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Archive for the ‘Cidadania’ Category

– Tentando votar direito –

Critérios que uso na hora escolher em quem voto

Parte 2:

Já vimos que busco olhar para os candidatos sem idolatrias, buscando sua história, suas propostas e seus alinhamentos com pessoas, grupos e ideias. E também que minha escolha passa preferencialmente por políticos que entendam a sociedade como um todo, não somente defendam um trecho com o qual se identifique. É hora de esmiuçar cada um desses critérios, antes de continuarmos. Para isso, notem bem as preliminares conceituais de nossa realidade e como a vejo:

Direita e esquerda

Preciso acrescentar que também não enquadro imediatamente os candidatos segundo a noção que pode ser bastante ampla e subjetiva de “direita e esquerda” (não deixe de ler esse artigo)/(já escrevi um pouco sobre isso aqui). Para mim, a polarização é negativa, simplista, e atrapalha a percepção das pessoas e o diálogo, ao invés de ajudar. Rotular pessoas e sistemas é contraprodutivo e as vezes fico achando que tem muita gente que lucra com isso e a quem interessa “ver o circo pegar fogo” entre as pessoas e suas teorias enquadradoras e reducionistas.

Privilégios: sempre eles?

O país é declaradamente capitalista, mas que mistura elementos anteriores à república: preconceitos graves e diversos; desigualdade sem oportunidades equivalentes na base, clara confusão/mescla/associação entre os poderes governamentais, corporativos e midiáticos; crença na violência como forma de organizar, ordenar, progredir; cultura de privilégios – os historiadores que me rebatam como sempre fazem. Se não há uma cultura de privilégios oficial, há uma oficiosa, grave, e que está cada vez mais escancarada, com menos vergonha de mostrar sua cara. Está aí o “centrão”, as perigosas ligações entre juízes, partidos e políticos, etc… E os silenciosos reis “sem cara”, a fornecer os tais privilégios a que me refiro (empresários, do Brasil e do mundo). Claro que há diferenças: as posições são mais misturadas que antes. Um rei pode ser político, pode ser empresário, líder religioso, membro de um cargo alto da justiça. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo, e flertar com outros reis, e jogar seus títeres para lá e para cá.

Afinal, quem são os titereiros por trás dos nomes que elegemos? Quem é o 1% mais rico que detem quase um terço de todas as riquezas do país? Isso é fundamental.

Raízes nefastas, liberalismo utópico, pseudosocialismo

Para quem não entendeu quando na introdução deste artigo, disse que gosto do jogo bem jogado, que fique claro o recado: é muito fácil quem teve acesso a comida, casa, educação, experiências diversas, falar em meritocracia. Compete com uma maioria absoluta de gente miserável, que não teve acesso nem oportunidades reais. Esse é um ponto fundamental: as velhas estruturas de poder comprometem demais a mobilidade social pelo mérito. E quanto a entrada equânime no jogo, disso não abro mão. Já que é para jogarmos um jogo, ou disputarmos uma corrida para algum lugar… Mas há medo, quem não é miserável morre de medo de uma competição ainda mais acirrada do que já enfrenta. Enfrentem seus medos, famílias não materialmente miseráveis! Quero ver o que fazem ante a um aumento de 80% nos números de concorrentes em concursos de atividades bem pagas… Quero ver quando os favelados tiverem acesso a boa escola, boa comida e ricas experiências de vida, o que farão quando virem o número de pessoas vagas crescer para 1000, 2000 para uma só. Quero ver quando negras e negros invadirem por mérito a bolsa de valores, quando os primeiros bilionários negros surgirem no país, terem seus carrinhos particulares nos campos de golfe (VIVA TIGER WOODS!) e os filhos estudando na PUC. A esperança de um liberalismo pra valer, que pode ser encontrado entre as premissas do MISES por exemplo, é injusta se essa base em comum não for antes corrigida.

