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Votar no menos pior? NUNCA! (sobre joguinhos eleitorais)

Por Arnaldo V. Carvalho

Na disputa das últimas Olimpíadas, a seleção brasileira de basquete precisava perder da Espanha se quisesse evitar enfrentar o dreamteam dos EUA na fase seguinte – o que acarretaria em eliminação certa. A equipe espanhola enfrentava a mesma condição naquela partida. Ao longo da partida, a Espanha demonstrou em diversos momentos que estava entregando o jogo ao adversário. Ao contrário dos espanhois, os brasileiros jogaram o que podiam, deram seu melhor. Venceram. E perderam, sim, de lavada dos EUA no jogo seguinte, despedindo-se do torneio (a Espanha conseguiu o seu intento e foi para as finais). Na ocasião, o basquete brasileiro precisou da ajuda de um técnico argentino para ser um Brasil diferente, um Brasil que dá sempre o seu melhor, que admite ser derrotado, só não admite não enfrentar as circunstâncias. Sem subterfúgio. Sem joguinhos. Como eu gostaria que essa lição fosse transmitida à política, especialmente na hora do voto!

A coletividade deve se empenhar em ser transparente para com suas opiniões e convicções, se quer a contrapartida de governantes igualmente transparentes. Caso contrário, seguiremos o “país do joguinho”, dos conchavos, dos acordos por trás, do “deixar de votar no C para votar no A, não porque se gosta do A, mas só para prejudicar o B”. Se dizem que “o vídeo imita a vida”, posso garantir que a política imita a mentalidade coletiva. Segue valendo a máxima de que “todo povo tem o governante que merece”. 

Sou totalmente desfavorável a ideia de votar no “menos pior”; ou “não vota no candidato que não tem chance, senão você está dando voto pro fulano (que está ganhando e você não quer”. Joguinhos. Detesto joguinhos quando o assunto é votar para eleger os governantes de nosso país. Tenho candidato? Voto. Não tenho? Anulo. Ponto. Meu candidato vai perder? E daí, estou com ele, é nele que acredito. Os outros não me interessam. Estou com ele, ponto de novo.

Votar nulo é “feio”, é “não participar da democracia”? Não há democracia em não se poder pensar que nenhum dos candidatos a posição x é válido! O voto nulo no Brasil tem sido pensado ora como “falta de consciencia política”, ora como “protesto”. Não pode ser a simples conclusão de que nenhum dos dois (ou três, quatro, cinco…) tem condições de governar? Claro que se não há joguinhos, vai haver um número de abstenções grande (o voto nulo ou em branco não deixa de ser uma abstenção). E claro que um percentual alto, quanto mais em tempos de urna eletrônica, indica uma taxa de significativa de REJEIÇÃO aos candidatos. Isso é comunicação clara, franca, é porta aberta à reflexões, é fomento a discussão transformadora e necessária da sociedade. 

Não faço joguinhos, essa é a minha convicção e todo mundo já sabe. Me esforço para encontrar candidatos que acredito que possa bem me representar e representar a minha comunidade, minha cidade, meu país, ou ao menos reúna de fato as características e visões que considero indispensáveis; mas não sujo meu voto, meu nome, votando sem acreditar. Meu voto vale ouro. Quem recebe o meu voto está recebendo uma convicção muito grande. Ele vale mais do que um milhão de votos frutos do “joguinho”. Meu voto é do tamanho do meu coração. Sei que vocês que me leem têm também um coração valioso. Dê ao seu voto esse valor! Investigue, deixe a preguiça de lado, mas nunca, nunca, deem voto sem acreditar.

* Arnaldo V. Carvalho é pai, marido, terapeuta, escritor, e eleitor que procura votar com consciência. 

http://www.arnaldovcarvalho.com

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Minhas perguntas não sossegaram na cachola. Resolvi dar uma arrumadinha no texto anterior, que acabou crescendo. Talvez alguns prefiram o anterior, mais suscinto, bom para mandar por e-mail. Esse aqui vai em pontos onde o outro não vai. Reflete algumas coisa a mais. Muitas questões, porém ficam ainda em aberto, porque as perguntas, como afirmo abaixo, não param.

