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Archive for the ‘Visão de mundo e Reflexões’ Category

Ainda lembro como se fosse ontem. Eu e minhas filhas, frequentadores da Biblioteca-parque da Av. Presidente Vargas (centro) chegando e dando com a cara na porta, encontrando um fantasma adormecido por conta do (des)governo Pezão.

Já vai fazer um ano. O governo silencia, como faz com tudo o que diz respeito a Educação e Cultura. Uma lástima, a debelar esperanças de algum futuro para os viventes no Rio de Janeiro. (Arnaldo)

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Sugestão de músicas para ouvir enquanto lê esse texto: “Sound of Silence“, “Blackbird“, “Guaranteed” e ou “One day at a time

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A morte do marginal Charles Manson aos 83 anos mais uma vez traz à mídia o retrato de uma sociedade doente

Arnaldo V. Carvalho*

Ainda mais para quem não é americano, os crimes e [demais] loucuras cometidos pela chamada “Família Manson” no final dos anos 60 já jazia na poeira do tempo, até que a imprensa publicitou sobre a morte de seu protagonista maior, Charles Manson.

Nos cientes de sua existência, a sensação geral foi de alívio. Em mim, apenas um baixar de olhos, porque confesso, espelhei suas sombras nas minhas.

Eu conheço a raiva do mundo, da vida, da dor e do prazer. Fui uma criança explosiva, brigona, com uma solidão estranha, levada para depressões na juventude; e tive muito, muito medo de tudo. Raiva é medo disfarçado. Ou é filha do medo. Me acredito quase “salvo”, porque o amor das pessoas que me criaram me salvou. Aqui, destaco meus irmãos com paciência infinita, que me neutralizavam quando eu muito pequeno os atacava com toda a minha força física e falavam baixo para só me liberarem quando eu me acalmasse. Isso me deu contornos, limites, e me manteve sóbrio. Mesmo assim, meu destempero eclodiu muitas vezes ao longo dos anos e ofendeu as pessoas que mais amei nessa vida.

Eu seria diferente de Manson se tivesse sido rejeitado desde a concepção, e estuprado, violentado, drogado, tudo desde sempre? Eu teria morrido, de um jeito ou de outro.

Se conseguirmos por um segundo esquecer acerca de todo o mal que sua vida doentia conseguiu proporcionar à Vida: pensando apenas no sofrimento acumulado, 83 anos é pesado muita, muita coisa. Não sei como ele viveu. Não sei.

Mas sei que para sobreviver com um background desses, rompe-se com cultura, normalidade, com a razão e com a emoção. No lugar dele, duas possibilidades são aparentemente as únicas possíveis ao corpo-mente: pelo menos um dele tem que morrer. Se não é o corpo arrebatado pela energia anti-vida, então será a mente. O X na testa que Manson se fez dizendo-se “estar fora” daquela sociedade, daquela jurisdição, daquele mundo, já estava feito há tanto tempo em seu coração. O corpo encarcerado por tantas décadas era o de um natimorto-vivo, o mais atormentado dos zumbis, cujo destino tornou-se devorar mentes e levar outros a conhecer o inferno com ele, durante toda a sua longa existência e até o fim. Me surge uma primeira pergunta: Psicopatas serão sobreviventes físicos de recônditos profundos de almas torturadas e mortas mesmo antes do nascimento?

A força de um “ninguém”

Notem, usei no título o termo “marginal”. Nada mais apropriado: Manson ficou à margem da sociedade desde seu nascimento. Uma vez perguntaram a ele “quem era Charles Manson”. Caretas depois, ele disse: “ninguém”. É o que ele foi, desde sempre.

Manson já era “menos um” há tempos. Me preocupo com os “ninguéns” soltos por aí, influenciando pessoas, semeando a trágica doença da perversidade silenciosa e oculta. Me preocupo com os ninguéns sendo neste momento fabricados por essa sociedade bizarra. E estou atento a meus ninguéns e os de vocês, pessoas “normais” que me leem.

