Pelo direito de escolher como ir e vir

Pelo direito de escolher como ir e vir

E porque eu escolho o Uber

Por Arnaldo V. Carvalho

Sabe por que tem que ter Uber? Porque pessoas querem Uber. Pessoas querem poder escolher como se transportar. Querem decidir com quem se relacionar profissionalmente – inclusive na hora de decidir ir de ônibus, navio, avião, taxi ou uber.

Estamos em um mundo onde a escolha precisa ser respeitada. Escolhe-se o sexo, a religião, como se tem filho, e não se pode escolher o transporte? Não dá né? Imagine se os fabricantes de GPS devem tentar impedir aplicativos como o Waze, ou quem sabe, se o telégrafo deveria fazer protesto contra o telefone, e este contra o celular; e as  estações de rádio deveriam reclamar do surgimento da TV, e esta da Internet… Século XXI, please. As tecnologias vieram para dar mais alternativas, novas possibilidades em todos os segmentos humanos. Ir e vir é básico, e eu quero poder escolher como faço isso.

Taxi e Uber são serviços diferentes

Taxi e Uber são totalmente diferentes, é preciso entender isso. A única relação entre eles é que o taxi é o fóssil do Uber.

Eu nunca fui um cliente de taxi. Não é meu perfil. Acho caro, e não gosto ficar esperando por um carro “acidentalmente” passar pelas ruas para poder chamar. Também não ando com dinheiro e quase nunca o taxista aceita cartão. Enfim, não pegava taxi regularmente antes do Uber, e por isso mesmo, não vejo o Uber como uma “alternativa” ao taxi, apenas como um novo serviço.

Mas é claro que já peguei taxis ocasionais. Infelizmente, minha experiência pessoal em Niterói, São Paulo e Rio de Janeiro me trouxe corridas agradáveis do que gostaria. Carros esquisitos (quando cheira a cigarro erghh nem se fala), motoristas mau humorados ou de “direção truculenta”, tipos “malandrões”, as vezes com músicas que não gosto, e por vezes ainda tendo que ouvir abobrinha (que não paguei para ouvir). Ou vocês acham que Agostinho, o personagem encarado por Pedro Cardoso em “A Grande Família” só existe na ficção? Tem aos montes! E na vida real, quase nunca são “divertidos”.

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Por essas e outras, nunca fui cliente de taxi.

Mas sou cliente Uber. O Uber é a minha cara. Baseado em aplicativo (eu adoro); Não mexo com dinheiro ou cartões ao final da corrida (ótimo, simplesmente agradeço e tchau, sem perda de tempo); Quando peço, me falam qual é o carro e mostram a cara do sujeito com uma nota (posso desistir por precisar de um carro maior ou simplesmente querer outro que me agrade mais – adoro). Todo motorista tem Waze (adoro); Se estiver com sede, posso pedir uma aguinha. E o percentual de carros e motoristas decentes é muito mais alto que do taxi (ufa). Ah, sim, se eu esquecer o celular ou o guarda-chuva, é fácil localizar o motorista e combinar de buscar (quando aconteceu comigo, ele mesmo fez contato e deixou o que esqueci no local que pedi!). Também posso economizar e ter ótimos papos usando o Uber Pool, dividindo o carro com outras pessoas, otimizando o trânsito com isso. Em uma ocasião especial, posso contratar o Uber Black, quem sabe. Mas o principal de tudo é que, se o serviço for abaixo do ideal, eu dou nota, e notas ruins tiram os maus motoristas do serviço. Simples assim. O “mundo dos taxis” seria outro se isso fosse possível!

Taxi e Uber são totalmente diferentes, é preciso entender isso. A única relação entre eles é que o taxi é o fóssil do Uber.

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* Arnaldo V. Carvalho é escritor, cidadão brasileiro e adepto da liberdade de escolha da forma de ir e vir.

 

 

Shiatsu, Butô e a longa dança da vida

Shiatsu, Butô e a longa dança da vida

Por Arnaldo V. Carvalho*

Há vinte anos, pude ajudar a cuidar, mesmo que por poucos meses, da saúde do Dr. Mario Negreiros, renomado endocrinologista de Niterói.

Havia passado por uma experiência de dança, e lá fui apresentado por sua filha ao Butô, a dança contemporânea japonesa, repleta de significado, expressão profunda, transpessoal, além da pequenez da alma do indivíduo, aproximado a energia cósmica que faz a dança celeste do infinito enamorar-se dos sutis e profundos anseios intraterrenos da mãe natureza de nosso planeta.

Hoje me deparo com a notícia do falecimento do pai da arte Butô, Kazuo Ohno, aos 103 anos.

Junto com ela, palavras de Ohno, a própria dança traduzida na limitação linguística que nos habita.

A dança que mexeu comigo há mais de vinte anos é passada como um filme dentro de mim… Todos os pas de deux que vivi, toda a dança que dancei para e pela vida, todo o Shiatsu que se efetua no Kanji da dança (Odori), afixado na parede de meu consultório (arte Shodo original da mestra Kazuko Hagiwara).