Que seja útil, que ajude a refletir, quem sabe até a votar melhor (seria muita pretenção, mas Quintana me ensinou a sonhar).

Um abraço a todos, Arnaldo

Como é difícil votar!

Desabafo de Arnaldo V. Carvalho

Já votei. Votei e não vim aqui falar em quem. Vim para desabafar.

Quem estará preparado para votar? quem estará, de fato, preparado para votar?

Assumir-se de esquerda quer dizer que vai votar em candidatos de esquerda*? E quem os são? Serão os ditos de esquerda de fato esquerdistas? Começarão os esquerdistas eleitos uma mudança social iniciando pela redistribuição de seus próprios salários e mordomias? Terão a ousadia de ir contra o capitalismo de estado chinês que vem tomando conta, e de certa forma até servindo de modelo aos brios dos líderes latino-americanos? Por outro lado, ser de direita é de fato ter compromisso com certa liberdade? Para que todos tenham liberdade não será necessário uma reforma na infra-estrutura profunda, o que inclui condições de iniciar suas vidas com estrutura emocional, física, bagagem formativa, e oportunidades reais? E o quanto temos de liberdade interna para a externalizarmos, a contento e de maneira sustentável? E o quanto esse interesse por liberdade é real entre os candidatos liberais? Os liberais estarão interessados em liberar seus cargos ao fim dos mandatos? Serão eles defensores reais de uma liberdade para todos? É difícil.

O PT é de esquerda e o PMDB de direita? Como eles governam (e se elegem) juntos há oito anos? Terá a política nacional encontrado um “estado de harmonia Zen”, onde todos trabalham juntos em prol do povo?

Estará a díade direita-esquerda representando um conflito existencial humano INDIVÍDUO x COLETIVO? Ou isso é um aspecto ultrapassado, visto que talvez o país já não possua direita e esquerda coesos? Ou isso é invenção de terapeuta, coisa de gente que não tem o que fazer?

Pensei em votar pela ideologia de um partido. São 27 partidos. É mesmo um país partido. Haverá um que represente adequadamente meus valores? Ou ele ainda está para nascer? Será que apostar em partidos constitui um jeito seguro de votar? As trocas de partido reduzidas, graças a força de novas leis, que vêm conseguindo aumentar a fidelidade partidária. Talvez então eu pudesse ter votado pensando no partido. Mas já dá pra confiar? Os candidatos serão fiéis cumpridores da ideologia pregada no programa de um partido? E eu, conhecerei o programa de todos os partidos, e tendo escolhido um, terei chance de confiar que ele seja cumprido?

Vejo que em todo partido tem gente boa, e gente ruim. Em todo o país tem gente culta, e não tão culta, nos vários partidos. Gente rica e gente pobre. Gente que pensa coletivamente, e gente que só pensa em si (ou no máximo em seus parentes). Gente que entende o compromisso de ser político, gente que usa o cargo público para ter vida mansa. Gente que entende que a atividade política não precisa ser em tempo integral, e por isso mesmo não comparece a quase nada. Gente que entende que, se o cargo é remunerado, precisa se esforçar como qualquer outro trabalhador no país. Em todos os partidos, até onde pude perceber (porque meu alcance é confessamente LIMITADÍSSIMO!), tem disso tudo.

