Tocar o coração das pessoas (Cora Coralina)

“Não sei se  a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,se não tocamos o coração
das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que  acolhe, braço que envolve, palavra
que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima
que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa  do outro mundo, é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas
que seja intensa, verdadeira, pura… enquanto durar.”

(Cora Coralina)

Pessoa em Seleta

Há tempos fiz essa seleta, eleita a partir do site do instituto que preserva a memória de Fernando Pessoa (ou seja, chega de apócrifos dele, rs!!!). Espero que gostem.  Ei-la:

Que fiz da vida?

Que fiz da vida?
Que fez ela de mim?
Quanta coisa feliz ignorada e perdida!
Quanto princípio que não teve fim!

Que sinto ante estas águas e este céu?
Ai de mim! Só o coração que é meu…

E no súbito azul em que reparo
Do mar, do antigo mar,
Pois despertei do sonho em que caíra,
Há uma carícia vaga, há um sorriso raro
Que parece falar
De qualquer paz além de gozo e dor,
De qualquer novo amor
Que transcende a verdade e a mentira.
E, desperto de todo, eu que dormia
O sono natural da sensação,
E que por isso não ouvia,
Oiço o som das ondas, claro, fresco, e uma
Brisa me passa pelo coração,
E estendo ao mar a mão
E o mar me estende sua mão, a espuma.

entre 31 e 35

Suspiro triste
Da imensidão,
Que é o que existe?
Se estendo a mão
Na solidão
Ninguém me assiste!

Amor, perdi-o
Sonhos deixei.
Eu tenho frio
Na imensidão!
Quem sou não sei.
Sinto vazio
Meu coração.

Sou cego, vendo,
Só vivo, horror
No eterno sendo,
Onde me acoito
Deste amargor?
É frio o chão
Que fria a noite,
E os astros são!

Tenho desejo
De poder ter
Sono, bocejo
De n’alma haver
Um sono, e então
Ser impossível
E inconsciencível
À imensidão.

Dá-me que deite
Minha alma em medo
No teu regaço,
Ó noite, e aceite
Por suave segredo
Teu negro espaço,
E a solidão
E os astros mudos
Escuros e surdos
Ao coração!

Que eu durma em alma
Sem sentir mesmo
Surgir a calma,
Que eu durma todo
Nada no nada
Lodo do lodo
Chão e só chão.

E aí que quem venha
Pisando então
O pó, não tenha
Desejo vão;
Saiba a ignorância
E o amar amor
E a ? da vida
? fragrância
Espontânea dor
Da flor nascida.
Acabe então
Na alma minha
O horror que a invade
Sentir baixinho
Ao coração
A imensidade
Da solidão.

? espaço deixado em branco pelo autor
15 – 5 – 1910

Tanto desejei deste embuste o fim
Do amor entre nós. E agora acabou.
Mas não posso fingir, nem para mim,
Que o alcançado desejo me alegrou.

Cada partida é já separação.
No dia mais feliz envelhecemos um dia.
P’ra termos estrelas há que ter escuridão,
A hora mais fresca é também a mais fria.

Não ousei hesitar em aceitar
A tua carta final, mas eu desejo
Com ciúme vago que não vou negar
Que fôssemos feitos p’ra melhor ensejo.

Adeus! Vou sorrir ou não neste momento?
Meu sentir se perde no pensamento.

(poesia em inglês traduzida)

Vivo das lágrimas que lembro.
Vivo daquilo que perdi.
Era manhã, era dezembro…
Tu ias morta, e eu não senti;
Era criança, não senti.

Hoje relembro, hoje relembro
Como tu antes nunca vi.
Finjo, imagino, ou só relembro
Esse amor onde não vivi?
Sei que — tão longe estás!
E lembro e amo; morta, ali —
Era manhã, era dezembro.

