Tentando votar direito (3)

– Tentando votar direito –

Critérios que uso na hora escolher em quem voto

Parte 2:

Já vimos que busco olhar para os candidatos sem idolatrias, buscando sua história, suas propostas e seus alinhamentos com pessoas, grupos e ideias. E também que minha escolha passa preferencialmente por políticos que entendam a sociedade como um todo, não somente defendam um trecho com o qual se identifique. É hora de esmiuçar cada um desses critérios, antes de continuarmos. Para isso, notem bem as preliminares conceituais de nossa realidade e como a vejo:

Direita e esquerda

Preciso acrescentar que também não enquadro imediatamente os candidatos segundo a noção que pode ser bastante ampla e subjetiva de “direita e esquerda” (não deixe de ler esse artigo)/(já escrevi um pouco sobre isso aqui). Para mim, a polarização é negativa, simplista, e atrapalha a percepção das pessoas e o diálogo, ao invés de ajudar. Rotular pessoas e sistemas é contraprodutivo e as vezes fico achando que tem muita gente que lucra com isso e a quem interessa “ver o circo pegar fogo” entre as pessoas e suas teorias enquadradoras e reducionistas.

Privilégios: sempre eles?

O país é declaradamente capitalista, mas que mistura elementos anteriores à república: preconceitos graves e diversos; desigualdade sem oportunidades equivalentes na base, clara confusão/mescla/associação entre os poderes governamentais, corporativos e midiáticos; crença na violência como forma de organizar, ordenar, progredir; cultura de privilégios – os historiadores que me rebatam como sempre fazem. Se não há uma cultura de privilégios oficial, há uma oficiosa, grave, e que está cada vez mais escancarada, com menos vergonha de mostrar sua cara. Está aí o “centrão”, as perigosas ligações entre juízes, partidos e políticos, etc… E os silenciosos reis “sem cara”, a fornecer os tais privilégios a que me refiro (empresários, do Brasil e do mundo). Claro que há diferenças: as posições são mais misturadas que antes. Um rei pode ser político, pode ser empresário, líder religioso, membro de um cargo alto da justiça. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo, e flertar com outros reis, e jogar seus títeres para lá e para cá.

Afinal, quem são os titereiros por trás dos nomes que elegemos? Quem é o 1% mais rico que detem quase um terço de todas as riquezas do país? Isso é fundamental.

Raízes nefastas, liberalismo utópico, pseudosocialismo

Para quem não entendeu quando na introdução deste artigo, disse que gosto do jogo bem jogado, que fique claro o recado: é muito fácil quem teve acesso a comida, casa, educação, experiências diversas, falar em meritocracia. Compete com uma maioria absoluta de gente miserável, que não teve acesso nem oportunidades reais. Esse é um ponto fundamental: as velhas estruturas de poder comprometem demais a mobilidade social pelo mérito. E quanto a entrada equânime no jogo, disso não abro mão. Já que é para jogarmos um jogo, ou disputarmos uma corrida para algum lugar… Mas há medo, quem não é miserável morre de medo de uma competição ainda mais acirrada do que já enfrenta. Enfrentem seus medos, famílias não materialmente miseráveis! Quero ver o que fazem ante a um aumento de 80% nos números de concorrentes em concursos de atividades bem pagas… Quero ver quando os favelados tiverem acesso a boa escola, boa comida e ricas experiências de vida, o que farão quando virem o número de pessoas vagas crescer para 1000, 2000 para uma só. Quero ver quando negras e negros invadirem por mérito a bolsa de valores, quando os primeiros bilionários negros surgirem no país, terem seus carrinhos particulares nos campos de golfe (VIVA TIGER WOODS!) e os filhos estudando na PUC. A esperança de um liberalismo pra valer, que pode ser encontrado entre as premissas do MISES por exemplo, é injusta se essa base em comum não for antes corrigida.