Minha amiga Lucia e minha amiga Marcia são PSDB. São boa gente, pensam no coletivo. Não são ricas, não são pobres, são ligadas a conhecimento, uma é professora universitária. A Marcia inclusive vai em reunião de partido, briga lá dentro. O Berna é ambientalista aqui, premiadíssimo. É PV. E até onde sei, é amigo do Guida, em quem não votaria. O PV afinal será mesmo focado em sustentabilidade ou eco-capitalismo? Há chances para um ambientalismo correto dentro do capitalismo? O partido tem que sobreviver… O PRP recebeu um novo filiado, o Allan Ponts. Proeminente acupunturista, entrou para brigar pelo direito da Medicina Tradicional Chinesa ter formação própria e profissionais específicos autorizados a exerce-la no país. Opa, aqui cabe um voto! Mas o PRP está na coligação que apoia o Picciani, gravemente envolvido com pedofilia (apagaram isso da memória do povo!) e do César Maia.. Que partido é esse, mal conhecido que se alia assim? O Allan não tem nada a ver com esses caras. Mal conhece inclusive as pessoas do próprio partido. Mas, como o Brasil não permite candidatura independente.. lá está o Allan, que preferiu um partido menos expressivo, menos manchado que “esses aí todos”. A Michelle é coerente, honesta, lida com ONGs e educação, e gosto muito de suas idéias. Ela é PSOL, e o único vereador na minha cidade que comparece na câmara com regularidade, como um funcionário qualquer é o RENATINHO, também PSOL. Aliás, o Renatinho vota sempre no que eu votaria de todas as votações que já acompanhei na câmara. A Pimenta é filiada ao PT, e aguentou e aguenta o tranco de ser da frente interna do partido que não concorda com o que a direção nacional vem fazendo. O Roberto Freire é PPS, mas o PPS apoiou o Collor. O PPS em Niterói é do Comte, que não conta comigo nem por um decreto. Bem, o Collor é mesmo “fenomenal”: “até” o Lula posou abraçadinho com ele. Todos já se acusaram, se pisaram,e depois se abraçaram, se beijaram… Briga de comadres? Amnésia? “Capacidade de perdoar”? Poupem-nos!

Mas o PSOL e o PSTU, esses ainda estão firmes. Não apoiam Collor, nada disso. O PSOL também é o único que me lembro que não tem ninguém na lista de gente associada a escândalos que corre na Internet.

O PSTU é a favor da moratória. Eu não aprecio a moratória, porque já fui credor e acho injusto que não me pague aquilo que me pertence segundo acordo previamente formalizado. Já fui, inclusive, prejudicado e muito por isso. Também já fui devedor, e morro de vergonha de não honrar um compromisso financeiro. Uma coisa é renegociar dívida, fruto de cagada de quem veio antes. A outra é simplesmente não pagar. O PSTU é o partido do “contra burguês”. Uma frase para mim amedrontadora. Não sou contra burguês. Também não sou a favor.

A existência da burguesia é uma consequencia direta do sistema que ninguém questiona (os países que questionaram também foram por água abaixo, massacrados em guerras- do-paraguai modernas, sem armas explícitas). E o sistema que escolhemos está infiltrado na raiz de um povo que é capaz de “fazer o mesmo” se estiver lá em cima.

Por falar nisso, outro dia a política quase matou, ou matou em parte, um irmão meu. Matou em meu coração. Encontrar um amigo-irmão com quem convivi a infância inteira, que sempre gostei muito, a quem sempre escutei as opiniões com respeito e relevância, a me dizer: “estou estudando pra concurso público agora; assim que passar fico na boa, mamando. chega, não aguento mais trabalhar para eles”. Foi um golpe no meu fígado.

Nessa trama toda, surge a ideia de que o empresário é “o mau” e o empregado “o bom”. Isso para mim está fora de cogitação. Empresariado e Povão, polarizados pela política que divide e conquista. Uma estratégia romanesca, e tão atual… A coisa passa pela guerra dos donos de terra com os sem-terra, passa pela guerra patrão-empregado, pela guerra índio-usina, e atinge a relação de trabalho-ócio, fazer o que se que gosta, gostar do que se faz, e finalmente chega ao ponto culminante: bom e mau. O pobre é mais numeroso, e o voto é direto. Os ricos, que constituem a esmagadora maioria de eleitos em odas as eleições, precisam muito dos votos dos pobres. Então há quem crie essa briga. Ganha quem parecer estar “mais do lado do pobre”.

