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Archive for the ‘Cidadania’ Category

Nem precisou as eleições estarem decididas. O “estrago” já foi feito há tempos. É um estrago benéfico, eu penso. É o fim da falsa imagem. Segue o texto de um dos maiores autores lusófonos da atualidade, José Eduardo Agualusa, publicado no jornal O Globo na véspera das eleições. (Arnaldo)

O novo rosto do Brasil no mundo

Imagem relacionadaO mundo ama o Brasil. Isto parece-me algo extraordinário, pois o mundo não ama o mundo. As nações odeiam-se uma as outras, desde o início dos tempos, vizinhos contra vizinhos, pobres contra poderosos, pobres contra pobres e poderosos contra poderosos. O Brasil, contudo, sempre foi a alegre exceção.

Países muito diversos, que se guerreiam uns aos outros, com bruto vigor e perseverança, convergem na simpatia pelo Brasil: israelitas e palestinos amam o Brasil; sauditas e iranianos amam o Brasil; angolanos e congoleses amam o Brasil; sérvios e croatas amam o Brasil. O Brasil, enfim, é o Nelson Mandela dos países.

Ou tem sido assim até agora. Infelizmente, o Brasil está em vias de se tornar um país normal — ou seja, odiável, como todos os outros.

Bem sei que, como qualquer paixão, também esta assenta (ou assentava) num logro ingênuo: amamos o Brasil porque queremos acreditar, ou porque precisamos acreditar, que em algum lado deste planeta devastado por furacões de ódio e de rancor, existe uma praia tropical, estendida ao sol de um verão perpétuo, na qual um povo moreno canta o amor e festeja a vida, harmonizando com talento acordes dissonantes. Sim, sabemos da violência, da insegurança, da pobreza, das desigualdades sociais. Afinal de contas, todos nós vimos “Cidade de Deus”. Acontece que mesmo na violência explícita havia uma possibilidade de redenção. Pelo menos era nisso que acreditávamos.

Ao longo das últimas semanas o Brasil vem mostrando ao mundo um outro rosto, nada simpático. Lendo a imprensa internacional somos confrontados com o horror que este novo rosto do Brasil vem provocando: Bernard-Henri Lévy, filósofo e escritor neoliberal francês, protestou na edição em português do “El País” contra “as declarações desse sujeito (Jair Bolsonaro), assim como o programa que as acompanha, que vão contra tudo aquilo de que o Brasil pode se orgulhar: sua multietnicidade, sua tradição e suas práticas de acolhida, seu liberalismo verdadeiro e a coabitação, em suas cidades imensas e belas, de múltiplas crenças”. Disse ainda: “Custa a crer que a pátria de Chico Buarque e Chico Mendes se deixe assim tentar por um retorno a um passado atroz, que deixou tantas cicatrizes ainda abertas”.

Marine Le Pen, líder da extrema direita francesa, acusou Bolsonaro de dizer “coisas extremamente desagradáveis, que não poderiam ser ditas em França”. Depois acrescentou: “São culturas diferentes”. Parece que para Marine Le Pen será normal os brasileiros dizerem “coisas extremamente desagradáveis”.

É este o perigo: o de avaliar um país através dos dirigentes que o seu povo escolhe. Claro que isso não faz sentido. O mesmo país que elegeu Obama, elegeu Trump, e isso não significa que os americanos degeneraram, passando de um povo elegante, culto e sofisticado, a brutos cor de laranja semi-letrados. Contudo, de uma forma consciente ou não, todos nós tendemos a tomar a parte pelo todo.

Falo por mim. Apaixonei-me pelo Brasil porque aos 12 anos ouvi Chico Buarque cantando os versos de João Cabral de Melo Neto. Se tivesse conhecido o Brasil unicamente através da obra (vamos chamar-lhe assim) de Alexandre Frota, ou da filosofia política (vamos chamar-lhe assim) de Jair Bolsonaro, teria hoje uma opinião muito diferente sobre os brasileiros.

Amanhã, com o resultado das eleições, ficaremos sabendo se a imagem do Brasil no mundo irá sofrer ou não danos irreparáveis.

José Eduardo Agualusa. 27/10/2018.