Sou dança. Sou shiatsu. Sou butô. Sou Cosmos.

*   *   *

* Arnaldo V. Carvalho é professor de Shiatsu e faz dele seu Butô e seu Do.

 

 

 

A “anestesia” acabou.

Arnaldo V. Carvalho*

Há semanas, José Beltrame, o secretário de segurança com maior longevidade na história do Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista de “despedida” em primeira mão para a TV Globo.

Resultado de imagem para beltrameBeltrame foi claro a comparar o Estado a um doente, chamando de “anestesia” as megaoperações que iniciaram a “era UPP“, e que por algum tempo reduziram parte da violência e criaram certo clima de estabilidade em muitas comunidades dominadas pelo crime.

“Se a cirurgia que deveria ocorrer após a anestesia ocorreu, e se foi bem feita ou não, isso aí é que tem que ser discutido”.

Suas palavras combinam com a do criador do projeto “Papo de Responsa” da Polícia Resultado de imagem para policial papo de responsa beto chavesCivil, o policial Beto Chaves. Em visita (de minha turma de faculdade) ao projeto, na Cidade da Polícia, ele nos disse: “O Estado deixou de aproveitar. Quem deve estar nessas comunidades não é a secretaria de segurança, mas a de educação, de saúde, de trabalho, e de esportes, cultura e lazer”. Com certeza!

Em suma, foi desperdiçada mais uma vez uma grande chance para o Rio de Janeiro transformar-se (o que faz parte do pacote de possibilidades positivas levantadas ainda no governo Cabral, tristemente roubadas de nós pelos meios mais diversos e escusos).

Essa foi uma esperança de alguns poucos, e a prática de nenhum dos governantes. O tempo da “anestesia” das UPPs do acabou, e a dor voltou aos cariocas, que estão acordando ainda de peito aberto.

* Arnaldo V. Carvalho, cidadão carioca

Corpo concreto, Universo abstrato: Kazuo Ohno e Marcel Marceau

 e 

Fizeram parte de minha invisível vida emocional. Partes de mim que quase ninguém mais conhece, nem mesmo alguns de meus eus… Mas eles vivem aqui, e participam da orquestração do que sofro, do que expresso, do que gozo, respiro, choro e sorrio.

Um é a forma concreta, trazida do invisível. Materializa em pleno ar o limite, e brinca com a liberdade dentro dos contornos rígidos que mais ninguém via até então. O outro, é a própria expressão sentimental que não pode, não pode ser contida. Um é o Ocidente fazendo o raso enxergar o que não se pode ver, mimetizando a própria forma no etéreo. O outro é a entranha da terra, é o próprio magma a vazar da falésia funda da Alma Cósmica.

Ohno é a única possibilidade humana de, através do próprio anthropos, fazer-se Universo.

Marceau é o Universo em alma dizendo ao humano: “é tão simples! aceite, seja!… És pequeno mas isso… É divertido, aproveite”!

Arnaldo V. Carvalho*

– Homenagem à mímica e ao butoh, que em minha alma habitam; ao Marceau e ao Ohno que me atravessam inteiro, a me fazer mais Ser.

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*Arnaldo V. Carvalho, fazedor diário da própria alma.


Cabral: Lembranças tristes de uma promessa

Por Arnaldo V. Carvalho

Vou escrever de memória, sem pesquisa nem revisão.

Me lembro com muita nitidez e carinho do meu primeiro contato com Sergio Cabral. Eu era um jovem sonhador, e no recém-inaugurado shopping de minha cidade, havia um quiosque da rede “Albergue da Juventude” (Hostelling International). Nele, um folder muito simpático falava em tom pessoalista sobre a proposta, então inovadora em se tratando de Brasil, de hostel, hospedagens populares, marcadas pela simplicidade e alta interação entre os seus usuários. Quem assinava o folder era Cabral.

Com o Albergue da Juventude, conheci lugares e pessoas que amo, e durante meu tempo de sócio, recebi algumas cartas do Cabral. Que simpatia, que embaixador da juventude ele parecia ser.

Tempos depois, ele foi para o outro lado da linha da vida. Criou projetos para a terceira idade, igualmente entusiasmantes. Essa era a visibilidade que me chegava sobre o ex-governador.

Só daí a melancolia da queda já me bate.

Juntamos isso com o fato de ser filho de pessoas sempre muito bem quistas pela população (o compositor Sergio Cabral e a pedagoga e museóloga Magaly Cabral), e temos um boa-praça, que teria tudo para ajudar a transformar o Rio em coisa boa. Puxa, que pena Cabral, que pena! Que promessa você foi!

Aí veio a “política pesada”. Sempre envolvido com o PMDB, partido que “levou a melhor” no início da democracia Brasileira pós ditadura, foi ele crescendo, crescendo, crescendo… Virou governador. E apesar dos pesares, de uma certa menor atenção aos mais necessitados, de rumores para lá e para cá, Cabral trouxe umas ideias, e oportunidade para a tal boa transformação não faltou: Beltrame-UPPs, Copa, Rock’n Rio, Olimpíadas… Cabral teve participação em muita ideia boa… Não completou nenhuma, não brigou para que nenhuma fosse bem implantada (bem implantada, isto é, com seus impactos aproveitados para o que realmente é importante – e sobre isso escreverei amanhã, prometo).

