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Archive for the ‘Contos e congêneres’ Category

Sobre a ilusão

Conversas imaginárias com Reich e Neill

Arnaldo V. Carvalho

Um dia, conversei na minha cabeça com o fundador da escola Summerhill, A. S. Neill, e seu velho amigo Wilhelm Reich.

Reich odeia a ilusão, porque entendeu que é nela que vive a não aceitação dos fatos, e portanto, todo o sofrimento humano.

A. S. Neill acha que a ilusão é coisa de criança, e portanto, fase passada no adulto sadio. Pontuei com o Neill da minha cabeça sobre minha teoria da acumulação de fases; após algum tempo refletindo com seu cachimbo, o velho educador, que conversa comigo já na beira dos seus 90 anos – concordou que, se um adulto puder trazer seu recurso lúdico nos momentos apropriados – ao brincar com uma criança, por exemplo – tendo o aparelho psíquico maduro, talvez isso traga uma graça a mais na vida e melhorem-se os conflitos de gerações.

Como foi Neill quem disse isso, Reich “meio que” respeitou. Fez aquela cara feia,
comprimindo as sobrancelhas, e após uns segundos de nariz torcido, decidiu:

– Não tenho tempo para lidar com isso, Neill. Tenho coisas mais importantes a pensar e a fazer.

Arnaldo V. Carvalho, terapeuta, estuda a obra de A. S. Neill e Wilhelm Reich há muitos anos, e adora “conversar” com seus autores mais influentes.

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O Terapeuta Nu: Diálogo imaginário com Wilhelm Reich

ou De quando o terapeuta participa da resistência terapêutica com suas próprias neuroses

 

Por Arnaldo V. Carvalho (abril 2014)

 

Converso sempre com meus professores. Um deles é Wilhelm Reich (1897-1957), um dos maiores cientistas da natureza humana de todos os tempos. Meu Professor Reich – construído de leituras e devaneios –, é um sujeito extremamente objetivo, sempre com aquela paciência encurtada para com tudo o que crio em meu mar de ilusões, tudo o que me afasta da realidade.

Certa vez, reclamei com Reich a propósito das resistências surgidas em terapia.

– Reich, as pessoas não aguentam muito tempo.

– Diabos, é você que não os aguenta.

– Mas professor, faço meu trabalho direitinho… Acredito que estabeleço o contrato terapêutico adequadamente, explico minuciosamente que, por melhor que façamos, a psique não se reintegra da noite para o dia e, de quando em quando, incentivo-os a perceber o próprio progresso.

– Você não os aguenta, Arnaldo. Não suporta que o abandonem.

– …

– Sua necessidade os transforma em tiranos, tanto quanto há bebês tiranos a controlar suas mães. Afinal, você é ou não é uma mãe para eles?

– (voz embargada) Deixe disso Reich.

– É ou não é?

– Se está se referindo ao fato de tratá-los com o carinho que um ser humano merece, pode ser.

– E o seu orgulho de ser “humano”, facilitando horários, pagamentos, permitindo que eles ditem o ritmo da terapia, e usem todas as máscaras que desejam e os mantém confortáveis dentro do setting terapêutico? Isso é o quê? Você imita sua figura de referência Arnaldo, você quer ser a mãe sem fim que no final se estrepa – igualzinho a sua mãe. Seus “filhinhos”, nesse excesso de postura, às vezes vão embora antes de estarem equilibrados para isso.

– Já chega Reich! Também não sou como você! E, meus clientes também não são como os seus. Nosso mundo em meu tempo pede por mais suavidade, chegamos a um ponto onde, em contraste ao rigor agressivo nos inter-relacionamentos, há uma falta de Contato insuportável. Além disso, cada um tem seu ritmo, e preciso respeitar isso.

(Clap, clap – palmas irônicas surgem das mãos do professor):

– Bonito isso… – e mudando da ironia para a expressão de reprovação surpresa:

– E o que te faz pensar que dessa forma acaba por impedir que as pessoas amadureçam suas relações com frustrações? É assim que elas aumentarão o contato consigo mesmas, se apropriarão da realidade?!

