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Ode ao feminino através da campanha do voto pelas inglesas do início do século XX.

Sobre o filme “As Sufragistas”

Por Arnaldo V. Carvalho*

O filme terminou. Nos abraçamos e levantamos na direção da saída. Caminhamos por alguns minutos até que quebrei o silêncio apenas para registrar no verbo o que os dois sentiam. “Difícil de comentar não”?; “Difícil”, respondeu minha esposa.

Esse é o impacto mínimo que você terá ao assistir “As Sufragistas” no cinema. O filme fala de um assunto que aparentemente tornou-se distante em nossa realidade: o direito das mulheres ao voto.

A sinopse de “As Sufragistas” é simples: conta-se a história das mulheres inglesas que lutaram para ter direito ao voto em seu país. Algumas personagens existiram na vida real. Outras, baseadas em ativistas reais da época. A ficção, aqui, tem o intuito claro de prestar serviço a realidade.

Soa absurdo, aos ouvidos do século XXI, que algum dia homens e mulheres tenham uma diferenciação tão obtusa na esfera dos direitos civis. Mas, sabem, o século XX ainda foi ontem, e em muitos aspectos ainda é hoje.

Com rara destreza, a diretora Sarah Gavron toca em uma cicatriz fina, e ao faze-lo revela que ainda dói. Na verdade, não dói mais porque há uma anestesia que procura esquecer do ocorrido. Mas nas células das mulheres de hoje, descendentes das que sofreram na carne por certas reivindicações, ainda dói e muito.

Para quem se liga nos detalhes técnicos, o filme esbanja qualidade: figurino, cenário, fotografia (que luz! Que cores!) irretocáveis. E para completar, um dos elencos femininos mais expressivos que já vi. Não se deixem levar, no entanto, pelos apelos do cartaz e propagandas do filme, que mostra Meryl Streep, Helena Bonham Carter e Carey aMulligan estampadas, dando a entender que protagonizam a história. Verdadeiramente, Streep apenas faz aparições rápidas – essenciais, incríveis, mas rápidas, enquanto que Bohoncarter e Mulligan dividem o estrelato com atrizes igualmente incríveis, com personagens igualmente importantes! Em especial as britânicas Anne-Marie Duff e a premiada Natalie Press.

O filme provocará reflexões e um verdadeiro choque de realidade em quem o assistir. Impossível não trazer esse passado para os dias atuais e ver como o tema segue precisando de muita discussões, reflexões e novas ações.

Recomendo totalmente. Flores brancas a todas as mulheres e a todos os femininos que habitam os homens.

* * *

Arnaldo V. Carvalho, cinéfilo, a favor da igualdade de direitos e da assimetria funcional e sinérgica de homens e mulheres. De vez em quando sente “vergonha alheia” por certos congêneres.

Reflexões avivadas pelo filme

Sobre o direito feminino

Já entendemos que não é a desigualdade que traz problemas, porque ninguém é igual. O problema gira em torno da igualdade desvantajosa, onde um indivíduo ou uma coletividade tem vantagens em relação a outra; e por outro lado, da supressão de direitos de expressão e participação de todo e qualquer indivíduo nos mecanismos que formulam, representam e agem pela coletividade.

As mulheres do mundo inteiro continuam em situação desigual desvantajosa.

A elas, seguem negados muitos direitos, sobretudo de acesso. Acesso às escolhas, acesso à orientação, acesso à valorização de sua natureza intrínseca – de Mulher! A elas segue sendo negado o direito de usarem o feminino – energia a qual são guardiãs naturais. Não lhe é permitido respeitar seus ciclos hormonais (o repúdio a menstruação, a falta de sensibilidade em obrigar a trabalhar em um dia de cólica ou com uma gravidez avançada ou ainda com vínculo mãe-bebê super estreito), o direito de um discurso feminino ao avançar nas esferas de poder (os interesses do feminino dizem respeito a uma habilidade e desejo de agregação e valorização dos aspectos afetivos, por exemplo).

Como denunciam as sufragistas do filme, foram décadas pleiteando pacificamente o direito ao voto. As mulheres chegaram ao limite de ser exploradas, violentadas, humilhadas, abusadas de todas as formas. Aliás, quando reagiram tais limites já haviam sido em muito extrapolados. A conclusão era a necessidade de reivindicar o direito feminino sob a ótica do masculino: a ótica da violência.