Por outro lado, precisamos falar sobre pseudosocialismo. Essa palavra socialismo, aliás, dá muita confusão, como dá confusão as ideias de comunismo versus as práticas sociopolíticas tais como foram experienciadas nos países da cortina de ferro e seus seguidores (China e Cuba). É não se estudando os autores originais e a história de uma forma macro que as pessoas passem a acreditar que sistemas são piores do que outros per si; Quando o que conta, sempre, é a maneira como o sistema se exerce. Igualdade de direitos é uma premissa capitalista e uma premissa socialista – teoricamente falando. Se a igualdade de direitos não se aplicou em um regime, não é pela teoria, mas pelos valores pré-infiltrados nas pessoas. Isso aconteceu e segue acontecendo nos diferentes países, dos diversos sistemas. E é por isso que um “capital-socialismo de estado” como os que vemos acontecer nos países escandinavos consegue fazer com que o índice de qualidade de vida das pessoas por lá sejam os mais altos do mundo há anos. O que temos em termos sociais aqui é uma piada de mal gosto. Já virou cinza a conquista social do – doa a quem doer – governo Lula, que alavancou verbas para setores miseráveis, fez a pobreza chegar a universidade (viva Marielle!). Que fique claro: não votei no Lula (e nem votaria!) e discordo totalmente da maneira com que ele realizou os pontos positivos de seus governos (longa discussão), que se mostrou inclusive, como eu já dizia a todos na época das “vacas gordas”, insustentável. Então para medidas sociais, que coloquem todo mundo na corrida em condições competitivas – já que a escolha do país parece ser essa, é preciso muito mais inteligência, criatividade, empatia e estudo do que as manobras que são feitas. E não, não vale espremer o dinheiro da classe média e ajudar os pobres. A distribuição de renda passa por ajustes outros de fluxo financeiro, e outros de fluxo de mentalidades.

– Continua –

Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, cidadão.

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– Tentando votar direito –

Critérios que uso na hora escolher em quem voto

Parte 1: Quem o político deve representar?

É isso aí, temos que votar de novo.

Presidente COM vice, governador local, dois senadores, e dois deputados (um estadual e um federal). Como você fez suas escolhas? As minhas são baseadas numa combinação de valores, visão de vida e sociedade, e muita pesquisa. Então, para saberem como eu aplico essa combinação nos meus critérios de pesquisa, preciso falar um pouco sobre esses valores e visão de vida.

Eu acredito que o mundo social é movido por Ego, e que 100% das pessoas são egoístas. A diferença básica entre elas é que umas satisfazem seus egos através da felicidade alheia, e outras que encontram satisfação somente em si mesmas. A maioria das pessoas sente que a felicidade alheia é importante porque primitivamente somos animais sociais, ou seja, temos uma forte ligação instintual, somos de bando, de matilha, de alcatéia, de grupo (pleonasmo intencional). É isso o que nos faz “bons”, ou “capazes e afins à bondade”. O nome do sentimento que provoca isso é EMPATIA.

Essa crença pode parecer comum, e é fácil de sustentá-la pois há inúmeros artigos científicos sobre empatia, inteligência coletiva, vínculo/apego, ego, egoísmo e generosidade, etc. O que nunca vi em estudos, porém (me ajudem com isso por favor porque deve existir), é o limite dessa formação de bando, do ponto de vista individual. Ou seja, o quanto uma pessoa é capaz de enxergar quem está muito fora de seus laços óbvios – parentes, amigos próximos, colegas de profissão, etc. – como seus pares. E o quanto isso passa por criação?

Ou seja, qual é a capacidade de João de Deus, nascido na periferia de Salvador, querer que Quincas Welch, rapaz classe média seja tão feliz quanto ele, e vice-versa?

No plano da votação, a primeira pergunta que precisei me responder é: estou votando para sentir que minha cor, minha atividade profissional, minha faixa socioeconomica, seja contemplada, ou quero para todos?

Um amigo me disse nas eleições passadas que votaria em fulano porque ele ia cuidar dos interesses do bairro em que ele mora (zona sul, classe alta do Rio), e outra amiga me disse que votaria em ciclano porque ele era o candidato da categoria profissional dela.

São escolhas, e não as julgo. A minha, porém, é por gente que consiga olhar o macro da situação, consiga se distanciar de sua própria realidade, e enxergar o todo da sociedade, não apenas os setores que acredite me trazer retornos/benefícios mais diretos (isso é especialmente importante para os cargos executivos).