Reich não pestanejou e seguiu disparando certeiro dentro do meu Ego.

– Já pensou que quando o sujeito procura sua terapia, está pedindo por uma mudança do velho ritmo? Que o modus operandi que ele utilizou até aqui mostrou-se um desastre? Então como é que se deixa a pessoa “conduzir a terapia em seu próprio ritmo”?

– Isso é verdade.

– Então como esperar mudança permitindo que ele fique no lugar comum que o levou até ali?

Reich já me tinha na palma de sua mão.  Mas, por algum modo inexplicável, seguia apostando em meu potencial. Resolveu sair da qualidade de atacante e, assumindo tom professoral, colocou-me em meu lugar, ao repetir aquilo que já havia me explicado um sem número de vezes.

– Em terapia sempre vai haver resistências. A mais grave é aquela que o terapeuta subsidia, através de suas próprias dificuldades emocionais. É assim que você, por exemplo, alimenta o bebê tirano que surge no processo transferencial de um cliente que te vê como figura paterna ou materna. Ele reassume o comando, e quando você finalmente decidir enfrentá-lo – provocando o sujeito ao apontar para esse aspecto regredido em sua personalidade –, ele cairá fora. Porque você deixou que se tornasse grande demais justamente o aspecto da psique bloqueado, que fará de tudo para permanecer.

– Parece que você fala como se esse “aspecto regredido”, como você nominou, fosse um ser vivo, com personalidade própria.

– Funciona como se tivesse. Aliás, não é você que, em textos e em sala de aula, tem falado dessa coisa de totens*, levando em conta que relacionamentos e  aspectos da psique funcionam com um ser vivo?  Então há uma vontade própria, sim desse aspecto regredido. Você mesmo teorizou que entre os princípios de todo o ser vivo está o desejo de permanecer. Ficou falando para mim sobre esse desejo, que é um mecanismo natural de sobrevivência, que está relacionado à punção de vida, mas que pode assumir um aspecto obsessivo… As fases, as divisões da psique, existem, tanto quanto existem diferente órgãos, diferentes funções do cérebro de acordo com suas zonas…

– … E todas as “partes” querem permanecer, só que a parte doentia precisa desaparecer, ou ser reintegrada, o que de certa maneira dá no mesmo. Mas isso tudo eu sei!

– Sabe, mas não aplica direito, porque ainda tem muita terapia para fazer como cliente, porque ainda não resolveu suas malditas couraças que construiu lá trás. Seu progresso é lento e isso pode ser um perigo potencial aos seus clientes. Sua fraca terapia deixa respirar e sustenta a praga emocional!

– Não Reich, aí também é demais. Isso não!

– Então mostre-me mais Herr Carvalho, eu quero ver.

Saí do papo com Reich revoltado, mal dei “tchau”. Era o que ele queria, afinal. Meus ombros ardiam, meus dentes cerravam, e senti vontade de jogar basquete. Lembrei, porém, de quando torci o pé ao jogar logo após um episódio de intenso sofrimento emocional. Então desisti. Usar um recurso que deveria ser positivo (esporte) para simplesmente me punir? Fiquei farto de mim mesmo nesse momento. Meu sangue em ebulição, porém, varria o inconsciente, juntava memórias. Era como se todos os anos de experiência como terapeuta e paciente passassem num só tempo por minha mente. O que me levava ali?

Minha própria resistência. Minha neurose adotou a estratégia de “misturar-se com o inimigo”, e assim, jamais ser descoberto. Isso é comum entre os terapeutas. Mas o meu Reich não deixava que isso passasse impune. Ele me denunciou a mim mesmo. Eu estava nu, e precisava escolher entre sentir vergonha fora da roupa ou assumir minha grandeza – que está em ser tudo e somente o que sou – e trabalhar direito.

 Arnaldo V. Carvalho é terapeuta, estudante da obra de Wilhelm Reich, aluno de Sylvio Porto.

