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Archive for the ‘Entrevistas’ Category

Chimamanda e o perigo da história única

– O vídeo exibe uma incrível palestra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (1977-), uma das mais importantes da língua inglesa da atualidade –

Viveremos. O poder da alegria se infiltrará nos cantos mais escuros.

Jamais deixaremos a narrativa sombria que vem sendo encharcada nas mentes e corações de brasileiras e brasileiros vença.

Vamos reconhecer nossas múltiplas histórias, justapostas. Vamos compreender a força de cada um, de cada grupo e de cada povo!

Que nossos sorrisos sejam resistência!

Chimamanda! Obrigado! Obrigado por nos lembrar, ou ensinar. Obrigado por ser África, mãe, sábia, berço de toda a humanidade.

(Arnaldo)

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Em 2005, Eliane Brum entrevistou para a Época o Dr. Diaulas. E eu li. E me impressionei. O então promotor lida de forma muito sóbria com temas delicados, cujas discussões não podem ser simplificadas.

Da entrevista (que segue abaixo) para hoje, Diaulas seguiu sua carreira pública e ano passado, aos 54 anos, foi nomeado desembargador do TJDFT. Em paralelo, a vida acadêmica é profícua, e inclui participação em grupos de pesquisa, a escrita de artigos, a atividade docente e diretora. De fato, seu curriculum lattes demonstra uma atividade febril. Pós doc que coordena o curso de direito respeitadíssima UCB, e ao mesmo tempo integra o comitê de ética da faculdade de medicina da UNB, é membro de conselhos editoriais sérios, enfim. É um currículo não somente político, como se costuma esperar dos advogados que galgam posições como a que ele se encontra.
Image result for as sessoes helen huntForam doze anos da entrevista abaixo para cá. E os assuntos nela contidos seguem como tabu no Brasil. Nem mesmo com a exibição do primiadíssimo filme “As Sessões” (já fica a indicação!), em 2012, questões como a sexualidade de deficientes, e o surgimento de uma demanda profissional especializada que ofereça alternativas concretas à questão permanecem no silêncio da sociedade.
Segue a entrevista, para abrir a cabeça de quem nunca pensou sobre tais assuntos, e quem sabe trazer a superfície das casas conversas sobre uma sociedade que respeita as diferentes condições humanas.
(Arnaldo)

Autor de interpretações ousadas da lei, ele se prepara para enfrentar dois tabus: eutanásia e sexo para pessoas com paralisia cerebral

O promotor do Distrito Federal Diaulas Costa Ribeiro tornou-se uma voz singular no mundo pouco permeável a mudanças da Justiça brasileira. A Pró-Vida, promotoria de Direito Médico e Biodireito, idealizada e coordenada por ele, autoriza há anos a troca de sexo para transexuais e a interrupção da gestação de fetos sem cérebro. Com o mesmo empenho, já processou dezenas de profissionais de saúde por erros médicos. Entre os casos mais famosos, destacam-se o do ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana Joaquim Roberto Costa Lopes, que deixou uma paciente em estado vegetativo, e o da acusação por duplo homicídio do falso cirurgião plástico Marcelo Caron.

Corajoso, polêmico (e vaidoso em igual medida), Diaulas coleciona na mesma proporção fãs e desafetos. Popular pelos temas que enfrenta, é um caso raríssimo de homem da Justiça que distribui autógrafos pela rua. Nascido na roça, alfabetizado pela tia, ex-datilógrafo e ex-bancário, orgulha-se de ser dono de uma biblioteca com alguns milhares de livros jurídicos. Entre as preciosidades, uma edição francesa de 1883 de Madame Bovary, composta do romance e do processo por imoralidade movido contra seu autor, Gustave Flaubert, pelo governo da França. Da Europa, onde mantém um intercâmbio acadêmico com diversas universidades, vem a base jurídica para as interpretações mais ousadas da lei. Mas são as pessoas que batem à sua porta com queixas variadas que lhe dão a percepção das necessidades do novo século não-contempladas numa leitura mais ortodoxa do Código Penal.

Diaulas se prepara agora para botar a mão em dois vespeiros: a eutanásia e a garantia de acesso ao sexo por pessoas com paralisia cerebral. Como tudo o que faz, espera muito barulho no caminho. Na segunda-feira, embarcou para uma temporada acadêmica de três meses na Europa, onde dará aulas de Direito Penal no programa de pós-graduação Erasmus Mundus, da União Européia. Antes, recebeu ÉPOCA em sua casa, em Brasília, para a seguinte entrevista.

