De passagem por Guaíba (Impressões Gaúchas 1)

De passagem por Guaíba

Arnaldo V. Carvalho

Sim, eu fui mais uma vez ao Sul. Dessa vez, decidi compartilhar com quem não é de lá um pouco do que vi e vivi, de palavrinhas curiosas a imagens que dizem por si.

Chegar em Porto Alegre é uma alegria para mim, com exceção da fumaça de cigarro, que teima em me perseguir quando chegam, de modo que fica até parecendo que o povo de lá fuma mais que o daqui (acho que dei foi azar).

Fora isso, sou recebido sempre com cordialidade, e me alegra perceber que por lá o movimento é intenso, mas com uma dose de tranquilidade que já não vejo há muito nas capitais do sudeste.

Mas meu destino final não era a capital, mas a pequena vizinha Guaíba, e ao dia seguinte, Santa Maria onde daria curso.

O aeroporto de Porto Alegre é relativamente bem integrado com os demais sistemas de transporte da cidade, de modo que basta pegar um trem para se deslocar fácil de lá aos outros locais principais da cidade, incluindo a rodoviária, para onde fui comprar minha passagem para Santa Maria. Lá, me aguardava minha mana Cristina. É daquelas pessoas que não importa que anos passem, nada se modifica no reencontro.

Juntos, caminhamos da rodô a estação hidroviária, onde se pega um catamarã até Guaíba. De um lugar a outro, cruzamos o centro, coração da cidade. E nessa pequena caminhada começamos o tour fotográfico que aqui segue. Fiz questão de fotografar a criatividade do cabelereiro que batizou seu salão de “Mãos de Tesoura” e o grande chip de celular do grêmio (os amigos colorados brigaram comigo por causa dessa foto). Lá no fundinho da foto tem uma menina que trabalhava na mesma campanha, fazendo embaixadinhas mil. Super fera. Não resisti a perguntar: “mas então você torce mesmo pro grêmio?”, e a surpresa: “não, sou Inter mas fazer o que né”. Ponto pros vermelhinhos.

Esse caminho, que basicamente é uma rua comprida, é mesmo curioso. De cinema pornô daqueles bem das antigas, passando por comércio popular, feira livre de primeira, construções antigas do século passado e modernosos prédios, tudo convivendo com uma harmonia própria. Chegamos à hidroviária.

É uma estação muito pequenina comparada a do trajeto Rio-Niterói, que tenho tanto costume de fazer. E a lancha é pequenina. Mas tudo é muito organizado, limpo, confortável. E tem Internet!

Imaginei-me um guaibense a atravessar todos os dias para o trabalho. Voltar para casa em um por-do-sol sobre o belo e caudaloso rio guaíba. Nada mal.
Que delícia de lugar, um sossego, do lado de uma imensa cidade grande.

Não fossem os panfletos chamando as pessoas para conhecer as atrações históricas, talvez se pensasse que a cidade seria mesmo apenas para se descansar e viver em paz. Não que não seja. Mas Guaíba foi o palco da trama que deu origem a Revolução Farroupilha, e isso muda as coisas.

Visitar o imenso e secular cipreste sob o qual os revolucionários teciam seus planos, bem de frente para a casa de Gomes Jardim, é obrigatório.
A rua de Cristina não fica muito longe do outro lado. E lá fui aprendendo sobre algo que adoro: comidas típicas.

Na padaria não se vende geleia, mas chimia (que depois descobri ser uma adaptação da palavra geleia em alemão). Requeijão é coisa sem graça: O negócio é colocar nata (creme de leite fresco) no pão com a chimia. Cada um tem sua preferência do doce: goiaba, figo, uva, e vários outros.

Outra coisa que vai bem no lanchinho é a vovó sentada, biscoitinho em formato de “L”, e ainda o pãozinho . Na vendinha da esquina se compra tudo isso com facilidade, além de algumas frutas, como a banana caturra, a nossa banana d’água.

O silêncio, os passarinhos curiosos, a mais pura paz. Guaíba e seu calçadão de frente ao belo rio onde os jovens namoram, sua praça em frente a igreja onde os velhos jogam (quando muito), seus bairros cheios de verdes e quintais parados no tempo.

Com tanta riqueza simples, a cidade ainda me agraciou com uma última história que me impressionou tanto que me fez mudar muito da minha maneira de pensar. É que lá conheci uma senhora que teve muitos filhos, e quando eles eram crianças, vivia numa grande casa no centro de um grande lote. A aconchegante casa de madeira viu os filhos crescerem e envelheceu com eles. A medida que iam casando e tendo suas vidas, a velha senhora, hoje viúva, nunca teve dúvidas: foi encolhendo a casa, desmontando um cômodo após o outro. Hoje, há filhos que moram pertinho, outros longe. E a casa que antes reunia a todos agora cabe inteirinha na antiga cozinha. “pra que mais, para ter trabalho?” dizia ela… E o quintal que era enorme ficou ainda maior, para ela seguir fazendo o que mais gosta: cuidar das plantas, essas filhas que nunca se vão.

É ou não é um verdadeiro sonho de desconsumo?

Gratidão Guaíba. Cuide sempre muito bem de seus filhos. Estarei de volta em breve.

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