Voou longe quanto houve de ti.
Era manhã, era dezembro.
Mas só hoje é que te perdi.
2 – 11 – 1933

Realidade Nua e Crua

INSTANTES

Se eu pudesse viver novamente a minha vida

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais

na verdade bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico

correria mais riscos, viajaria mais

contemplaria mais entardeceres

subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a lugares onde nunca fui.

Tomaria mais sorvete e menos lentilhas

teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida.

Claro que tive momentos de alegria

mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter

somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos.

Não perca-os agora.

Eu era desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa d’água quente, um guarda-chuva

e um paraquedas.

Se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar

descalço na primavera e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria

mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou

morrendo.

Don Herold (1889-1966)

NOTA: Esse é mais um apócrifo famoso. Muito antes da Internet ele já ocorria. Traduzido do original em INGLÊS para o espanhol, foi impresso em pôsteres, cartazes, jornais, etc. como de autoria de Jorge Luis Borges. Mais tarde começaram a dar outros nomes de autores, alguns até inventados. A “caça” pelo verdadeiro autor do texto acabou chegando no escritor e humorista Don Herold, que teria escrito o mesmo por volta dos anos 50.

Saiba mais:

Investigação excelente de Betty Vidigal:

http://www.blassoc.com.br/bettyvidigaltextobg.htm

Esclarecimento de Eugenio Siccardi, entre comentário da versão em inglês:

http://www.poemhunter.com/poem/instants/

Conta e Tempo

Deus pede estrita conta do meu tempo

É forçoso do tempo já dar conta;

Mas, como dar sem tempo tanta conta

Eu, que gastei sem conta tanto tempo!

Para Ter minha conta feita a tempo

Dado me foi bom tempo e não fiz nada

Não quis sobrando tempo fazer conta

Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Ó vós que tendes tempo sem Ter conta,

Não gasteis esse tempo em passatempo:

Cuidai enquanto é tempo em fazer conta

Mas, ah! Se os que contam com seu tempo

Fizessem desse tempo alguma conta

Não choravam como eu o não Ter tempo!

Laurindo Rabelo (1826-1864)

*   *   *

NOTA: Mais um belo poema de autoria suspeita. O mesmo também é atribuído a Frei Antonio das Chagas (1631-1682) e outros dizem que é de Laurindo Rabelo (1826-1864). Pode mesmo não ser de nenhum, pois para mim há na linguagem traços que se mostram novos para ambas as épocas. Quem souber da autoria real, por favor me avise. (Arnaldo)

Conta e Tempo

Conta e Tempo

Deus pede estrita conta do meu tempo

É forçoso do tempo já dar conta;

Mas, como dar sem tempo tanta conta

Eu, que gastei sem conta tanto tempo!

Para Ter minha conta feita a tempo

Dado me foi bom tempo e não fiz nada

Não quis sobrando tempo fazer conta

Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Ó vós que tendes tempo sem Ter conta,

Não gasteis esse tempo em passatempo:

Cuidai enquanto é tempo em fazer conta

Mas, ah! Se os que contam com seu tempo

Fizessem desse tempo alguma conta

Não choravam como eu o não Ter tempo!

Laurindo Rabelo (1826-1864)

 

*   *   *

 

NOTA: Mais um belo poema de autoria suspeita. O mesmo também é atribuído a Frei Antonio das Chagas (1631-1682) e outros dizem que é de Laurindo Rabelo (1826-1864). Pode mesmo não ser de nenhum, pois para mim há na linguagem traços que se mostram novos para ambas as épocas. Quem souber da autoria real, por favor me avise. (Arnaldo)

A ordem dos fatores… Muda tudo.

Esse texto é atribuído a Clarice Lispector. Fico pensando que os leitores do blog pensarão que o texto de cima para baixo é adequado para algumas pessoas de suas próprias vidas, e para outras, ou quem sabe apenas uma, será adequado de baixo para cima. Divirtam-se com suas próprias lembranças. Arnaldo

Leia de cima para baixo e de baixo para cima.

“Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você nao significa nada.
Nao poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Ja te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais…”

 

*   *   *

PS: Não estou mesmo certo de que a autoria é de Clarice. Se você sabe mais detalhes sobre a autoria deste texto, por favor, informe, para que eu possa corrigir e divulgar o correto. Muito obrigado desde já!

Rumi

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Não durmas,
senta com teus pares

A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes noturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.



Ontem à noite, confidencialmente, eu disse a um velho sábio:
– Não me esconda nada dos segredos do mundo!
Muito docemente, ele me disse ao ouvido:
– Chut! Podemos compreender, mas não exprimir!

Quero fugir a cem léguas da razão,
Quero da presença do bem e do mal me liberar.
Detrás do véu existe tanta beleza: lá está meu ser.
Quero me enamorar de mim mesmo, ó vós que não sabeis!

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

Ele chegou… Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?

Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto.

Sou medido, ao medir teu amor.
Sou levado, ao levar teu amor.
Não posso comer de dia nem dormir de noite.
Para ser teu amigo
Tornei-me meu próprio inimigo.

Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.

Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!

Não temos nada além do amor.
Não temos antes, princípio nem fim.
A alma grita e geme dentro de nós:
– Louco, é assim o amor.
Colhe-me, colhe-me, colhe-me!



À noite, pedi a um velho sábio
que me contasse todos os segredos do universo.
Ele murmurou lentamente em meu ouvido:
– Isto não se pode dizer, isto se aprende.

A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.

– Vem ao jardim na primavera, disseste.
– Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?

Jalaluddin Rumi (1207-1273)

O sonho de Chuang Tzu

“Uma vez sonhei que era uma borboleta, uma borboleta flutuando feliz pelo ares! Mas assim que despertei, percebi que meu corpo era humano, o mesmo de sempre, forte, compacto, de carne e osso. Porém, ainda totalmente tomado pelo prazer do vôo e pela sensação da liberdade das asas, pensei assim: Será que isso foi Chuang tse sonhando que era um borboleta ou a borboleta sonhando que era Chuang tse?”
Chuang Tzu, 389-286 a. C.

*

“Uma vez Chuang Tzu sonhou que ele era uma borboleta, uma borboleta a voar e flautear por aí, feliz consigo mesmo e fazendo o que desejava. Ela não sabia que era Chuang Tzu. De repente ele levantou-se e lá estava ele, o sólido e infalível Chuang Tzu. Mas ele não sabia se era Chuang Tzu que havia tido um sonho que era uma borboleta, ou era uma borboleta sonhando que era Chuang Tzu. Entre Chuang Tzu e uma borboleta deve haver alguma distinção. Isto é chamado a Transformação das Coisas.”
Chuang Tzu, 389-286 a. C.

File:Zhuangzi-Butterfly-Dream.jpg
Há duas traduções. Uma, mais antiga e poética, e que circula amplamente na Internet em português. Outra, mais completa e filosófica, traduzida por mim do inglês (o tradutor do original chinês é um estudioso da obra de Chuang Tzu). Na dúvida, deixei aqui as duas formas para os meus amigos leitores. Bons vôos. Arnaldo

A Girl (Frente!) – Homenagem à Clara, ex-Clarinha

A delicadeza da pétala.. O desengonço das pernas..

O veludo da violeta e o viço da pele…

A originalidade da flor de maracujá.. a curiosa surpresa das mil descobertas em uma hora…

Cios de pata-tenra a imitar mãe-loba.. soutiens que surgem em gavetas…

Peixinhos a brincar perto de tubarões… Brincadeiras de 6 anos, desejos de 15, alguns primos (e irmã!) a lhes puxar o esconde-esconde, outros batom e calçados In

Um lago vira Rio. A água jorra com força. Espinhas surgem. Emoções descontroladas. Tudo reticente, para não virar piti!

