Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘arnaldo v. carvalho’

Outro dia esbarrei com essa carteirinha, a segunda que tive no Instituto Anima, onde fiz cursos de controle mental com a professora Ananda (o primeiro foi em 1988). Nenhuma dúvida de que esses cursos influenciaram tudo o que aconteceu em minha vida pessoal e profissional. Fica meu carinho a essa maravilhosa iniciativa, e a gratidão eterna pela “descoberta” desse oásis por minha mãe, que se despencava comigo de Niterói para a Ilha do Governador diariamente, acordando cedo, pegando comigo barcas e ônibus para lá chegarmos.  IMG_20150228_161404.jpg

Anúncios

Read Full Post »

ou… Os jovens de agora e os Yuppies do futuro farão a diferença?

Por Arnaldo V. Carvalho*

Antonio Gramsci estaria descabelado com as novas formas de capitalismo que tomam conta do planeta… Mas esperançoso com os também novos movimentos reivindicativos, que organizam massas e resistem, e têm como diferença a forte presença do que chamava ele de “intelectualidade orgânica”: Gente oriunda de condições socioeducativas de mais qualidade, capazes de, para além de uma análise profunda e abrangente das diferentes situações, colocar a mão na massa, engajar, e fazer a diferença. São lideranças de coletividades inteiras, “lideranças preparadas”. É o que vemos no Brasil, por exemplo, no trabalho de Guilherme Boulos junto aos movimento dos sem teto: filósofo, psicanalista, e militante desde os quinze anos, ele representa uma leva de jovens que enxergam os males do sistema em que vivem para uma parcela de pessoas que é maioria absoluta. São jovens que estão hoje na busca não por “seu pirão primeiro”, mas pelo “Nós”.

Alguns desses, encontram-se engajados na política, e quase sempre, engrossam fileiras de partidos mais inclinados às causas dos desprivilegiados (porque “trabalhadores” não são só os pobres). Na Espanha, os movimentos populares deram origem ao “Podemos“, que é dirigido por um cientista político e ultrapassa as velhas ideias de “direita e esquerda”. Por aqui, com todas as críticas, vemos partidos como PSOL ou novos movimentos políticos apartidários, como Agora! e diversos outros, recebendo levas cada vez mais significativas de professores universitários, etc. Compenetrados em observar a sociedade a partir de um olhar “cientificamente menos egoísta”, ou para fora das estruturas socioeconomicas vigentes, essas pessoas são capazes de agir em perspectiva , na certeza de que o enfrentamento ao status quo é da máxima urgência para o futuro da humanidade.

Se um jovem de classe média ou alta, que tem acesso à boa educação, se sensibiliza com causas sociais e ambientais (vamos lembrar que essas causas são na verdade uma só), e decide fazer algo, imagine se desde criança elas já crescesse desenvolvendo esse tipo de consciência e proatividade.

Pois é o que começa a acontecer em todo o planeta, com as “superescolas”, que apostam em uma formação com ênfase em conceitos como cosmopolitismo, sustentabilidade e nova economia. No Brasil, já aportam Iniciativas globais como a Schumacher School, celeiro de educadores e educandos “holísticos”, ou a Avenues, escola para os filhos das elites (as mensalidades custam em torno de R$10.000,00), que prepara a criança para o mundo – literalmente, desenvolvendo habilidades de liderança com – em princípio – preocupações ambientais, sociais e mesmo existenciais.

Surgirá daí um coletivo de intelectuais orgânicos para fazer o sonho de Gramsci se tornar realidade?

Talvez disso dependa, para além de conteúdos oferecidos por uma escola, de uma farta oferta de carga emocional amorosa – capaz de preservar a latente sensibilidade que nasce com cada ser humano, e se não suspensa por mecanismos culturais, torna um indivíduo com sentimento de vínculo em relação a sua própria espécie homo sapiens (1). Em outras palavras, a educação formal possivelmente precisa estar associada à uma criação onde o potencial afetivo possa seguir sua direção natural. E quanto a isso, se não há escola, há iniciativas, métodos e discussões, como vemos por exemplo no trabalho da API – Attachment Parenting Internacional, que versa sobre criação com “apego” (sentimento de vínculo)(2).

