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Archive for the ‘Pessoa’ Category

Há tempos fiz essa seleta, eleita a partir do site do instituto que preserva a memória de Fernando Pessoa (ou seja, chega de apócrifos dele, rs!!!). Espero que gostem.  Ei-la:

Que fiz da vida?

Que fiz da vida?
Que fez ela de mim?
Quanta coisa feliz ignorada e perdida!
Quanto princípio que não teve fim!

Que sinto ante estas águas e este céu?
Ai de mim! Só o coração que é meu…

E no súbito azul em que reparo
Do mar, do antigo mar,
Pois despertei do sonho em que caíra,
Há uma carícia vaga, há um sorriso raro
Que parece falar
De qualquer paz além de gozo e dor,
De qualquer novo amor
Que transcende a verdade e a mentira.
E, desperto de todo, eu que dormia
O sono natural da sensação,
E que por isso não ouvia,
Oiço o som das ondas, claro, fresco, e uma
Brisa me passa pelo coração,
E estendo ao mar a mão
E o mar me estende sua mão, a espuma.

entre 31 e 35

Suspiro triste
Da imensidão,
Que é o que existe?
Se estendo a mão
Na solidão
Ninguém me assiste!

Amor, perdi-o
Sonhos deixei.
Eu tenho frio
Na imensidão!
Quem sou não sei.
Sinto vazio
Meu coração.

Sou cego, vendo,
Só vivo, horror
No eterno sendo,
Onde me acoito
Deste amargor?
É frio o chão
Que fria a noite,
E os astros são!

Tenho desejo
De poder ter
Sono, bocejo
De n’alma haver
Um sono, e então
Ser impossível
E inconsciencível
À imensidão.

Dá-me que deite
Minha alma em medo
No teu regaço,
Ó noite, e aceite
Por suave segredo
Teu negro espaço,
E a solidão
E os astros mudos
Escuros e surdos
Ao coração!

Que eu durma em alma
Sem sentir mesmo
Surgir a calma,
Que eu durma todo
Nada no nada
Lodo do lodo
Chão e só chão.

E aí que quem venha
Pisando então
O pó, não tenha
Desejo vão;
Saiba a ignorância
E o amar amor
E a ? da vida
? fragrância
Espontânea dor
Da flor nascida.
Acabe então
Na alma minha
O horror que a invade
Sentir baixinho
Ao coração
A imensidade
Da solidão.

? espaço deixado em branco pelo autor
15 – 5 – 1910

Tanto desejei deste embuste o fim
Do amor entre nós. E agora acabou.
Mas não posso fingir, nem para mim,
Que o alcançado desejo me alegrou.

Cada partida é já separação.
No dia mais feliz envelhecemos um dia.
P’ra termos estrelas há que ter escuridão,
A hora mais fresca é também a mais fria.

Não ousei hesitar em aceitar
A tua carta final, mas eu desejo
Com ciúme vago que não vou negar
Que fôssemos feitos p’ra melhor ensejo.

Adeus! Vou sorrir ou não neste momento?
Meu sentir se perde no pensamento.

(poesia em inglês traduzida)

Vivo das lágrimas que lembro.
Vivo daquilo que perdi.
Era manhã, era dezembro…
Tu ias morta, e eu não senti;
Era criança, não senti.

Hoje relembro, hoje relembro
Como tu antes nunca vi.
Finjo, imagino, ou só relembro
Esse amor onde não vivi?
Sei que — tão longe estás!
E lembro e amo; morta, ali —
Era manhã, era dezembro.

Voou longe quanto houve de ti.
Era manhã, era dezembro.
Mas só hoje é que te perdi.
2 – 11 – 1933

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Que fiz da vida?

Fernando Pessoa

Que fiz da vida?
Que fez ela de mim?
Quanta coisa feliz ignorada e perdida!
Quanto princípio que não teve fim!

Que sinto ante estas águas e este céu?
Ai de mim! Só o coração que é meu…

E no súbito azul em que reparo
Do mar, do antigo mar,
Pois despertei do sonho em que caíra,
Há uma carícia vaga, há um sorriso raro
Que parece falar
De qualquer paz além de gozo e dor,
De qualquer novo amor
Que transcende a verdade e a mentira.
E, desperto de todo, eu que dormia
O sono natural da sensação,
E que por isso não ouvia,
Oiço o som das ondas, claro, fresco, e uma
Brisa me passa pelo coração,
E estendo ao mar a mão
E o mar me estende sua mão, a espuma.

entre 31 e 35

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