– CONTINUA –

Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, escritor, cidadão.

Link para a introdução deste artigo: https://arnaldovcarvalho.wordpress.com/2018/09/18/tentando-votar-direito-1/

 

 

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Tentando votar direito

Papinho Preliminar

Está difícil votar. E isso eu tenho escutado de tanta gente! Para mim também está. Confio em  pouca gente, em cada vez menos gente no cenário político. Se um candidato (são raríssimos) vencer meus filtros de confiança, então parto pro planos das competências, ideias apresentadas, ações prévias executadas, e suas redes e conexões.

Não sou “de esquerda” – embora assim me acusem muitos amigos “de direita”.

Não sou “de direita” – embora assim me acusem muitos amigos “de esquerda”.

Não sou de um centrão negociador nem um centrão em cima do muro. Mas estou no meio na ideia de que necessidades individuais e coletivas precisam encontrar harmonia e serem atendidas da melhor forma possível.

Isso deve combinar com o fato de que há muito já não tenho idolatrias, não torço para times, não ofereço devoção exclusiva a figura santa nenhuma, não sou de partido nenhum, e sei que ninguém faz nada sozinho.

Mas no campo das vidas exemplares, gosto muito de aprender com o que outras vidas passaram e como agiram e reagiram aos cenários que se apresentaram a elas;

Mas no campo do esporte, adoro um bom jogo, um jogo limpo e bem jogado, de qualquer time, de qualquer esporte;

Mas no campo político, aprecio as ações, e coleciono algumas ideias. As falas não, que estou um bocado cansado delas. As ações – já executadas ou em execução são o cartão de visitas de uma pessoa que esteja em carreira política. As ideias me fazem estudar coerências e direções do sujeito – ainda que não se sustentem sem as ações;

Mas no campo das relações, sei bem o peso que elas possuem. Então para mim não adianta a pessoa aparentemente ter todo o resto e se juntar com quem não presta.

Pronto. Introdução feita a critérios fundamentais que serão sempre parte de minhas escolhas na hora do voto.

Leitor, “Tentando votar direito” é uma série de artigos curtos de minha autoria que vou postar aos poucos, mostrando como estou pesquisando para tentar votar melhor nas eleições de 2018.

É só me acompanhar por aqui (assine o Blog!) ou pelo Face em:

https://www.facebook.com/arnieexplica/

Abraços,

Arnaldo V. Carvalho*

 

* Pai, terapeuta, professor, cidadão.

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Ah, Marielle… Seis meses sem rosto e sem o rosto de quem te fez isso e mandou fazer.

Teu rosto-sorriso persiste em nossas almas.

Teu grito de dor e denúncia ecoa em nossas almas.

Te dou, Marielle, memórias de um cativeiro que persiste, que persiste com teu-nosso povo, o povo irmão que é um só, o do explorado.

 

Ainda não entendeu o Caso Marielle? /

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/politica/1521126920_282592.html

Artigo publicado na ONU, bem resumido:

https://nacoesunidas.org/artigo-marielle-franco-democracia-legado-e-violencia-contra-as-mulheres-na-politica/

Matéria da assessoria de imprensa da Anistia Internacional, transcrita pelo Prof. Pedlowski:

Seis meses após assassinato de Marielle, Anistia Internacional cobra solução do crime

Um pouco do que Marielle fazia trabalhando como vereadora, antes de sua morte:

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/08/16/O-que-dizem-os-projetos-de-Marielle-Franco-aprovados-no-Rio

 

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Uma de minhas últimas fotos do MN, na minha ida de 31 de julho de 2018

Infâncias, gerações e um museu.

Arnaldo V. Carvalho

Sem que eu soubesse, minha mãe investia pesado em minha educação. Me ofertou muitas experiências, e dentre elas, pude conhecer museus, exposições, parques, praias, arredores montanhosos, natureza, a leitura e o teatro. No terceiro dia de minha dor e de meu luto pela perda do Museu Nacional, desejo compartilhar lembranças sobre este que fez parte da construção de quem sou hoje. E particularmente, da melhor parte de mim. Esse melhor que me permitiu estender a experiência às minhas filhas.