Diaulas Costa Ribeiro

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Dados pessoais
Mineiro de Monte Carmelo, solteiro, 42 anos, uma filha

Carreira
Promotor do Distrito Federal, idealizador da Promotoria Pró-Vida, sobre temas de Direito Médico e Biodireito, doutor em Direito Penal pela Universidade Católica Portuguesa, pós-doutor em Medicina pela Faculdade Complutense de Madri, seis livros publicados sobre Ministério Público e Biodireito

ÉPOCA – O senhor mexe com as grandes questões da Bioética. Quando e como percebeu que estes são os temas que iriam desafiar a Justiça?
Diaulas Costa Ribeiro –
Quando estava na Europa, fazendo o doutorado, nos anos 90. Saí do Brasil com essas idéias, mas só lá fora percebi que havia interesse em me ouvir. Percebi que os problemas do século XXI seriam de inserção e proteção de Direitos Humanos. Questões sobre como é duro ter sido estuprada e ter de abrir mão de sua intimidade para ir à Justiça pedir autorização para abortar. Sobre como deve ser triste você ter uma falta de sincronia entre seu corpo e sua sexualidade e descobrir que você não é gay, não é homem, não é mulher, não sabe quem você é. Sobre como é triste não ter o direito de decidir o lugar de sua morte, se vai ser numa UTI ou em sua cama, com a pessoa que você gosta segurando a sua mão. Percebi que a Justiça nunca havia pensado nesses temas e que, logo, teria de dar respostas a estas novas demandas. Comecei então a fazer um plano para o Ministério Público, que na minha volta resultou na Pró-Vida, uma promotoria de Direito Médico e Biodireito, com dois médicos-legistas e um odontolegista, além de uma equipe de apoio. Investigamos 90% do que mandamos para a Justiça. As pessoas chegam sem advogado, sem marcar hora, falando a língua que sabem.
ÉPOCA – O senhor vai criar um protocolo para garantir o acesso ao sexo a pessoas com paralisia cerebral grave. Como será isso?