A ótica do masculino ainda é hegemônica

É verdade! A ótica do masculino é a única que realmente é percebida até hoje. Até hoje as mulheres de altos cargos usam “terninho”, tendem aos cabelos curtos e a discursos com muita objetividade e pouco afeto. Para sobreviver no mundo dos homens, são frequentemente mulheres “duras”, para serem “respeitadas”. “Estilo Sargentona” funciona, se for muito delicado “o homem estranha, associa a fraqueza, e então abusa”.

Sobre o Panorama Brasil e nossa Estadista Mulher

Para o Brasil, o filme chega em hora mais que pertinente. Nunca tivemos uma estadista mulher a frente do país. E nunca a figura da mulher através desta foi tão degradada nas últimas décadas. Se a Dilma e seu governo não demonstram terem conseguido bons resultados em seus anos no executivo do país, ela não se mostra pior do que seus antecessores homens. Se ela não trouxe estabilidade econômica como o FHC, não seguiu a cartilha de Washington a risca como ele; Se não trouxe prestígio internacional como Lula, não negociou da mesma forma com bancos, empreiteiros, empresários e políticos, construindo o mais impressionante cartel unificado privado-público que o país já conhecera. Por outro lado, há aspectos inovadores e fundamentais em um processo de maturação da democracia instalada a partir do final da década de 1980 no Brasil: o enfrentamento aos vestígios do militarismo opressor-ditador, levando a frente a Comissão Nacional da Verdade; Bancando a Operação Lava-Jato mesmo ao preço de afundar empresas pseudopúblicas ou ameaçar cabeças dentro do próprio governo. Se o governo dela tem erros graves usados pela oposição para configura-lo como “desastre”, isso não ocorre por ela ser mulher. No entanto, ouve-se sempre xingamentos que não foram desferidos contra outros presidentes que hoje mostram-se alinhados a toda uma história de coronelismo, populismo, paternalismo, nepotismo, negociações e enriquecimentos ilícitos. Tenham certeza, Dilma é mais atacada por ser mulher, ou melhor, é atacada com uma jocosidade humilhante e inédita. Contra ela alçam-se velhos jargões machistas que a mim dão nojo e uma certa vergonha alheia dos demais homens.

Escravidão é tema de mais denúncia e reflexão que a repressão contra a mulher

A repressão tão violenta de humano contra humano parece sobressair-se, nas representações cinematográficas, também contra o gênero masculino. Tomemos o exemplo dos escravos. O quanto retratam os castigos contra homens e o quanto o fazem quando tais retratos denunciam o mal trato às mulheres? O tema escravidão aparece com frequencia, gera discussão, choca. Mas é tão raro vermos algo sobre violência contra a mulher, repressão ou supressão de seus direitos, etc. aparecerem, e quando ocorrem, retratam sobretudo quando se fala do âmbito coletivo! Por quê?

As origens da repressão à mulher e ao feminino

Como será que as decisões sobre o que fazer ficaram para os homens? São diferentes forma de exercício de poder: decidir sobre o casamento, a prole, mas também os rumos da sociedade. Se o homem das cavernas caçava para a fêmea com um bebê de colo poder dedicar-se mais a cria, ele caminhava mais pelas matas, conhecia mais o território e o inimigo. “Para onde vamos?” talvez fosse decisão natural do batedor do grupo, e a ele confiada pelos demais. Tudo mudou! Por que não mudou ainda a forma com que homens e mulheres decidem, por que ainda há tanta dificuldade de escuta e de uma tomada de decisão coletiva?

Por que as mulheres precisam votar e serem votadas.

 As mulheres precisam não só votar mas a sociedade precisa votar mais nelas. Nas mulheres verdadeiramente portadoras do feminino. Como diz em algum momento uma personagem do filme: “porque precisa haver uma outra forma de se viver”. E o voto pode mudar isso.

***

* Arnaldo V. Carvalho, polímata, portador do masculino e do feminino em si, defensor do feminino sagrado que habita homens e mulheres, e sua essencialidade no equilíbrio social. Luta para a cada dia harmonizar-se com sua própria testosterona e seu potencial impulsivo-destrutivo; ainda tem muito o que aprender mas vai melhorando a cada dia.

 

 

A campanha em torno do filme, na versão original, exibe as palavras-chave: “Mothers, Daughters, Rebels (Mães, Filhas, Rebeldes), enquanto que na versão brasileira, “Rebelde” dá lugar a “Revolucionárias”. Pelo visto, a dureza da realidade tal como o filme procura retratar ganha ares de um romantismo em torno da ideia de revolução, na opinião dos tradutores tupiniquins.

 

A protagonista da vida real Emily Davison (a esquerda), martir do movimento pelo Sufrágio Feminino na Inglaterra, e sua intérprete para o cinema, Natalie Press.

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