Minha mãe me levou algumas vezes ao Museu Nacional quando eu era criança. Lembro bem de sua entrada, do meteoro imenso. Lembro dos três dinossauros na entrada do segundo andar. Lembro do caranguejo gigante – a peça que eu mais gostava. E lembro do medo que eu sentia das máscaras rituais indígenas (fugia da ala indígena por causa delas), e do fascínio das exóticas cabeças encolhidas e secas. Ah, havia o setor dedicado às civilizações americanas… Incas, Maias e Astecas, com seus potes, adornos, urnas funerárias… Também havia múmias ali. A mais impressionante era uma preservada de forma natural. Uma possível mãe e seu bebê num cesto ao lado jaziam no amor eterno dessa relação. Se foram juntas, deixando seus corpos percorrerem o tempo (séculos?) até que fossem tragadas pela tragédia do incêndio. Nem tudo ali precisava ser muito grande ou muito antigo. Meus olhos de criança recebiam a explicação de minha mãe sobre os potes de lombrigas e oxiúros, que me davam asco e uma real percepção de que não queria aquilo me habitando – reforçando assim a importância da higiene alimentar. As múmias egípcias (de gatos, jacarés e pessoas) me causavam terror e êxtase. Lembro que olhava a múmia deitada, com seus pezinhos semi-descarnados, bem “de pertinho”, pois não precisava me abaixar para estar na altura de seu corpo. E lembro delas em outra fase, onde já tinha quase o tamanho que tenho e ela andou bem mal cuidada. Sim, de muitas alas e peças, me lembro do cheiro. Um cheiro que não voltei a sentir em outra parte, nem em museus como Louvre e Prado. Era uma antiguidade própria. Esse cheiro agora é só uma memória.

De minha infância para cá, o museu havia crescido. Vinha no rumo de aprender a atrair, de se modernizar… Encontrou-se com um fabuloso artista paleontológico, colocou réplica de fóssil de tiranossauro, expandiu a ala dos dinossauros, preservou melhor a área de arqueologia, salvando as múmias que estiveram num grave sufoco em tempos anteriores. O meteoro que desde o começo abria a exposição agora apresentava a ala do início da formação da vida na terra com auxílio de um belíssimo painel cósmico para fotos e novos fósseis vegetais. A coleção de história natural só foi ficando mais arrumada e bonita. Um sambaqui apareceu em destaque numa bela ala, logo após a Luzia. O museu criou acessibilidade, montou uma pequena exposição tátil, enfim, foi criativo, ousado e organizado. Tentou seguir respirando e tocando as pessoas, mesmo quando já não tinha fôlego.

Minhas filhas, todas elas, eu levei o quanto pude. As maiores chegaram a conseguir fazer uma leitura madura de diversos pontos do museu. Cada um em seu próprio ritmo de aproveitar… Revisitamos o caranguejo gigante, que com as mais novas (com cinco anos), aprendeu a “falar”. As menores conversaram, aliás, com a “múmia princesa”, com a lhama empalhada, com os crânios do hominídeos que fazem parte da história humana. Elas conversaram com eles e descobriram que a realidade do tempo e do espaço é tão imensa.

Eu e minhas filhas tivemos um grande privilégio em termos tido acesso, em nossas infâncias, a um museu a resumir o planeta, seus tempos e espaços. Possivelmente a grande maioria de nossa população jamais terá uma nova chance de um encontro tão forte e fidedigno, “abridor de lata” da lata da mente.

Meu desejo mais profundo é que essas experiências de ida ao Museu Nacional, que pude deixar a elas, assim como minha mãe deixou em mim, siga lhes ajudando a serem pessoas melhores. Agora, cada um de nós terá de levar consigo o pouco que conseguiu. Quem sabe vestir um chapéu imaginário de arqueólogo e vasculhar a mente, em busca de novos detalhes por entre as lembranças.

***

Sou Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, cidadão.