Minha pequena filha despede-se lentamente de uma fase a outra. E é lindo… Viva a pré-adolescência!

Uma homenagem a linda fase da vida de minha filha Clara.

Tão emocionado fico!

Frente! – Girl.
From the album – Marvin the Album. (1994)
(in HQ sound)

Lyrics:

A girl is the word
That she hasn’t heard
The truth is tiptoeing the edge of her skirt
The traffic’s a blur
The street’s a river
She’s bigger and braver than she is clever

See it’s her, it’s her
See it’s her, it’s her

A mind so complex
It’s breaking her neck
She thinks she’s a car drving to to its own wreck
Too wild and cool, vulnerable
To think one could change her
That’s where I’m a fool

Won’t you see it’s her, it’s her
See it’s her, it’s her

A girl is a verb
A whirl of colour
In doing she’s being
She never thought she was thinking anything you could

See it’s her, it’s her
See it’s her, it’s her

A girl is the word
A girl is a verb
A girl is the word…

To my daughter, with all my love. Arnaldo

A girl is the world
That she hasn’t heard
The truth is tiptoeing the edge of her skirt
The traffic’s a blur
The street’s a river
She’s bigger and braver than she is clever

See it’s her, it’s her
See it’s her, it’s her

A mind so complex
It’s breaking her neck
She thinks she’s a car drving to to its own wreck
Too wild and cool, vulnerable
To think one could change her
That’s where I’m a fool

Won’t you see it’s her, it’s her
See it’s her, it’s her

A girl is a verb
A whirl of color
In doing she’s being
She never thought she was thinking anything you could

See it’s her, it’s her
See it’s her, it’s her

A girl is a verb
A girl is a verb
A girl is a verb…

Girl (tradução) Frente! Revisar tradução Cancelar
Uma menina é o mundo
Que ela não tenha ouvido
A verdade está na ponta dos pés no limite de sua saia
O tráfego é um borrão
A rua é um rio
Ela é maior e mais corajosa do que inteligente

Veja é ela, é ela
Veja é ela, é ela

Uma mente tão complexa
Está quebrando o pescoço dela
Ela pensa que é um carro guiando para a sua própria destruição
Selvagem e legal demais, vulnerável
Em pensar que poderia alterá-la
Aí eu serei um tolo

Você não vê, é ela, é ela
Veja que é ela, é ela

Uma menina é um verbo
Um turbilhão de cor
Ao faze-la estará sendo
Ela nunca pensou que estava pensando alguma coisa que você pudesse…

…veja, é ela, é ela
Veja é ela, é ela

Uma menina é um verbo
Uma menina é um verbo
Uma menina é um verbo …

Cancelar

http://www.vagalume.com.br/frente/girl-traducao.html#ixzz1199kv9pW

““Eu vi a tarde correndo atrás de um cachorro”. Pequena seleta poética de Manoel de Barros

“Em poesia a razão é acessório”

Nascido em Cuiabá em 19 de dezembro de 1916, Manoel de Barros  é considerado um dos maiores poetas vivos do país. Recebeu os mais importantes prêmios literários brasileiros, entre eles dois Jabutis, dois Nestlé, um prêmio da ABL e ainda um da Biblioteca Nacional.

Posto aqui pequena seleta poética de sua obra. Para mim, ele é eloqüente a moda brasileira, brinda a natureza com um mix de autenticidade a Guimarães Rosa e simplicidade dos Haicais japoneses. Pitadas quintanescas e tio manoelinas… Desfrutem a vontade.

http://carmezim.files.wordpress.com/2009/06/manoel-de-barros2.jpg“O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852. Li nas Cartas exemplares, organizadas por Duda Machado. Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc, etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora”.