Fico reprisando a história que vivi, e sem pesquisar, me pergunto: em que ponto ele “se foi”? Quando se perdeu? Quando deixou de ser apenas um convicto na iniciativa privada, na melhoria da zona sul, e passou a desviar dinheiro, a entrar em esquemas? Dizem que seu sogro é o grande monopolista do transporte de massa no Rio. Não vou conferir isso agora. Dizem muitos dizeres, e parte de tudo pode ser verdade ou não. Meu texto não é sobre isso. É sobre o fim da dignidade e como todo fim de dignidade me entristece.

Agora, lá está ele, em uma cela, humilhado, removido de sua condição plena de humano, pai, marido, filho. E o velho alberguista, triste como um filho que descobre da pior maneira que seu pai vale pouco. Só que sem surpresas… Estou velho demais para isso, e alienado de menos para tanto. Lá está Sergio Cabral Filho, saindo do mundo de ilusões de relógios e iates de bilionários, e entrando na cadeia-realidade.

Podia ter entrado para a história como um grande homem. Agora, possivelmente será só mais um no chafurdar da lama do Rio de Janeiro político atual.

*    *   *

Arnaldo V. Carvalho é cidadão do Rio de Janeiro.

 

Mágica no ar – RESENHA CRÍTICA: INTO THE WOODS – O Musical – na versão estudantil dirigida por João Gofman

Fora da floresta, as audições são abertas. O tempo já é curto – apenas seis meses.

Dentro do bosque, um casal de padeiros vizinhos de uma bruxa queria ter filhos.

Fora da floresta, panelas fervem dia após dia. 

Dentro do bosque, o príncipe procura por Cinderela, que é atacada pela mulher de um padeiro.

Fora da floresta, tintas de tecido são despejadas nas panelas, por semanas e semanas, enquanto a procura segue em brechós em todo o Rio. Uma bolsa peculiar envelhece ao tempo do lado de fora da janela.

Dentro do bosque, chapeuzinho curte o lobo mas é por ele enganado. De passagem, um padeiro a salva.

Fora da floresta, intermináveis fios de lã da cor do milho são trançados, dia após dia. Festas, vaquinhas – não há dinheiro e o projeto é audacioso demais para isso. O telefone não para e a busca por possíveis apoiadores persiste – persistirá até o final.

Dentro do bosque, João vai às nuvens e rouba dos gigantes faz sua fortuna. 

Fora da floresta, 7 idênticas máscaras de látex são confeccionadas, enquanto João acerta os detalhes de palco e costura os diferentes plots cênicos.

Dentro do bosque, um príncipe fica cego bem como duas irmãs vaidosas.

Fora da floresta as máquinas de costura dão o tom final, enquanto o maestro conclui a obra instrumental. Ninguém de fora conseguiria enxergar o que estaria por acontecer.

Dentro do bosque outro príncipe está cego por seu ego, e vaga em busca de um gigante… Ou por ser lobo de novo. 

Fora da floresta, temos uma equipe estudantil com qualidade de profissional transformando sonho em realidade. Pura magia.

 

Pela porta da frente

Equipe de jovens diretoresde teatro estreiam Into the Woods na UERJ e marcam o debut de suas carreiras fazendo o público vibrar

Por Arnaldo V. Carvalho

Eu ri muito quando assisti a Into the Woods – o filme – no cinema. Seis meses atrás, quando soube que a versão do musical seria encenada no Brasil fiquei entusiasmado.

Rever a divertida trama que coloca um casal de padeiros, Chapeuzinho Vermelho, João (do pé-de-feijão!), Cinderela, Rapunzel, a Bruxa e dois príncipes metrossexuais juntos em desventuras e confusões seria fantástico.

O que não poderia imaginar é que gostaria ainda mais da peça do que do filme! São duas horas e meia em que não se sente, para além de uma vontade louca que o intervalo do primeiro para o segundo ato acabe rápido.

Só pela história divertida? Não seria o suficiente, se não tivessemos uma produção e corpo de atores de primeira linha atuando.

Qual foi então a fórmula do sucesso na versão carioca de Into the Woods? Eu apostaria na equipe, individual e coletivamente. Vamos radiografar isso, por favor!

Pra começar temos uma adaptação de roteiro perfeita. Poderia ser “qualidade Disney”, sempre tão elogiada no primor das versões em português produzidas para suas animações. Mas é a qualidade “Vítor Louzada”. Eu tenho acompanhado o talento desse artista nos últimos anos. É impressionante. Ele faz as palavras saírem naturais, encaixando-se no tempo, nas canções; ele preserva a qualidade do humor e do drama em sua adaptação. Ele será reconhecido, anotem isso, nos próximos anos, como um dos grandes versionistas a atuar na dramaturgia no brasileira.

Roteiro perfeito, vamos ao suporte visual que a peça recebeu.