Além disso, conseguiu-se construir no Brasil a imagem do “empresário mau”, e do “empregado preguiçoso”. A troca de acusações é mais ou menos essa: O empresário que trabalha 15 horas por dia, segue os valores de mercado na contratação e paga seus funcionários em dia, desconta todos os impostos, obedece e oferece todos os benefícios previstos pela Lei e trata todos de forma cortês é mal? E o funcionário que trabalha de má vontade, que detesta o que faz e é eternamente desmotivado, e torce para acabar logo o dia e que venham logo os feriados e as férias, é bom? De outro lado, o empregado jovenzinho que toma lá suas cacetadas, seja da vida, da fome, da falta de amor, ou pelo amor de pais que querem vê-lo alguém. Ele precisa pegar dois ônibus e um trem, e passa 4H por dia em sua jornada urbana de trabalho só no vai e volta. Ele trabalha 8 horas, finge que come (engole o que tiver por perto) em uma hora de intervalo. Ele chega arrasado em casa e dorme pelo menos 6H, o que, cá entre nós, em geral não é o suficiente para a carga que ele teve. O jovenzinho tem 4-6H para demais refeições, para ver os parentes, pais ou filhos, para fazer cocô. Se tiver velho, parente doente, filho pequeno, esposa, esse tempo é muito pouco. Tempo para sua sexualidade, para a felicidade e cumplicidade do casal? Xii.. reduz o tempo de sono, ou de comer com calma, ou de dar atenção a alguém.. Não é fácil não. Não dá pra gostar desse tal de trabalho. Trabalhar é ruim, definitivamente. O trabalho não paga essa vida escrava. A revolta se foca no patrão, aquele que o paga. Mas vejam, nem todo empregado é ruim e faz tudo de má vontade. Da exata e mesmissima forma, nem todo patrão é ruim. Nem todo patrão deseja pagar mal. Nem todo patrão manipula leis. Essa é uma briga que parece que tem gente com interesse em construir.

Temos sérios motivos para questionar o paternalismo instalado e continuamente prometido por direitas e esquerdas. Bolsas-tudo não são necessárias a quem tem oportunidade igual e é valorizado adequadamente pela força de seus esforços. Décimo-terceiro não é necessário a quem tem capacidade e inteligência financeira para transformar o 1/12 que lhe ROUBARAM do salário final para criar a ilusão do décimo terceiro em investimento que lhe renderia mais no fim do ano que um salário a mais. Essa capacidade nenhum governo, nenhum candidato pensa em dar. Direita, esquerda, tudo igual (será?).

O povo é que não sonhe com auto-suficiência. É obrigatório ser dependente, em todas as áreas. Jogue-me na Selva, não sobreviverei. Jogue-me na selva de pedra, também não sobrevivo. O que somos? Nada sabemos sobre leis, sobre o próprio corpo, sobre os canos da casa, sobre relacionamentos ou sobre como lidar com dinheiro. Quer dizer, cada um sabe uma coisa ou outra de uma coisa ou outra. Uma ideia vil da sociedade moderna é a destituição dessa autonomia básica, que vem com conhecimento, capacidade de experienciar, capacidade de refletir. Não sou contra a cooperação ou a interdependência. Não sou contra especializações. Mas, em níveis básicos, o brasileiro aprende por 20 anos matérias na escola que lhe são inúteis para o encarar a vida prática, e fica quase (?) 100% a mercê do que os especialistas dizem. A dependência virou lei. Só se pode recorrer a Lei com auxílio profissional, cuidar da saúde com auxílio profissional. É obrigatório não morrer e contribuir até não dar mais com o sistema. Vivo sabendo de gente que, em lucidez moribunda, pede que desliguem, desentubem, e o deixem… Não é fácil conseguir tais autorizações, em muitos casos. Bom, mas aí o papo engrossa e vai para um tentáculo diferente dessa história, e portanto, não cabe aqui. Fato: O país não prepara seus indivíduos para serem autônomos, ter visão crítica das coisas, reivindicar seus direitos a contento e com fundamento.