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Áudio destinado à cristãos do Brasil para induzir ao voto em Bolsonaro é exemplo de como tentam manipular a mente das pessoas

Às vésperas das eleições 2018, senhora evangélica me mandou um áudio pró Bolsonaro. Ela mandou tentando ser útil. O áudio é tão perverso em seus 4m35s que precisei de onze páginas para dissecá-lo, ponto a ponto. Tenho pouca esperança de que a senhora tenha lido.
Decidi publicar, porque mostra mais uma vez onde chega a maldade e o poder de manipulação das pessoas. A perversidade se agrava porque de um lado a mensagem tem aparência de mensagem simples e de outro porque se destina a uma população socialmente fragilizada.
A análise do discurso demonstra uma série de mensagens subliminares sutis, que envolvem distorções graves e confundem os ouvintes.
Quem desejar antes de ler, ouvir o áudio, pode baixa-lo aqui:

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A Onda que nos arrebata é pesadelo tornado realidade

Pequeníssima nota sobre o momento político atual e a onda de violência nazifascista que está tomando as ruas de todo o país

You! Yes, you behind the bikesheds, stand still lady!

– Da música The Wall, do álbum homônimo (Pink Floyd)

No início do ano, previ equivocadamente, que com a definição de uma plataforma consistente do PSDB, o candidato “bomba” seria lentamente esquecido, como torpe poeira, e que ele só tinha crescido porque até ali haviam poucas candidaturas já firmadas, consistentes.

Eu errei.

PSDB e PT se enrolaram completamente nos mantos de suas confusões internas, cada um em seu partido e com seus problemas. Para lançar candidatos, enfrentaram brigas por poder, vaidades, e imagens desgastadas por acusações de processo, corrupção etc.

Enquanto isso, o governo temeroso seguia fazendo das suas, apliando insatisfação, falta de grana, redução de direitos, angústias mis… Nutriente (nada) secreto para fermentar o caldo do radicalismo.

E enfim, o projeto do Lado B cresceu, firme, bem planejado, com apoio do marketeiro do Trump inclusive. Ele disse para cada um aquilo que cada um queria ouvir e como dizem por aí, “lacrou”.

Errei, porque jamais poderia acreditar que o Brasil se tornaria um grande “A Onda“, filme que marcou a adolescência de minha geração ao alertar sobre o pensamento e o comportamento nazi-fascista. Afinal, filmes como esse eram apenas reports de um passado que não retornaria a esse ponto.

A Onda” é um presente. As pessoas estão sendo agredidas, espancadas, humilhadas, mortas, e o Plano B. bate palmas.

Para as forças democráticas do país, de todos os “lados”, esquerda ou direita, uma união contra o Lado B pode ser tarde demais.

Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, pedagogo, escritor, cidadão brasileiro.

 

 

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Pausinha na série de artigos “Tentando votar direito”, em que esmiúço como faço para escolher meus candidatos: Nesse “suplemento especial”, ofereço ao leitor ferramentas práticas e úteis para a construção dessa escolha. Hoje é sábado, dá uma pesquisada!

(Arnaldo)

Estude você mesmo e descubra seus candidatos!

  1. Cartilha neutra: Para me ajudar nesse garimpo todo, estou usando ferramentas de registro e comparação. A principal delas é a “Cartilha do Eleitor Consciente“, de Carlos Eduardo Aguayo Reis, uma cartilha realmente neutra e bem feita.
  2. Sites comparando propostas? Você vai encontrar vários no Google. Escreva na barra de pesquisas: compare o que diz cada candidato e bom trabalho! Para além do que dizem em entrevistas, etc., existem as propostas oficiais, registradas no TSE. Elas podem ser baixadas do próprio site do Tribunal Eleitoral: http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2018
  3. Fichinhas dos candidatos: Tem mais de um site exibindo, eu usei principalmente a do site Gazeta do Povo, que é enxuta, sempre atualizada, e com todos os candidatos para todos os cargos. Nome, partido, coligações partidárias, atividade profissional, situação junto ao TSE… É um ponto de partida apenas, mas que pode valer a pena.
  4. Trajetórias: Novamente vá ao google e escreva: trajetória de cada candidato. Vários sites abrirão. Atenção, procure abrir mais de um. Como tudo e todos, os diferentes veículos se alinham com diferentes frentes. Não leia apenas o que é confortável, o que quer ver. Não construa histórias, não fantasie. Procure ao menos um site internacional, um site alinhado ao mercado, um site alinhado às preocupações sociais.

Em caso de dúvidas, recomendo tremendamente recorrer à Ciência. Haverá maior chance de você encontrar fontes fidedignas, e dificilmente você vai topar com fake news (previna-se delas aqui!). Em ciências podem haver correntes de pensamento em oposição, mas sempre haverá razões que justifiquem a existência de cada uma dessas correntes.