Vamos torcer para que esses futuros novos “yuppies cosmopolitas” realmente cresçam não focados em aumentar os patrimônios de suas famílias, mas conscientes, desejosos de ver o mundo melhorar para além de seus umbigos protegidos por carros blindados e muros de condomínios de luxo – e dispostos a agir para isso.

____

(1) Ver ODENT, Michel. Pode o homem sobreviver a medicina? Rio de Janeiro: IMO, 2017.(2) No Brasil, o API é representado pelo educador parental Thiago Queiroz.

***

* Arnaldo V. Carvalho, terapeuta, pai, aprendiz de pedagogo, cidadão do mundo.

 

Read Full Post »

WhatsApp Image 2017-11-30 at 14.49.42.jpeg

Em novembro me engajei na campanha pela conscientização sobre a importância da avaliação e tratamento da próstata. Assim como fazem os pioneiros australianos, durante todo o período permiti a barba crescer, para chamar atenção dos amigos que ao comentarem, recebiam como resposta:

– É Novembro Azul, já marcou seu exame?

Considerações naturopáticas e  psicossomáticas naturalmente serão feitas em artigo especialmente para esse fim (no prelo), mas o fato é que a displasia (aumento) da próstata ocorre com a idade em 100% dos homens, e é a partir desse crescimento que o câncer pode brotar. Então, não tem jeito, tem que ficar de olho e tratar.

Te digo como prevenir em breve em meu artigo. Como tratar também. Mas nada do que será dico substitui fato de que você, homem que me lê e chegou aos 40, precisa parar de achar que é super-homem e se cuidar. (Arnaldo)

 

Read Full Post »

Sugestão de músicas para ouvir enquanto lê esse texto: “Sound of Silence“, “Blackbird“, “Guaranteed” e ou “One day at a time

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/Charles-mansonbookingphoto.jpg

A morte do marginal Charles Manson aos 83 anos mais uma vez traz à mídia o retrato de uma sociedade doente

Arnaldo V. Carvalho*

Ainda mais para quem não é americano, os crimes e [demais] loucuras cometidos pela chamada “Família Manson” no final dos anos 60 já jazia na poeira do tempo, até que a imprensa publicitou sobre a morte de seu protagonista maior, Charles Manson.

Nos cientes de sua existência, a sensação geral foi de alívio. Em mim, apenas um baixar de olhos, porque confesso, espelhei suas sombras nas minhas.

Eu conheço a raiva do mundo, da vida, da dor e do prazer. Fui uma criança explosiva, brigona, com uma solidão estranha, levada para depressões na juventude; e tive muito, muito medo de tudo. Raiva é medo disfarçado. Ou é filha do medo. Me acredito quase “salvo”, porque o amor das pessoas que me criaram me salvou. Aqui, destaco meus irmãos com paciência infinita, que me neutralizavam quando eu muito pequeno os atacava com toda a minha força física e falavam baixo para só me liberarem quando eu me acalmasse. Isso me deu contornos, limites, e me manteve sóbrio. Mesmo assim, meu destempero eclodiu muitas vezes ao longo dos anos e ofendeu as pessoas que mais amei nessa vida.

Eu seria diferente de Manson se tivesse sido rejeitado desde a concepção, e estuprado, violentado, drogado, tudo desde sempre? Eu teria morrido, de um jeito ou de outro.

Se conseguirmos por um segundo esquecer acerca de todo o mal que sua vida doentia conseguiu proporcionar à Vida: pensando apenas no sofrimento acumulado, 83 anos é pesado muita, muita coisa. Não sei como ele viveu. Não sei.