De qualquer forma, a maior vilanice nessa história é a aliança-fusão do estado com esse patronato. Sobre isso, recomendo que assistam a História das Coisas. Dá um bom panorama de até onde essa confusão se instala, e no final, nessa briga todos saem perdendo. Quando a gente verifica que os candidatos de peso são pessoas com situação econômica privilegiada, e representa sobretudo o empresariado… A maior bancada é de ruralistas, e depois vem a dos médicos e dos advogados… Mas esse pessoal é mesmo muito versátil, porque o médico lá não é só médico, é também o ruralista, e também o empresário, e também o cooperativista (dos planos de saúde)… Pois é, independente das formações, quase todo mundo tem uma fazendinha ou um pé (ou melhor, bolso) nos planos de saúde, em empresas diversificadas… isso inclui o torneiro mecânico atualmente no poder, com sua família cheia de fazendinhas. Vocês pensam o que, o povo brinca de “fazendinha” na Internet, mas eles não brincam não. O agrobusiness brasileiro, insustentável por natureza, é hoje sinônimo de enriquecimento entre essa turma. A ideia de termos no governo um expert em gente, como um professor, cientista político ou um jornalista cresce, mas já tivemos um lá em cima, e ele… Tem lá suas fazendas também. Será que é por isso que nos tratam como gado?

Mas mesmo com essa guerra criada e/ou encabeçada por muita gente mal amada de todos os lados, ricos ou pobres, esquerdas ou direitas, (os bem amados sorriem, adoram pagar bem, ficam satisfeitos com o serviço bem prestado, adoram prestar bem seus serviços, querem ver todos em volta felizes também), ainda assim é notório: Em todo o país, a maioria das pessoas está tentando “votar certo”. Isso é bom! É emocionante! Mas não suficiente…

Sim, eu votei. Que critérios usei? O partido mais simpático, a esquerda “da vez”, o “do contra” em relação às duas tentativas brasileiras anteriores… ? Ou anulei meu voto e tentei engrossar a massa que quer mostrar-se indignada, mostrar que não está satisfeita com nenhum partido, nenhum político nesse país? Sim, porque a grande função do voto nulo ocorre quando o povo assim o faz com convicção. No dia que tivermos mais voto nulo que um candidato importante, veremos uma politica tão desmoralizada que, sei lá, vai ser preciso que se faça algo. Mas.. mudará mesmo? Tem gente que está tiririca da vida com essa politicagem toda, e se eu também estiver – que triste! – posso ter votado num Bode Zé ou num Macaco Tião, que já fora do páreo em função da urna ser eletrônica, dão lugar a outros “mitos”, Tiriricas da vida… Falemos sério.

Pense na possibilidade mais feliz de eu ter buscado dar voto segundo uma análise de currículo… Se o fiz, corro riscos. Currículo conta. Mas não determina. Aliás, o que é mais currículo? Ter diplomas, ter estudado a sociedade, ser um cientista político? Ou ter vivido a sociedade estudada “de cima”, ter tomado a cachaça do povo e apertado parafusos dos carros dos “de cima”? Currículo é ter experiências pregressas em cargos executivos? Como avaliar com precisão se essas experiências são de fato satisfatórias? Como saber se o jogador saberá lidar com novas cartas, mover engrenagens outras que lhe são de conhecimento? Finalmente, há currículo nesse mundo que revele índole?

Pois eu posso ter votado em um dos candidatos que “realmente tem (em breve, tinham)” chances reais de vencer. Nesse caso, a eleição simplifica: Só preciso trabalhar dois nomes. Voto na continuidade dolorosa, ou corro riscos de sair da panela e cair no fogo? Votar no candidato do governo é de fato falar de continuidade? Terá esse candidato o mesmo poder de fogo, diplomacia, visão social e bancada de apoio que o governante anterior (se é que eu considerei esses itens como fazendo parte do atual dono do cargo!)? E se descontinuo, descontinuo mesmo? Ou recontinuo a experiência de governos antecessores? Ou me surpreendo e continuo uma direita travestida de esquerda ou uma esquerda transformada em direita?