***

 

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– Tentando votar direito –

Critérios que uso na hora escolher em quem voto

Parte 3: Partidos e grupos econômicos

“Ficha limpa”

Era muito mais difícil votar certo. Porque era muito mais difícil pesquisar. Hoje em dia, driblando-se os fake news e outras distorções do mundo digital, consegue-se puxar a ficha de qualquer um.

A minha “ficha limpa” é um pouco mais rigorosa que a utilizada pela lei assim batizada (e que é útil, veja no link), porque muitos atos ilícitos são para mim extremamente sujos. Votar privilégios e benefícios a si e aos seus grupos de alinhamento que sim pesem ou causem impactos significativos para o Todo da sociedade podem desclassificar o candidato facilmente. Só por esse critério digo que sobra muito, muito pouca gente.

Ou seja, para saber se o candidato é “ficha limpa”, é preciso estudar as engrenagens e instituições que movem a cidade em que se vive, o Estado e o país, e como esses candidatos interagem com elas.

O ex-prefeito que hoje é candidato é oficialmente “ficha limpa”, mas autorizou um desmatamento de alto impacto ambiental para a construção de uma lucrativa indústria, com injustificável lastro de empregos e benefícios (as vezes empreendimento tocado por  empresa que apoiou o candidato no processo eleitoral)? Ficha suja. Ele fez dentro da lei, mas por mim cometeu algo próximo de um crime. No mínimo, o crime da falta de consciência, impensável a um representante do povo.

Sim, me interessa conhecer a trajetória deles pelos partidos e os grupos econômicos com os quais a pessoa está alinhada, para início de conversa.

Partido conta?

Partidos são blocos imensos de pessoas, que concordam com alguns pontos essenciais, mas não em tudo. Por isso todo partido tem debate, tem pré-candidatura, tem frentes, divisões diversas. É por isso que o fato de você achar um candidato de um partido absurdo não é critério para desclassificar o partido inteiro. A coisa muda quando uma boa parte dos candidatos do mesmo partido são duros de engolir, pois isso quer dizer que é justo onde você não concorda que eles se alinham.

Olhar para o partido do candidato conta de duas formas: Na observação do comportamento do candidato em relação a esse mesmo partido, e na observação geral da coerência desse mesmo partido.

A forma como o candidato se relaciona com a política partidária pode dar pistas importantes: Troca de partido como quem troca de roupa? Desconfio. Passeia por partidos notoriamente “centrão”? Desconfio. Apoia tudo o que o partido diz? Estranho.

Se o partido do candidato apoia radicalmente coisas que não fazem sentido nenhum para mim? Desclassifico. Os partidos e seus históricos de coligação também ajudam a gente a entender como eles funcionam. Partido tem uma linha, começa a fazer coligações “esquisitas” com outros partidos que em princípio tem ideias opostas… Desconfio demais.

A análise do partido é especialmente importante quando se pensa em quem votar para deputado estadual ou federal. Isso porque são muitos, e é simplesmente impossível analisar a todos um por um. Para se ter uma ideia, aqui no Rio são quase 2500 candidatos para deputado estadual. O partido ajuda a gerar algum filtro.

Grupos econômicos

Essa parece ser hoje o fator de maior atenção: a economia. Infelizmente os populares analisam muito pouco o papel do enlace entre os grupos econômicos e a economia (dê uma pequena olhada nesse vídeo e entenda melhor a ligação entre produção, grupos econômicos e políticos). Esse enlace nocivo costuma levar estados e países na direção de um colapso. Vejam no que acarretou no Rio e Janeiro a superdependência do petróleo, ou a superdependência da economia nacional pelo agrobusiness.

Candidato que apoia e é apoiado por grupos econômicos que estão alheios às necessidades das pessoas, ou que seguem por rumos insustentáveis (em todos os sentidos), estou fora.

– CONTINUA –

***

Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, escritor, cidadão.

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Educações: Qual a real solução?

Roda de conversa com Arnaldo V. Carvalho no Museu da República (RJ), no próximo sábado (dia 29/09/2018).

Sábado agora (29/09/2018) estarei com uma roda de conversa com o tema: “Educações: qual a real solução?”. Em uma linha, será um bate-papo sobre as realidades da educação escolar e não escolar, pública e privada, na busca de soluções viáveis que atendam as diversidades e suas necessidades. Esse papo vai acontecer na Virada Política RJ, um evento APARTIDÁRIO, criado por pessoas comuns. Queremos discutir problemas e soluções como cidadãos. Vale muito conhecer (veja programação aqui)!