Por outro lado, precisamos falar sobre pseudosocialismo. Essa palavra socialismo, aliás, dá muita confusão, como dá confusão as ideias de comunismo versus as práticas sociopolíticas tais como foram experienciadas nos países da cortina de ferro e seus seguidores (China e Cuba). É não se estudando os autores originais e a história de uma forma macro que as pessoas passem a acreditar que sistemas são piores do que outros per si; Quando o que conta, sempre, é a maneira como o sistema se exerce. Igualdade de direitos é uma premissa capitalista e uma premissa socialista – teoricamente falando. Se a igualdade de direitos não se aplicou em um regime, não é pela teoria, mas pelos valores pré-infiltrados nas pessoas. Isso aconteceu e segue acontecendo nos diferentes países, dos diversos sistemas. E é por isso que um “capital-socialismo de estado” como os que vemos acontecer nos países escandinavos consegue fazer com que o índice de qualidade de vida das pessoas por lá sejam os mais altos do mundo há anos. O que temos em termos sociais aqui é uma piada de mal gosto. Já virou cinza a conquista social do – doa a quem doer – governo Lula, que alavancou verbas para setores miseráveis, fez a pobreza chegar a universidade (viva Marielle!). Que fique claro: não votei no Lula (e nem votaria!) e discordo totalmente da maneira com que ele realizou os pontos positivos de seus governos (longa discussão), que se mostrou inclusive, como eu já dizia a todos na época das “vacas gordas”, insustentável. Então para medidas sociais, que coloquem todo mundo na corrida em condições competitivas – já que a escolha do país parece ser essa, é preciso muito mais inteligência, criatividade, empatia e estudo do que as manobras que são feitas. E não, não vale espremer o dinheiro da classe média e ajudar os pobres. A distribuição de renda passa por ajustes outros de fluxo financeiro, e outros de fluxo de mentalidades.

– Continua –

Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, cidadão.

Palestras na Escola Alecrim – Teresópolis, RJ

Amanhã começa o Ciclo de Palestras 2018 da Escola Alecrim, em Teresópolis, RJ. Vida, ecologia, consciência, energia, prazer, saúde e educação.

Grandes profissionais com grandes temas com a escola se abrindo para a comunidade, em atividades gratuitas, clima agradável e amor no coração.

Sou grato à escola e aos meus amigos Silvia e Cadu, pais da escola e organizadores do evento, pela oportunidade.

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Tentando votar direito (2)

– Tentando votar direito –

Critérios que uso na hora escolher em quem voto

Parte 1: Quem o político deve representar?

É isso aí, temos que votar de novo.

Presidente COM vice, governador local, dois senadores, e dois deputados (um estadual e um federal). Como você fez suas escolhas? As minhas são baseadas numa combinação de valores, visão de vida e sociedade, e muita pesquisa. Então, para saberem como eu aplico essa combinação nos meus critérios de pesquisa, preciso falar um pouco sobre esses valores e visão de vida.

Eu acredito que o mundo social é movido por Ego, e que 100% das pessoas são egoístas. A diferença básica entre elas é que umas satisfazem seus egos através da felicidade alheia, e outras que encontram satisfação somente em si mesmas. A maioria das pessoas sente que a felicidade alheia é importante porque primitivamente somos animais sociais, ou seja, temos uma forte ligação instintual, somos de bando, de matilha, de alcatéia, de grupo (pleonasmo intencional). É isso o que nos faz “bons”, ou “capazes e afins à bondade”. O nome do sentimento que provoca isso é EMPATIA.

Essa crença pode parecer comum, e é fácil de sustentá-la pois há inúmeros artigos científicos sobre empatia, inteligência coletiva, vínculo/apego, ego, egoísmo e generosidade, etc. O que nunca vi em estudos, porém (me ajudem com isso por favor porque deve existir), é o limite dessa formação de bando, do ponto de vista individual. Ou seja, o quanto uma pessoa é capaz de enxergar quem está muito fora de seus laços óbvios – parentes, amigos próximos, colegas de profissão, etc. – como seus pares. E o quanto isso passa por criação?

Ou seja, qual é a capacidade de João de Deus, nascido na periferia de Salvador, querer que Quincas Welch, rapaz classe média seja tão feliz quanto ele, e vice-versa?

No plano da votação, a primeira pergunta que precisei me responder é: estou votando para sentir que minha cor, minha atividade profissional, minha faixa socioeconomica, seja contemplada, ou quero para todos?

Um amigo me disse nas eleições passadas que votaria em fulano porque ele ia cuidar dos interesses do bairro em que ele mora (zona sul, classe alta do Rio), e outra amiga me disse que votaria em ciclano porque ele era o candidato da categoria profissional dela.

São escolhas, e não as julgo. A minha, porém, é por gente que consiga olhar o macro da situação, consiga se distanciar de sua própria realidade, e enxergar o todo da sociedade, não apenas os setores que acredite me trazer retornos/benefícios mais diretos (isso é especialmente importante para os cargos executivos).