Ah, os escândalos. Pode ser uma saída para eleger bem. Quem tem menos, leva meu voto. Dá para ser assim? Ih, não dá. Terei votado em quem não está associado a escândalo mas um partido inteiro – ou quase – está? Ou em alguém associado a tantos escândalos bem próximos de si?

Isso me faz pensar, de novo, naquele problema do Allan Ponts e seu partido – o quanto um partido pode de fato influenciar um governante, seja em que cargo estiver? Terá Lula sido influenciado pelas diversas opiniões dentro do PT (ou ao menos relevado) ou terá ele definido sua própria opinião e ter feito uma grande falange o abraçar e seguir?

Talvez eu tenha votado no candidato notório que perderia de qualquer jeito, mas fortaleceria um partido. Mas me ocorre que observar o candidato a vice-presidência, e os suplentes dos demais cargos políticos pode ser importante, e nesse caso, em quem voto? Que interino desejo? O vice conta. Quando observo os vices.. Vacilo. Certos vices e suplentes deveriam envergonhar o partido. Por outro lado, uma amiga militante um dia foi candidata a vice em eleições passadas. Depois envergonhou-se ela de ter aceito. É que sempre se tem descoberta fazer nas horas Hs… Ainda bem, pensa ela, que o candidato não ganhou. Um alívio.

Quem elege em nosso país? A massa de manobra é mesmo de manobra? Ou o empresariado os faz de marionete? Afirmo que o povo é incapaz, e o absolvo como espécie de “eternos ingênuos”, inimputáveis “bons selvagens”? Ou aposto na força da propaganda-cenoura a atrais burrinhos com antolhos? Ou creio que não, que o povo tem capacidade de observar ao menos o que tem sido bom para ele? Estará o nordestino do sertão votando no Lula porque ele é do sertão, da mesma maneira que a vizinha da Nívia vota no candidato que “cresceu no bairro”, mesmo que o bairro não tenha melhorado quase nada com os vários anos desse mesmo candidato no poder local?

Teremos um povo ligado ao imediato, porque imediato é a comida no prato URGENTE-AGORA, e que, mantido sob esse cativeiro é capaz de reeleger o Collor, a família Sarney, votar em alguém cujo currículo é ser “candidato do Lula” e ponto final? Se o temos, é possível acreditar em mudança pela base? Podemos esquecer das correntes maoístas-e-outros-bichos-eístas que uniram povos inteiros? E o que tais correntes conseguiram? Em outra mão, foi a intelectualidade capaz, algum dia, de representar mudanças concretas em nosso país? Foi tendo gente “mais educada” ou “mais preparada” que o panorama mudou? Assim, dá para acreditar numa mudança pelo topo, seja de uma elite intelectual, seja de uma elite financeira? Perguntas que parecem negativistas, mas são o retrato do abismo para o qual o trem de nossa sociedade está sendo conduzido.

Ainda tive outros caminhos para tentar escolher meus candidatos. Posso ter votado no que fez certas leis interessantes. Posso ter votado em quem não fez certas leis desfavoráveis. Posso ir, é claro, baseado nas promessas. Quem até hoje as cumpriu (e/ou o quanto), desde o restabelecimento da democracia nos anos 1980? E se eu tiver votado influenciado por certas posições claras, isso dá conta de definir todo um governo?

O Brasil Partido é um corpo bizarro: cabeça, corpo e pernas (incluindo o rabo) de animais aparentemente distintos, e desprovido de proporções e conjunções harmoniosas. Uma esfinge esquisita, onde cada parte quer ir para um lugar diferente. Deve ser por isso que tenho tantas dúvidas. Votar certo é responder um enigma. Coisa de esfinge. Quem ganha com a desarticulação da esfinge? Há quem ganhe. Tem que haver. Alguns nem vivem aqui, especulo. Ou não há? Ou só há perdas, porque o povo (aqui incluo todas as partes da esfinge) ainda não se tocou que a guerra que estamos travando entre classes está com foco no inimigo errado.