Diaulas – Nós defendemos direitos sexuais para todo mundo, para os presos na cadeia, os adolescentes da Febem. Mas ninguém pensa que as pessoas com lesões cerebrais têm sexualidade normal, têm desejo, têm ereções, têm loucuras. Elas têm uma aparência física que pode não ser bonita, têm automatismos, muitas não têm coordenação motora para se masturbar. Estes são os verdadeiros excluídos da sexualidade. Familiares começaram a me procurar para contar essas histórias, uma mãe me contou, morrendo de vergonha, que é obrigada a masturbar o filho. Pais disseram que levam os filhos a prostitutas e têm medo de ser presos por isso. Então comecei a pensar no que poderia fazer por essas pessoas, em como garantir o direito fundamental que é o do exercício da sexualidade. Pelo Artigo 227 do Código Penal, o pai ou a mãe que levarem seu filho a uma prostituta podem ser condenados a até três anos de prisão pelo crime de mediação (”induzir alguém a satisfazer à lascívia de outrem”). Mas tornar possível o exercício da sexualidade para alguém que não tem outro meio de exercê-la não é prostituição. O papel do MP, neste caso, é viabilizar o acesso e afastar o crime. Vou fazer um protocolo em que o MP se torna o avalista deste excludente de crime, mostrando que não há tipicidade penal neste caso. A figura jurídica que ampara esta tese é a do estado de necessidade, o mesmo que permite o furto de um pão para comer. A Organização Mundial da Saúde preconiza que saúde não é falta de doença, mas o bem-estar físico e mental. Portanto, esta será uma conduta de saúde.
”Uma mãe me contou que é obrigada a masturbar o filho, pais
disseram que levam os filhos a prostitutas e têm medo de ser
presos por isso. O papel do MP é viabilizar o acesso e afastar o crime”
ÉPOCA – Mas como isso vai funcionar na prática?
Diaulas –
Vou procurar as associações de profissionais do sexo e fazer uma triagem, com um cadastro das mulheres que aceitam ter relações sexuais com esse tipo de paciente. Por outro lado, vamos reunir as famílias que querem esse tipo de serviço. E então criar condições de segurança, com a garantia de controle de saúde e o uso obrigatório de preservativos. No primeiro momento, vou iniciar com pessoas com paralisia cerebral, homens. Depois, pretendo ampliar para doentes mentais, o que deve causar maior resistência. E, se houver demanda para isso, vou estender o programa para mulheres com o mesmo tipo de problema. Vou aproveitar esta viagem à Europa – e quero esclarecer que todas as despesas saem do meu bolso – para visitar programas semelhantes. Um deles, na Holanda, foi criado por uma enfermeira para garantir sexo a pacientes com problemas neurológicos. O hospital local fez um convênio com o serviço. E os pacientes são recebidos com carinho. Neste caso, não é comprar sexo, mas cuidado.
ÉPOCA – Não há risco de o MP ser chamado de cafetão?
Diaulas
– Essas pessoas não têm cidadania senão aquela que a gente consegue imaginar para elas. Não estou preocupado com preconceitos. Já enfrentei isso com a luta dos transexuais. Temos de humanizar o debate. Eles não são bonitos como astros de cinema, mas têm desejo. Quem for contra que faça a experiência de suspender sua vida sexual para se colocar no lugar deles. Não o celibato por opção, mas o compulsório. Quem nunca teve impulso sexual que atire a primeira pedra.
#Q#
ÉPOCA – O senhor defende o papel social da prostituta…
Diaulas
– Sou contra a prostituta escravizada, explorada, que tem um rufião. Minha idéia de prostituta é a que tem um papel social. É uma profissão como qualquer outra. Sei que o movimento feminista pode entender mal o meu projeto, mas a prostituta não vende a si mesma nem vende suas partes sexuais ou o seu corpo. Vende seus serviços. Não há nenhuma diferença entre ela e qualquer outro prestador de serviços. Quem protesta dizendo que a prostituta é humilhada ou degradada não é capaz de compreender qual é o objeto desse contrato. O corpo e a dignidade da mulher não são oferecidos ao mercado. Ela pode contratar a prestação dos seus serviços sem que o faça em detrimento de si mesma. Não há sequer incompatibilidade entre a preservação dos Direitos Humanos e a prestação remunerada de serviços sexuais por pessoa adulta. Ofensa aos Direitos Humanos é restringir a autonomia e a liberdade das mulheres a esse negócio.
ÉPOCA – O senhor teve iniciação sexual com uma prostituta?
Diaulas –
Tive. Eu vivia na zona rural e isso era normal. Foi uma pessoa muito importante naquele momento da minha vida. Eu era um menino de 12 para 13 anos, não sabia nem por onde começar a coisa e ela disse: vem cá que eu te ensino tudo, não se preocupe com nada, deixe as coisas acontecer. Uma pessoa humilde, modesta, muito simples, que era tudo o que eu precisava naquele momento. Compreendeu a minha angústia. E me ajudou. Não tenho preconceito contra isso. Depois da maioridade, nunca mais saí com prostitutas no Brasil. E aqui eu coloco uma vírgula, porque vivi no estrangeiro por anos, não vou dizer que não fiz minhas estripulias por lá. No Brasil sempre tive namoradas. Mas, quando precisei de prostitutas, fui muito bem atendido.