 

* A teoria do Totem de Arnaldo V. Carvalho nada tem a ver com a noção psicanalítica de tabu/totem, mas se refere a natureza dos vínculos relacionais, originada a partir da combinação de facetas de personalidade dos componentes desse vínculo. A teoria do Totem está relatada em artigos de autoria e amplamente discutida no livro “Shiatsu Emocional Avançado” (no prelo).  

 

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Segue um novo conto de minha autoria, para meus amigos se divertirem!

Sinopse:

Hermélio, o coveiro, um dia teve uma ideia: Por que não reciclar as pecinhas de silicone de donos que jamais tornariam a se interessar pelo item?

Agradeço às amigas Shelley e Vivian por ajudarem a enquadrar Hermélio. 🙂

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REPRODUÇÃO DESTE TEXTO É PERMITIDA EM SUA INTEGRALIDADE, SEMPRE SENDO CITADA AUTORIA E FONTE. GRATO.

Em junho deste ano, escrevi essa pequena historinha de Alice, só para divertir minhas filhas e a mim mesmo. Dedico a todas as almas eternamente jovens como a da Anna Carola Lua Cheia (Feliz Niver Atrasado Anna!) , e em especial a duas mocinhas, Olívia e Evelyn, minhas amigas encantadoras pelo que já são, e que muito combinam com cogumelos que crescem e encolhem e deliciosos bules e xícaras mastigáveis.


Alice e os Chapéus

Por Arnaldo V. Carvalho*

Ilustrações de Malu Carvalho **

No primeiro dia, o Chapeleiro Louco recebeu Alice em sua nova loja de chapéus. Como se não a conhecesse, virou as costas certo de que a menina o seguiria. Enquanto passeava por chapéus de cores, tamanhos e formas diferentes, ia descrevendo as múltiplas particularidades de cada um.

Três horas depois, ao final do último corredor, Alice trôpega de cansada mas sem ânimo para interromper a fala incessante da psicodélica persona. Vira-se o chapeleiro e pergunta à jovem:

– Então, gostou de algum?

– Pra falar a verdade, sim.

– Qual?

O primeiro, que está na sua cabeça. – Alice sorri com um gesto matreiro.

– Esse aqui? Oh, oh! Não, não não não, não não! Esse aqui é muito grande para você.

– Como? És menor que eu! Deve caber perfeitamente em mim.

Com um rápido gesto Alice estende o braço e passa a cartola do Chapeleiro para sua própria cabeça. O chapéu magicamente alonga-se, encobrindo Alice completamente. “socorro! Não posso ver nada! Solte-me daqui!”. E tão logo gritou, tão logo viu a luz novamente, pois o chapéu fora retirado e já estava de volta a cabeça de seu dono.

No segundo dia, após o chá com a Lebre Maluca de Março, Alice retorna a loja de chapéus.  Chapeleiro está terminando um novo projeto de chapéu, e ao ver Alice se aproximar, interrompe a admiração por seu próprio invento, ergue os olhos e pergunta:

– Vamos conhecer os chapéus da loja?

– Chapeleiro! – diz Alice em tom repreensivo. – leve-me de uma vez até os melhores chapéus; não quero saber de ficar horas vendo todas as suas criações. Quero somente as mais belas e inspiradas. Aliás, caro senhor, se quer me presentear com outro chapéu, dê-me logo o melhor deles.

Os olhos do Chapeleiro Louco brilharam, e num piscar ele se ergueu e rodopiou pelos corredores, guiando Alice numa dança rápida em direção a mais alta das prateleiras:

Veja, ali está o melhor!!!! – E, apertando um sapo que dormia sobre um pequeno chapéu-coco em cima de uma prateleira próxima, o chapeleiro derruba uma caixa branca com a língua do batráquio, que forçosamente chicoteara o ar. Dispensa-o para imediatamente ter a caixa nas mãos. A caixa era grande, arredondada, com acabamento e estilo “casca de ovo”. Em sua tampa, letras douradas estampavam: “O MELHOR”.