Pois é, dei um corpo pro Brasil. Sou terapeuta corporal, você sabe. Pra mim, tudo o fim das contas, para o bem ou para o mal, pode corporificar, hehe. É uma maneira de entender o mundo. Por que não posso ter usado meu conhecimento para eleger melhor? Bingo! Tenho anos de prática. Dificilmente erro com o olhar. Observo as couraças físicas a traduzirem as emocionais nas pessoas. Treinei o olhar para compreender o interior das pessoas através dos sinais que elas me oferecem. Suas doenças pregressas também me dizem.. Então ok, vou lá avaliar a postura dos candidatos, o semblante deles, seus jeito de andar, falar, os músculos mais tencionados… Peraí, não deu pra ser por aí não. Porque político e ator são muito parecidos, tão parecidos que atores já foram várias vezes presidentes e governadores de países como EUA (e pensar que eles tiveram Reagan e tem o Schwarzenegger e nós temos o Tiririca – olha ele aí de novo!*). E ator sabe imitar tão bem. E as pessoas botoxam tanto, tem fono, disfarçam tudo o que podem, como podem. Meu olhar “de raio x” vencerá tais barreiras? Não mesmo. Talvez se estivessem na minha frente, nus… Talvez se pudessem toca-los, e assim passasse a contar com minha cinestesia… E eu poderia ter aplicado testes! Sim, claro! Todo terapeuta tem seus testes. Isso teria me ajudado. Mas, sabe.. Sou apenas um terapeuta. Olhar tão claro não dá. Erro pouco, mas já cometi erros avaliativos graves em relação a algumas pessoas. Também já disfarcei bem, quando talvez gostasse menos de mim tal como realmente sou, em minha pequenez. E se sei me disfarçar, outros também o sabem. Tenho tantas virtudes e defeitos quanto meus clientes. Também faço terapia, também vivo em busca de me aperfeiçoar. O terapeuta, como não é guru, pode igualmente ir se melhorando, fazer sua terapia e ir arrumando sua casa interna, pra felicidade entrar e ficar cada vez mais no corpo e na alma – essa é (ou deveria ser) nossa função profissional e social, mas de certa maneira também ética e missão pessoal. E isso ocorre mesmo com as dúvidas políticas, mesmo com dilemas e angústias. A terapia não vem para tampar o sofrimento, mas se ter forças e se saber lidar com ele. Ajuda a gente a um amadurecimento consciente. Isso é muito bom. É muito bom mas não define cargo político, não define o voto certo. As couraças, os meridianos e seus bloqueios mostram pra gente o quanto as pessoas sofrem, e talvez onde sofrem. Mas não dizem o que as pessoas fazem com isso. Qual é o preciso reflexo final de tais bloqueios e sofrimento. Se tornam-se caridosos cheios de culpa ou miseráveis burgueses corruptos impotentes sexuais. O que eles farão para o mundo com as chagas impressas na alma, ninguém pode saber. Pronto, caiu mais um “jeito” de eleger. E agora, o que falta?

Faltam mais perguntas.

A esquerda e o empresariado se uniram? Como pode? A direita está ao lado do social? Como pode? Quantas vezes repetirei essas perguntas-indignações o longo desse texto, mesmo que com outras palavras? Por mais que sejam várias, não será o suficiente.

Os que elegem comparam governos com boa memória? Lembram de cada momento do país, com cada político? Associam o político a um partido? São capazes de dar um veredito seguro sobre a firmeza de posição ideológica que um partido possui? Enxergam o país como continental e multi-cultural? Enxergam a atenção que o governo central deu a cada região, e o governo estadual deu às suas distintas áreas? São capazes de ir além do que sentiram acontecer na rua onde moram e olhar por todos? Finalmente: Esses eleitores teriam obrigação de olhar por todos? Isso não é impositivo, anti-democrático, ditador?