ÉPOCA – Mudando de assunto, o senhor afirma que Terri Schiavo não é um caso de eutanásia, mas de Suspensão de Esforço Terapêutico (SET). A diferença é semântica?
Diaulas –
A eutanásia pode ser vista como um gênero de assistência à saúde no fim da vida, mas não foi essa a idéia inserida na opinião pública. Virou sinônimo de nazismo, de matar velhinhos e doentes. Da mesma forma que a palavra aborto virou um monstro, as pessoas fazem sinal-da-cruz quando a ouvem. É preciso tirar o estigma da expressão ou encontrar uma expressão paralela. Não adianta seguir neste caminho, com palavras como ortotanásia ou distanásia, o sufixo ”tanásia” causa arrepios. É preciso criar soluções novas e inteligentes para fenômenos mais antigos. É como uma empresa que está desgastada na opinião pública e pode continuar a mesma se trocar de nome. Esta será minha próxima bandeira.
ÉPOCA – No que consiste a SET?
Diaulas –
Primeiro, não é crime. Não há reação contra a vida. É a natureza que extingue a vida no seu caminho normal. A SET evita a medicalização da morte. As pessoas já estão mortas, mas são mantidas por equipamentos, transformando o que é chamado de ”boa morte” numa morte horrorosa. Isso é aceito em todo o mundo, em nome da autonomia do paciente. No Brasil também existe base jurídica para isso, mas nunca foi feito do ponto de vista formal. As decisões ocorrem na esfera privada da família, dentro de casa. Estamos preparando um protocolo para a SET, com médicos e bioeticistas, formando uma linha para entrar nesse assunto com bases formadas.
ÉPOCA – O que há por trás dessa obsessão pela vida a qualquer preço?
Diaulas
– Os espanhóis chamam essa obstinação de manter o paciente vivo sem vida de ”encarniçamento terapêutico”. Ou seja, reduz a pessoa à carne pura, não à alma. Deixam de ser gente e são reduzidos a um monte de tecidos. O coração bate, mas a pessoa já desapareceu há muito tempo.
ÉPOCA – Por que é tão difícil aceitar a morte?
Diaulas –
Primeiro porque as pessoas passaram a acreditar que existe vida eterna na Terra. Segundo, porque a Medicina passou a dar a idéia de que era possível a vida eterna na Terra. As pessoas começaram a entender a Medicina como um instrumento de vida e esqueceram que o médico é fundamental na morte. A morte passou a ser uma falência da estrutura social, da obra divina ou da Ciência. Esqueceram que a vida eterna só existe se houver uma perspectiva religiosa, mas essa possibilidade não existe para a Ciência. Morrer é muito triste, mas gera muito mais angústia se você viver numa cultura que divulga a idéia de que morrer é inaceitável.
ÉPOCA – Morrer virou antinatural?
Diaulas –
Exato. A coisa mais natural da vida virou antinatural. Um sacrilégio, um pecado. Temos de repudiar a morte através do trauma, da guerra civil que vivemos no Brasil. Mas não a ”morte oportuna”, em que morrer é chegar também a um bom porto, ao outro lado do rio.
ÉPOCA – Essa resistência tem a ver com uma idéia de Medicina que encara a morte como fracasso?
Diaulas –
Os médicos foram educados para ser deuses e a morte é a prova de que são humanos. Não têm culpa de ser arrogantes, são formados pelas faculdades de Medicina para ser arrogantes. Os modelos de ditadura foram caindo um a um. Na política, dentro de casa, onde o chefe de família perdeu o lugar, até a ditadura de Deus caiu. Tudo é negociado. Você faz uma troca, uma promessa, pede uma coisa, dá outra. O último foco de ditadura é o do médico com o paciente. O médico manda, o paciente obedece. Os médicos precisam ser formados para estabelecer dois diálogos. Um com o paciente, outro com a morte. Deixar transparecer que vão estar ao lado do paciente quando chegar o momento em que não vão mais poder fazer nada. Estar ao lado também para ajudar a morrer. A SET entra na esfera do direito clínico, um direito novo da relação médico-paciente na condução do diagnóstico e do prognóstico. É a expressão da autonomia, um conceito já bem fundamentado. Aceito esse remédio, não aceito a intubação, quero ou não quero oxigênio. E assim por diante. Do que é necessário ter certeza é sobre a vontade do paciente. Se ele não a deixou expressa numa escritura pública, num testamento vital, então é preciso provar por testemunhas qual era o desejo dele. Estou sendo procurado por pessoas que contam que seu pai ou mãe morreu na UTI pedindo para ir para casa. Mas a maior parte de nossa clientela não serão velhos, mas jovens, vítimas de trauma. ASET é um ato médico de cuidado.
ÉPOCA – O senhor não teme novos problemas com a Igreja Católica?
Diaulas –
Quem me estimulou a tocar esta questão adiante foi o papa João Paulo II, com seu exemplo, ao deixar o hospital para morrer no Vaticano, perto de quem gostava, sem aceitar o esforço terapêutico. Essa última encíclica silenciosa será a mais importante para o mundo não-católico. Sem dúvida, uma grande contribuição para a causa.
FONTE: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI50183-15228,00-DIAULAS+COSTA+RIBEIRO+PROMOTOR+DE+POLEMICA.html