Mas sei que para sobreviver com um background desses, rompe-se com cultura, normalidade, com a razão e com a emoção. No lugar dele, duas possibilidades são aparentemente as únicas possíveis ao corpo-mente: pelo menos um dele tem que morrer. Se não é o corpo arrebatado pela energia anti-vida, então será a mente. O X na testa que Manson se fez dizendo-se “estar fora” daquela sociedade, daquela jurisdição, daquele mundo, já estava feito há tanto tempo em seu coração. O corpo encarcerado por tantas décadas era o de um natimorto-vivo, o mais atormentado dos zumbis, cujo destino tornou-se devorar mentes e levar outros a conhecer o inferno com ele, durante toda a sua longa existência e até o fim. Me surge uma primeira pergunta: Psicopatas serão sobreviventes físicos de recônditos profundos de almas torturadas e mortas mesmo antes do nascimento?

A força de um “ninguém”

Notem, usei no título o termo “marginal”. Nada mais apropriado: Manson ficou à margem da sociedade desde seu nascimento. Uma vez perguntaram a ele “quem era Charles Manson”. Caretas depois, ele disse: “ninguém”. É o que ele foi, desde sempre.

Manson já era “menos um” há tempos. Me preocupo com os “ninguéns” soltos por aí, influenciando pessoas, semeando a trágica doença da perversidade silenciosa e oculta. Me preocupo com os ninguéns sendo neste momento fabricados por essa sociedade bizarra. E estou atento a meus ninguéns e os de vocês, pessoas “normais” que me leem.

São Mansons que promovem o “Jogo da Baleia Azul”, são Mansons que ensinam adolescentes a se cortarem para “aliviar sofrimento”, são Mansons os que misturam hoje prazer com humilhação, e espalham em mais de cinquenta tons de cinza a ideia de prazer misturado com dor. Nesse instante, eles estão na Grande Rede, aliciando menores, incitando à morte por assassínio ou suicídio, incentivando aos jovens que se apartem de vez de suas famílias. Eles estão usando a solidão depressiva dos jovens que estão desprovidos de referências adultas concretas (porque os pais são ausentes, trabalhando o dia inteiro, ou formaram outras famílias, ou ou ou…). E para concluírem seu intento, de formar novos Mansons iguais a eles, sugerem toda a forma de descaracterização da pessoa como parte da vida coletiva. Descaracteriza-se o gênero, consome-se substâncias ilícitas ou aparentemente ilícitas, ouve-se músicas que reforçam o mote, usam-se redes sociais que não as gerais, cria-se um “submundo” onde eles são acolhidos.

A “promessa” Manson é a promessa do Fauno, com desafios e uma espécie confusa de valorização da condição do abandonado, presa fácil uma vez que caia no labirinto emocional oferecido por pessoas assim.

Para o mundo, o demonio-marginal Charles Manson, parafraseando Gentileza, era um ninguém indigesto. Uma verdade inconveniente. Porque ele é mais um produto de nossa sociedade que como disse Tomio Kikushi, não é somente louca, mas enlouquecedora.

Resposta reichiana

Manson mostrou ao mundo como um ninguém pode se tornar uma ameaça. O psiquiatra Wilhelm Reich (1897-1957), pouco antes de Manson nascer, tentou precaver a sociedade sobre a “peste emocional”, o ninguém que vive nas pessoas, e que quando “assume o controle” – é o caso – possui um poder destrutivo e contaminante.

“… olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza: ÉS TU TEU PRÓPRIO NEGREIRO” . (REICH, 1974, p.24)

Ele estudou como esse mal coletivo se forma e espalha, e apontou soluções. Mostrou o caminho do Amor Natural e ao mesmo tempo, denunciou o “Pequeno Homem”* que nos habita, e é oriundo do medo e da repressão. Mas não foi ouvido. Otimista, o Reich da década de 1930 errou quando previu que a sociedade de cinquenta anos depois poderia estar mais preparada para o que ele tinha a dizer. Seguimos afastados do amor, reprimidos, hipócritas, e com isso perversos, cruéis, violentos, doentes sexualmente, psiquicamente, corporalmente.

A estruturação sadia da psiquê parece ter um limite sensível às experiências vividas, e talvez por isso eu não conheça uma biografia de gente que nasceu e cresceu em condições tão brutais e terminou bem (saudável, inclinado à vida, e a inspirar outras vidas). É possível manter-se são mesmo após grandes sofrimentos, e nem é preciso recorrer à exemplos místicos como Jesus Cristo, Buda ou Krishna (todos nascidos e criados com amor); temos muitos mártires e heróis contemporâneos que nos provam isso. Mas eles conseguiram porque já estavam estruturados. Convido ao leitor a me apresentar uma grande pessoa que tenha sido condenada ao nada desde sempre.