– CONTINUA –

Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, escritor, cidadão.

Link para a introdução deste artigo: https://arnaldovcarvalho.wordpress.com/2018/09/18/tentando-votar-direito-1/

 

 

Tentando votar direito (1)

Tentando votar direito

Papinho Preliminar

Está difícil votar. E isso eu tenho escutado de tanta gente! Para mim também está. Confio em  pouca gente, em cada vez menos gente no cenário político. Se um candidato (são raríssimos) vencer meus filtros de confiança, então parto pro planos das competências, ideias apresentadas, ações prévias executadas, e suas redes e conexões.

Não sou “de esquerda” – embora assim me acusem muitos amigos “de direita”.

Não sou “de direita” – embora assim me acusem muitos amigos “de esquerda”.

Não sou de um centrão negociador nem um centrão em cima do muro. Mas estou no meio na ideia de que necessidades individuais e coletivas precisam encontrar harmonia e serem atendidas da melhor forma possível.

Isso deve combinar com o fato de que há muito já não tenho idolatrias, não torço para times, não ofereço devoção exclusiva a figura santa nenhuma, não sou de partido nenhum, e sei que ninguém faz nada sozinho.

Mas no campo das vidas exemplares, gosto muito de aprender com o que outras vidas passaram e como agiram e reagiram aos cenários que se apresentaram a elas;

Mas no campo do esporte, adoro um bom jogo, um jogo limpo e bem jogado, de qualquer time, de qualquer esporte;

Mas no campo político, aprecio as ações, e coleciono algumas ideias. As falas não, que estou um bocado cansado delas. As ações – já executadas ou em execução são o cartão de visitas de uma pessoa que esteja em carreira política. As ideias me fazem estudar coerências e direções do sujeito – ainda que não se sustentem sem as ações;

Mas no campo das relações, sei bem o peso que elas possuem. Então para mim não adianta a pessoa aparentemente ter todo o resto e se juntar com quem não presta.

Pronto. Introdução feita a critérios fundamentais que serão sempre parte de minhas escolhas na hora do voto.

Leitor, “Tentando votar direito” é uma série de artigos curtos de minha autoria que vou postar aos poucos, mostrando como estou pesquisando para tentar votar melhor nas eleições de 2018.

É só me acompanhar por aqui (assine o Blog!) ou pelo Face em:

https://www.facebook.com/arnieexplica/

Abraços,

Arnaldo V. Carvalho*

 

* Pai, terapeuta, professor, cidadão.

Facebook autocêntrico

Pessoal, seguinte:

O Facebook resolveu se isolar e cortou a comunicação do meu blog e do meu twitter com ele mesmo.

O caminho para mante-los atualizados sobre meus movimentos, ideias etc., foi criar uma página para meu blog.

Convido a todos os amigos a curtirem mais essa página, que será alimentada por tudo o que escrevo no Blog e passar a publicar no meu novo canal do youtube (o pretensioso “Arnie Explica”): https://www.facebook.com/arnieexplica/

Abraços, Arnaldo

Direita ou Esquerda, sólido ou líquido

Na era Líquida, esquerda e direita exibem um desfile de antolhos sólidos

Por Arnaldo V. Carvalho

Depois que uma pessoa passa por uma educação com tanta imposição de filtros, sempre a pender para um certo lado, ela pode ler o que quiser… Vai seguir modulando tudo por esses filtros.

Há uma séria dose de leitura reflexiva, neutra, honesta, incapaz de ser feita nos meios atuais. Mesmo a ciência como queria Carl Sagan – capaz de perseguir a verdade para além dos ideais de uma cultura – anda contaminada por esse indômito uso de antolhos, colocados cada vez mais cedo, em bases cada vez mais graves.

Daí que o pêndulo direita e esquerda do campo político costuma esmagar relações e provocar ainda mais cegueira. Aos ponderados a procurar uma visão sem antolhos, a permanente crítica dos radicais: Há os que julgam que estes estão à esquerda, outros os pensam à direita, e existe os que acusam a ponderação de ser “em cima do muro”. É o que ilustra o vídeo do Leandro Karnal (vide abaixo).

No fim das contas, creio que vivemos numa terra de muito discurso e pouca leitura. Ou pior, acesso tardio a leitura.

O que estou dizendo pode ir para muitos lados. O fato é que a Modernidade Líquida de Bauman pode estar esbarrando num sério problema estrutural: o arcabouço que faz a sociedade e as relações humanas convergirem para a liquidez está “montada” por cima de um núcleo extremamente sólido… E neurótico.