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Revista IHU Online

Fonte: Elo e sentido na maternidade indígena

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A seguir, texto de Ana Francisca Ponzio e matéria de sua autoria publicada no caderno Modo de Vida, do Jornal da Tarde, em 10 de abril de 1986, quando Kazuo Ohno esteve no Brasil pela primeira vez.

“Quando Kazuo Ohno veio ao Brasil pela primeira vez eu começava minha carreira no jornalismo. Em bons tempos do Jornal da Tarde, meu primeiro emprego na área, eu escrevia para um dos novos cadernos do jornal, o Modo de Vida, editado por Maiá Mendonça.

Com sua arte absolutamente nova para mim e para a maioria (ou todos) que o viram em sua estreia em São Paulo, Kazuo Ohno provocava um misto de estranhamento e profundo fascínio. Claro, gerou inúmeras influências e tornou-se uma enorme referência, além de artista muito querido entre os brasileiros. Outro fato que chamava a atenção: naquela época Ohno estava com 80 anos e no auge. Em cena, tinha o frescor de um adolescente.

Agora, diante de sua morte aos 103 anos, reproduzo abaixo o texto sobre o workshop de Ohno que, para mim, também foi uma espécie de estreia. Publicado em 10 de abril de 1986, pelo Modo de Vida do Jornal da Tarde, contém tudo o que ele falou naquele encontro com artistas. Na época, preferi colocar em texto corrido o que ele disse – como se não quisesse interromper o que eu e toda uma plateia absolutamente encantada ouvíamos. Ao mesmo tempo, seria a chance (e ainda é) de difundir um pouco daquele encontro para os que não tiveram o privilégio de estar lá”.

Segue o texto:

Vida, Morte. Magia.

Kazuo Ohno é uma mistura delicada de criança, adolescente, homem e mulher. Por mais estranheza que sua dança cause aos olhos ocidentais, em poucos minutos consegue arrebatar o público. Talvez porque na sabedoria que transmite em seus movimentos, sintetiza a frágil essência da existência humana. Em sua breve passagem por São Paulo, esse octogenário artista japonês conquistou todas as plateias. Consciente do poder que exerce sobre as pessoas, sem pronunciar uma palavra, ele destila carisma em cada gesto.

No workshop realizado anteontem no Teatro Anchieta, aberto para bailarinos, atores e mesmo alguns curiosos, Kazuo Ohno surgiu no palco descalço. Com a maquiagem habitual, cabelos desfiados, sua roupa reduzia-se a uma fina malha de balé. Nas mãos, trazia uma flor branca de papel com a qual, às vezes, escondia o rosto, num trejeito maroto. O público, já familiarizado com sua figura, mais uma vez não economizou aplausos e, por sugestão de um apresentador improvisado, o ator Raul Cortez, cumprimentou-o em coro com um efusivo arigatô. Ladeado pelo filho – frente às calorosas manifestações paulistanas, Yoshito Ohno já esboça sorrisos em seu rosto impassível – e um confuso intérprete, ele declarou: “Nesse momento estou feliz. Lastimo não poder ficar mais tempo entre vocês, mas agradeço a afeição e compreensão que me dedicaram. Quem deve dizer arigatô sou eu”. 

Com a paciência de um velho contador de histórias, disposto a tentar explicar a técnica butô, durante quase uma hora Kazuo desfiou reminiscências filosóficas. Falou da vida brotando no ventre materno. “Esse minúsculo ser, embora microscópico, vibra com intensidade máxima”. Aos poucos, o que parecia uma aula de biologia, semelhante à sua dança, envolveu a atenção de todos.

“Quando a concepção acontece é porque houve a colaboração de milhões de espermatozóides. Os não aceitos são eliminados, como num processo de seleção natural. Quando pensei nesse assunto pela primeira vez, fiquei extremamente entristecido. Percebi que eu era o produto de apenas um espermatozóide. Esse fato me chocou durante anos. Não me conformava: incontáveis seres potenciais tinham perecido. Hoje, acredito que todas essas vidas estão presentes num ser humano. Não posso separar minha existência daquelas que pereceram e que continuam habitando em mim.”

“Do início dos tempos até os dias de hoje, o ser humano lutou para sobreviver. Sozinhos, não conseguiríamos travar essa batalha desesperada. Uma aliança vital está marcada no interior de cada um.” 

“Ambos se influenciam, o que nos rodeia – ou macrocosmo e o que existe no interior de cada ser humano – ou microcosmo. Recebo influências de todas as forças cósmicas, tudo é símbolo de vida.” 