Ao invés de chapéu, a caixa abrigava uma larga folha de Vitória Régia, que flutuava por sobre um líquido próximo da água em aparência (bem, talvez fosse). E dessa vez é Chapeleiro que então o pega e coloca de pronto na cabeça de Alice, sem haver tempo para quaisquer reações; Os cabelos de Alice agora estavam molhados, e a menina exclama furiosa:

Isso NÃO É UM CHAPÉU!!!!

Sem dar ouvidos, o chapeleiro sorridente entrelaça seus dedos próximo do rosto e grita:

Estupendo! Estupendo!!! Espera! Não! É mesmo! Ainda não é o chapéu!!

– Quanto mais melhor do mundo – confirma Alice.

– É mesmo, falta algo.. Ah, já sei!

Chapeleiro então olha em volta e localiza o sapo antes espremido, a espreitar por um cantinho da estante; movimenta  os olhos para apontar a Vitória Régia, e imediatamente o anfíbio salta para a cabeça de Alice, ajeitando-se com alegria na folha.

Pronto, agora está perfeito! – diz o Chapeleiro Louco com os olhos a brilhar.

https://i2.wp.com/img192.imageshack.us/img192/6505/tiposchapeu.jpgNo terceiro dia, Alice não queria visitar a loja de chapéus. Foi preciso um esforço por parte da Lebre de Março, que prometera a Alice convencer os irmãos Tweedle a lhe contar uma nova história. Afinal de contas, segundo a lebre, não se poderia perder a inauguração da loja do chapeleiro.

 

Inauguração? Mas a loja já estava aberta há pelo menos dois dias antes!

– Mariana! Tenha Paciência! É a inauguração do terceiro dia da loja!

Precavida, dessa vez Alice resolveu chegar usando uma Garça-guarda-chuva, que é para nenhum chapéu-de-folha-e-sapo ser colocado à revelia na sua cabeça. Mas parece que as garças-guarda-chuvas não gostam de lojas de chapéus, de modo que ao descobrir-se na entrada do estabelecimento, a que Alice trouxera consigo arregalou os olhos e bateu suas asas fortemente, livrando-se da dona e voando para longe. À Alice coube acompanhar, muda e decepcionada, o vôo de seu guarda-chuva até que este desaparecesse pelos céus. Com resígnio, entra a mocinha na loja em habitual clima de suspense e curiosidade que, dentro do coração de Alice, ela adorava. Por fora, porém, a menina mostrou-se brava antes do primeiro oi.

Chapeleiro! Hoje não quero experimentar seus chapéus, ouviu bem?

– Bom dia, Alice! Veio para a inauguração do meu terceiro-dia-de-Alice-na-minha-loja! Que bom! Há chapéus por todo lado!

– Isso eu já sei. – diz a menina, presunçosa e com ares de cansada de tanta redundância.

O chapeleiro muda o tom:

Entrou na loja sem seu chapéu preferido. Isso é muito rude! Muuuito rude!!!

– SEU chapéu preferido, quer dizer.

Vamos ter que encontrar outro, de certo. De certo que sim – O chapeleiro sorri enquanto aperta a língua em seu olhar de quem tem os parafusos da cabeça fora do lugar.

Aqui a menina perde os modos:

Seu maluco! Se quer me apresentar a um chapéu verdadeiramente belo, deve me perguntar antes de tentar coloca-lo na minha cabeça!

Alice não simplesmente disse isso. Disse brava, quase que puxando o velho chapeleiro pelo colarinho. Surpreso, sua loucura fora ameaçada pela primeira vez na vida, ou pelo menos, na vida de Alice. E ele adorou!

Temos uma moça decidida! São as melhores! Clientes perfeitas! Sabem o que querem! E eu.. eu encontrarei a melhor opção! SIM!