ESSA FUSÃO COM A

natureza tirava minha
liberdade de pensar.
Eu queria que as
garças me sonhassem.
Eu queria que as
palavras me
gorjeassem. Então
comecei a fazer
desenhos verbais de
imagens. Me dei bem.
Perdoem-me os
leitores desta entrada
mas vou copiar de
mim quatro desenhos
verbais que fiz para
este livro. Acho-os
como os “impossíveis
verossímeis” do nosso
mestre Aristóteles.
Dou quatro exemplos:
1) É nos loucos que
grassam luarais; 2) Eu
queria crescer pra
passarinho; 3) Sapo é
um pedaço de chão
que pula; 4) Poesia é
a infância da língua.
Sei que os meus
desenhos verbais
nada significam.
Nada. Mas se o nada
desaparecer a poesia
acaba. Eu sei. Sobre o
nada eu tenho
profundidades.

Trecho da apresentação de Manoel de Barros para sua “Poesia completa”

EU QUERIA FAZER PARTE DAS ÁRVORES COMO OS
pássaros fazem.
Eu queria fazer parte do orvalho como as
pedras fazem.
Eu só não queria significar.
Porque significar limita a imaginação.
E com pouca imaginação eu não poderia
fazer parte de uma árvore.
Como os pássaros fazem.
Então a razão me falou: o homem não
pode fazer parte do orvalho como as pedras
fazem.
Porque o homem não se transfigura senão
pelas palavras.
E isso era mesmo.

Poema de “Menino do mato”, de Manoel de Barros

NA­DAS

“Sei que os meus de­se­nhos ver­bais na­da sig­ni­fi­cam. Na­da. Mas se o na­da de­sa­pa­re­cer a poe­sia aca­ba. Eu sei. So­bre o na­da eu te­nho pro­fun­di­da­des. Des­co­bri aos 13 anos que o que me da­va pra­zer nas lei­tu­ras não era a be­le­za das fra­ses, mas a doen­ça de­las. Co­mu­ni­quei ao Pa­dre Eze­quiel, um meu pre­cep­tor, es­se gos­to es­qui­si­to. (…) Ele fez um lim­pa­men­to em meus re­ceios. Ma­noel, is­so não é doen­ça, po­de mui­to que vo­cê car­re­gue pa­ra o res­to da vi­da um cer­to gos­to por na­das… E se riu. Vo­cê não é de bu­gre? – ele con­ti­nuou. Que sim, eu res­pon­di. Ve­ja que bu­gre só pe­ga por des­vios, não an­da em es­tra­das – Pois é nos des­vios que en­con­tra as me­lho­res sur­pre­sas e os ar­ti­cuns ma­du­ros. Há que ape­nas sa­ber er­rar bem o seu idio­ma. Es­se Pa­dre Eze­quiel foi o meu pri­mei­ro pro­fes­sor de gra­má­ti­ca.”

SA­BE­DO­RIA

“Pa­ra apal­par as in­ti­mi­da­des do mun­do é pre­ci­so sa­ber: a) Que o es­plen­dor da ma­nhã não se abre com fa­ca; b) O mo­do co­mo as vio­le­tas pre­pa­ram o dia pa­ra mor­rer; c) Por que é que as bor­bo­le­tas de tar­jas ver­me­lhas têm de­vo­ção por tú­mu­los; d) Se o ho­mem que to­ca de tar­de sua exis­tên­cia num fa­go­te tem sal­va­ção; e) Que um rio que flui en­tre 2 ja­cin­tos car­re­ga mais ter­nu­ra que um rio que flui en­tre 2 la­gar­tos; f) Co­mo pe­gar na voz de um pei­xe; g) Qual o la­do da noi­te que ume­de­ce pri­mei­ro. Etc. Etc. Etc.”

POE­SIA

“No Tra­ta­do das Gran­de­zas do Ín­fi­mo es­ta­va es­cri­to: Poe­sia é quan­do a tar­de es­tá com­pe­ten­te pa­ra dá­lias. É quan­do ao la­do de um par­dal o dia dor­me an­tes. Quan­do o ho­mem faz sua pri­mei­ra la­gar­ti­xa. É quan­do um tre­vo as­su­me a noi­te. E um sa­po en­go­le as au­ro­ras.”