O questionamento, então, passa a ser: quando a sociedade vai abrir os olhos para o impacto do nascimento, da força do Amor, incluindo o contorno do limite infantil que também é expressão de afeto e interesse verdadeiro pela criança?

Ou pior: quantos Charles Mansons ou mais grave, quantas famílias Mansons seguirão sendo formadas até que a sociedade finalmente se liberte das velhas fórmulas morais, punitivas e adoecedoras das almas?

Na restauração da sanidade coletiva da humanidade, a única revolução possível, e a única saída para o caos crescente segue sendo Ele, o Amor.

***

* Um livro simples, direto e esclarecedor sobre esse “ninguém” que há em nós foi escrito por Reich em 1948 e traduzido no Brasil como “Escuta, Zé Ninguém“. Antes disso ele já falava da doença anti-vida, em publicações como a “Psicologia de Massas do Fascismo”, de 1933, entre outros, e depois, em 1952, o “Assassinato de Cristo”, mais uma grave denúncia à peste emocional deflagrada pela coletividade de “Ninguéns”. Reich antecipava os passos de Charles Manson, e isso rende outro e bem mais complexo artigo.

Maddox Manson, mais Mad do que manso. Louco, psicopata, “do mal”. Quantos Mansons existem hoje por aí, promovendo mortes de almas inteiras?

 

Para saber mais sobre Charles Manson

http://observador.pt/2017/11/20/charles-manson-o-assassino-mais-infame-do-mundo-esta-morto-tinha-83-anos-passou-46-na-prisao/

https://books.google.com.br/books?id=IYidCwAAQBAJ&pg=PT334&lpg=PT334&dq=entrevista+maddox+manson&source=bl&ots=on68aMf5p8&sig=c8PNAPEDu8o2lWqbO72kgxtXa1k&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiSoM-FitDXAhWEgJAKHdeBCBsQ6AEIJzAA#v=onepage&q=entrevista%20maddox%20manson&f=false

http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2017-11-20-Charles-Manson-lider-de-seita-psicopata-assassino-um-dos-criminosos-mais-perigosos-da-America

http://fenix1374.blogspot.com.br/2013/03/charles-milles-maddox-manson-nascido-em_20.html

http://justificando.cartacapital.com.br/2014/11/26/charles-manson-louco-ou-genio-crime/

 

 

Read Full Post »

https://i1.wp.com/www.emporiodassementes.com.br/media/catalog/product/cache/1/image/500x500/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/s/a/salvia-officinalis2.jpg

Quando mestres livros e memórias se vão… E é preciso encarar tudo isso

Por Arnaldo V. Carvalho*

Passou por esta vida meu querido mestre Douglas Carrara. Encerrando-se a passagem do sol pelo signo de Leão em fins de agosto, despediu-se após 74 anos dedicados à Vida, em seu sentido mais verdadeiro, intenso, puro.

Mais do que qualquer outro professor que tenha tido, a naturopatia era Douglas: o antropólogo, botânico, fitoterapeuta, tinha na visão científica sua forma de ir ao encontro e defender a natureza e os povos que nela vivem mais integrados do que nós. Sertanejos, indígenas, seus fazeres e saberes, e o meio que os cercava foram a principal bandeira deste homem que se mostrou incansável por tantas e tantas décadas.

Douglas também foi responsável pelo Naturo-data, o banco de dados sobre plantas medicinais mais completo que já vi. Escrito inteiramente em uma “língua morta” de computador, Douglas preparava-se para finalmente ver seu projeto, executado de forma rigorosa, ganhar asas sendo convertido para Java(1) através de uma parceria. Torço que sua esposa Jania e seus filhos levem o projeto adiante, pois é um bem da humanidade, e creio, seria de profundo desejo dele.