No abrir das curtinas, de cara, um figurino excepcional – vislumbrante mesmo. O que é aquele vestido da bruxa? O que são aquelas botas dos príncipes? E a Chapeuzinho? Incrível, simplesmente incrível.

Assinado por Evelyn Cirne, o estudo primoroso da peça gerou individualidade para cada personagem, e combinações harmoniosas quando dos números músicais. Quando forem assistir, não deixem de atentar para as cores e texturas, e o perfeito encaixe de roupa e contexto original presentes não só nos protagonistas, mas mesmo nos personagens secundários. As cores são lindas, roupas que parecem terem sidos produzidas por algum estúdio brodwayniano.

Os detalhes cenográficos feitos em equipe por Fê Correia, Caroline Amaral, Janice Schültz, Fernanda Mendes supera o desafio da falta de dinheiro com que a produção teve de lidar, improvisando criativamente. Fazem surgir uma torre de uma escada, carrinhos clássicos de carrinhos modernos, entre outros. Há, de qualquer forma, a liberdade imaginativa deixada para o expectador, com a opção de um cenário clean na maior parte do tempo – o que evita a poluição visual e valoriza a encenação.

Do visual para o prazer auditivo, segue o deleite dos amantes da arte. A peça é sustentada musicalmente por uma orquestra pequena e impressionante. Ela acerta em cada entrada, em cada acompanhamento, cada “blim-blem” e cada frase das músicas mais ricas. Primoroso trabalho de Edvan M. Junior, a quem eu chamaria de impecável.

Então temos os atores. Como deve ser difícil selecionar atores de qualidade dispostos a se debruçar em projeto de seis meses sem ganharem um centavo! Não vou comentar cada atuação e cada personagem, mas é inevitável não destacar a fantástica atuação muda da “vaca”, a força com que a atriz Cristiane Maquiné encarou o personagem mais difícil da peça – a bruxa -, e a energia de palco da mãe de João pé-de-feijão, a roubar cena após cena. Os príncipes são quase um capítulo a parte, não há entrada sem risada, como não houve cena mais engraçada que a do dueto entre os dois.

Mas esperem, se o resultado final da peça joga brilho em cada estrutura da peça – de novo, roteiro, figurino, cenário, atores, músicos, etc. – é porque há alguém para fazer essas engrenagens agirem como se fossem uma só e alcançarem seu potencial máximo. Esse alguém é João Gofman, o diretor. É ele o responsável pelas grandes decisões fora do palco, por compor a equipe, por realizar escolhas cênicas acertadas. Voilá! Um diretor que já nasceu de primeira linha que conseguiu liderar um pequeno exercito de jovens artistas rumo a gloria, mantendo-os unidos e deixando-os prontos. E assim, João Gofman entra pela porta da frente no majestoso teatro brasileiro.

É realmente impressionante, a média de idade dos diretores é apenas 21anos! Mas a platéia que esteve presente na estreia do musical Into the Woods (peça originalmente encenada na Brodway) assistiu um espetáculo que não deve em nada aos produzidos por diretores e encenados por atores bem mais experientes.

O que assisti foi uma estreia. Se no primeiro dia alguém percebeu que há pequenas limpezas cênicas e vocais a serem feitas, ao mesmo tempo não sentiu prejuízo ao espetáculo, pois são tão menores do que tudo o que deu certo… Ainda assim, aposto minhas fichas de que os próximos dias de Into the Woods prometem ainda mais magia e proximidade da perfeição.

Estamos testemunhando uma nova safra de artistas cênicos, com uma nova mentalidade e muito talento. Eles não abrem mão da qualidade. Eles são amigos. Eles são dedicados. Acredito que nos próximos anos, o cenário do teatro brasileiro deve vir a mudar para um novo patamar.

* Arnaldo V. Carvalho é terapeuta, pai, pedagogo e adora arte; deu a sorte de ter acompanhado “pelo lado de fora” a produção de Into the Woods na versão de Vítor Louzada e direção de João Gofman.

“Tenho medo de ficar viciada em terapia”

Por Arnaldo V. Carvalho

Volta e meia escuto de algum cliente ou mesmo amigo: “a terapia me faz muito bem, mas estou com medo de ficar dependente dela”. A uma pessoa que muito quero bem, escrevi umas linhas, que publico aqui com acréscimos, por achar que pode ser útil a todos que têm essa dúvida e/ou esse medo.

Esse conceito de dependência e tão relativo!

Para mim, ele é relacionado com a turma das coisas que dão prazer mas não fazem bem e as coisas que não dão prazer e fazem bem. Explico, no mundo tem quatro tipo de ação ou experiência que você pode fazer/viver:

  • As que não fazem bem e não dão prazer (todo mundo quer distância!)
  • As que não fazem bem mas dão prazer (aí mora o perigo, tem um monte de coisa que dá prazer mas não faz bem – e muitas delas viciam).
  • As que fazem bem mas não dão prazer (de remédio ruim, passando por dieta a academia de ginástica, essa é a turma das coisas que não encontra com facilidade uma adesão permanente. Elas até podem fazer bem, mas geram resistência nas pessoas, que precisam sentir prazer no que fazem para aderir legal. Aí é que as pessoas começam e param, começam e param essas coisas, repetidamente!)

