.

É verdade que cresci na Áustria sem água encanada. É verdade que me mudei para a América sozinho apenas minha bolsa de ginástica. E é verdade que eu trabalhei como pedreiro e investi em imóveis para me tornar um milionário antes de ter erguido a espada em Conan, o Bárbaro.

Mas não é verdade que me fiz sozinho. Como todo mundo, para chegar onde cheguei, me apoiei sobre os ombros de gigantes. Minha vida foi construída sobre uma base que inclui meus pais, treinadores e professores; De almas bondosas que emprestavam sofás ou os fundos de academias de ginástica, onde eu podia dormir; De mentores que compartilhavam sabedoria e conselhos; De ídolos de páginas de revista que me motivaram (e, à medida que subia na vida, interagindo pessoalmente com eles).

Eu vislumbrava algo grande para mim, e tinha fogo no estômago. Mas eu nunca teria chegado a lugar algum sem minha mãe me ajudar com minha lição de casa (e me beijar quando eu não estava pronto para estudar), sem meu pai me dizendo para “ser útil”, sem professores que explicaram como vender, ou sem treinadores que me ensinaram os fundamentos do levantamento de peso.

Se eu nunca tivesse visto uma revista com Reg Park na capa e tivesse lido sobre sua transição de Mr. Universo para a atuação em Hercules na tela grande, eu ainda poderia estar andando nos Alpes austríacos. Eu sabia que queria sair da Áustria, e eu sabia que a América era exatamente o lugar no qual eu pertencia, mas Reg ateou fogo no meu combustível, e me deu meu plano.

Joe Weider me trouxe para a América e me colocou debaixo de sua asa, promovendo a minha carreira como fisiculturista e ensinando-me sobre negócios. Lucille Ball me deu uma grande chance e me chamou para ator convidado em um especial que foi a minha primeira grande estreia em Hollywood. E em 2003, sem a ajuda de 4.206.284 californianos, eu nunca teria sido eleito governador do grande estado da Califórnia.

Então, como posso reivindicar ter me feito só por mim mesmo? Aceitar esse mito desconsideraria cada pessoa, e cada um dos conselhos que me fizeram chegar aqui. E daria a impressão errada – de que você consegue se fazer sozinho.

Eu não consegui. E a verdade é: você não pode tampouco.

Todos nós precisamos de combustível. Sem ajuda, conselhos e a inspiração de outros, as engrenagens de nossa mente param de funcionar, e ficamos bloqueados, sem nenhuma parte para ir. Fui abençoado por encontrar mentores e ídolos em cada passo da minha vida, e tive a sorte de conhecer muitos deles.

De Joe Weider a Nelson Mandela, de Mikhail Gorbachev a Muhammad Ali, de Andy Warhol a George H.W. Bush, eu nunca me furtei a buscar a sabedoria de outros para alimentar meu fogo.

Você provavelmente já ouviu os podcasts de Tim. (Eu recomendo particularmente aquele com o charmoso fisiculturista de sotaque austríaco). Ele usou sua plataforma para trazer a você a sabedoria de um elenco diversificado de personagens nos negócios, entretenimento e esportes. Aposto que você aprendeu algo com eles – e muitas vezes, aposto que sacou algo que nem esperava.

Quer se trate de uma rotina matinal, ou uma filosofia ou dica de treinamento, ou simplesmente motivação para atravessar o dia, não há uma pessoa neste planeta que não se beneficie de um pouco de ajuda externa. Eu sempre tratei o mundo como minha sala de aula, absorvendo lições e histórias para alimentar meu caminho. Espero que você faça o mesmo.

A pior coisa que você pode fazer é pensar que você ja sabe o bastante.

Nunca pare de aprender. Nunca.

É por isso que você comprou este livro. Você sabe que onde quer que esteja na vida, haverá momentos em que precisa de motivação e percepção externas. Haverá momentos em que você não tem a resposta, ou a direção, e é forçado a olhar para além de si mesmo.

Você pode admitir que não consegue fazer tudo sozinho. Eu certamente não consigo. Ninguém consegue.