“Vivo com os mortos. Acredito que todos os seres humanos que já existiram estão vivendo em mim atualmente. Em outras palavras, para mim isso significa criatividade.”

“Acredito em dois tipos de criatividade: uma cerebral, através do pensamento, imaginação, invenção. Outra, através da percepção, quando sentimos esses outros seres dentro de nós. Em mim, a presença desses mortos ajuda-me a sobreviver. Eles vivem e criam, participam do meu dia a dia. Creio também que crescem e se desenvolvem junto comigo. Minha força se exprime através deles, que me ajudam e às vezes me castigam também.”

“Sou uma pessoa egoísta e exigente. Entretanto, acredito que esse não seja um egoísmo gratuito mas uma satisfação íntima, que impele um ser humano em busca de alguma coisa. Nesse sentido, ser exigente e egoísta não faz mal a ninguém.”

“Butô é como um espaço pequeno, porém infinitamente grande e infinitamente pequeno ao mesmo tempo. É como se fosse um peixe em água turva, para enxergá-lo é preciso muito esforço. Como a dança que, antes de chegar a um momento de explosão, requer muita paciência.” 

“Através do contato com o útero, o embrião recebe amor. Quando suga a energia da mãe, esse movimento que, de certa forma, reproduz uma bomba de sucção, representa o ritmo do universo. Esse ritmo é como uma música que se pode sentir com o corpo, enquanto se dança. Aquele que está começando a estudar butô deve retirar sua experiência sentindo o movimento dessa força cósmica.” 

Depois dessa simbólica conversa, junto com Yoshito, Kazuo dançou uma seleção de excertos durante mais uma hora. Antes, anunciou: “Meu filho é também meu pai. Eu me refiro a ele como meu pai-meu filho e a mise-em-scène é dele”. Com movimentos naturais, econômicos, expressivos, sem um mínimo de tensão, Kazuo Ohno dançou dando a impressão de que qualquer outra pessoa pode fazer tudo o que ele faz.

No final, embora se dispusesse a um debate com o público, o artista dava a entender que quaisquer considerações mais objetivas seriam irrelevantes. Quando alguém lhe perguntou se suas coreografias obedecem a uma marcação, com começo, meio e fim ou mesmo improvisações, respondeu: “Nasci sem memória. Tudo que dancei ontem já esqueci hoje”. Para outra questão, um tanto provocativa, sobre os efeitos cósmicos de uma bomba atômica, rebateu: “É uma arma de extermínio mas acredito que um homem, particularmente quando dança, pode sentir a mesma carga de energia”. 

Para quem ainda exigia explicações plausíveis sobre butô, ele completou: “Butô significa sentir e perceber a vida”. Pouco preocupado se havia ou não convencido a plateia com tais teorizações, ele despediu-se com a alegria de uma criança. Como sempre, tinha o público inteiro nas mãos.

FONTE: http://www.conectedance.com.br/memoria-viva/kazuo-ohno-morre-aos-103-anos/

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Matéria velha, mas com interessantes opiniões, muitas ainda bem válidas.

Casal do ano 2000 busca cumplicidade

Fonte: Jornal Século 21 Data: 18.03.99

“O casal do ano 2 mil retoma a solidariedade e a cumplicidade”, afirma a terapeuta junguiana Tania Figueiredo Lorenzetti. Segundo ela, muitas couraças pós-separação dificultam novos relacionamentos, mas acha normal que as pessoas façam uma análise das relações anteriores para não cometer os mesmos erros com os próximos parceiros. Acredita numa forma amadurecida de romantismo, e observa que as picuinhas mais comuns entre os casais esbarram no tubo da pasta de dente e na roupa suja que se larga pelos cantos. Tania acha que as crises entre casais podem ser esclarecidas com terapia, e avalia: há quem fuja da vida a dois pelo fato de morar junto ser tarefa árdua. Gostoso é conseguir dar espaço para as diferenças se manifestarem, ou, na linguagem prática, encaixar a tampa da panela, sem aquela história de procurar o príncipe encantado ou a mulher nota dez. A realidade é mais difícil que a fantasia, mas nem por isso menos apaixonante.

Fala-se tanto em alma gêmea: isso é modismo esotérico ou você acredita que todo mundo procura a sua? É mais ou menos como a tampa da panela e a metade da laranja?