Perguntas, perguntas, perguntas. Perguntas que não sou capaz de responder, com firmeza. Mais um tanino a arranhar a garganta: Me entristece o coração ao perceber que o Brasil continua (e eu continuo), no final das contas, e com toda boa vontade, votando como um ato de fé.

Minhas perguntas que em meu texto só terminam aqui, porque a Vida me chama, e a Felicidade, não importa o novo presidente eleito, continua só dependendo de mim. Viva o Rabo do Tatu!

Arnaldo

* * *

VIVA O RABO DO TATU!

* Se você pesquisar na Internet, nos livros, entre os especialistas em ciência política e social, vai encontrar diferentes definições para esquerda e direita. De fato, o célebre cientista político Norberto Bobbio aponta para o fato de o mundo tornou-se unipolar, e esquerda e direita já não possuem distinções claras. Ainda assim, sustenta ainda Bobbio, as pessoas continuam utilizando os termos (o que os mantém relevantes!) e os colocam a serviço de suas próprias noções, baseadas no que aprenderam sobre isso, baseado ainda em suas emoções e experiência de vida. De modo geral, o senso comum aponta para certas definições/diferenças, conforme pequena tabela que montei abaixo:

Esquerda Direita OBS
Contra o governo atual A favor do governo atual Quando definido assim, a oposição ao entrar no poder passa a ser de direita e a nova oposição assume o termo esquerda.
Deseja revolucionar o sistema, a política, etc. Deseja fazer crescer e desenvolver o país dentro do modelo
Liberalismo social Liberalismo econômico
Comunismo, socialismo e anarquismo Capitalismo Os direitistas frequentemente atacam os de esquerda defendendo a liberdade privada de um comunismo que arrancaria o patrimônio obtido pela força do trabalho de alguém e o cederia para que as riquezas fossem redistribuídas a força.
Benefícios às classes menos privilegiadas Interesse de grupos dominantes (elite) Esse é o grande discurso pró-esquerda. Os ricos são maus, os pobres são bons, os pobres precisam assumir o poder e assim a massa viverá melhor e a sociedade será mais justa.
A favor de um estado forte A favor da livre iniciativa, economia forte e de um governo regulador O estado forte já ofereceu no passado a ideia de que seria uma solução ao social, já que o estado, em princípio, representa os interesses da maioria, que é o povo. Contudo, o que temos visto nos países de estado forte é um capitalismo de estado como o da China.

Para saber mais:

http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=1059&cat=Ensaios&vinda=S

http://books.google.com.br/books?id=9Hw8vjDqrkMC&pg=PA125&lpg=PA125&dq=bobbio+%22cientista+pol%C3%ADtico%22+esquerda+direita&source=bl&ots=lGqz2hCDuV&sig=Heg3QkTFMCYDO84xHsBs2E9ZoSE&hl=pt-BR&ei=ll6sTK_OPIL68Abnxpj8Bw&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=6&ved=0CC0Q6AEwBQ#v=onepage&q=bobbio%20%22cientista%20pol%C3%ADtico%22%20esquerda%20direita&f=false

** Isso foi só uma provocaçãozinha. O Brasil tem candidatos e eleitos bons e ruins em todas as profissões; Os atores por favor não sintam-se desqualificados, jamais tive essa intenção, pelo contrário, me orgulha ver um Milton Gonçalves ou uma Bete Mendes engajados no cenário político. E por favor, não pensem que admiro o Arnold ou o Ronald – muito pelo contrário!

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Ainda está em tempo de fazer esse teste, que embora limitado, pode te surpreender.

Leia declarações dos presidenciáveis José Serra, Dilma Rousseff, e Marina Silva, escolha as que mais se aproximam da sua opinião e descubra com quem você tem mais afinidades

viaQue candidato pensa como você? – Eleições 2010 – VEJA.com.

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