Agora, vire a página e aprenda alguma coisa.

— Arnold Schwarzenegger

***

* Alusão a “Terminator” (filme protagonizado por personagem de Arnold Schwazzenegger)

Tradução de Arnaldo V. Carvalho

Aula de economia no viés da Escola Austríaca

Arnaldo V. Carvalho

Meu amigo Ary Bon é declaradamente favorável ao chamado “anarco-capitalismo”. Muito do que defende está alinhado com o pensamento econômico da chamada Escola Austríaca.

Para argumentar sobre a política Temer, ele me indicou o IMB, organização que defende e propaga tais ideias. Muitos esquerdistas talvez considerem a Escola Austríaca como “o pior dos capitalismos”, enquanto que os de direita conservadores consideram a teoria dessa escola como “radical” e dissociada de um princípio mínimo de realidade.

Fato: Eles dão uma tremenda aula de economia para leigos , muito proveitosa, no artigo:

A redação é de Fernando Ulrich, mestre em Economia da Escola Austríaca.
Indico que leiam o artigo e também os comentários, do mais alto nível. Ele conta com links e mais links internos e outros, que te levam a uma imersão em um novo mundo.
Minha opinião?
Não é fechada. O socialismo (teórico) defende um Estado ativo, honesto, capaz de organizar e dar conta das demandas sociais para uma sociedade mais justa, para todos. Isso tem ocorrido com sucesso nos países escandinavos. Pelo que entendi, a Escola Austríaca não considera isso uma possibilidade. Eles querem é o FIM do Estado, ou sua máxima redução. Acreditam que a economia 100% livre, que as pessoas não serão nunca iguais mesmo, e que o enriquecimento do país sempre oferecerá qualidade para todos, do que tem menos acesso aos que tem mais. Daí surgem umas teorias malucas atreladas, como uma certa defesa à monarquia constitucionalista (!!!).
Um problema de teorias materialistas (seja de que lado elas pintem) é o esquecimento do fator humano.
No final das contas, para mim, o sistema econômico não importa, mas sim o caráter consciente e a empatia. Se as pessoas de uma dada sociedade forem sensíveis umas com as outras, pode-se usar o sistema econômico e político que se quiser. Enquanto os ricos seguirem dormindo tranquilos em não fazer nada por pessoas passando fome, não vai dar certo. Naturalmente estamos falando dessa sensibilidade atrelada à consciência. A cultura de esmola e da caridade para o mero alívio de culpas precisa ser banida do mapa. O privilegiado precisa lutar para que todos possam ter um desfrute semelhante ao seu. De outro lado: enquanto os pobres seguirem acreditando que o governo tem que resolver a situação para eles, que o patrão é sempre um monstro, que trabalhar é uma #$!@ (com todas as consequencias que isso causa) não vai dar certo. Enquanto não vencermos a cultura de privilégios do Cabral (o Pedro Álvares, tá?*), que segue sendo o cerne da forma do brasileiro funcionar na vida (do menos ao mais poderoso!), não vai dar certo**. Mas se isso tudo muda, se mudam as mentalidades, vai dar certo seja lá qual sistema ocorra. Sem uma reforma humana e de sua cultura, nada poderá funcionar.
Sobre isso, os detentores de capital, os investidores dos diversos portes podem ajudar muito: se ao menos migrarem de um capitalismo predatório a la Warren Buffet e passarem a colocar o dinheiro tão e somente só em papeis de empresas que de fato proporcionem desenvolvimento humano, as coisas já podem melhorar bastante. Conclamos aos que investem em ações: busquem seus lucros, mas com escrúpulos. Comprem apenas ações de empresas que vão para além do lucro. É isso: é preciso patrocinar o desenvolvimento humano! E os ricos podem ganhar dinheiro com isso. Já pode ser um começo.
Bem, vai lá, lê. Mas lê também os historiadores socialistas de alto nível como Perry Anderson e Edward Thompson. E ouve o que as outras teorias do mundo têm a dizer. Busca sobre economia solidária, sobre o chamado “capitalismo consciente” (é possível?). Leia sobre. Finalmente, leia o “Escuta, Zé Ninguém” e a Teoria de Massas do Fascismo”, de Wilhelm Reich. Aí ficará bom para aprendermos juntos.
Abraços!
* Já na carta de Caminha segue um pedido de emprego ao sobrinho!
** Ver Laura de Mello e Souza, “O Sol e a Sombra”, pela Cia. as Letras (2006); e o grupo de estudos coordenado por Ronald Raminelli, da UFF: As Origens dos Privilégios no Brasil (dicas quentes de Nívia Pombo).