 

Chapeleiro Maluco pôs-se a dançar e cantarolar um velho folk irlandês:

 

(Ouça a música aqui, antes de continuar a história!):

 

 

What will we do if the kettle boils over

What will we do only fill it again

What will we do if the cow eats the clover

What will we do only set it again

The preaties are dug

And the frost is all over

Kitty lie over close to the wall

How would you like to be married to a solider

Kitty lie over close to the wall

What would you do if you married a soldier

What would you do only follow his gun

What would you do if he died in the ocean

What would you do only marry again

The preaties are dug

And the herrings are roasted

Kitty lie over close to the wall

You to be drunk and me to be sober

Kitty lie over close to the wall

What will we do if the kettle boils over

What will we do only fill it again

What will we do if the cow eats the clover

What will we do only set it again

The preaties are dug

And the frost is all over

Kitty lie over close to the wall

How would you like to be married to a solider

Kitty lie over close to the wall

Segurava Alice pelos braços, cuja alma musical a fez seguir o ritmo da canção; mas, visto que o Chapeleiro não parava de repeti-la – e poderia mesmo passar horas e horas sem perder o tom ou o rebolado – Alice toma uma atitude drástica. Ainda dançando, aproxima-se do chapeleiro e lhe fecha a boca com uma das mãos, dizendo:

Vamos aos chapéus?

– Mas isso é muito rude! Muuuuito rude!!!

– Ora, desculpe. – recua Alice com um começo de arrependimento – Não queria tapar sua boca, mas afinal, já havíamos dançado tant…

Interrompida antes que pudesse completar sua frase, Alice escutou o chapeleiro:

 

É muito rude não mostrar suas preferências de chapéu a um chapeleiro!

– Mas… mas…

– Diga-me, senhorita, o que vai  querer?

– É…

– Senhorita, não tenho muito tempo!

– Eu..

– Ora essa, vi que não está bem disposta. Volte amanhã!

– Amanhã não!

– Então o que vai querer???

– Um chapéu.

– Mas que tipo de chapéu? Parece louca!

– Louca? Eu??

– Chapéu de loooucos!!!! – gritou o Chapeleiro para dentro da loja, como se algum assistente lhe viesse prestar serviço. – Oh, a Lebre foi à festa do chá!

 

Chapeleiro Maluco transfigura-se novamente, como se o fato da lebre ter ficado na festa do chá tivesse feito-o perceber que estava sozinho a tocar à loja, e teria que dar conta de sua cliente sozinho. Caindo quase em si (o Chapeleiro nunca cai em si, apenas quase em si), resolve que perguntar à Alice sobre suas preferências seria o mais adequado.

Oh sim, sim, sim. Vamos aos chapéus.

 

E amavelmente, embora não sem os olhos torcidos próprios dos loucos, pergunta:

 

Então, o que vai querer? Temos chapéus com abas, alvanegas, bandanas, barretes e barretinas, bicórnios, bibicos, boinas e bonés, borsainos, camauros, camelaucos, capelos, carapuças e gorros, cartolas e casquetes, chapéus-panamá, de cozinheiro ou bombeiro, stetson, com coroa, fedoras, pétasos, píleos quepes, diademas, colbaques, claques, solidéus, toucas e turbantes, ushankas e sombreros. De toureiro, com fivelas, plumas, estrelas e luas; chapéus em couro, feltro, mas também colmeia de vespas, sementes de linho, tricô, juta, palha, metal, pele animal. Há chapéus com lantejoulas, abaulados, listrados, resistentes, macios, com peruca, com pena de pavão, coloridos ou lisos, enrugados, para usar de lado, altos e baixos. Penas de lado, de frente, por todo o lado. Chapéus, abas, com orelheiras, cinteiras, à zamparina, palas frontais, egretes…

Atordoada, Alice se ateve a simplificar sua preferência, a despeito de nunca ter ouvido falar que havia tantos tipos de chapéu e adereços:

Bem, gosto de chapéus leves.

– Leves? Com plumas? Couro de besouro-do-atlântico? Asas de andorinha? Que tal esse? E esse? E esse?

– Humm. Nada muito grande.

– Com abas? Você sabe, nunca se sabe.

– Não, chapéus com abas me complicam a fronte

– Sem abas, sem palas. Tente esse de penas de corvo-de-escrivaninha.

– Prefiro cores claras..

– Cores claras! Cores claras! – o chapeleiro então tira de dentro de uma caixa ovalada um chapéu no formato de ovo frito.

