Quem é o Dono do Céu e do Brilho das Águas?

“Não se Vende a Terra na qual as Pessoas Andam.”
Tashunka Witko (Cavalo Doido)

foto de djezus em 08/05/07

O texto que circula pela Internet começa assim:

“Carta escrita pelo Cacique índio Seattle, da tribo Duwamish, do Estado de Washington, dirigida ao Presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Pierce, em 1855, na qual respondia à proposta do Governo de comprar a terra dos índios, pertencente à sua tribo”.

Na verdade, o Cacique Seathl, ou Seattle, discursou em defesa das terras índias em janeiro de 1854. Sua fala, porém, foi ouvida na língua natal do mesmo (ninguém tem certeza qual dos dois dialetos principais dos Sioux ele usou), e somente quase quatro anos depois apareceu em jornal um texto de Dr. Henry A. Smith, que esclarece em sua matéria que o discurso não é exato, mas montado a partir de notas que ele tomou ao ouvir Seattle na época. Depois disso, o texto já foi modificado algumas vezes, modernizado e talvez de certa maneira romantizado, sendo a versão mais conhecida a de autoria de Ted Perry, feita para um filme-dumentário de apelo ecológico. é a tradução desta a apresentada aqui. (Arnaldo)

“O Grande Chefe mandou dizer que deseja comprar a nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que, se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas – elas não empalidecem.

Como pode querer comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do esplendor da água, como então pode comprá-los?

Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo. Cada folha reluzente do pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.

O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs: o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As montanhas rochosas, as fragrâncias dos bosques, o calor que emana do corpo de um potro e o homem – todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O Grande Chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar onde possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto vamos considerar a sua oferta de comprar a nossa terra. Mas não vai ser fácil, não. Porque esta terra é, para nós, sagrada.

https://i1.wp.com/www.only1egg-productions.org/Rant/images/ChiefSeattle.jpgEsta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se lhe vendermos a terra, terá que se lembrar que ela é sagrada e terá de ensinar a seus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar da água é a voz do pai de meu pai.

Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se lhe vendermos nossa terra terá de se lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são irmãos nossos e seus, e terá de dispensar aos rios a afabilidade que daria a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidas a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe – a terra – e seu irmão – o céu – como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelhas ou miçangas cintilantes. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei. Nossos modos diferem dos seus. A vista de suas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.
Não há um lugar sequer calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende. O barulho parece apenas insultar os seus ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as aves, o homem. O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se lhe vendermos nossa terra, terá de se lembrar que o ar é precioso para nós. Que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe seu último suspiro. E se lhe vendermos nossa terra, deverá mantê-la reservada, feito um santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.

Assim, pois, vamos considerar sua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós – os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
O Grande Chefe deve ensinar a seus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados. Para que tenham respeito ao país, conte a seus filhos que a riqueza da terra são as vidas dos nosssos parentes. Ensine a seus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra, fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra. Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si.
Tudo quanto agride à terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida; ele é meramente um fio da mesma. Tudo que ele fizer para a trama, à si próprio fará.

Os nossos filhos viram os seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmo alguns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que tem andado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre nossos túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa de amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos apesar de tudo. Vamos ver. De uma coisa sabemos que o homem branco venha talvez, um dia a descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgue, agora, que o pode possuir do mesmo jeito como deseja possuir a nossa terra; mas não pode. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco.

Esta terra é querida por ele e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuem poluindo as suas camas e hão de morrer uma noite, sufocados em seus próprios dejetos!

Porém, ao perecerem, eles brilharão com fulgor, abrasados pela força de Deus, que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos acreditar como será quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça. O fim da vida é o começo da luta para sobreviver.

Compreenderíamos talvez, se conhecêssemos com o que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes, para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos. Por serem ocultos, temos que escolher nosso próprio caminho.

Se consentirmos em vender a nossa terra, será para garantir as reservas que nos prometeu. Lá talvez possamos viver nossos últimos dias, conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nesta floretas e praias, porque nós a amamos, como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.
Se lhe vendermos a nossa terra, ame-a como nós a amávamos. Proteja-a, como nós a protegíamos. Nunca esqueça de como era esta terra, quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder e todo o seu coração: – conserve-a para seus filhos e ame-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nossos destino comum.

Noah Sealth  (1786-1866)

——————————————————————————–

(*) Traduzido dos fragmentos publicados na revista Norsk Natur 10 (1), 1974, Oslo e United Nations Environment Programme – Media Pack’76, por Roberto TAMARA ( -1980).

 

*   *   *

Mais sobre Cavalo Doido: http://pt.wikilingue.com/es/Cavalo_Louco

Sobre o Cacique Seattle: http://pt.wikilingue.com/es/Chefe_Seattle

Ir além da versão romantizada de Ted Perry: http://www.halcyon.com/arborhts/chiefsea

http://www.synaptic.bc.ca/ejournal/wslibrry.htm; http://www.snopes.com/quotes/seattle.asp

O brilho da faca de dois gumes – Texto inédito!

Esse texto é de minha autoria, e  foi publicado em novembro de 2000, no Jornal Naturalmente. Chega em primeira mão aos usuários do blog, com muito de seu conteúdo permanecendo atual. Para que lado a faca apontar seu brilho? Seguirá ela sendo utilizada de modo sábio, ou destrutivo? A reflexão acerca da violência e da influência dos meios de comunicação é algo que deve se estabelecer em caráter permanente, uma vez que o ser humano é um animal comunicativo em sua essência.

Aguardo os comentários.