Todo mundo procura, mas é preciso avaliar a busca de cada um. Se esses motivadores – tampa da panela, metade da laranja e alma gêmea – levarem uma pessoa a acreditar que existe um único ser capaz de atender às suas expectativas, a busca poderá ser eterna, e com grande possibilidade de gerar frustrações. Quando penso que o companheiro ideal é aquele que tem cultura, bom emprego, além de ser alto, loiro e de olhos azuis, com certeza outra pessoa com características diferentes não vai preencher a minha necessidade. Sendo assim, tenho que continuar procurando até achar esse modelo de homem idealizado. Por outro lado, se a alma gêmea ou a tampa da panela significarem um ajuste de expectativa, teremos muitos elementos que permitirão construir uma relação satisfatória.

Diana morreu como a princesa mais amada do século, ainda em busca de um novo príncipe, mesmo depois de o primeiro ter virado sapo. As mulheres são mais românticas que os homens? Ou seriam mais ingênuas?

Esperar o príncipe encantado é transferir para o outro a solução de algo que é nosso. É como querer ganhar na loteria para resolver nossos problemas financeiros. O romantismo, embora culturalmente seja um traço feminino, pode se manifestar de forma amadurecida, e isso tanto nas mulheres quanto nos homens que tenham claro para si os seus modelos femininos, portanto, as mulheres não são nem mais, nem menos românticas ou ingênuas.

Todo mundo quer que o romance dure para sempre, mas quando acaba, restam mágoa e decepção. Quem se fecha mais para um novo amor: o homem ou a mulher?

Penso que a abertura ou não para um novo relacionamento estaria ligada à disponibilidade de cada um para enxergar a realidade, considerando que as pessoas se decepcionam pelo fato de não encontrar um equilíbrio entre a relação fantasiada e a real. Quando um relacionamento acaba e você se abre plenamente para outra pessoa, sem uma análise sobre a anterior, corre o risco de cometer os mesmos enganos. Por outro lado, se você se fecha, também sem uma crítica, igualmente se frustra. Por isso, perceber a realidade e distingui-la da fantasia, é um caminho para o amadurecimento de novos relacionamentos, independente de ser homem ou mulher.

Como você avalia o ‘ficar’ dos adolescentes? Acha que eles podem acabar ‘ficando’ pela vida afora, ou essa é uma fase de descoberta?

Os anos passam e a linguagem muda, mas as atitudes dos adolescentes são mantidas. Houve uma época em que se perguntava: ‘Isso é namoro para casar ou para passar o tempo?’, ou seja, vai casar ou vai ficar? Assim, não vejo de que forma o ‘ficar’ pode significar um pré-requisito ou um modelo fixado que vai perdurar na vida adulta. O adolescente tem todo um compromisso com o que está vivenciando naquele momento e não com o momento seguinte, e se observarmos melhor, como a nossa cultura privilegia o sentimento de posse entre os parcerios, no máximo o adolescente fará juras de amor até o próximo namoro, onde, de novo, ele vai viver o clima Romeu e Julieta, ou, para ser mais contemporânea, o do casal de Titanic. O modelo do adolescente é diferente do modelo do adulto, embora existam comportamentos, digamos, deslocados, como o do adolescente excessivamente sério e o do adulto infantilizado. O adulto que pulou fases na vida, certamente poderá ‘ficar’ mais tarde.

Viver a dois é complicado, viver sozinho ninguém quer. Você acha que os casais tendem a encontrar um meio termo para esse dilema?

Os casais que estão dispostos tendem a encontrar uma resposta juntos ou individualmente para essa questão. Agora, no que se refere a compatibilizar as diferenças, e todo mundo sabe que elas sempre vão existir, pode acontecer de, ao tentar eliminá-las, ficarmos sozinhos mas em boa companhia. A harmonia é dar oportunidade para as diferenças de manifestarem e ver como elas podem se encaixar, se acomodar em nossos casamentos, no exercício pleno do respeito por nós mesmos e pelos nossos parceiros.

Qual o perfil do casal do ano 2 mil?