Aos lúcidos, cabe a realista desesperança. Aos “extra-lúcidos” (ou que tal “translúcidos”), o movimento pela possibilidade dos seres humanos serem criados de outra forma.

De que forma? Isso dá uma tese. Mas vou gostar de saber das ideias dos leitores deste blog.

(Arnaldo)

 

* Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, pedagogo.

Ensaios do Nascimento

ensaios_nascimento

Série de pequenos textos sobre gestação, parto, pós-parto e seus contextos é publicada no Laço Materno

Por Arnaldo V. Carvalho

Em meio aos movimentos que giram em torno de minha chegada a Campo Grande, Mato Grosso do Sul, para o I Curso de Técnicas Naturais para a Gestação, Parto e Pós-Parto, o Laço Materno lançou alguns de meus textos. São ensaios em prosa simples e direta, onde procuro dar voz a minha reflexão e experiência terapeutica na área, abordando temas que, mesmo já sendo bastante explorados por livros e artigos, seguem com aspectos sutis que ainda precisam ser melhor tratados.

Até o dia de hoje, 07 de abril de 2018, a série já tinha sido publicada praticamente pela metade:

  1. Me apresento ao leitor… https://lacomaterno.com/ensaios-do-nascimento-textos-ineditos-sobre-o-gestacao-parto-e-pos-parto/
  2. Contatos imediatos que o bebê no útero tem com o mundo exterior e seus impactos na vida. https://lacomaterno.com/ensaios-do-nascimento-contatos-imediatos-os-contatos-que-o-bebe-no-utero-tem-com-o-mundo-exterior-e-seus-impactos-na-vida/
  3. Lugar de Homem no Parto é Onde? https://lacomaterno.com/ensaios-do-nascimento-lugar-de-homem-no-parto-e-onde/
  4. Intervenções terapeuticas na gravidez e seus impactos no empoderamento da mulher. https://lacomaterno.com/ensaios-do-nascimento-as-intervencoes-terapeuticas-na-gravidez-e-seus-impactos-no-empoderamento-da-mulher/
  5. Sexo e gravidez: O Detalhe Z. https://lacomaterno.com/ensaios-do-nascimento-sexo-e-gravidez-o-detalhe-z/https://lacomaterno.com/ensaios-do-nascimento-sexo-e-gravidez-o-detalhe-z/

Até a próxima quarta-feira, acredito que eles terão dobrado o número de publicações (a série Ensaios já foi toda escrita). Abordaremos o pensamento oriental na gravidez, a naturopatia, questões imunitárias e outras. Os textos, como eu disse, tocam em assuntos que podem ser chave e a diferença entre um momento de vida maravilhoso e realizador ou não. Mas não se propõe a ser “Manual”, nem oferece tantos detalhes de solução… Simplesmente porque seria necessário muita conversa, interação, discussão, para que as relativizações imprescindíveis do cenário não corressem risco de se tornarem superficiais.

Fica aqui meu pedido aos leitores que leiam, curtam dentro da página do Laço Materno, comentem, peçam outros temas, etc.

Abraços, Arnaldo

 

 

Quanto tudo pede um pouco mais de calma, quando o corpo pede um pouco mais de alma…

Ela tem paciência”.

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Há alguns anos, meu irmão Rodrigo Vianna, obstetra, foi ao México passar uns dias com a parteira tradicional Angelita, uma referência.

Quando, ao voltar, encontrou-se comigo, perguntei: “Rodrigo, de tudo o que você aprendeu com ela, o que percebeu de mais importante? O que, afinal, ela tem de diferente para conseguir uma taxa de sucesso tão grande com as mães que vão à “casita” ter seus filhos?”

Meu irmão fez uma pausa silenciosa, olhou para baixo… E respondeu: “Paciência”. “Ela tem paciência”.

(Arnaldo)

 

 

Misturar para confundir, dividir para conquistar: O caldeirão ferve e a Bruxa ri

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Misturar para confundir, dividir para conquistar: O caldeirão ferve e a Bruxa ri

Por Arnaldo V. Carvalho

Aos que foram atentos a história do antigo Império Romano, devem saber que sua origem vitoriosa ocorreria com o fim da República de Roma, após o famoso general ditador Caio Júlio César (100a.C-44a.C.) anexar as Gálias (basicamente toda a Europa Ocidental) e reclamar na capital poder absoluto para si.