Primeiras memórias

Lembro-me de meu primeiro contato com o Professor Douglas. O Centro de Estudos de Naturopatia Aplicada (CENA) aguardava por um palestrante, que falaria aos novos alunos, numa espécie de cerimônia para marcar o início da formação. Eu era um dos alunos que aguardava e, no atraso, um dos presentes começou a conversar conosco, demonstrando grande conhecimento acerca dos saberes naturopáticos.  Lá estava aquele senhor magro, barbado, óculos e fala pausada, a costurar tramas de pensamentos cuja profundidade se fazia alcançar pela eloquência. Quando a coordenadora do curso desistiu de aguardar o palestrante, pediu ao Douglas que falasse a nós. Ele já falava, e nós já estávamos todos encantados. Lembro de olhar para os olhos de algumas colegas, e todos – como o meu – brilhavam.

A fitoterapia era a área mais forte na formação do CENA. Dedicada a ela, uma constelação de professores atuou diretamente conosco por um ano e meio somente nos desdobramentos deste assunto: o biólogo e raizeiro Ary Moraes, o fitoterapeuta Fernando Fratane, o médico suíço Dario Laüppi e o Professor Douglas. Quando as disciplinas de botânica e fitoterapia começaram, foi Douglas quem nos introduziu a esse conhecimento. Estudamos a taxonomia vegetal com alguém que falava dela como se referisse a parentes bem conhecidos. O conhecimento fluía naturalmente dele para nós, e de suas lições, nunca esqueci.

A consciência das políticas nacionais e internacionais de proteção à fauna, à flora e aos povos da floresta, a biopirataria, o indigenismo, os bancos de sementes e DNA vegetal, bem como os últimos estudos nestas e outras áreas, eram assuntos que permeavam os conteúdos de aula. Assim, descobríamos como identificar labiadas ou asteráceas, que vegetais produziam alcalóides, mucilagens, terpenóides, etc., onde cada espécie crescia, como se aclimatava, que usos tradicionais se observava em diferentes grupos sociais no Brasil e mundo, mas aprendíamos também sobre um todo na interação humanidade-natureza. Após a formatura de minha turma, o CENA fechou. Em uma cascata que levou embora uma série de cursos similares, na mesma época.

A velha naturopatia, alternativa mais a margem das profissões de saúde que qualquer outra, por se aproximar “perigosamente” das falas e saberes de raizeiros, rezadores, parteiras e indígenas, daria lugar à renovada Naturologia, que fugia de competir com a alopatia e se firmava pelas evidências científicas produzidas no loco acadêmico.

Praxis naturopática

Mas minha atividade continuou, e meus contatos e aprendizados com Professor Douglas persistiram… até hoje. Douglas me narrou muitos casos de tratamento, verdadeiros mistérios por ele desvendados após exaustivas pesquisas. E me enveredou por esse espírito detetive, que habitua meu caminho profissional e me torna bastante dedicado em compreender um caso clínico com profundidade bem além dos protocolos. Esse espírito investigativo nos aproximava muito e rendeu muitos encontros entusiasmados, onde um inspirava o outro em novas elaborações e conjecturas no resolver de casos de saúde.

No tempo do Portal Verde(2) convidei-o mais de uma vez para dar palestras, cursos, participar de debates. Juntos, estivemos em congressos, e seguimos trocando ideias confabulando oportunidades de levar a público o conhecimento sobre a relação entre o ser humano e as coisas da natureza. E assim ele seguiu sendo meu mestre informal, de quem aprendi e por quem gostaria de ter feito muito mais do que fiz.

A partida do meu professor decreta meu próprio fim na atividade profissional que abracei por bastante tempo: a naturopatia. É um momento difícil, mas são horas.

O fim da minha naturopatia

Até aqui, guardei meu trabalho de curso sobre a Salvia officinalis, corrigido por ele. Chegou a hora de me despedir. Assim como este simplório trabalhinho, o restante de minha biblioteca sobre plantas medicinais, alimentação natural, geoterapia e outros temas relevantes da naturopatia, que levei vinte anos compondo com autores selecionados e algumas preciosidades, vão embora para outros ares, outras mentes – e que possam ser tão úteis, lidos e luminosos como foram para mim.