– Aqui está!

– Não, não, Chapeleiro! Me refiro a tons suaves.

– Você disse cores claras e não tons suaves! Afinal, que tipo de chapéu você quer?

(…)

 

* Arnaldo V. Carvalho, escritor e terapeuta, é autor do livro “Shiatsu Emocional” e “O Tao do Corpo”. Adora escrever e criar coisas para crianças, incluindo sua criança interior.

** Malu Carvalho é ilustradura, argumentista, fotógrafa, escritora, cineasta, dançarina, cantora, pintora, colorista, cozinheira, e o que mais lhe der na telha. Sua obra mais famosa na Internet é o clássico do Youtube “A Vida do Macaco”, piloto de uma de suas histórias, filmado pela mesma aos 5 anos.

REPRODUÇÃO DESTE TEXTO É PERMITIDA EM SUA INTEGRALIDADE, SEMPRE SENDO CITADA AUTORIA E FONTE. GRATO.

 

Alice e os Chapéus

 

Arnaldo V. Carvalho

 

 

No primeiro dia, o Chapeleiro Louco recebeu Alice em sua nova loja de chapéus. Como se não a conhecesse, virou as costas certo de que a menina o seguiria. Enquanto passeava por chapéus de cores, tamanhos e formas diferentes, ia descrevendo as múltiplas particularidades de cada um.

 

Três horas depois, ao final do último corredor, Alice trôpega de cansada mas sem ânimo para interromper a fala incessante da psicodélica persona. Vira-se o chapeleiro e pergunta à jovem:

 

– Então, gostou de algum?

 

– Pra falar a verdade, sim.

 

– Qual?

 

  • O primeiro, que está na sua cabeça. – Alice sorri com um gesto matreiro.

  • Esse aqui? Oh, oh! Não, não não não, não não! Esse aqui é muito grande para você.

  • Como? És menor que eu! Deve caber perfeitamente em mim.

 

Com um rápido gesto Alice estende o braço e passa a cartola do Chapeleiro para sua própria cabeça. O chapéu magicamente alonga-se, encobrindo Alice completamente. “socorro! Não posso ver nada! Solte-me daqui!”. E tão logo gritou, tão logo viu a luz novamente, pois o chapéu fora retirado e já estava de volta a cabeça de seu dono.

 

No segundo dia, após o chá com a Lebre Maluca de Março, Alice retorna a loja de chapéus. Chapeleiro está terminando um novo projeto de chapéu, e ao ver Alice se aproximar, interrompe a admiração por seu próprio invento, ergue os olhos e pergunta:

 

– Vamos conhecer os chapéus da loja?

– Chapeleiro! – diz Alice em tom repreensivo. – leve-me de uma vez até os melhores chapéus; não quero saber de ficar horas vendo todas as suas criações. Quero somente as mais belas e inspiradas. Aliás, caro senhor, se quer me presentear com outro chapéu, dê-me logo o melhor deles.

 

Os olhos do Chapeleiro Louco brilharam, e num piscar ele se ergueu e rodopiou pelos corredores, guiando Alice numa dança rápida em direção a mais alta das prateleiras:

 

  • Veja, ali está o melhor!!!! – E, apertando um sapo que dormia sobre um pequeno chapéu-coco em cima de uma prateleira próxima, o chapeleiro derruba uma caixa branca com a língua do batráquio, que forçosamente chicoteara o ar. Dispensa-o para imediatamente ter a caixa nas mãos. A caixa era grande, arredondada, com acabamento e estilo “casca de ovo”. Em sua tampa, letras douradas estampavam: “O MELHOR”.

 

Ao invés de chapéu, a caixa abrigava uma larga folha de Vitória Régia, que flutuava por sobre um líquido próximo da água em aparência (bem, talvez fosse). E dessa vez é Chapeleiro que então o pega e coloca de pronto na cabeça de Alice, sem haver tempo para quaisquer reações; Os cabelos de Alice agora estavam molhados, e a menina exclama furiosa:

 

  • Isso NÃO É UM CHAPÉU!!!!