César desenvolveu uma estratégia quase infalível, que permitiu a Roma anexar territórios inteiros com um uso de força minimizado. A tática divide et vinces* foi descrita pelo César (embora já utilizada com sucesso por Alexandre o Grande e posteriormente por Napoleão Bonaparte) tratava de uma guerra de informação, onde ele basicamente enviava espiões que, infiltrados nos grupos de interesse, tratavam de plantar a “semente da discórdia” entre clãs rivais, criando todo tipo de intrigas, enquanto enviavam preciosas informações que permitiam a ele estudar as características e pontos fracos de cada povo.

Plantar confusão nos dias de hoje envolve misturar conceitos, fatos, etc., e é aí que se forma o caldo das divisões. Formam-se divisões em assuntos os quais na verdade todos querem soluções reais. Ou seja, interessam a todos, dizem respeito a todos, e podem sim alcançar a todos. A mistura quente, que confunde situações tangentes, é a dinamite da bruxa, como denuncia a música Na Pressão (1999), de Lenine (1959-).

Olho na pressão, tá fervendo
Olho na panela
Dinamite é o feijão cozinhando
Dentro do molho dela

A bruxa mexeu o caldo
Se liga aí, ô galera
Tá pingando na mistura
Saliva da besta-fera

Trecho da música Na Pressão, de Lenine.

Temos aí uma multiplicidade de violências institucionalizadas e culturalizadas, e na pressão que o medo provoca, a bruxa ri. Fatos ocorridos e que vão para as notícias de jornal – assassinatos, torturas, discriminações, estupros, roubos, etc., se juntam ao que não vai estar na mídia – como o desprezo e cada um deles é dinamite, cada um deles se soma, temperada pela saliva da besta-fera do ódio, ácida, quente. A bruxa é a anti-vida sorrindo diante de nossas divisões.

O que tenho visto no caso Marielle Franco, por exemplo, é icônico. Tenho recebido em meus grupos sociais uma série incrível de comentários onde diferentes pontos reivindicatórios – todos legítimos – entram em choque.

Uma das maiores confusões é em relação à atenção que se têm dispensado à execução da socióloga versus a de todos os outros assassinatos cometidos diariamente no país. Me repetindo em relação a comentário que fiz em cima de um post do Facebook:

“Nenhuma morte deve passar despercebida. Cada uma deve ser cobrada pela particularidade que a envolve.

Morreu depois de ser assaltado? É uma cobrança, não pode acontecer.

Morreu executada porque se meteu em área “dominada”? É outra cobrança.

Morreu de fome? É outra cobrança.

Matou? É outra cobrança (afinal a sociedade tem sim ligação com a origem de pelo menos a maior parte dos assassinos)

Mandou matar? Mais uma cobrança.

Consumiu o produto que gera uma cadeia de mortes? Outra cobrança.

Enfim, para cada uma deve haver da sociedade uma cobrança. Por respostas, por atitudes.

Misturar tudo não ajuda. Dividir o povo não ajuda”.

Cada pessoa e/ou grupo, que além de se manifestar precisa viver sua vida – trabalhar, estar com os seus em suas alegrias e doenças, cuidar de si, sua mente e corpo, etc. – tem todo o direito de escolher seus temas, e um não diminui o outro. Tudo é muito, muito grave e precisa igualmente de atenção.

Um amigo fez o outro tipo de afirmativa-cobrança, na verdade já uma mistura entre a primeira que comentei – por que a morte dela está parecendo mais importante que outras), e uma segunda: esse barulho todo é porque ela era do partido X (no caso, o PSOL, que se auto-define como um partido “de esquerda”). Minha resposta segue a mesma linha, é simples (em relação à escrita original, adicionei links aqui no blog):

“Amigo, não sou PSOL nem nada disso. Nenhuma morte deve passar em branco, nenhuma.

Agora, você pode usar a memoria e se perguntar: por que o medico morto a facada na Lagoa Rodrigo de Freitas (2015) teve visibilidade da imprensa e um monte de gente assassinada de forma barbara, que no máximo aparece em jornais estilo “O Povo” não tem? E a juiza executada com 21 tiros (2011) em Niterói?

O que traz visibilidade de imprensa a uma morte?