Com os livros, vai-se embora mais um naturopata, atrás de seu mestre. Um lado inteiro de mim.

Talvez possa dizer que me despedi mais aos poucos do que ele. Já não sou um verdadeiro naturopata. Meu contato com a natureza tem se tornado cada vez mais circunscrito. Tenho feito pouco pela causa natural, já não divulgo minha expertise profissional e apenas aqueles que me conhecem há mais tempo ainda me procuram para orientação profissional nesses termos. A medida que reduzi minha experiência ao contexto da somatopsíquica(3), foram ficando para trás meus anos de estudos sobre ervas medicinais, alimentação, e técnicas diversas oriundas da natureza, aprendidas sobretudo na fusão Carrariana da etnomedicina com a ciência.

Agora, me restará  buscar fundo a naturopatia e Prof. Douglas em recônditos de mim, para não permitir a insipidez da mente humana dissociada do corpo natural, do indivíduo e de Gaia.

***

* Arnaldo V. Carvalho: pai, terapeuta, gente. Ex-naturopata.

Notas

(1) Java é uma linguagem de computador, amplamente utilizada na atualidade, e que pode permitir ao Projeto Naturo-data alcançar finalmente a Internet.

(2) Portal Verde é um projeto de fomento à saúde e a qualidade de vida iniciado em 1999 por mim e dois parceiros (Luiz Otávio Miranda e Altamiro V. Carvalho). Entre 2000 e 2008 funcionou como centro de terapias em Niterói. Desde seu fechamento, permaneceu na Internet como um site divulgador de notícias relacionadas à uma vida naturalmente mais saudável.

(3) Somatopsíquica é como podemos chamar a compreensão de como os processos corporais (soma) interferem na mente (psiquê). É o inverso da Psicossomática. Atualmente basicamente meu trabalho consiste em observar como a mente transfere informações para o corpo e como este lhe retorna. O trabalho terapêutico passa essencialmente pela compreensão desse endo-relacionamento, e de como isso se comunica com o meio externo, em especial nos interrelacionamentos.

Mais sobre Douglas Carrara:

http://www.bchicomendes.com/cesamep/poscurri.htm

http://www.recantodasletras.com.br/autores/douglascarrara

http://www.constelar.com.br/constelar/121_julho08/mapatestedouglas_mapa2.php

 

 

 

 

 

Read Full Post »

Há cerca de vinte anos, comprei em um sebo um velho livro, bem rabiscado, e com um pequeno recorte de jornal nele esquecido. Por algum motivo, nunca o tirei de lá. Mas também não me interessei a ler.

Recentemente, busquei uma referência nesse velho volume, e dessa vez, o fragmento não passou incólume. Era uma pequena nota de Joyce Pascowitch falando da livreira esotérica Lili Guimarães (1946-), então dona da Livraria Spiro (fechada há alguns anos). Após apresentar a empresária ao público, Pascowitch fez aquelas perguntinhas rápidas, que por vezes trazem pérolas preciosas. No momento, deixo vocês com apenas uma:

A busca mais perfeita é aquela…

– Que garimpa o amor.

Assim disse Lili Guimarães.

(Arnaldo)

PS: A coluna de Joyce trazendo um pouco de Lili Guimarães foi publicada na Folha de São Paulo, em 1996, e está disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/12/29/mais!/1.html

Read Full Post »

Despido ao público

Encenação baseada nos diários do fotógrafo Alair Gomes chega à sua última semana no Teatro Laura Alvin (Rio) emocionando a plateia

Por Arnaldo V. Carvalho*

Estive no último final de semana e recomendo a todos – independente de convicções sexuais, de conhecimento acerca da fotografia e da obra de Alair Gomes. Aliás, elegante,  e extremamente atual, “Alair” convida a se conhecer um pouco da personalidade do internacionalmente mais famoso fotógrafo brasileiro: Alair Gomes.

Se a proposta é interessante, a dramaturgia é uma pérola, do texto, passando pela luz, à interpretação apaixonada de Edwin Luisi.