E, finalmente…

  • As ações/experiências que fazem bem e dão prazer (tem um monte! Mas as pessoas estão tão condicionadas que já não conseguem aderir de forma concreta, mesmo que seja uma maravilha em todos os sentidos. Exemplo: um casal de amigo chama o leitor para jantar com eles. O jantar foi maravilhoso, comida super saudável, diferente. O leitor chega a pegar a receita dos pratos… Mas ela fica esquecida, e o leitor segue comendo tudo o que comia antes…)

Se uma terapia oferece algum benefício (ex: fazer refletir) mas nenhuma forma de prazer (ex: encontrar respostas), a pessoa desanimará e não ficará. Se, ao inverso, ela oferecer um prazer, mesmo que secundário (ex: alívio ao despejar os problemas em um ambiente neutro, dando-se a sensação de ter “colocado para fora”), mas não faça bem (a terapia bem orientada deve oferecer ferramentas para que a pessoa LIDE e/ou transforme o que foi externado), essa terapia será inconsistente, e a chance da pessoa se ver como uma “viciada” é enorme! Ela sentirá alívio, mas não mudará seus padrões, e assim as fontes de angústia permanecerão em sua vida, estabelecendo um ciclo vicioso.

Esse artigo é sobre a BOA terapia, a terapia bem feita, a que funciona em função da competência do profissional, da vontade do indivíduo e da qualidade de vínculo ou parceria entre terapeuta e cliente.

Aquilo que é bom, dá prazer e faz bem é o que onde vale fazermos brotar a sintonia constante, que é o inverso do vício. É o peixinho q limpa o tubarão, o alimento para  a alma.

Houve um tempo em que grandes pensadores se pensaram vítimas do nós, e desejaram ser “livres” de gente, da sociedade, de Deus, das próprias neuras… Direito legítimo, eles reivindicaram a autonomia do Eu. Mas… A autonomia eremítica é de fato da natureza humana? As vantagens da convivência não criaram aliás, toda uma categoria de animais coletivos, à qual o Homo sapiens encontra-se inserida?

– Xoooô Nietzsche! – Sem pensar esse incrível filósofo desejou ser superultraindependente e ainda chamou isso (esse) de Übermensch (ultra-homem!). Criptonita nele!Mas tudo bem. No contexto sufocante século XIX e suas cristiandades radicais e partidas ele precisava romper. Precisava de seu ultrahomem para sobreviver psiquicamente, tanto quando adesões às suas ideias (todo autor quer ser lido!).

Ultra-independência, ultra-autonomia, quem tem é a ameba, que é unicelular. Só no corpo de uma pessoa habitam mais de 100 TRIlhões de bactérias, sem as quais morreríamos! Dependemos da vida na Terra e do que vem do Espaço para vivermos. Dependemos uns dos outros, e toda essa energia. Se isso pode ser chamado de “Deus”, então ele não tem nenhuma chance de estar morto.

A sintonia constante com o que é bom de fato é sempre não impositiva, sem prejuízo para quaisquer das partes, e aliás, com benefícios para todas elas. É o bom hábito, a coisa que se termina a gente fica com saudades também boas. é o desencontro para o crescer. É o filho que fala para o pai: “chegou a hora de eu seguir pai!”. É o desenlace inesquecível que marcará a vida dos dois para sempre – mas que se compreende com tal força que não há resistências ou desejos de voltar atrás.

Assim também acontece com a boa terapia, onde o profissional atento encontra-se cúmplice do olhar do cliente, que após processo bem sucedido, não importa se mais ou menos longo, saberá despedir-se do setting terapeutico, senão permanentemente, até que surja um outro ciclo de necessidades do corpo, da mente, da alma (indivisíveis).

Somos sociais, sociáveis, precisamos, adoramos e merecemos todo o contato de cuidado, que são e prazerosos num só tempo.

Hermógenes

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 Toda a gratidão a Deus – tenha ele o nome que tiver – pela Vida privilegiada que me concedeu. (Arnaldo)

Minha avó tinha “Para nervosos e angusttiados”, um best-seller do Prof. Hermógenes. Bem criança olhava aquele livro no meio dos outros, e não entendia nem porque alguém precisaria de um livro como aquele, nem questionava porque ele habitava a prateleira de minha avó. Talvez porque ela fosse médica. Talvez porque o livro fosse exótico (e ela era curiosa com temas exóticos). Sei que ela não era nervosa ou angustiada. Bem… Talvez fosse um pouquinho nervosa… De todo o jeito, não me recordo dela lendo o livro em nenhum momento.

Fui reencontrar Hermógenes em meu progresso na vida de terapeuta. Ele era a grande referência de uma yoga espiritual, séria, devota, e praticamente criava oposição com o então emergente e expansionista trabalho da “Escola De Rose”, que mostrava a yoga para a juventude indo onde eles estavam – as academias de ginástica, que passavam por seu primeiro grande boom do formato que até hoje persiste.