 

Como sair do ódio (Jacques Rancière)

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Guerra ou política? Segundo Jacques Rancière, a política passa longe das artimanhas jurídicas e institucionais da política de gabinete. É uma forma de ação e de subjetivação coletiva que constrói um mundo em comum, no qual se inclui também o inimigo. A ação política cria identidades não-identitárias, um “nós” aberto e inclusivo que reconhece e fala de igual para igual com o adversário. A guerra, pelo contrário, tem como protagonista fundamental formações identitárias fechadas e agressivas (sejam elas éticas, religiosas ou ideológicas) que negam e excluem o outro do mundo partilhado. Entre o outro e o eu, nada em comum.

A verdadeira alternativa, segundo Rancière, não está na polarização que o discurso hegemônico nos apresenta: “populistas contra democratas”. Para ele, o melhor remédio possível neste momento é a própria ação política, autônoma em relação aos lugares, aos tempos e à agenda estatal. Só elaborando o mal-estar (o “ódio” diz Rancière) em chaves políticas de emancipação (coletivas, igualitárias, abertas e inclusivas) se poderá, por exemplo, disputar terreno com esta “lógica da guerra”. A politização do mal-estar é o melhor antídoto contra a sua instrumentalização por parte daqueles que querem encontrar bodes expiatórios entre os outros.

Essa é a forma como a Boitempo Editorial apresentou o pensamento do filósofo francês Jacques Rancière (1940-), professor emérito da Universidade de Paris. A esta apresentação seguiu-se a tradução de uma interessante entrevista, e compõe material que divulga o lançamento de seu último livro, lançado aqui pela citada editora. Sobre isso, leia direto em: https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/10/como-sair-do-odio-uma-entrevista-com-jacques-ranciere/

Me interesso por todo aquele que pensa em alternativas ao ódio, e sobre isso as ideias de Rancière são de uma lucidez extraordinária e de um Amor ao próximo auspicioso. (Arnaldo)

Feliz Dia da Marmota pra Vocês!

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Então chegou.

A conjuntura atual no Estado do Rio de Janeiro (e do Brasil, e do mundo) fez muita gente daqui torcer para chegar. Um novo ano, um ano diferente, um respiro para a vida, que 2015 foi um sufoco.

 

Mas o ano não será diferente, a menos que se consiga ultrapassar o fatídico dia da marmota. É isso mesmo! Você, que acordou no 2016, acordou quase o mesmo. Olhe-se no espelho. Tudo igual. Olhe sua vida. Tudo igual?

 

Então vai ser assim, vai continuar sendo Dia da Marmota para você, a menos que as promessas não fiquem nas promessas, e principalmente, que você viva o que tem de ser vivido. O Feitiço do Tempo consiste em mais do que fazer só o que gosta, gostar do que se faz.

 

Então eu desejo que você que me lê tenha um FELIZ DIA DA MARMOTA!