PRIN­CÍ­PIO

“No des­co­me­ço era o ver­bo. Só de­pois é que veio o de­lí­rio do ver­bo. O de­lí­rio do ver­bo es­ta­va no co­me­ço, lá on­de a crian­ça diz: Eu es­cu­to a voz dos pas­sa­ri­nhos.”

CON­JEC­TU­RAS

“As coi­sas que não têm no­me são mais pro­nun­cia­das por crian­ças.”

“A gen­te é ras­cu­nho de pás­sa­ro. Não aca­ba­ram de fa­zer…”

ÁGUAS

“Es­cu­to o meu rio: é uma co­bra de água an­dan­do por den­tro de meu olho.”

“Mi­nha bo­ca es­ta­va se­ca igual do que uma pe­dra em ci­ma do rio.”

“Um gran­de rio de poe­sia atra­ves­sa-me, do­ce…”

“A he­ra ves­te meus prin­cí­pios e meus ócu­los. Só sei por ema­na­ções por ade­rên­cia por in­crus­ta­ções. O que sou de pa­re­de os ca­ra­mu­jos sa­gram. A uma pe­dra­da de mim é o lim­bo. Nos mon­tu­ros do poe­ma os uru­bus me far­reiam. Es­tre­la é que é meu pe­na­cho! Sou fu­ga pa­ra flau­ta e pe­dra do­ce. A poe­sia me des­bra­va. Com águas me ali­nha­vo.”

“A água é ma­du­ra. Com pe­nas de gar­ça. Na areia tem raiz de pei­xes e de ár­vo­res. Meu cór­re­go é de so­frer pe­dras, mas quem bei­jar seu cor­po é bri­sas…”

“No chão da água lua­va um pás­sa­ro por so­bre es­pu­mas de ha­ver es­tre­las. A água es­cor­ria por en­tre as pe­dras um chão sa­ben­do a aro­ma de ni­nhos. (…) Ár­vo­res com o ros­to ar­reia­do de seus fru­tos ain­da chei­ra­vam a ve­rão. Du­ran­te bor­bo­le­tas com abril es­se cór­re­go es­cor­reu só pás­sa­ros…”

CON­VER­SA

“Vo­cê brin­cou de mim que uma bor­bo­le­ta no meu de­do ti­nha sol? Vo­cê ia pe­gar ago­ra o que fu­giu de meu ros­to ago­ra? Na bei­ra da pe­dra aque­le car­deal, vo­cê viu? Fez um lin­do ni­nho es­con­di­do bem pa­ra a gen­te não ir apa­nhar seus fi­lho­tes, que bom. Ó meu car­deal, vo­cê não é um su­jei­to bro­coió à toa! Vo­cê é um pas­sa­ri­nho atra­ves­sa­do…”

————————————————————-

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

* * *

“Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela.
Como se fosse infância da língua”.

BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.

http://2.bp.blogspot.com/_3Ojximob-0A/SDDJ90rkV3I/AAAAAAAACK0/7uPWwHJY0QA/s400/manoel%2Bde%2Bbarros%2B(desenho).jpg

Pedra e Limo – do poeta Rodrigo de Carvalho

Pedra e Limo

Dobro meu corpo em flecha

e provo o horizonte à frente,

sonho com a primavera a desabrochar

e imagino você diferente,

silenciosamente respirando lágrimas,

porejando sangue, evaporando ar.

Haver estado no ocaso

tanto tempo, tanto faz

para meu sonho maravilhosos,

que diferença traz?

Eu pedra, você limo,

amantes passivos do destino

em mudo beijo

onírico do Além-Tejo.

Rodrigo de Carvalho (do livro  Lua de Maio)