 

Sem dar ouvidos, o chapeleiro sorridente entrelaça seus dedos próximo do rosto e grita:

  • Estupendo! Estupendo!!! Espera! Não! É mesmo! Ainda não é o chapéu!!

  • Quanto mais melhor do mundo – confirma Alice.

  • É mesmo, falta algo.. Ah, já sei!

 

Chapeleiro então olha em volta e localiza o sapo antes espremido, a espreitar por um cantinho da estante; movimenta os olhos para apontar a Vitória Régia, e imediatamente o anfíbio salta para a cabeça de Alice, ajeitando-se com alegria na folha.

 

  • Pronto, agora está perfeito! – diz o Chapeleiro Louco com os olhos a brilhar.

 

 

No terceiro dia, Alice não queria visitar a loja de chapéus. Foi preciso um esforço por parte da Lebre de Março, que prometera a Alice convencer os irmãos Tweedle a lhe contar uma nova história. Afinal de contas, segundo a lebre, não se poderia perder a inauguração da loja do chapeleiro.

  • Inauguração? Mas a loja já estava aberta há pelo menos dois dias antes!

  • Mariana! Tenha Paciência! É a inauguração do terceiro dia da loja!

 

Precavida, dessa vez Alice resolveu chegar usando uma Garça-guarda-chuva, que é para nenhum chapéu-de-folha-e-sapo ser colocado à revelia na sua cabeça. Mas parece que as garças-guarda-chuvas não gostam de lojas de chapéus, de modo que ao descobrir-se na entrada do estabelecimento, a que Alice trouxera consigo arregalou os olhos e bateu suas asas fortemente, livrando-se da dona e voando para longe. À Alice coube acompanhar, muda e decepcionada, o vôo de seu guarda-chuva até que este desaparecesse pelos céus. Com resígnio, entra a mocinha na loja em habitual clima de suspense e curiosidade que, dentro do coração de Alice, ela adorava. Por fora, porém, a menina mostrou-se brava antes do primeiro oi.

 

  • Chapeleiro! Hoje não quero experimentar seus chapéus, ouviu bem?

  • Bom dia, Alice! Veio para a inauguração do meu terceiro-dia-de-Alice-na-minha-loja! Que bom! Há chapéus por todo lado!

  • Isso eu já sei. – diz a menina, presunçosa e com ares de cansada de tanta redundância.

 

O chapeleiro muda o tom:

 

  • Entrou na loja sem seu chapéu preferido. Isso é muito rude! Muuuito rude!!!

  • SEU chapéu preferido, quer dizer.

  • Vamos ter que encontrar outro, de certo. De certo que sim – O chapeleiro sorri enquanto aperta a língua em seu olhar de quem tem os parafusos da cabeça fora do lugar.

 

A menina perdeu os modos:

  • Seu maluco! Se quer me apresentar a um chapéu verdadeiramente belo, deve me perguntar antes de tentar coloca-lo na minha cabeça!

 

Alice não simplesmente disse isso. Disse brava, quase que puxando o velho chapeleiro pelo colarinho. Surpreso, sua loucura fora ameaçada pela primeira vez na vida, ou pelo menos. na vida de Alice. E ele adorou!

 

  • Temos uma moça decidida! São as melhores! Clientes perfeitas! Sabem o que querem! E eu.. eu encontrarei a melhor opção! SIM!

 

Chapeleiro Maluco pôs-se a dançar e cantarolar um velho folk irlandês:

 

What will we do if the kettle boils over

What will we do only fill it again

What will we do if the cow eats the clover

What will we do only set it again

The preaties are dug

And the frost is all over

Kitty lie over close to the wall

How would you like to be married to a solider

Kitty lie over close to the wall

 

What would you do if you married a soldier

What would you do only follow his gun

What would you do if he died in the ocean

What would you do only marry again

The preaties are dug

And the herrings are roasted

Kitty lie over close to the wall

You to be drunk and me to be sober

Kitty lie over close to the wall

 