Grande abraço a todos,

Arnaldo

PS: Alguém notou alguma referência ao velho filme estrelado por Bill Murray em 1993? Pois vou contar um segredinho a quem gosta de ler post scriptums: “O Feitiço do Tempo”, (Groundhog Day) foi nosso filme de Ano Novo, aqui em casa. Eu pessoalmente tinha assistido na época em que o filme saiu, já não lembrava de nada (só do sentido geral), de modo que tal experiência não influenciou muito na escolha, para além da ideia de ser um filme “família”. Escolhemos em cima da hora, pouco antes da virada, e vejam que curioso, o filme terminou faltando três minutos para meia-noite. Filme  que agrada a adultos, adolescentes e mesmo crianças não muito novas, é uma “sessão da tarde” gostosa, de texto interessante, diálogos atemporais, bom ritmo… Algo vai lembrar ao conto de Natal do Charles Dickens (uma pessoa não muito legal passa por uma “experiência mística” ligada ao tempo e que acaba transformando seu caráter – incluindo apologias ao altruísmo etc.). Fica aqui a microresenha do filme, escondida na mensagem de ano novo, através desse PS. Só entende a profundidade do meu desejo de Ano Novo para o mundo, quem assistir. 🙂

Crítica equivocada e repleta de tendenciosismos sobre Karl Marx

Crítica ao filósofo Karl Marx e sua vida é marcada por equívocos (ou inverdades?) e tendenciosismos

Focado em denegrir Karl Marx e o socialismo, texto que circula na Internet sob autoria anônima tem como alvo associar um “mau Karl Marx” com o Socialismo, e este com os governos do PT atual. Que salada! Dissecamos o mesmo para quem quer a verdade acima das ideologias (corro delas!).

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Após um seminário sobre Marx e Educação, uma colega me perguntou sobre a veracidade das informações de um texto sobre Karl Marx circulando na Internet.

O texto, de “autoria desconhecida”, demonstra, para alem dos equívocos acerca da vida de Marx, desconhecimento sobre a cultura do século XIX e um numero de preconceitos arraigados ao longo de cada sentença.

Não sou especialista em marxismo ou socialismo. Tudo o que li das fontes originais de Karl Marx me fez ver que não há em Marx (como não há em Engels) Deus ou Diabo, como querem os radicais de todos os lados. Mas, considerando o contexto de época, Marx expõe raciocínios muito interessantes. Por outro lado, o que li não dele mas SOBRE a obra de Marx costura suas ideias com a de muitos outros, e os resultados são os mais variados.
A agressividade dos adjetivos empregados pelo escrito que criticarei aqui deixa a certeza de que seu único propósito é denegrir o pensamento marxista e a visão socialista da sociedade. Em tempos de descontentamento com o poder vigente, encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) – em sua origem um herdeiro ideológico do socialismo -, este tipo de texto costuma surgir, insuflando as massas e aumentando a tensão politica.

Segue o texto na integra e em seguida o mesmo dissecado por mim, oferecendo ao leitor a oportunidade de rever a própria historia de Marx, do socialismo e dos preconceitos entranhados na cultura brasileira. Relativizar é preciso!

Karl Marx foi sustentado pela esposa por 16 anos enquanto escrevia “O Capital” até que ela ficasse pobre. Só teve um único emprego fixo em 64 anos de vida, e foi como correspondente do jornal “New York Herald” por breve período e que não resultava em quantias suficientes para manter a família.
Embora estudioso de economia, era cronicamente irresponsável nas finanças pessoais e sempre passou necessidades. Em 1852, quando morava em Londres sem ter mais para onde correr, Marx tentou penhorar alguns talheres de prata com o brasão da família da esposa quando o dono da loja, desconfiado daquela criatura de cabelos desgrenhados e mal vestida, chamou a polícia.
Viu 4 de seus 7 filhos morrerem ainda bebês pela vida insalubre e miserável que sua vagabundice impôs à família, viu duas de suas três filhas sobreviventes se suicidarem, traiu a mulher que o sustentou por anos a fio com a melhor amiga dela, e ainda deu o bebê nascido desta relação para o amigo rico Engels criar. Morreu pobre, intelectualmente debilitado e com um abscesso no pulmão. Somente 11 pessoas incluindo Engels foram ao seu enterro.
Esse é o ídolo da esquerda. O “pai do socialismo”. Sujeito ordinário, preguiçoso e imoral, que não conseguiu sequer colocar a própria vida em ordem. É este pilantra, em muitos aspectos similar ao Lulla, o criador do sistema que tem a pretensão de trazer a solução para o mundo?
Pois é. Cada um tem a referência que merece.
E o Paul Johnson cita no livro “The Intelectuals” que esse energúmeno, além de tudo, não tomava banho e não fazia a barba por muito tempo. Seus seguidores também deixam a barba crescer sem saber por que.
Mas, suas ideias errôneas, ainda estão por aí, a estrepar com o mundo, a azarar com a sociedade. Pior de tudo é que estamos sendo vítimas desses sórdidos caolhos, gigolôs da miséria, parasitas e aproveitadores, os Schmarotzers, na línguagem de seus conterrâneos alemães. Até quando, como diria Catilina, o senador romano? (autor desconhecido)