Eu lia frases do Hermógenes nos jornaizinhos esotéricos, um ou outro texto do mesmo, e cheguei até a assistir vídeos do Professor. Nunca li palavra ou ação que destoasse de tudo o que eu acreditava e acredito. Lendo sobre sua biografia, assumi para mim mesmo que o Yoga libertou aquele homem do espírito do militarismo – entidade humana e mundial que nunca consegui conceber como útil à humanidade, pelo contrário. Mas talvez, daqueles tempos ele tenha herdado o que me faltou por tantos anos. A disciplina.

E como eu admirava o que eu não tinha, eu precisava aprender, e ele com certeza poderia me ensinar. E Hermógenes, através de seus textos, foi me ensinando. Foi me ensinando também sobre certezas e relativismos. Eu, que tudo relativizei sempre, encontrava um sábio cheio de certezas. Hermógenes era meu profeta Gibrantesco de de vez em quando, uma força a buscar quando me sentia muito perdido.

” Não quero mal ao que me iludiu, lastimo aquele que me deixou iludir. Eu Mesmo.” (Hermógenes)

Um dia encontrei Hermógenes. Sentamos para almoçar duas vezes na mesma mesa. O Hermógenes que conheci tinha um apetite de leão, um olhar vivo e um respeito silencioso e indescritivel a tudo o que estivesse vivo em sua volta. Isso incluía as pessoas e os vegetais que se tornariam parte dele. Que pratão! Acho que nunca tinha observado uma pessoa respeitar sua comida da maneira como ele o fazia. Foi uma das raras vezes que admirei alguém em seu ato de comer. Eu o olhava… Não era um sentimento de um fã olhando para seu ídolo. Era uma sensação de auspiciosidade. Uma auspiciosidade que sabia ser dali em diante permanente. E só. Já vivi isso com outras pessoas, um dia conto.

Éramos muitos no Encontro da Nova Consciência, em Campina Grande, Paraíba. Era eu um jovem professor a ministrar um curso que naquele tempo era novidade. Quanto tempo já faz? Dez anos? Já não lembro. Hermógenes era um dos consagrados que, voluntariosamente estava lá. O encontro reunia (e reúne) gente de todo o Brasil (e muita gente de fora também), para celebrar, refletir, e fazer encontrar pessoas e pensamentos aparentemente muito distintos. Estou me referindo ao encontro inter-religioso, inter-político (mas não partidário), inter-cultural, etc… Ou quem sabe transreligioso, transpolítico, transcultural… Hermógenes não podia estar fora dessa. Era um lugar fantástico, e propício ao cumprimento de suas missões: combater a Normose, promover o Amor, o autoconhecimento, a ética em seu sentido mais profundo e divinal. Ele ia todo ano ao evento, por seus próprios recursos. Ele era recebido por multidões. Era o guru de muitos… Mas era o mesmo Hermógenes gente que era em todo o canto. Um de seus gestos santos era a certeza – mesmo a certeza do incerto! E outro de seus gestos era a simplicidade.

Naquele tempo, Hermógenes já havia conhecido e passado a ser devoto de Sathya Sai Baba, o grande avatar indiano, falecido há poucos anos. Sai Baba era em si o próprio espírito multi-religioso. Ele ensinou a milhares (talvez milhões) de pessoas que o verdadeiro Deus é o Amor e que todos os representantes divinos eram igualmente Amor. Os devotos de Sai Baba celebram com o mesmo carinho as passagens de Buda, Jesus,  Maomé e tantos outros líderes espirituais pela Terra. A devoção a Sai Baba possivelmente foi a derradeira experiência espiritual que faltava ao velho yogue.

” Não quero mal ao que me iludiu, lastimo aquele que me deixou iludir. Eu Mesmo.” (Hermógenes)

Os anos passaram e fora o tesouro da experiência, que conservo comigo, não mais tive grandes contatos com o Professor ou sua obra. Mas a vida é sintonia, e sintonia é algo que sempre tive com meu irmão de espírito, o Prof. Carlos Henrique Viard. Henrique me trouxe de volta a presença de Hermógenes nos últimos anos, com sutileza mas com tanta beleza! Deixe-me contar um pouco como isso aconteceu.

Amigo de infância, amante como eu do movimento, do espírito lúdico, do fazer o bem e construir um mundo melhor, eu e Henrique compartilhamos de muitas experiências que por si só me tornam hoje um homem rico.

Saímos do esporte para o mundo das terapias, primeiro eu, depois ele. Havia algo em minha busca de equilíbrio que o chamou atenção, e ele compreendia que ali havia um caminho possível para que sua alma pudesse materializar muitos de seus potenciais. Ele se juntou a mim, e juntos fizemos cursos, ajudamos pessoas, aprendemos um monte.

Mas quando o ciclo de vida de nosso Portal Verde se fechou enquanto centro de terapias, em 2008, precisamos seguir nossos caminhos. Antes disso, porém, em sua jornada de desenvolvimento espiritual, o Yoga de M. Karthikeyan chegou a Henrique. Na mesma época, e pela mesma fonte, nossa amada amiga Celine Tosta, encontrou Sai Baba. E num terceiro momento, Yoga e Espiritualidade ligaram Henrique a Hermógenes. Se então esse meu ainda jovem amigo havia investindo profundamente na essência da sabedoria oriental – sobretudo de origem indiana – foi na obra de Sai Baba e no Yoga de Hermógenes que ele encontrou sua casa definitiva.