Um pouco mais

O pensamento político nacional encontra-se polarizado, gerando um desgastante debate entre o público e o privado, entre a escola e a família, etc. Queremos ultrapassar isso, visitar modelos de transição e pensar em como podemos enquanto sociedade enfrentar os desafios atuais de modo a evitar distorções e políticas que privilegiem uns em detrimento de outros.

Assim, os temas guias da conversa situam-se entre a criação de filhos, a responsabilidade de escola x família nessa criação, de um lado; e de outro, o que é possível se pensar em educação para o século XXI e como gerar acesso por todos a isso, incluindo o que surge de melhor não importa se no público ou privado.

Nossa Roda, que vai acontecer no salão do segundo andar do museu, as 15:30, terá um tempo curto, o que nos forçará a sermos objetivos em um tema tão complexo. Mas são sementes.

Sobre mim e porque coordeno a Roda de Conversa Educações

Aos que não me conhecem ainda, explico porque estarei responsável sobre falar de educação: Estou mergulhado no tema desde sempre.

Passei por muitas escolas, públicas e privadas, o adolescente rebelde percebendo que a educação dos anos de 1980 e 1990 como uma furada. Naquele tempo mesmo comecei a ler sobre outros modelos de educação, incluindo o montessoriano e a pedagogia Waldorf, mas me encantando – e lendo tudo sobre – Summerhill, a mãe das escolas democráticas e não-diretivas.

Mal cresci virei pai, e errei a beça nesse e em todos os outros papeis de minha vida. Nessa mesma época, me conectei com Zoë Redhead de Summerhill, me tornei um penpal friend de uma estudante de lá, e propaguei em 1999 a campanha Save Summerhill (a escola na época era ameaçada de fechamento pelas autoridades). Também fui moderador da maior comunidade no Orkut sobre o tema, o Summerhill Brasil. Nessa época então já atuava como terapeuta, professor e palestrante de cursos e oficinas na área de saúde natural e qualidade de vida.

Hoje dirijo uma escola de Shiatsu, fomento o projeto Parapapais, sou graduando em pedagogia pelo Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro – e lá ministro oficinas sobre: Jogos na Educação;  Sono e Sonhar na Educação; Postura e Consciência Corporal na Educação. Sou membro ativo da rede Creative Learning, ligada ao MIT, entre outras.

E ainda erro! Mas também aprendo, muito, cada vez mais. E essa é uma das premissas da aprendizagem. É preciso viver e enfrentar o medo de errar para se poder, mesmo com uma queda ou outra, transformar-se. Você não pensa assim? Ótimo, precisamos de você lá, queremos te ouvir!

Vamos aprender e desenhar juntos uma nova educação, para pessoas de todas as idades. Educação é um direito de todos, em todas as idades!

Para entenderem o que é o evento Virada Política

A Virada Política é um festival anual, de entrada franca, que reúne num mesmo espaço pensadores e pensadoras, ativistas e artistas para discutir política para além dos partidos. O evento propõe atividades de diversas naturezas, como: diálogos (painéis com palestra seguida de debate); oficinas e workshops mãos na massa para a aplicação de ideias; intervenções artísticas e outras, ou seja, expressões políticas em diversos formatos. O festival já acontece há 4 anos em São Paulo e esse ano terá sua segunda edição no Rio de Janeiro, em 29 de setembro, no Museu da República, no Catete.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA:

https://drive.google.com/file/d/1LjlsCNVk4bjOpziR5UeVUnjXeRNqUDa7/view

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– Tentando votar direito –

Critérios que uso na hora escolher em quem voto

Parte 2:

Já vimos que busco olhar para os candidatos sem idolatrias, buscando sua história, suas propostas e seus alinhamentos com pessoas, grupos e ideias. E também que minha escolha passa preferencialmente por políticos que entendam a sociedade como um todo, não somente defendam um trecho com o qual se identifique. É hora de esmiuçar cada um desses critérios, antes de continuarmos. Para isso, notem bem as preliminares conceituais de nossa realidade e como a vejo:

Direita e esquerda

Preciso acrescentar que também não enquadro imediatamente os candidatos segundo a noção que pode ser bastante ampla e subjetiva de “direita e esquerda” (não deixe de ler esse artigo)/(já escrevi um pouco sobre isso aqui). Para mim, a polarização é negativa, simplista, e atrapalha a percepção das pessoas e o diálogo, ao invés de ajudar. Rotular pessoas e sistemas é contraprodutivo e as vezes fico achando que tem muita gente que lucra com isso e a quem interessa “ver o circo pegar fogo” entre as pessoas e suas teorias enquadradoras e reducionistas.

Privilégios: sempre eles?