Radiografia do tendenciosismo no texto:

Karl Marx foi sustentado pela esposa por 16 anos enquanto escrevia “O Capital” até que ela ficasse pobre.

– Marx e sua esposa passaram por fortes privações em razão da perseguição que sofreram. O filósofo e advogado não levou 16 anos escrevendo “O Capital”. Até onde se sabe, a relação entre Marx e Jenny von Westphalen sua esposa era de grande companheirismo.
– Aqui temos uma grave demonstração de machismo. O autor considera negativo que um homem seja sustentado por sua mulher para estudar, pesquisar e gerar algumas das teses mais importantes de seu tempo. Se O Capital tivesse sido escrito por uma mulher sustentada por seu marido, teria problema? Se foi uma escolha do casal utilizar o patrimônio, fosse originalmente da família do homem ou da mulher, para uma grande realização, haveria problema?
– Os problemas financeiros da Família Marx foram causados pela constante perseguição e necessidade de mudança (de país!), o que somente estabilizou em 1841 quando chegam em Londres (já em complicada situação financeira).

Só teve um único emprego fixo em 64 anos de vida, e foi como correspondente do jornal “New York Herald” por breve período e que não resultava em quantias suficientes para manter a família.
– Na verdade, Marx foi correspondente do New York Tribune. Desconfio que autor saiba disso, pois à época, o “Herald” era tido como jornal sensacionalista, enquanto que o Tribune, uma alternativa mais séria aos leitores americanos. Ambos os jornais se fundiram muitos anos depois (1924).

– Esse, porém, não foi o único trabalho de Marx, que aliás, trabalhou por toda a sua vida. Infelizmente, a renda obtida por direitos autoriais de “O Capital” somente foram repassados a família de Marx após sua morte.

– Seu contrato no Tribune, embora tenha lhe gerado proventos estáveis, não funcionava exatamente como um “emprego fixo” como entendemos hoje. O  pensamento empregatício, amplamente impregnado em nossa sociedade, é algo que não corresponde. Marx era filósofo. Era um profissional liberal, e liberais não trabalham obrigatoriamente em “emprego fixo”, ou seja, não necessariamente possuem um patrão, uma carteira assinada, etc. Essa frase indica que o autor do texto está escrevendo para as massas, já alienadas e presas à mentalidade empregatícia.

– Também busca hierarquizar as próprias condições de emprego, onde o fixo tem mais idoneidade que o temporário, o sob demanda, freelance etc. Desvaloriza-se assim o trabalho intelectual, ressaltando a virtude capitalista de valorização dos que “vencem por meio do suor braçal” (vale lembrar que são poucos os que tem essa trajetória de sucesso no capitalismo).

– A importância de sua obra foi reconhecida por Engels e foi em boa parte patrocinada. Muitos intelectuais, cientistas e artistas dependem de mecenas para seguirem realizando suas obras.

 

Embora estudioso de economia, era cronicamente irresponsável nas finanças pessoais e sempre passou necessidades.

– “Sempre passou necessidades” não é verdade. Mas com certeza priorizou seu dinheiro para seus estudos, suas campanhas junto às massas, deixando o necessário para o “sobreviver”.
Em 1852, quando morava em Londres sem ter mais para onde correr, Marx tentou penhorar alguns talheres de prata com o brasão da família da esposa quando o dono da loja, desconfiado daquela criatura de cabelos desgrenhados e mal vestida, chamou a polícia.