É porque o Céu está tão distante que nossa alma sofre com saudade do Infinito.
Mas é por estar tão alto e afastado que pode caber na exiguidade de olhos acostumados a contemplá-lo. (Hermógenes)

A afinidade, e fidelidade à alma do velho mestre foram tantas que a Henrique e mais uns poucos, foi concebido o direito de dar continuidade ao seu trabalho. Henrique trouxe Hermógenes em energia para nossa cidade natal, Niterói, pela primeira vez. Ali, a Academia Hermógenes funciona como a própria continuação viva deste mestre, ser humano, mortal e imortal como todos os outros. Eu vi, de longe, Hermógenes passar através de meu amigo-irmão e ajudar ao empresário estressado sobre autoamor para amar o Outro. Eu vi o doente quase moribundo profissional de saúde entender que era Luz e tornar-se ele mesmo mais um professor de yoga. Eu vi senhoras e senhores, adolescentes, jovens e maduros, encontrarem com a essência cuja consciência eliminou a ilusão de vazio interior. Eu vi casamentos acontecerem e flores se abrirem através desse trabalho.

Hermógenes multiplicou-se.

Essa foi sua liberdade final.

Resolveu então juntar-se a Sai Baba, seu último e derradeiro mestre. Foi anteontem. Um dia, quando a energia que se acredita unidade em mim estiver sem mais compromissos com a vida celular, pretendo visita-los.

São Gonçalo, 15 de março de 2015

Arnaldo V. Carvalho

*   *  *

Sobre a ilusão – conversas imaginárias com Reich e Neill

Sobre a ilusão

Conversas imaginárias com Reich e Neill

Arnaldo V. Carvalho

Um dia, conversei na minha cabeça com o fundador da escola Summerhill, A. S. Neill, e seu velho amigo Wilhelm Reich.

Reich odeia a ilusão, porque entendeu que é nela que vive a não aceitação dos fatos, e portanto, todo o sofrimento humano.

A. S. Neill acha que a ilusão é coisa de criança, e portanto, fase passada no adulto sadio. Pontuei com o Neill da minha cabeça sobre minha teoria da acumulação de fases; após algum tempo refletindo com seu cachimbo, o velho educador, que conversa comigo já na beira dos seus 90 anos – concordou que, se um adulto puder trazer seu recurso lúdico nos momentos apropriados – ao brincar com uma criança, por exemplo – tendo o aparelho psíquico maduro, talvez isso traga uma graça a mais na vida e melhorem-se os conflitos de gerações.

Como foi Neill quem disse isso, Reich “meio que” respeitou. Fez aquela cara feia,
comprimindo as sobrancelhas, e após uns segundos de nariz torcido, decidiu:

– Não tenho tempo para lidar com isso, Neill. Tenho coisas mais importantes a pensar e a fazer.

Arnaldo V. Carvalho, terapeuta, estuda a obra de A. S. Neill e Wilhelm Reich há muitos anos, e adora “conversar” com seus autores mais influentes.

O Terapeuta nu: diálogo imaginário com Wilhelm Reich

O Terapeuta Nu: Diálogo imaginário com Wilhelm Reich

ou De quando o terapeuta participa da resistência terapêutica com suas próprias neuroses

 

Por Arnaldo V. Carvalho (abril 2014)

 

Converso sempre com meus professores. Um deles é Wilhelm Reich (1897-1957), um dos maiores cientistas da natureza humana de todos os tempos. Meu Professor Reich – construído de leituras e devaneios –, é um sujeito extremamente objetivo, sempre com aquela paciência encurtada para com tudo o que crio em meu mar de ilusões, tudo o que me afasta da realidade.

Certa vez, reclamei com Reich a propósito das resistências surgidas em terapia.

– Reich, as pessoas não aguentam muito tempo.

– Diabos, é você que não os aguenta.

– Mas professor, faço meu trabalho direitinho… Acredito que estabeleço o contrato terapêutico adequadamente, explico minuciosamente que, por melhor que façamos, a psique não se reintegra da noite para o dia e, de quando em quando, incentivo-os a perceber o próprio progresso.

– Você não os aguenta, Arnaldo. Não suporta que o abandonem.

– …

– Sua necessidade os transforma em tiranos, tanto quanto há bebês tiranos a controlar suas mães. Afinal, você é ou não é uma mãe para eles?

– (voz embargada) Deixe disso Reich.

– É ou não é?

– Se está se referindo ao fato de tratá-los com o carinho que um ser humano merece, pode ser.

– E o seu orgulho de ser “humano”, facilitando horários, pagamentos, permitindo que eles ditem o ritmo da terapia, e usem todas as máscaras que desejam e os mantém confortáveis dentro do setting terapêutico? Isso é o quê? Você imita sua figura de referência Arnaldo, você quer ser a mãe sem fim que no final se estrepa – igualzinho a sua mãe. Seus “filhinhos”, nesse excesso de postura, às vezes vão embora antes de estarem equilibrados para isso.