Te dou duas hipóteses: ou o crime aconteceu em área de alta circulação dos grupos privilegiados (caso do médico) ou a pessoa executada tinha algum tipo de atuação extremamente incomoda, talvez sabendo coisas que “não deveria saber”. Foi o caso da juíza e é o caso da Marielle.

Vejam mais sobre a briga da juíza Patrícia Acioli com o lado podre da polícia

Ambas foram mortas no embate com a “banda podre” da Polícia Militar, e em breve tenho certeza que pessoas começarão a ligar os pontos.

Não esqueça meu amigo que tivemos um colega (no meu caso amigo) morto por assalto no mês passado, e assassinato seguido de roubo é um serio problema a ser denunciado e execução planejada de queima de arquivo é outro problema.

Ambos precisam parar e para isso devemos cobrar das autoridades. Mas por favor não vamos cair no erro de misturar as coisas”.

Nem misturar, nem diminuir qualquer um dos fatos.

Os temas reivindicatórios devem ser sempre claros, para não confundir e enfraquecer. Aqui estamos claramente conversando sobre o eixo da “violência”, e suas ramificações precisam ser desembaraçadas se quisermos enxergar as situações com lucidez.

Então, caros leitores, máxima atenção: se continuarmos confundindo, seguiremos divididos, e permaneceremos presas fáceis da Bruxa que está a solta.

Arnaldo V. Carvalho pai, terapeuta, pedagogo, cidadão.

 

* A célebre frase de Júlio César já havia sido citada por mim no artigo “Risada sem Graça” na ocasião do golpe contra a presidência da república eleita por voto popular. Possivelmente a citarei outras vezes, visto que esse é o principal ingrediente do caldo da Bruxa que destrói a humanidade e seus povos.

Num dia o Cosmos, no outro a terra vermelha de sangue

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Ontem senti beleza, paz, ternura. A partida tranquila do cientista que nos trazia as coisas do céu (minúsculo assim).

Hoje não tem despedida calma, compreendida. Não tem Cosmos, não tem filosofia. Nem sequer posso chamar isso aqui de despedida. A perda de hoje é amarga, cor de sangue, sangue nos olhos.

Foi morta uma mulher do chão, pés no chão, reivindicando para a cidade do Rio de Janeiro as coisas mínimas de se viver – em especial, a paz. Os tambores da terra (também minúsculo assim) bateram forte sobre o crime de ontem a noite, e seguem e seguirão ecoando.

Foi-se de modo violento, covarde, orquestrado, a socióloga Marielle Franco, que cumpria mandato de vereadora e voltava de evento relacionado ao movimento negro. Seu motorista Anderson na rebarba desse crime sujo, não deixo esquecer, é gente igual, o lamento é um só.

Oriunda de favela, negra, mulher, lésbica, de esquerda, denunciando a violência, a polícia militar, relatora de comissão que acompanha a intervenção federal no Rio de Janeiro. Executada por ter qualquer um ou combinação desses atributos permanentes ou temporários.

Os olhos do Rio seguem vermelhos, em sangue de surto acima das médias anuais de conjuntivite que nos assola, a representar claramente a dor coletiva, o medo de quem vive, a vontade louca de fugir. Já foram tantas mortes violentas nesse verão… Tantas.

Ontem partiu o homem voltado para o céu. Hoje perde-se a mulher voltada para a terra. O Céu e a Terra choram. Arnaldo.

PS: Paraliso, para além dessas palavras de dedos que se esforçam. Estou mudo, perplexo, procurando a voz na minha alma, sem conseguir encontrar.

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https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/vereadora-do-psol-marielle-franco-e-morta-a-tiros-no-centro-do-rio.ghtml

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/quantos-mais-precisarao-morrer-postou-vereadora-um-dia-antes-de-ser-assassinada-no-rj.ghtml

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/politica/1521080376_531337.html

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/03/15/marielle-franco-denunciou-abusos-de-policiais-do-batalhao-que-mais-mata-no-rio.htm

https://g1.globo.com/rj/regiao-serrana/noticia/cidades-do-interior-do-rio-enfrentam-epidemias-e-surtos-de-conjuntivite-petropolis-tem-mais-de-7-mil-casos-este-ano.ghtml

http://www.informerjo.com.br/2018/03/07/saude/rio-de-janeiro-encara-surto-de-conjuntivite/

http://www.ibol.com.br/exibir_conteudo.asp?idsecao=99387&IBOL+na+midia+-+Jornal+do+Brasil+-+surto+de+conjuntivite+-+05/03/2018