Tudo isso está disponível apenas até domingo no pequeno e charmoso teatro da Casa de Cultura Laura Alvin, no coração de Ipanema.

“Alair” é sobre o corpo, o masculino, a paixão e a negação dos sentidos que nossa sociedade vive. Em 70 minutos, a plateia imerge no ritual hedônico de uma vida inteira, cuja leveza insustentável culmina em lágrimas e palmas pela força do personagem vivido por Luisi. Seu texto, construído a partir de registros de viagem e notas de diário pessoal de Alair Gomes, narra seu encantamento pela beleza energética do jovem masculino, suas formas e nuances. Ao longo da peça, apenas homens em cena. Todos são Alair, de algum modo: Alair e seus vislumbres.Image result for "alair gomes"

A escolha do roteiro é impecável: apresenta Alair, leva-o para sua viagem à Europa, mostra suas impressões de mundo a partir destas, e volta novamente ao Rio de Janeiro onde ele vive suas paixões artísticas, sexuais e afetivas.

Passeia, aos poucos por contrastes, do deleite à solidão, da luz nos olhos ao horror captado por uma alma de rara sensibilidade. Um exemplo: ao mesmo tempo que admirar com os próprios olhos a estátua de Davi mostra-se uma experiência divisora de águas, um encontro com a própria natureza Divina,  sua passagem pela Itália lhe leva ao Coliseu, onde Alair sofre e revela seu horror à violência, e à destruição do corpo humano, da vida, amplificada pela destruição em caráter de espetáculo.

Não pude nesse momento deixar de me remeter à paixão do pintor Renoir pela pele, pela beleza do corpo, e pela luz e sombra… Talvez porque o feminino seja o foco de Renoir, e o masculino o de Alair, no primeiro abundam as cores, no segundo, os tons e matizes entre o branco e o negro não permitem qualquer dispersão para além do objeto retratado. Objeto este que se torna puro desejo.

Image result for "alair gomes"

Enfim, a peça tem ares de monólogo, embora o protagonista, interpretado por um ícone do teatro e da televisão brasileira, conte com a presença dos jovens André Rosa e Raphael Sander, a cumprir de forma irreprimível seus seus papéis múltiplos como “os rapazes de Alair”. A escolha dos dois foi acertadíssima: Rosa exibe um corpo praiano, esculpido, cabeleira típica dos anos 80, é o masculino a negar o próprio narcisismo. Sander representa os que embarcam na trip de Alair, seduzidos mas ao mesmo tempo, iludindo e desiludindo o fotógrafo.

As cenas reproduzem de forma natural, e com belas passagens de cena, algumas das mais conhecidas fotos e sequências de Alair Gomes. Sua iluminação limpa de cores respeita a própria concepção de uma fotografia que procurou salientar detalhes corporais e enaltecer cada milímetro do corpo. Remete à sutileza, ao desejo, enquanto revela, constrói e joga os personagens em luzes e sombras, tal qual se caracterizava o trabalho fotográfico do artista.

Quem assistir perceberá um trabalho primoroso, de imenso respeito à Alair Gomes, sua vida e sua obra. Ao mesmo tempo, é uma ode ao masculino, a beleza da forma, o sagrado, e à juventude. A cereja do bolo é a consequência dramática de tanta paixão, que se constrói ao longo da trama-em-torno-de-si-mesmo de Alair… e denunciará a sociedade repressora e as negações experimentadas por quem nela é criada (é assistir para descobrir).

 

Image result for "alair gomes"

Na noite em que estive lá, Edwin Luisi, visivelmente comovido, fechou sua atuação nos contagiando com seu pedido, para que ajudemos a peça, que não conta com patrocínio algum, a encher o teatro.

     – Com todo o prazer, Luisi! E salve Alair!

*  * *

PARA SABER MAIS E IR À PEÇA:  http://www.casadeculturalauraalvim.rj.gov.br/programacao/alair/

 

*Arnaldo V. Carvalho é terapeuta, estudante de pedagogia, e adora compartilhar o que vê e gosta.

Read Full Post »

Older Posts »

%d bloggers like this: