Peça de Teatro Imperdível e gratuita! (Rio de Janeiro)

sweeney

O barbeiro demônio retorna em alto nível

Em curta temporada, montagem do diretor João Gofman emociona plateia e traz aos palcos cariocas o gênero comédia-terror

 

Por Arnaldo V. Carvalho

 

No pequeno teatro da Biblioteca Parque Estadual, no centro da cidade do Rio de Janeiro, um seleto público se emocionava na estreia de Sweeney Todd: O Barbeiro Demônio da Rua Fleet.

 

Conhecida no Brasil principalmente através do filme hollywoodiano de Tim Burton (estrelado por Johnny Depp e Helena Bonham Carter), a história do barbeiro tem origem no século XIX, publicada em jornais dedicadas ao gênero da época. Mas ficou mesmo conhecida do público atual através do musical da Brodway que modernizou o roteiro e já teve dezenas de versões e montagens.

 

Esse musical vai agradar a um público maior do que os fãs do gênero: quem aprecia enredos que misturam comédia e horror encontram no Sweeney do diretor João Gofmann uma refinada combinação, onde é possível se arrepiar segundos antes ou após uma bela gargalhada.

 

Das sombras do bosque para o terror doentio da cidade

 

Ano passado João Gofman e o Utópico brindaram o teatro carioca com a divertidíssima montagem de Into the Woods. Com um elenco de primeira e muitas inovações cênicas, foi sucesso de público e crítica. Da experiência super bem sucedida, que encheu o principal teatro da UERJ, Gofman preservou talentos como a diretora de arte Evelyn Cirne, que parece ter alcançado seu ponto alto, com um figurino impecável e um cenário funcional e criativo, e ao mesmo tempo com a dose de vazio necessária ao abrilhantamento dos atores e seus personagens. Também o jovem versionista Victor Louzada, que em poucos anos tem se mostrado o mais profícuo e competentes dos tradutores de musicais, o que é uma arte rara. Gofman também avançou no processo da preparação de atores, que levou seis meses intensos, sobre os quais o diretor previu aqui. E finalmente, deu a virtuosa Roberta Galluzzo, que protagonizou Chapeuzinho Vermelho na peça anterior, um papel de donzela “fora de padrão”, compondo um dos trunfos de originalidade da peça: personagens repaginados e prontos para o mundo da diversidade.

 

Ousadia do diretor: aposta em talento, sem preconceitos

 

Uma donzela “fofinha” (gordinha não tem que fazer só a engraçadinha, e pode sim fazer drama e viver romances), Sweeney e Lovett protagonistas londrinos encarnados em atores negros (negro pode ser protagonista, e inglês não tem que ser branco), um bedel, também negro, magro e grandalhão (normalmente o personagem é retratado como “o gordinho baixo, atrapalhado e arrogante”). Ao inovar na desconstrução dos estereótipos emprestados aos personagens durante décadas, e optar por talento acima de aparências, o resultado final do trabalho do diretor é oferecer a plateia um universo de personagens clássicos com novos e incríveis temperos. Incrível como um detalhe tão sutil conta pontos em uma sociedade que finalmente permite-se a discutir sobre preconceito, intolerância e inserção social.

 

Não bastassem boas ideias, o elenco possui um trio de talentos de tirar o fôlego. Muita atenção aos intérpretes de Sweeney, Juiz e o algoz do barbeiro demônio, Pirelli. Juntos, roubam a cena uns dos outros, o tempo todo. Porque são simplesmente divinos, completos. Em voz e movimento. Atores de nível profissional, que poderiam estar atuando nos melhores teatros do país ou fora. Porque cantam, dançam e interpretam como se os papeis tivessem nascidos para eles. Mérito do diretor, deles próprios ou da sinergia entre todos? Creio que todas as respostas se aplicam. Talvez se reclame que o ator que faz Sweeney Todd seja um pouco jovem para o personagem, que certamente não é jovem. Mas garanto: dê a esse grupo mais recursos e o pecado da juventude do personagem se desfaz já não mais só no vozeirão e banho de expressividade do ator Dennis Pinheiro – maquiagem e luz sofisticada custam caro.

 

Para quem gosta dos detalhes por trás de tudo, a peça possui coro e orquestra ao vivo, e é de tirar o fôlego.

 

Eu fui no primeiro sábado. O que dizer? Encanto. Para mim, foi uma noite inesquecível, em que me diverti muito. Os mais críticos poderão talvez reclamar de limitações na iluminação (o teatro possui dificuldades técnicas importantes que impedem um trabalho melhor), ou de certa imperfeição no cantar de Miss Lovett, mas o todo é tão bom, os personagens e texto são tão incríveis, a música, os músicos e os atores são talentosos que tudo o mais compensa. Aliás, a atriz Jéssica Freitas, ao interpretar Lovett, é tão deliciosamente natural, com uma movimentação no palco e uma interpretação tão maestral, que é capaz de brincar até com seus erros, transformando o que poderia ser seu ponto fraco em motivo para mais risadas – e aplausos.

 

É muito difícil ir aos extremos entre drama, comédia, horror. E essa trupe – Utópico Coletivo de Teatro – consegue tirar isso da peça. Para além da encenação, profundo respeito com o público: peça começou na hora, tempo de intervalo enxuto, mimos especiais na saída (não conto!).

 

Adorei mesmo e pretendo ver de novo enquanto é tempo.

 

Sweeney Todd: O Barbeiro Demônio da Rua Fleet está em cartaz na Biblioteca Parque Estadual, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, de quarta a sábado as 19H. Esta é a última semana.

 

Para saber mais sobre a peça, endereços, etc.:

 

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* Arnaldo V. Carvalho, blogueiro, terapeuta, meio politizado e meio artistizado, pai, escritor e crítico do que vê e gosta.

 

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Mágica no ar – RESENHA CRÍTICA: INTO THE WOODS – O Musical – na versão estudantil dirigida por João Gofman

Fora da floresta, as audições são abertas. O tempo já é curto – apenas seis meses.

Dentro do bosque, um casal de padeiros vizinhos de uma bruxa queria ter filhos.

Fora da floresta, panelas fervem dia após dia. 

Dentro do bosque, o príncipe procura por Cinderela, que é atacada pela mulher de um padeiro.

Fora da floresta, tintas de tecido são despejadas nas panelas, por semanas e semanas, enquanto a procura segue em brechós em todo o Rio. Uma bolsa peculiar envelhece ao tempo do lado de fora da janela.

Dentro do bosque, chapeuzinho curte o lobo mas é por ele enganado. De passagem, um padeiro a salva.

Fora da floresta, intermináveis fios de lã da cor do milho são trançados, dia após dia. Festas, vaquinhas – não há dinheiro e o projeto é audacioso demais para isso. O telefone não para e a busca por possíveis apoiadores persiste – persistirá até o final.

Dentro do bosque, João vai às nuvens e rouba dos gigantes faz sua fortuna. 

Fora da floresta, 7 idênticas máscaras de látex são confeccionadas, enquanto João acerta os detalhes de palco e costura os diferentes plots cênicos.

Dentro do bosque, um príncipe fica cego bem como duas irmãs vaidosas.

Fora da floresta as máquinas de costura dão o tom final, enquanto o maestro conclui a obra instrumental. Ninguém de fora conseguiria enxergar o que estaria por acontecer.

Dentro do bosque outro príncipe está cego por seu ego, e vaga em busca de um gigante… Ou por ser lobo de novo. 

Fora da floresta, temos uma equipe estudantil com qualidade de profissional transformando sonho em realidade. Pura magia.

 

Pela porta da frente

Equipe de jovens diretoresde teatro estreiam Into the Woods na UERJ e marcam o debut de suas carreiras fazendo o público vibrar

Por Arnaldo V. Carvalho

Eu ri muito quando assisti a Into the Woods – o filme – no cinema. Seis meses atrás, quando soube que a versão do musical seria encenada no Brasil fiquei entusiasmado.

Rever a divertida trama que coloca um casal de padeiros, Chapeuzinho Vermelho, João (do pé-de-feijão!), Cinderela, Rapunzel, a Bruxa e dois príncipes metrossexuais juntos em desventuras e confusões seria fantástico.

O que não poderia imaginar é que gostaria ainda mais da peça do que do filme! São duas horas e meia em que não se sente, para além de uma vontade louca que o intervalo do primeiro para o segundo ato acabe rápido.

Só pela história divertida? Não seria o suficiente, se não tivessemos uma produção e corpo de atores de primeira linha atuando.

Qual foi então a fórmula do sucesso na versão carioca de Into the Woods? Eu apostaria na equipe, individual e coletivamente. Vamos radiografar isso, por favor!

Pra começar temos uma adaptação de roteiro perfeita. Poderia ser “qualidade Disney”, sempre tão elogiada no primor das versões em português produzidas para suas animações. Mas é a qualidade “Vítor Louzada”. Eu tenho acompanhado o talento desse artista nos últimos anos. É impressionante. Ele faz as palavras saírem naturais, encaixando-se no tempo, nas canções; ele preserva a qualidade do humor e do drama em sua adaptação. Ele será reconhecido, anotem isso, nos próximos anos, como um dos grandes versionistas a atuar na dramaturgia no brasileira.

Roteiro perfeito, vamos ao suporte visual que a peça recebeu.

No abrir das curtinas, de cara, um figurino excepcional – vislumbrante mesmo. O que é aquele vestido da bruxa? O que são aquelas botas dos príncipes? E a Chapeuzinho? Incrível, simplesmente incrível.

Assinado por Evelyn Cirne, o estudo primoroso da peça gerou individualidade para cada personagem, e combinações harmoniosas quando dos números músicais. Quando forem assistir, não deixem de atentar para as cores e texturas, e o perfeito encaixe de roupa e contexto original presentes não só nos protagonistas, mas mesmo nos personagens secundários. As cores são lindas, roupas que parecem terem sidos produzidas por algum estúdio brodwayniano.

Os detalhes cenográficos feitos em equipe por Fê Correia, Caroline Amaral, Janice Schültz, Fernanda Mendes supera o desafio da falta de dinheiro com que a produção teve de lidar, improvisando criativamente. Fazem surgir uma torre de uma escada, carrinhos clássicos de carrinhos modernos, entre outros. Há, de qualquer forma, a liberdade imaginativa deixada para o expectador, com a opção de um cenário clean na maior parte do tempo – o que evita a poluição visual e valoriza a encenação.

Do visual para o prazer auditivo, segue o deleite dos amantes da arte. A peça é sustentada musicalmente por uma orquestra pequena e impressionante. Ela acerta em cada entrada, em cada acompanhamento, cada “blim-blem” e cada frase das músicas mais ricas. Primoroso trabalho de Edvan M. Junior, a quem eu chamaria de impecável.

Então temos os atores. Como deve ser difícil selecionar atores de qualidade dispostos a se debruçar em projeto de seis meses sem ganharem um centavo! Não vou comentar cada atuação e cada personagem, mas é inevitável não destacar a fantástica atuação muda da “vaca”, a força com que a atriz Cristiane Maquiné encarou o personagem mais difícil da peça – a bruxa -, e a energia de palco da mãe de João pé-de-feijão, a roubar cena após cena. Os príncipes são quase um capítulo a parte, não há entrada sem risada, como não houve cena mais engraçada que a do dueto entre os dois.

Mas esperem, se o resultado final da peça joga brilho em cada estrutura da peça – de novo, roteiro, figurino, cenário, atores, músicos, etc. – é porque há alguém para fazer essas engrenagens agirem como se fossem uma só e alcançarem seu potencial máximo. Esse alguém é João Gofman, o diretor. É ele o responsável pelas grandes decisões fora do palco, por compor a equipe, por realizar escolhas cênicas acertadas. Voilá! Um diretor que já nasceu de primeira linha que conseguiu liderar um pequeno exercito de jovens artistas rumo a gloria, mantendo-os unidos e deixando-os prontos. E assim, João Gofman entra pela porta da frente no majestoso teatro brasileiro.

É realmente impressionante, a média de idade dos diretores é apenas 21anos! Mas a platéia que esteve presente na estreia do musical Into the Woods (peça originalmente encenada na Brodway) assistiu um espetáculo que não deve em nada aos produzidos por diretores e encenados por atores bem mais experientes.

O que assisti foi uma estreia. Se no primeiro dia alguém percebeu que há pequenas limpezas cênicas e vocais a serem feitas, ao mesmo tempo não sentiu prejuízo ao espetáculo, pois são tão menores do que tudo o que deu certo… Ainda assim, aposto minhas fichas de que os próximos dias de Into the Woods prometem ainda mais magia e proximidade da perfeição.

Estamos testemunhando uma nova safra de artistas cênicos, com uma nova mentalidade e muito talento. Eles não abrem mão da qualidade. Eles são amigos. Eles são dedicados. Acredito que nos próximos anos, o cenário do teatro brasileiro deve vir a mudar para um novo patamar.

* Arnaldo V. Carvalho é terapeuta, pai, pedagogo e adora arte; deu a sorte de ter acompanhado “pelo lado de fora” a produção de Into the Woods na versão de Vítor Louzada e direção de João Gofman.