São Mansons que promovem o “Jogo da Baleia Azul”, são Mansons que ensinam adolescentes a se cortarem para “aliviar sofrimento”, são Mansons os que misturam hoje prazer com humilhação, e espalham em mais de cinquenta tons de cinza a ideia de prazer misturado com dor. Nesse instante, eles estão na Grande Rede, aliciando menores, incitando à morte por assassínio ou suicídio, incentivando aos jovens que se apartem de vez de suas famílias. Eles estão usando a solidão depressiva dos jovens que estão desprovidos de referências adultas concretas (porque os pais são ausentes, trabalhando o dia inteiro, ou formaram outras famílias, ou ou ou…). E para concluírem seu intento, de formar novos Mansons iguais a eles, sugerem toda a forma de descaracterização da pessoa como parte da vida coletiva. Descaracteriza-se o gênero, consome-se substâncias ilícitas ou aparentemente ilícitas, ouve-se músicas que reforçam o mote, usam-se redes sociais que não as gerais, cria-se um “submundo” onde eles são acolhidos.

A “promessa” Manson é a promessa do Fauno, com desafios e uma espécie confusa de valorização da condição do abandonado, presa fácil uma vez que caia no labirinto emocional oferecido por pessoas assim.

Para o mundo, o demonio-marginal Charles Manson, parafraseando Gentileza, era um ninguém indigesto. Uma verdade inconveniente. Porque ele é mais um produto de nossa sociedade que como disse Tomio Kikushi, não é somente louca, mas enlouquecedora.

Resposta reichiana

Manson mostrou ao mundo como um ninguém pode se tornar uma ameaça. O psiquiatra Wilhelm Reich (1897-1957), pouco antes de Manson nascer, tentou precaver a sociedade sobre a “peste emocional”, o ninguém que vive nas pessoas, e que quando “assume o controle” – é o caso – possui um poder destrutivo e contaminante.

“… olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza: ÉS TU TEU PRÓPRIO NEGREIRO” . (REICH, 1974, p.24)

Ele estudou como esse mal coletivo se forma e espalha, e apontou soluções. Mostrou o caminho do Amor Natural e ao mesmo tempo, denunciou o “Pequeno Homem”* que nos habita, e é oriundo do medo e da repressão. Mas não foi ouvido. Otimista, o Reich da década de 1930 errou quando previu que a sociedade de cinquenta anos depois poderia estar mais preparada para o que ele tinha a dizer. Seguimos afastados do amor, reprimidos, hipócritas, e com isso perversos, cruéis, violentos, doentes sexualmente, psiquicamente, corporalmente.

A estruturação sadia da psiquê parece ter um limite sensível às experiências vividas, e talvez por isso eu não conheça uma biografia de gente que nasceu e cresceu em condições tão brutais e terminou bem (saudável, inclinado à vida, e a inspirar outras vidas). É possível manter-se são mesmo após grandes sofrimentos, e nem é preciso recorrer à exemplos místicos como Jesus Cristo, Buda ou Krishna (todos nascidos e criados com amor); temos muitos mártires e heróis contemporâneos que nos provam isso. Mas eles conseguiram porque já estavam estruturados. Convido ao leitor a me apresentar uma grande pessoa que tenha sido condenada ao nada desde sempre.

O questionamento, então, passa a ser: quando a sociedade vai abrir os olhos para o impacto do nascimento, da força do Amor, incluindo o contorno do limite infantil que também é expressão de afeto e interesse verdadeiro pela criança?

Ou pior: quantos Charles Mansons ou mais grave, quantas famílias Mansons seguirão sendo formadas até que a sociedade finalmente se liberte das velhas fórmulas morais, punitivas e adoecedoras das almas?

Na restauração da sanidade coletiva da humanidade, a única revolução possível, e a única saída para o caos crescente segue sendo Ele, o Amor.

***

* Um livro simples, direto e esclarecedor sobre esse “ninguém” que há em nós foi escrito por Reich em 1948 e traduzido no Brasil como “Escuta, Zé Ninguém“. Antes disso ele já falava da doença anti-vida, em publicações como a “Psicologia de Massas do Fascismo”, de 1933, entre outros, e depois, em 1952, o “Assassinato de Cristo”, mais uma grave denúncia à peste emocional deflagrada pela coletividade de “Ninguéns”. Reich antecipava os passos de Charles Manson, e isso rende outro e bem mais complexo artigo.

Maddox Manson, mais Mad do que manso. Louco, psicopata, “do mal”. Quantos Mansons existem hoje por aí, promovendo mortes de almas inteiras?

 

Para saber mais sobre Charles Manson

http://observador.pt/2017/11/20/charles-manson-o-assassino-mais-infame-do-mundo-esta-morto-tinha-83-anos-passou-46-na-prisao/

https://books.google.com.br/books?id=IYidCwAAQBAJ&pg=PT334&lpg=PT334&dq=entrevista+maddox+manson&source=bl&ots=on68aMf5p8&sig=c8PNAPEDu8o2lWqbO72kgxtXa1k&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiSoM-FitDXAhWEgJAKHdeBCBsQ6AEIJzAA#v=onepage&q=entrevista%20maddox%20manson&f=false

http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2017-11-20-Charles-Manson-lider-de-seita-psicopata-assassino-um-dos-criminosos-mais-perigosos-da-America

http://fenix1374.blogspot.com.br/2013/03/charles-milles-maddox-manson-nascido-em_20.html

http://justificando.cartacapital.com.br/2014/11/26/charles-manson-louco-ou-genio-crime/

 

 

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https://citacoes.in/media/authors/21009_eduardo-galeano.jpeg

“Tinham as mãos amarradas, ou algemadas, e ainda assim os dedos dançavam, voavam, desenhavam palavras. Os presos estavam encapuzados; mas inclinando-se conseguiam ver alguma coisa, alguma coisinha, por baixo. E embora fosse proibido falar, eles conversavam com as mãos.

Pinio Ungerfeld me ensinou o alfabeto dos dedos, que aprendeu na prisão sem professor:

— Alguns tinham caligrafia ruim — me disse —. Outros tinham letra de artista.

A ditadura uruguaia queria que cada um fosse apenas um, que cada um fosse ninguém: nas cadeias e quarteis, e no pais inteiro, a comunicação era delito.

Alguns presos passaram mais de dez anos enterrados em calabouços solitários do tamanho de um ataúde, sem escutar outras vozes além do ruído das grades ou dos passos das botas pelos corredores. Fernandez Huidobro e Mauricio Rosencof, condenados a essa solidão, salvaram-se porque conseguiram conversar, com batidinhas na parede. Assim contavam sonhos e lembranças, amores e desamores; discutiam, se abraçavam, brigavam; compartilhavam certezas e belezas e também dúvidas e culpas e perguntas que não tem resposta.

Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada.

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. L&PM

https://jornalggn.com.br/sites/default/files/u1296/o_livro_dos_abracos_0.jpg

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Hoje de manhã, pela rádio Band News FM, o jornalista Ricardo Boechat, cujos comentários costumam acertar muito mais do que errar, falou sobre o tema da redação do ENEM. O tom era de dura crítica, mas os argumentos, menores do que o tamanho deste competente profissional.

Basicamente, ele diz que “mesmo tendo sido bom em redação, mesmo assim enquanto estudante teria ido mal na prova”, comparando a importância do tema com “estudo de borboletas da Turquia” (já não recordo o país exato mas o sentido era esse). Infelizmente, suas palavras rebaixam o sentido da inclusão na escola, desvaloriza a comunidade surda no Brasil, nossa segunda língua oficial (LIBRAS) e única verdadeiramente brasileira. E de outro lado, não alcança o sentido político (logo ele) de se optar por um “assunto branco”.

Por isso mesmo tomei o cuidado de ir ao site de seu programa tecer algumas análises, muito breves para não tomar seu tempo, para que ele reconsidere. Como aparentemente fui ignorado (natural, são mais de mil e quintos comentários ao longo do programa, fica mesmo difícil), ao menos trago o assunto a público, pois pode ser útil a outros.

Querido Ricardo Boechat, sou um ouvinte atento, e ao longo dos anos você tem aberto meus olhos muitas vezes. Humildemente, digo que talvez eu possa contribuir pela primeira vez c/om os seus.

Há sim motivos sérios para criticar o tema do ENEM, mas não os que você apresentou. A falta de contato com a realidade urgente do país para mim é o grande drama. O INEP optou por um “tema branco”, demonstrando claramente uma posição de proteção em relação ao panorama político. Essa proteção pode ser visto como uma esquiva às complicadas relações do governo com as ações institucionais, que tem sofrido represálias que nos fazem lembrar tempos de Censura.

Por outro lado, tanto eu como você pertencemos a gerações que jamais vivenciaram em sala de aula o tema da inclusão. Estavamos em nossas carteiras sem qualquer colega cego, surdo, ou outro. Eles estavam ou em casa, as vezes sendo tratados como retardados, ou os sortudos estavam nos poucos institutos a eles dedicados.

Já os jovens de agora não, eles estão o tempo todo em contato com todo tipo de aluno de inclusão e a comunidade surda é enorme. Então, para eles esse tipo de discussão é relevante, consonante com um mundo onde as deficiências vêm sendo superadas com informação e não apartamento.

Você sabia que LIBRAS, a língua de sinais, é oficialmente segunda língua brasileira? Sabia que a comunidade no Brasil de hoje temos quase 10 milhões de pessoas com diferentes graus de deficiência auditiva? Imagine o tamanho dessa silenciosa comunidade, aumentada se levamos em conta todos os familiares envolvidos.

Há relevância, sim! Mas concordo que parece asséptico, aparentemente dissociado do momento político e social do país.

Um abraço Boechat e equipe”.

Arnaldo V. Carvalho

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Revista IHU Online

Fonte: Elo e sentido na maternidade indígena

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Por Arnaldo V. Carvalho*

Hoje fui atacado por um “xingamento generalizante”. Uma mulher que não conheço, pela rede social de um amigo, chamou generalizadamente os estudantes que se tem se manifestado contra a precarização da educação e toda a podridão ocorrendo no Rio de Janeiro de “petistas vagabundos”.

Sinto, mas nesse ponto eu e meu amigo (que replicou a mensagem da conhecida) temos posições opostas. Primeiro que não agrediria ninguém dessa forma. Segundo que nunca fui nem sou petista*, mas sou estudante de uma faculdade publica, casado com uma professora de universidade publica, e a ultima coisa que somos é vagabundos.

Não acredito em greves ou ocupações como saída real (na verdade ainda precisa surgir algum modelo pacifico, seguro e eficiente de resistencia politica-cidadã, eu, os demais estudantes e o mundo com certeza agradecerão boas sugestões!).

Mas sem duvida apatia, passividade, e resmungos interneticos nao podem vencer o rolo compressor que a maquina pública esta passando em cima das pessoas.

Desse modo, vejo as manifestações e reivindicações como legítimas, e torço para que mais brasileiros participem ou apoiem.

Em tempo, repudio vandalismos de toda a ordem. Inclusive xingamentos generalizantes como o da pessoa que atacou a mim e demais estudantes.

Segue aqui meu abraço de paz e o mesmo carinho de sempre para o meu amigo, a amiga dele, e todos vocês que me leem.

*   *   *

Arnaldo V. Carvalho, cidadão brasileiro, trabalhador e estudante, a acompanhar e participar ATIVAMENTE da sociedade em que vive e seus desafios.

* Notem bem, não é aí que está o xingamento! Não há problemas em ser ou em criticar o PT. Mas também não vale (para lado nenhum) vir com afirmações do tipo “petralha x coxinha”, como se ao adotar um lado tudo se santifica para este e tudo se demoniza para aquele. Não, não. Respeito as convicções políticas de cada um e, aliás, estou sempre aberto a ouvir os argumentos de quem defende ou adota posições fixas. Enfim, papo para outro momento, não cabe aqui nesse textinho! (Arnaldo)

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Arnaldo V. Carvalho*

Há semanas, José Beltrame, o secretário de segurança com maior longevidade na história do Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista de “despedida” em primeira mão para a TV Globo.

Resultado de imagem para beltrameBeltrame foi claro a comparar o Estado a um doente, chamando de “anestesia” as megaoperações que iniciaram a “era UPP“, e que por algum tempo reduziram parte da violência e criaram certo clima de estabilidade em muitas comunidades dominadas pelo crime.

“Se a cirurgia que deveria ocorrer após a anestesia ocorreu, e se foi bem feita ou não, isso aí é que tem que ser discutido”.

Suas palavras combinam com a do criador do projeto “Papo de Responsa” da Polícia Resultado de imagem para policial papo de responsa beto chavesCivil, o policial Beto Chaves. Em visita (de minha turma de faculdade) ao projeto, na Cidade da Polícia, ele nos disse: “O Estado deixou de aproveitar. Quem deve estar nessas comunidades não é a secretaria de segurança, mas a de educação, de saúde, de trabalho, e de esportes, cultura e lazer”. Com certeza!

Em suma, foi desperdiçada mais uma vez uma grande chance para o Rio de Janeiro transformar-se (o que faz parte do pacote de possibilidades positivas levantadas ainda no governo Cabral, tristemente roubadas de nós pelos meios mais diversos e escusos).

Essa foi uma esperança de alguns poucos, e a prática de nenhum dos governantes. O tempo da “anestesia” das UPPs do acabou, e a dor voltou aos cariocas, que estão acordando ainda de peito aberto.

* Arnaldo V. Carvalho, cidadão carioca

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