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“Não é a ferida que ensina, mas a cura”.

Marty Rubin

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Por Fernanda Carlos Borges*

Nesta semana emergiu mais uma vez na minha mente e no meu coração um assunto que muitos dizem ser já antigo. Insistiu na minha atenção depois que um crítico de arte do estrangeiro disse já bastar os ressentidos expondo seu ressentimento na produção artística e cultural. Os ressentidos são as mulheres, os homossexuais, os negros, os pobres, enfim. É evidente, tão evidente, que não nos cabe aqui discutir se a boa causa vale a obra – é claro que não. Não é isso que quero trazer aqui. O que me chamou a atenção foi a palavra ressentimento. Ela foi tratada como se a sua simples citação tocasse um erro. Não foi usada para descrever um estado de ser, mas para condenar esse estado de ser: não se pode ser ressentido. Diga-se de passagem que ele é branco, homem e rico. E eu sou obrigada a admitir: sou ressentida. Sou mulher ressentida. Ressentida porque, como mulher, tenho medo da dor e da humilhação do estupro. Ressentida porque fomos para a fogueira e para as câmaras de tortura, onde eles achavam que expulsavam os demônios do nosso corpo, demônios que nos possuíam através do prazer. Ressentida porque nesta semana vi um documentário sobre as chinesas de pés pequenos, pés atados desde cinco, sete anos, tortos, ligamentos rompidos, quebrados, esmagados, sempre doendo mas atraentes naqueles lindos sapatinhos. Ressentida por causa daquele e mail que todo mundo já recebeu da africana que vai ser enterrada e apedrejada na cabeça até a morte por causa a sua conduta sexual. Ressentida porque nossa conduta sexual ainda está na mira julgadora dos homens, para os quais ainda devemos explicações. Ressentida porque na música de massa somos tratadas como estúpidas, e mesmo no RAP, que é tão importante do ponto de vista social, somos traidoras, mentirosas, interesseiras. Ressentida porque dizem que no trânsito nós não cedemos passagem. Porque dizem que na família quem faz intriga é mulher. Porque dizem que mulher é a maior inimiga da mulher. E porque tem um monte de piadas que desqualificam nossa inteligência, nossas capacidades, nossos corpos, não escapando nem os seios caídos das velhas mulheres que amamentaram muitos homens, e o tamanho o canal do sexo alargado na passagem de todos os filhos.

Então, enquanto houver restos da desqualificação da mulher nesta cultura patriarcal agonizante, continuarei ressentida e me importará ver o mundo através da fenda aberta pelo ressentimento. Lilith, a primeira mulher de Adão que foi expulsa do paraíso porque queria ir por cima e nem o Adão nem Jeová deixaram, virou um demônio. Meu irmão a encontrou numa meditação e, segundo a narrativa dele, ela apareceu primeiro como uma silhueta, sedutora, mas um fio de mágoa aparecia no som da sua voz. Ele teve medo e ela perguntou se ele queria ver o seu sexo. Ele disse que sim. Ela mostrou e era a ferida mais feia e purulenta que poderia haver no universo, resultado dos inúmeros estupros que ela sofreu ao longo das eras. E ela gritava amaldiçoando os homens. E a dor dela era tanta e a mágoa tão funda, que ele percebeu que nada poderia fazer a favor dela… Como arquétipo, a Lilith está no inconsciente coletivo de todos nós, emergiu da sombra do mundo patriarcal que atribuiu à mulher toda culpa, a submissão como castigo e o merecimento do desprezo, e ao homem o direito ao estupro. Fora disso ela não faz sentido. Então, é bom lembrar continuamente: sempre que uma mulher é mal tratada pelo fato de ser mulher, Lilith estará sendo alimentada e emergirá, lançando com toda a força da sua dor todas as suas ressentidas maldições.

*   *    *

* Fernanda Carlos Borges é filósofa. Autora dos livros “A Filosofia do Jeito” e “A Mulher do Pai”, publicados pela Summus. Seu texto está sendo publicado aqui em primeira leitura via Blog sob autorização expressa da autora.

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