– Já chega Reich! Também não sou como você! E, meus clientes também não são como os seus. Nosso mundo em meu tempo pede por mais suavidade, chegamos a um ponto onde, em contraste ao rigor agressivo nos inter-relacionamentos, há uma falta de Contato insuportável. Além disso, cada um tem seu ritmo, e preciso respeitar isso.

(Clap, clap – palmas irônicas surgem das mãos do professor):

– Bonito isso… – e mudando da ironia para a expressão de reprovação surpresa:

– E o que te faz pensar que dessa forma acaba por impedir que as pessoas amadureçam suas relações com frustrações? É assim que elas aumentarão o contato consigo mesmas, se apropriarão da realidade?!

Reich não pestanejou e seguiu disparando certeiro dentro do meu Ego.

– Já pensou que quando o sujeito procura sua terapia, está pedindo por uma mudança do velho ritmo? Que o modus operandi que ele utilizou até aqui mostrou-se um desastre? Então como é que se deixa a pessoa “conduzir a terapia em seu próprio ritmo”?

– Isso é verdade.

– Então como esperar mudança permitindo que ele fique no lugar comum que o levou até ali?

Reich já me tinha na palma de sua mão.  Mas, por algum modo inexplicável, seguia apostando em meu potencial. Resolveu sair da qualidade de atacante e, assumindo tom professoral, colocou-me em meu lugar, ao repetir aquilo que já havia me explicado um sem número de vezes.

– Em terapia sempre vai haver resistências. A mais grave é aquela que o terapeuta subsidia, através de suas próprias dificuldades emocionais. É assim que você, por exemplo, alimenta o bebê tirano que surge no processo transferencial de um cliente que te vê como figura paterna ou materna. Ele reassume o comando, e quando você finalmente decidir enfrentá-lo – provocando o sujeito ao apontar para esse aspecto regredido em sua personalidade –, ele cairá fora. Porque você deixou que se tornasse grande demais justamente o aspecto da psique bloqueado, que fará de tudo para permanecer.

– Parece que você fala como se esse “aspecto regredido”, como você nominou, fosse um ser vivo, com personalidade própria.

– Funciona como se tivesse. Aliás, não é você que, em textos e em sala de aula, tem falado dessa coisa de totens*, levando em conta que relacionamentos e  aspectos da psique funcionam com um ser vivo?  Então há uma vontade própria, sim desse aspecto regredido. Você mesmo teorizou que entre os princípios de todo o ser vivo está o desejo de permanecer. Ficou falando para mim sobre esse desejo, que é um mecanismo natural de sobrevivência, que está relacionado à punção de vida, mas que pode assumir um aspecto obsessivo… As fases, as divisões da psique, existem, tanto quanto existem diferente órgãos, diferentes funções do cérebro de acordo com suas zonas…

– … E todas as “partes” querem permanecer, só que a parte doentia precisa desaparecer, ou ser reintegrada, o que de certa maneira dá no mesmo. Mas isso tudo eu sei!

– Sabe, mas não aplica direito, porque ainda tem muita terapia para fazer como cliente, porque ainda não resolveu suas malditas couraças que construiu lá trás. Seu progresso é lento e isso pode ser um perigo potencial aos seus clientes. Sua fraca terapia deixa respirar e sustenta a praga emocional!

– Não Reich, aí também é demais. Isso não!

– Então mostre-me mais Herr Carvalho, eu quero ver.

Saí do papo com Reich revoltado, mal dei “tchau”. Era o que ele queria, afinal. Meus ombros ardiam, meus dentes cerravam, e senti vontade de jogar basquete. Lembrei, porém, de quando torci o pé ao jogar logo após um episódio de intenso sofrimento emocional. Então desisti. Usar um recurso que deveria ser positivo (esporte) para simplesmente me punir? Fiquei farto de mim mesmo nesse momento. Meu sangue em ebulição, porém, varria o inconsciente, juntava memórias. Era como se todos os anos de experiência como terapeuta e paciente passassem num só tempo por minha mente. O que me levava ali?

Minha própria resistência. Minha neurose adotou a estratégia de “misturar-se com o inimigo”, e assim, jamais ser descoberto. Isso é comum entre os terapeutas. Mas o meu Reich não deixava que isso passasse impune. Ele me denunciou a mim mesmo. Eu estava nu, e precisava escolher entre sentir vergonha fora da roupa ou assumir minha grandeza – que está em ser tudo e somente o que sou – e trabalhar direito.

 Arnaldo V. Carvalho é terapeuta, estudante da obra de Wilhelm Reich, aluno de Sylvio Porto.

 

* A teoria do Totem de Arnaldo V. Carvalho nada tem a ver com a noção psicanalítica de tabu/totem, mas se refere a natureza dos vínculos relacionais, originada a partir da combinação de facetas de personalidade dos componentes desse vínculo. A teoria do Totem está relatada em artigos de autoria e amplamente discutida no livro “Shiatsu Emocional Avançado” (no prelo).