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O Museu Nacional se foi. Estive lá há pouquíssimo tempo. Pela última vez. Visitei o museu mais vezes que visitei qualquer outro espaço público fechado. O que havia lá, não havia em nenhum outro museu do mundo. Muitas peças únicas, muita coisa oferecida aos brasileiros sem que eles precisassem viajar para a Europa para encontrar peças do mesmo quilate. A história por parte de boa parte das peças, aliás, está ligada ao amor ao conhecimento por parte da família imperial, por um lado, e por outro, como as grandes conquistas da ciência brasileira, em todos os campos ligados à história da Vida da Terra e da Humanidade.

Com o incêndio, fica claro que o Estado Brasileiro não está muito longe de realidades como a do conflito que arrasou o Iraque e destruiu uma parte significativa das obras do museu de Bagdá, ou as declaradas destruições de monumentos históricos por talibãs no Afeganistão: os números de mortos que apresentei há uns anos em meu blog e que superam os de locais assolados por guerras, agora se somarão à dura realidade da destruição de nossa memória, nossa cultura, nossa identidade.

Quando já nos aproximamos de meio século de vida, temos mais noção do que nunca do que representa um século, dois, três… Pudemos observar tantas transformações, tantos lugares desaparecerem ou se transformarem… Infelizmente, posso dizer que, de tudo o que observei mudar no país, vi muito pouco que de fato tornasse o que temos de melhor  bem cuidado, e menos ainda tornando o que temos de pior um pouco melhor.

Meu repúdio a todas as autoridades, a todos os ricos pobres de espírito, a todos os que tem poder e nada fazem, a todos os que não se importam. Meu repúdio ao egoísmo e a ignorância. Estou, mais uma vez em tão pouco tempo de luto. Na “Guerra Brasil”, morrem pessoas, lugares… Agoniza, a cada dia, a esperança.

Arnaldo V. Carvalho

PS: Estarei nos próximos dias reproduzindo aqui diversos artigos, comentários e observações que retratam fragmentos do que foi esse descaso, esse absurdo, esse descalabro.

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Misturar para confundir, dividir para conquistar: O caldeirão ferve e a Bruxa ri

Por Arnaldo V. Carvalho

Aos que foram atentos a história do antigo Império Romano, devem saber que sua origem vitoriosa ocorreria com o fim da República de Roma, após o famoso general ditador Caio Júlio César (100a.C-44a.C.) anexar as Gálias (basicamente toda a Europa Ocidental) e reclamar na capital poder absoluto para si.

César desenvolveu uma estratégia quase infalível, que permitiu a Roma anexar territórios inteiros com um uso de força minimizado. A tática divide et vinces* foi descrita pelo César (embora já utilizada com sucesso por Alexandre o Grande e posteriormente por Napoleão Bonaparte) tratava de uma guerra de informação, onde ele basicamente enviava espiões que, infiltrados nos grupos de interesse, tratavam de plantar a “semente da discórdia” entre clãs rivais, criando todo tipo de intrigas, enquanto enviavam preciosas informações que permitiam a ele estudar as características e pontos fracos de cada povo.

Plantar confusão nos dias de hoje envolve misturar conceitos, fatos, etc., e é aí que se forma o caldo das divisões. Formam-se divisões em assuntos os quais na verdade todos querem soluções reais. Ou seja, interessam a todos, dizem respeito a todos, e podem sim alcançar a todos. A mistura quente, que confunde situações tangentes, é a dinamite da bruxa, como denuncia a música Na Pressão (1999), de Lenine (1959-).

Olho na pressão, tá fervendo
Olho na panela
Dinamite é o feijão cozinhando
Dentro do molho dela

A bruxa mexeu o caldo
Se liga aí, ô galera
Tá pingando na mistura
Saliva da besta-fera

Trecho da música Na Pressão, de Lenine.

Temos aí uma multiplicidade de violências institucionalizadas e culturalizadas, e na pressão que o medo provoca, a bruxa ri. Fatos ocorridos e que vão para as notícias de jornal – assassinatos, torturas, discriminações, estupros, roubos, etc., se juntam ao que não vai estar na mídia – como o desprezo e cada um deles é dinamite, cada um deles se soma, temperada pela saliva da besta-fera do ódio, ácida, quente. A bruxa é a anti-vida sorrindo diante de nossas divisões.