What will we do if the kettle boils over

What will we do only fill it again

What will we do if the cow eats the clover

What will we do only set it again

The preaties are dug

And the frost is all over

Kitty lie over close to the wall

How would you like to be married to a solider

Kitty lie over close to the wall

 

(Ouça a música aqui, antes de continuar a história!):

 

 

Segurava Alice pelos braços, cuja alma musical a fez seguir o ritmo da canção; mas, visto que o Chapeleiro não parava de repeti-la – e poderia mesmo passar horas e horas sem perder o tom ou o rebolado – Alice toma uma atitude drástica. Ainda dançando, aproxima-se do chapeleiro e lhe fecha a boca com uma das mãos, dizendo:

 

  • Vamos aos chapéus?

  • Mas isso é muito rude! Muuuuito rude!!!

  • Ora, desculpe. – recua Alice com um começo de arrependimento – Não queria tapar sua boca, mas afinal, já havíamos dançado tant…

 

Interrompida antes que pudesse completar sua frase, Alice escutou o chapeleiro:

  • É muito rude não mostrar suas preferências de chapéu a um chapeleiro!

  • Mas… mas…

  • Diga-me, senhorita, o que vai querer?

  • É…

  • Senhorita, não tenho muito tempo!

  • Eu..

  • Ora essa, vi que não está bem disposta. Volte amanhã!

  • Amanhã não!

  • Então o que vai querer???

  • Um chapéu.

  • Mas que tipo de chapéu? Parece louca!

  • Louca? Eu??

  • Chapéu de loooucos!!!! – gritou o Chapeleiro para dentro da loja, como se algum assistente lhe viesse prestar serviço. – Oh, a Lebre foi à festa do chá!

    Chapeleiro Maluco transfigura-se novamente, como se o fato da lebre ter ficado na festa do chá tivesse feito-o perceber que estava sozinho a tocar à loja, e teria que dar conta de sua cliente sozinho. Caindo quase em si (o Chapeleiro nunca cai em si, apenas quase em si), resolve que perguntar à Alice sobre suas preferências seria o mais adequado.

  • Oh sim, sim, sim. Vamos aos chapéus.

    E amavelmente, embora não sem os olhos torcidos próprios dos loucos, pergunta:

  • Então, o que vai querer? Temos chapéus com abas, alvanegas, bandanas, barretes e barretinas, bicórnios, bibicos, boinas e bonés, borsainos, camauros, camelaucos, capelos, carapuças e gorros, cartolas e casquetes, chapéus-panamá, de cozinheiro ou bombeiro, stetson, com coroa, fedoras, pétasos, píleos quepes, diademas, colbaques, claques, solidéus, toucas e turbantes, ushankas e sombreros. De toureiro, com fivelas, plumas, estrelas e luas; chapéus em couro, feltro, mas também colmeia de vespas, sementes de linho, tricô, juta, palha, metal, pele animal. Há chapéus com lantejoulas, abaulados, listrados, resistentes, macios, com peruca, com pena de pavão, coloridos ou lisos, enrugados, para usar de lado, altos e baixos. Penas de lado, de frente, por todo o lado. Chapéus, abas, com orelheiras, cinteiras, à zamparina, palas frontais, egretes…

 

Atordoada, Alice se ateve a simplificar sua preferência, a despeito de nunca ter ouvido falar que havia tantos tipos de chapéu e adereços:

 

  • Bem, gosto de chapéus leves.

  • Leves? Com plumas? Couro de besouro-do-atlântico? Asas de andorinha? Que tal esse? E esse? E esse?

  • Humm. Nada muito grande.

  • Com abas? Você sabe, nunca se sabe.

  • Não, chapéus com abas me complicam a fronte

  • Sem abas, sem palas. Tente esse de penas de corvo-de-escrivaninha.

  • Prefiro cores claras..

  • Cores claras! Cores claras! – o chapeleiro então tira de dentro de uma caixa ovalada um chapéu no formato de ovo frito.

  • Aqui está!

  • Não, não, Chapeleiro! Me refiro a tons suaves.

  • Você disse cores claras e não tons suaves! Afinal, que tipo de chapéu você quer?

 

(…)

Ej

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