Arnaldo V. Carvalho

O BRILHO DA FACA DE DOIS GUMES

Pode a mídia estar influenciando no atual quadro de violência?

https://i0.wp.com/www.marcofenucoltelli.it/images/varie/knife_rose.jpg

Estou há semanas chocado. Atrasei inclusive o envio deste escrito ao editor do jornal, tal a perturbação mental que me ocorreu, após o episódio vivido por aquela criança que fora torturada, cujas imagens foram exibidas para todo o país através do “Programa do Ratinho”. Não vi o programa, não vi nenhuma imagem, mas apenas por me descreverem um pouco do ocorrido, senti em minhas vísceras um mal estar enorme, uma desorientação, uma completa falta de identidade com este mundo vil. A impressão que me dá é que me socaram o fígado várias vezes, e dentro da minha cabeça as lembranças continuam. Sou do tipo que não busco esse tipo de informação. Mas não porque quero tampar o sol com a peneira, mas porque acredito que a única forma de resolver a questão é pesar para o lado oposto. Enquanto essas notícias geram ondas de medo, revolta e negatividade, procuro levar às pessoas através de meus cursos e atendimentos, através de meu contato diário com o mundo, a mensagem oposta de harmonia e felicidade, produzindo ondas que constroem, ao invés de destruir. Mas confesso que fui pego pela onda “pesada”. Após semanas, continuo numa espécie de luto, por aquela criança, e de forma retumbante por ela ter trazido a tona a consciência de que situações de brutalidade não param de acontecer. E isso não é no Brasil, é no mundo todo, e em todas as classes sociais. Tenho ainda guardado o jornal com imagens daquela babá que esbofeteou o bebê na cadeirinha. E os tantos estupros, e os tantos sequestros… E agora mais esse mutilador fragmento da realidade humana.

Em que condições essas crianças chegarão a idade adulta? Será que chegarão? As identidades delas estarão para sempre DESTRUÍDAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Se apresentarão ao mundo reagindo à forma como o mundo se apresentou a eles. Fugirão, tornando-se inseguros, esquizofrênicos, paranoicos, entre uma série de comprometimentos psicológicos, ou atacarão este mundo, tentando destruí-lo para que ele não os destrua novamente: se tornarão no mínimo distantes, não se permitirão o toque, poderão ser cruéis, perversos, desenvolver as mais variadas psicopatias.

Ao longo da história, a crueldade humana – que é muito mais do que simplesmente “violência” – tem mostrado “o quão evoluídos” somos. Qualquer filme de época mostra que as torturas estão presentes na idade média, moderna, e mesmo no “inocente” período em que viveram nossos avós (se tiver o coração forte veja o filme “A Espera de um Milagre”), no início do século.

Mas hoje, o mundo tem câmeras. Câmeras que registram tudo o que os olhos não podiam alcançar. Os olhos veem, o coração sente. O quanto isso é bom? Será que isso não pode incitar ainda mais a violência? Lembrei-me do episódio do assalto ao ônibus no Rio de Janeiro, onde um grupo de policiais-exibicionistas, diante das câmeras de TV, dispararam seis tiros que se alojaram brutalmente no corpo de uma menina inocente, para momentos depois, já longe das mídia, do mundo, descontar o erro executando o “assaltante-alvo-perdido”. Você se lembra? Quantos terroristas e psicopatas não se encontram desferindo golpes violentos contra a sociedade que os construiu, ao mostrar propositalmente toda a insanidade cruel ao qual o ser humano – humano? – parece ser capaz? Se por um lado para esses psicopatas as câmeras são um instrumento inibitório, para outros é de exibicionismo! Abrilhantamos o gume das facas e o cano dos revólveres que disparam sobre nossos próximos! Qual a solução?

Talvez, se começarmos a pensar qual a maneira mais correta de se utilizar e mostrar essas imagens, poderemos transformá-las não em mais um canal exibicionista de violência e revolta, mas em um instrumento, que através da profunda mágoa deixada no coração dos homens, os estimule através da consciência a buscar a paz que cada um tem dentro de si.

Não é de agora que a mídia tem construído uma grande quantidade de associações entre humor e violência. Quem viu o filme “Pulp Fiction”, riu de todo o tipo de atrocidade. A trama e os recursos audiovisuais, em especial a trilha sonora, são cuidadosamente planejados, de forma que o terrível se torna cômico. Sem reflexão, o cérebro humano, com estrutura genética de alguns milhares de anos, irá misturar informações que originalmente estariam alocadas em locais distantes… Assim, quando assistimos a isto tudo de forma passiva e alienada, nos tornamos tão condicionáveis quanto os ratinhos das experiências de Skinner.

É absurdo uma imagem como essa ser mostrada num programa que mistura violência com comédia, como o bizarro Programa do Ratinho. Isso é coisa séria. O que acontece quando a mente de nossas crianças registram essas imagens? Onde chegaremos com essa total falta de critério? Precisamos encontrar uma forma de não negar a realidade, e ao mesmo tempo discutir isso como o mais urgente dos aspectos de nossa vida em comum.

Teóricos afirmam que se nos revoltamos com essa situação, é porque a revolta existe dentro de nós. Nessas horas, fico imaginando que isso é uma verdade absoluta, os seres humanos são muito mais monstros que seres humanos. Mas não. Cada um, como eu já disse, tem a paz dentro de si. Temos tudo: A compaixão e o ódio, a revolta e o perdão, a sanidade e a insanidade. É preciso cultivar o máximo de nosso lado melhor, não permitindo que as ervas daninhas emocionais, que tanto nos prejudicam e aos que nos cercam brotem porque deixamos espaço para elas.

* * *

Para quem já me lê há tempos: Hoje não tem filosofia. Tem dor, tem angústia, tem um suspiro melancólico, tem um vazio que tenho tentado preencher com amor à vida.

https://i0.wp.com/slamxhype.com/wp-content/uploads/2009/01/goeth-black-roses.jpg