O que tenho visto no caso Marielle Franco, por exemplo, é icônico. Tenho recebido em meus grupos sociais uma série incrível de comentários onde diferentes pontos reivindicatórios – todos legítimos – entram em choque.

Uma das maiores confusões é em relação à atenção que se têm dispensado à execução da socióloga versus a de todos os outros assassinatos cometidos diariamente no país. Me repetindo em relação a comentário que fiz em cima de um post do Facebook:

“Nenhuma morte deve passar despercebida. Cada uma deve ser cobrada pela particularidade que a envolve.

Morreu depois de ser assaltado? É uma cobrança, não pode acontecer.

Morreu executada porque se meteu em área “dominada”? É outra cobrança.

Morreu de fome? É outra cobrança.

Matou? É outra cobrança (afinal a sociedade tem sim ligação com a origem de pelo menos a maior parte dos assassinos)

Mandou matar? Mais uma cobrança.

Consumiu o produto que gera uma cadeia de mortes? Outra cobrança.

Enfim, para cada uma deve haver da sociedade uma cobrança. Por respostas, por atitudes.

Misturar tudo não ajuda. Dividir o povo não ajuda”.

Cada pessoa e/ou grupo, que além de se manifestar precisa viver sua vida – trabalhar, estar com os seus em suas alegrias e doenças, cuidar de si, sua mente e corpo, etc. – tem todo o direito de escolher seus temas, e um não diminui o outro. Tudo é muito, muito grave e precisa igualmente de atenção.

Um amigo fez o outro tipo de afirmativa-cobrança, na verdade já uma mistura entre a primeira que comentei – por que a morte dela está parecendo mais importante que outras), e uma segunda: esse barulho todo é porque ela era do partido X (no caso, o PSOL, que se auto-define como um partido “de esquerda”). Minha resposta segue a mesma linha, é simples (em relação à escrita original, adicionei links aqui no blog):

“Amigo, não sou PSOL nem nada disso. Nenhuma morte deve passar em branco, nenhuma.

Agora, você pode usar a memoria e se perguntar: por que o medico morto a facada na Lagoa Rodrigo de Freitas (2015) teve visibilidade da imprensa e um monte de gente assassinada de forma barbara, que no máximo aparece em jornais estilo “O Povo” não tem? E a juiza executada com 21 tiros (2011) em Niterói?

O que traz visibilidade de imprensa a uma morte?

Te dou duas hipóteses: ou o crime aconteceu em área de alta circulação dos grupos privilegiados (caso do médico) ou a pessoa executada tinha algum tipo de atuação extremamente incomoda, talvez sabendo coisas que “não deveria saber”. Foi o caso da juíza e é o caso da Marielle.

Vejam mais sobre a briga da juíza Patrícia Acioli com o lado podre da polícia

Ambas foram mortas no embate com a “banda podre” da Polícia Militar, e em breve tenho certeza que pessoas começarão a ligar os pontos.

Não esqueça meu amigo que tivemos um colega (no meu caso amigo) morto por assalto no mês passado, e assassinato seguido de roubo é um serio problema a ser denunciado e execução planejada de queima de arquivo é outro problema.

Ambos precisam parar e para isso devemos cobrar das autoridades. Mas por favor não vamos cair no erro de misturar as coisas”.

Nem misturar, nem diminuir qualquer um dos fatos.

Os temas reivindicatórios devem ser sempre claros, para não confundir e enfraquecer. Aqui estamos claramente conversando sobre o eixo da “violência”, e suas ramificações precisam ser desembaraçadas se quisermos enxergar as situações com lucidez.

Então, caros leitores, máxima atenção: se continuarmos confundindo, seguiremos divididos, e permaneceremos presas fáceis da Bruxa que está a solta.

Arnaldo V. Carvalho pai, terapeuta, pedagogo, cidadão.

 

* A célebre frase de Júlio César já havia sido citada por mim no artigo “Risada sem Graça” na ocasião do golpe contra a presidência da república eleita por voto popular. Possivelmente a citarei outras vezes, visto que esse é o principal ingrediente do caldo da Bruxa que destrói a humanidade e seus povos.

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