As viradas de século ou de milênio provocam uma espécie de agitação que dão origem a mudanças de costumes, a quebra de barreiras e de valores. Na verdade, as viradas pouco têm a ver com isso, mas a agitação sim, já que a agitação dá campo para as mudanças acontecerem. É possível, pelo que observo em meu consultório e de um modo geral, que o casal do ano 2 mil encontre novas formas de colocar em prática os sonhos que os casais sempre tiveram. É a retomada da solidariedade, da cumplicidade, da união familiar. Há estudos que comprovam: após décadas de rompimento, a família caminha para uma nova era de estabilidade.

O melhor namoro, qual é?

O melhor namoro é o que nunca aconteceu, pois nele você pode realizar todos os seus desejos sem repressão, julgamentos, brigas, e livre de qualquer dado de realidade, e esta sim é trabalhosa. Estou usando um tom um pouco mais ameno para falar sobre isso e não acredito que a melhor coisa é deixar de namorar, mas uso tal argumento apenas para demonstrar o quanto se pode fugir da vida a dois, da tarefa árdua e ao mesmo tempo tão gostosa que é viver um amor, desde o namoro até quando for possível. Aliás, essa imagem serve para qualquer empreendimento na vida, ou seja, qualquer coisa que só acontece na teoria, sem o toque da ousadia ou da experiência, é menos cansativo.

Casados, eternos namorados. Isso é balela?

Se o ato de casar significa continuar a criação dos sonhos de namoro, certamente é balela, já que os sonhos acabam. Mas se o casamento é um meio de concretizar os sonhos de namoro, então: Casados, eternos namorados.

Quais as picuinhas mais comuns entre os jovens casais?

São os elementos relacionados ao cotidiano individual e ao cotidiano do casal. Quando moramos sozinhos ou com nossa família, algumas atitudes já se incorporam de tal modo que nem questionamos o incômodo que pode trazer a outras pessoas. Mas na hora da vida a dois elas aparecem e é necessário uma adaptação da bagagem de cada um em favor desse novo cotidiano. Talvez seja bom rever como você aperta o tubo da pasta de dente, como deixa a roupa que tirou antes do banho, se coloca os objetos de decoração milimetricamente nos mesmos lugares, e o quanto isso interfere na convivência com o parceiro ou parceira.

Terapia é o caminho para resolver as crises que acabam com tantos romances?

Terapia esclarece a crise. Se o romance vai acabar ou não é uma decorrência desse esclarecimento. O principal elemento é a vontade de ambos em buscar a harmonia, e via de regra quando um casal busca esse tipo de ajuda, já tem uma pré-disposição para entender o que está ocorrendo com os dois. Como recurso, não se pode imaginar que a terapia é o único meio, pois se assim fosse, quem não pode pagar teria decretada a falência do seu relacionamento.

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Que saudade de trocar sobre esse tema! Até lá!

Aromatologia e Aromaterapia

Entrevista com

Arnaldo V. Carvalho sobre Aromaterapia

Rádio Ultra 91,7 FM (Maricá, RJ)

A Rádio Ultra FM está chegando ao Rio via Maricá, e uma excelente novidade é o programa do Prof. Douglas Carrara sobre plantas medicinais. No mesmo, ele também comanda entrevistas com grandes terapeutas de diversas áreas.

Sintonize na 91,7FM, das 7 as 9H

O Prof. Douglas Carrara entrevistará o naturopata Arnaldo V. Carvalho, que falará sobre Aromaterapia, na próxima terça-feira dia 30 de setembro de 2014, entre 8 e 9H.

Marquem em suas agendas, e compartilhem por favor!

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Gravado ONLINE para o programa Ponto de Vida da TV ABCD, contei ao terapeuta e entrevistador Eugenio Yochida um pouco sobre a origem de meu trabalho, como funcionam algumas das técnicas que utilizo, e quais são minhas frentes de trabalho atuais.

Na pauta, inclui-se a naturopatia, as técnicas de controle mental, o Shiatsu Emocional, a psicoterapia corporal, a orientação aos pais grávidos e a importância de uma gestação e parto saudáveis para a saúde humana.

Imagem do programa Ponto de Vida: entrevista com Arnaldo V. Carvalho

A entrevista pode ser acessada diretamente pelo link: http://bit.ly/124dVEK

Espero que gostem e se motivem a seguir conhecendo mais sobre as terapias que funcionam pela observação dos mecanismos naturais da Vida, que basicamente são as que sigo.

Um abraço a todos os leitores do blog.

Arnaldo V. Carvalho

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