– Não consegui apurar essa informação, mas é bem possível. dado o contexto em que se encontrava nesse ano, onde passava os dias mais difíceis de sua vida. Sujeito mal trapilho, entra em uma loja com objetos caros, qual é o raciocínio? “Só pode ser roubado”. Jean Valjan (personagem de Victor Hugo, protagonista do clássico “Os Miseráveis”) encarna o popular que já passou por isso. Você já passou? Então com certeza não sabe o que é.

 

Viu 4 de seus 7 filhos morrerem ainda bebês pela vida insalubre e miserável que sua vagabundice impôs à família,

– Após ser expulso de três países diferentes, por insistir em fazer a aplicação prática de suas teses cientificas, denunciando a exploração junto aos trabalhadores, chegou em condições muito difíceis mesmo na Inglaterra. Os anos 50 os castigaram, e apesar de “O Capital” ser nesse momento um best-seller na Europa, Marx jamais recebeu os royalties por sua publicação (o dinheiro chegou a família vários anos após sua morte). A miséria fez com que eles passassem fome e frio, com impossibilidade de contar com assistência médica ou outras. Vagabundice?

 

viu duas de suas três filhas sobreviventes se suicidarem,

– Os suicídios ocorreram apos a morte de Marx, e portanto ele não os viu. As razões foram bem diferentes e em nada se relacionam com o pai ou sua criação.
traiu a mulher que o sustentou por anos a fio com a melhor amiga dela, e ainda deu o bebê nascido desta relação para o amigo rico Engels criar.

– Embora não haja provas documentais, tudo leva a crer que Isso de fato aconteceu. A mulher em questão se chamava Helene Demuth, trabalhava na casa de Marx e lá vivia. Ela fôra empregada na casa dos Westphalen, e após o casamento de Marx e Jenny, foi viver com o casal e com eles ficou até o fim dos dias. Politizada, era também do partido comunista e ajudava a rever os escritos de Marx. Apesar de sua contribuição e atividade, viveu no ostracismo intelectual por ser mulher, amante, condenada até mesmo pelos marxistas da época, que elaboraram o comportamento idealizado de um cidadão comunista.

 

Morreu pobre, intelectualmente debilitado e com um abscesso no pulmão.

– Pois é, morrer pobre é um problema. Na programação neoliberal, um homem de vulto, “bem sucedido” tem que morrer com dinheiro. Esse é o projeto de vida do capitalista.
Somente 11 pessoas incluindo Engels foram ao seu enterro.

– Os números divergem, mas até onde consta, foram poucos mesmo, talvez uns quinze. É preciso levar em conta que Marx passou por muitas agruras na Inglaterra, e seu círculo mais próximo era sem dúvida limitado. Talvez, mais do que o número, devêssemos levar em conta a qualidade das pessoas que lá estavam.

– A doutora em história Nívia Pombo**, ao revisar esta minha refutação acrescentou que: “Em uma época de severa repressão do Estado, dificilmente algum trabalhador (se é que seriam esses os homens que o autor do texto esperava localizar no funeral) poderia faltar um dia de trabalho para homenagear uma persona non grata por todos os empresários”.

 

Esse é o ídolo da esquerda. O “pai do socialismo”. Sujeito ordinário, preguiçoso e imoral, que não conseguiu sequer colocar a própria vida em ordem.

– Seria possível, sem se dobrar ao status quo do capitalismo que nascia na total ausência de direitos trabalhistas?

 

É este pilantra, em muitos aspectos similar ao Lulla, o criador do sistema que tem a pretensão de trazer a solução para o mundo? Pois é. Cada um tem a referência que merece.

– Finalmente o autor declara seu propósito: sujar para sujar. Associou a imagem prejudicada de Marx a do Lula, (escrito com dois eles para vincular ao rejeitado ex-presidente Collor), e assim atacou simultaneamente o PT, o socialismo, e finalmente – esse é o ponto, contextualizado pelo momento atual em que o texto circula (o governo Dilma).