O país é declaradamente capitalista, mas que mistura elementos anteriores à república: preconceitos graves e diversos; desigualdade sem oportunidades equivalentes na base, clara confusão/mescla/associação entre os poderes governamentais, corporativos e midiáticos; crença na violência como forma de organizar, ordenar, progredir; cultura de privilégios – os historiadores que me rebatam como sempre fazem. Se não há uma cultura de privilégios oficial, há uma oficiosa, grave, e que está cada vez mais escancarada, com menos vergonha de mostrar sua cara. Está aí o “centrão”, as perigosas ligações entre juízes, partidos e políticos, etc… E os silenciosos reis “sem cara”, a fornecer os tais privilégios a que me refiro (empresários, do Brasil e do mundo). Claro que há diferenças: as posições são mais misturadas que antes. Um rei pode ser político, pode ser empresário, líder religioso, membro de um cargo alto da justiça. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo, e flertar com outros reis, e jogar seus títeres para lá e para cá.

Afinal, quem são os titereiros por trás dos nomes que elegemos? Quem é o 1% mais rico que detem quase um terço de todas as riquezas do país? Isso é fundamental.

Raízes nefastas, liberalismo utópico, pseudosocialismo

Para quem não entendeu quando na introdução deste artigo, disse que gosto do jogo bem jogado, que fique claro o recado: é muito fácil quem teve acesso a comida, casa, educação, experiências diversas, falar em meritocracia. Compete com uma maioria absoluta de gente miserável, que não teve acesso nem oportunidades reais. Esse é um ponto fundamental: as velhas estruturas de poder comprometem demais a mobilidade social pelo mérito. E quanto a entrada equânime no jogo, disso não abro mão. Já que é para jogarmos um jogo, ou disputarmos uma corrida para algum lugar… Mas há medo, quem não é miserável morre de medo de uma competição ainda mais acirrada do que já enfrenta. Enfrentem seus medos, famílias não materialmente miseráveis! Quero ver o que fazem ante a um aumento de 80% nos números de concorrentes em concursos de atividades bem pagas… Quero ver quando os favelados tiverem acesso a boa escola, boa comida e ricas experiências de vida, o que farão quando virem o número de pessoas vagas crescer para 1000, 2000 para uma só. Quero ver quando negras e negros invadirem por mérito a bolsa de valores, quando os primeiros bilionários negros surgirem no país, terem seus carrinhos particulares nos campos de golfe (VIVA TIGER WOODS!) e os filhos estudando na PUC. A esperança de um liberalismo pra valer, que pode ser encontrado entre as premissas do MISES por exemplo, é injusta se essa base em comum não for antes corrigida.

Por outro lado, precisamos falar sobre pseudosocialismo. Essa palavra socialismo, aliás, dá muita confusão, como dá confusão as ideias de comunismo versus as práticas sociopolíticas tais como foram experienciadas nos países da cortina de ferro e seus seguidores (China e Cuba). É não se estudando os autores originais e a história de uma forma macro que as pessoas passem a acreditar que sistemas são piores do que outros per si; Quando o que conta, sempre, é a maneira como o sistema se exerce. Igualdade de direitos é uma premissa capitalista e uma premissa socialista – teoricamente falando. Se a igualdade de direitos não se aplicou em um regime, não é pela teoria, mas pelos valores pré-infiltrados nas pessoas. Isso aconteceu e segue acontecendo nos diferentes países, dos diversos sistemas. E é por isso que um “capital-socialismo de estado” como os que vemos acontecer nos países escandinavos consegue fazer com que o índice de qualidade de vida das pessoas por lá sejam os mais altos do mundo há anos. O que temos em termos sociais aqui é uma piada de mal gosto. Já virou cinza a conquista social do – doa a quem doer – governo Lula, que alavancou verbas para setores miseráveis, fez a pobreza chegar a universidade (viva Marielle!). Que fique claro: não votei no Lula (e nem votaria!) e discordo totalmente da maneira com que ele realizou os pontos positivos de seus governos (longa discussão), que se mostrou inclusive, como eu já dizia a todos na época das “vacas gordas”, insustentável. Então para medidas sociais, que coloquem todo mundo na corrida em condições competitivas – já que a escolha do país parece ser essa, é preciso muito mais inteligência, criatividade, empatia e estudo do que as manobras que são feitas. E não, não vale espremer o dinheiro da classe média e ajudar os pobres. A distribuição de renda passa por ajustes outros de fluxo financeiro, e outros de fluxo de mentalidades.

– Continua –

Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, cidadão.

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