 

E o Paul Johnson cita no livro “The Intelectuals” que esse energúmeno, além de tudo, não tomava banho e não fazia a barba por muito tempo.

– Não conhecia o Paul Johnson e sua obra. Mas dando uma olhada, é assustador. Um escritor que se “especializou” em criar livros com “Mini-biografias” depreciativas, com olhar destrutivo sobre todo tipo de gente famosa. E acima de tudo, um hipócrita, cuja vida pessoal, pelo que consegui perceber, é facilmente alvo de críticas muito semelhantes à que ele faz a Marx.

– A barba de Marx não é exótica em seu tempo, pelo contrario, era o costume típico da elite dominante da época. Veja Charles Darwin, Engels, Dom Pedro II, todos bem barbados. A barba caiu em desuso com o tempo, e as culturas que a mantiveram (como a árabe), propositalmente rebaixada, é associada a sujeira e a barbárie… A estrategia aqui esta sendo usada contra a aparência de Marx.

 

Seus seguidores também deixam a barba crescer sem saber por que.

– o autor aqui tenta associar a imagem das pessoas que compreendem o socialismo como alternativa ao sistema neoliberal à de pessoas crédulas, alienadas, que seguem às cegas uma ideologia.
Mas, suas ideias errôneas, ainda estão por aí, a estrepar com o mundo, a azarar com a sociedade. Pior de tudo é que estamos sendo vítimas desses sórdidos caolhos, gigolôs da miséria, parasitas e aproveitadores, os Schmarotzers, na línguagem de seus conterrâneos alemães.

– O autor acredita que, a essa altura, o leitor já estará bem incomodado com Marx, por força de sua retórica. Isso lhe dá permissão para borrifar uma linha de xingamentos inconsistentes e mais uma vez com doses de preconceito (caolhos são sórdidos), e acaba em sua empolgação até mesmo errando no português.

 

Até quando, como diria Catilina, o senador romano?

– A frase é: “Qvosque tandem abvtere, Catilina, patientia nostra? (Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?)

E é desferida por Cícero (106-43 a. C.) contra Lúcio Sergio Catilina (108-62 a. C.) senador condenado por conspirar contra a República Romana. Seus contemporâneos o tinha como uma pessoa ambiciosa, ardilosa e cruel.

– A citação equivocada nos faz pensar, tamanho seu absurdo, que o texto é apenas uma piada de mau gosto, que tenta testar a cultura, ou a inteligencia, ou a visão critica de quem o lê.

– Por curiosa coincidência, refutei esse texto (apenas acrescentando este parágrafo posteriormente) pouco antes e o publiquei dias após a atual fase da “Operação Lava Jato”, denominada Catilinárias. Trata-se de uma referência aos homens públicos investigados que atentam contra a democracia e o interesse geral da nação.

 

(Desconheço o autor)

– Nada como se esconder atrás do anonimato, após ter a coragem de publicar algo tão ofensivo, repleto de calúnias e tendenciosismo!

– Sete adjetivos e muitas mais interjeições depreciativas, em seis parágrafos que, de fato, não merecem atenção, e se gasto alguma energia nisto é porque, como minha colega, muitas outras pessoas podem estar nesse momento – por desconhecimento, ou até uma pré-construção cultural – lendo o livro e sendo incitadas ao ódio.

 

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* Arnaldo V. Carvalho, polímata, adora caçar apócrifos e desmascarar idólatras. Deixa claro que nunca votou no Lula, na Dilma ou no PT. Não é filiado a partido algum, não é socialista ou liberal, comunista ou conservador. Detesta rótulos. E relativiza.

** Doutora Nívia Pombo, atualmente professora de História da UERJ, é também minha digníssima esposa – nada como ter uma cientista ao lado, para me revisar e evitar gafes!

 

Referências úteis

  • GAY, Peter. O Século de Schnitzler –  a formação da cultura da classe média (1815-1914). São Paulo: Companhia das Letras, 2002.