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Essa linda estatueta estilizada, entalhada em madeira e com o feto destacável, habita a mesa da sala onde atendo. O local é reduto obstétrico: todos os profissionais dali trabalham diretamente no cenário do parto.

E eu?

Estatueta gestante

Impressionada, emocionada, a mulher de madeira introspecta em direção ao próprio ventre. Uma bela ode ao período supremo do feminino. Foto tirada de um telefone de baixa tecnologia, em 2013.

Eu ajudo pessoas a re-gestarem-se, e comemoro quando estão prontos e finalmente parem-se.

Arnaldo V. Carvalho

Originally posted on Portal Verde:

Farsa de um sorvete que tentou se passar por outro

Por Arnaldo V. Carvalho

Aconteceu em Niterói, RJ. Fui a um supermercado e lá estava o freezer anunciando “Sorvetes Sem Nome” de dois litros n promoção por 9,90. “Sem Nome” foi a marca da sorveteria mais famosa da cidade, no meu tempo de infante e também de adolescente.

Eram duas unidades, uma enorme, que vivia lotada, com seus vários sabores e excelente qualidade. A Sem Nome fechou há anos. Ver aquela chamada do lado de fora do freezer foi como avistar um oásis após tanto tempo no deserto.

As letras eram parecidas com a da antiga sem nome, e o produto anunciava utilizar açúcar orgânico. “Coisa de quem tem qualidade”, pensei. Não titubeei, comprei duas caixas, feliz da vida. Cheguei em casa, abri o sorvete, animado com apresentar a iguaria às minhas filhas. Que decepção! O sorvete não era nada…

View original mais 154 palavras

De passagem por Guaíba

Arnaldo V. Carvalho

Sim, eu fui mais uma vez ao Sul. Dessa vez, decidi compartilhar com quem não é de lá um pouco do que vi e vivi, de palavrinhas curiosas a imagens que dizem por si.

Chegar em Porto Alegre é uma alegria para mim, com exceção da fumaça de cigarro, que teima em me perseguir quando chegam, de modo que fica até parecendo que o povo de lá fuma mais que o daqui (acho que dei foi azar).

Fora isso, sou recebido sempre com cordialidade, e me alegra perceber que por lá o movimento é intenso, mas com uma dose de tranquilidade que já não vejo há muito nas capitais do sudeste.

Mas meu destino final não era a capital, mas a pequena vizinha Guaíba, e ao dia seguinte, Santa Maria onde daria curso.

O aeroporto de Porto Alegre é relativamente bem integrado com os demais sistemas de transporte da cidade, de modo que basta pegar um trem para se deslocar fácil de lá aos outros locais principais da cidade, incluindo a rodoviária, para onde fui comprar minha passagem para Santa Maria. Lá, me aguardava minha mana Cristina. É daquelas pessoas que não importa que anos passem, nada se modifica no reencontro.

Juntos, caminhamos da rodô a estação hidroviária, onde se pega um catamarã até Guaíba. De um lugar a outro, cruzamos o centro, coração da cidade. E nessa pequena caminhada começamos o tour fotográfico que aqui segue. Fiz questão de fotografar a criatividade do cabelereiro que batizou seu salão de “Mãos de Tesoura” e o grande chip de celular do grêmio (os amigos colorados brigaram comigo por causa dessa foto). Lá no fundinho da foto tem uma menina que trabalhava na mesma campanha, fazendo embaixadinhas mil. Super fera. Não resisti a perguntar: “mas então você torce mesmo pro grêmio?”, e a surpresa: “não, sou Inter mas fazer o que né”. Ponto pros vermelhinhos.

Esse caminho, que basicamente é uma rua comprida, é mesmo curioso. De cinema pornô daqueles bem das antigas, passando por comércio popular, feira livre de primeira, construções antigas do século passado e modernosos prédios, tudo convivendo com uma harmonia própria. Chegamos à hidroviária.

É uma estação muito pequenina comparada a do trajeto Rio-Niterói, que tenho tanto costume de fazer. E a lancha é pequenina. Mas tudo é muito organizado, limpo, confortável. E tem Internet!

Imaginei-me um guaibense a atravessar todos os dias para o trabalho. Voltar para casa em um por-do-sol sobre o belo e caudaloso rio guaíba. Nada mal.
Que delícia de lugar, um sossego, do lado de uma imensa cidade grande.

Não fossem os panfletos chamando as pessoas para conhecer as atrações históricas, talvez se pensasse que a cidade seria mesmo apenas para se descansar e viver em paz. Não que não seja. Mas Guaíba foi o palco da trama que deu origem a Revolução Farroupilha, e isso muda as coisas.

Visitar o imenso e secular cipreste sob o qual os revolucionários teciam seus planos, bem de frente para a casa de Gomes Jardim, é obrigatório.
A rua de Cristina não fica muito longe do outro lado. E lá fui aprendendo sobre algo que adoro: comidas típicas.

Na padaria não se vende geleia, mas chimia (que depois descobri ser uma adaptação da palavra geleia em alemão). Requeijão é coisa sem graça: O negócio é colocar nata (creme de leite fresco) no pão com a chimia. Cada um tem sua preferência do doce: goiaba, figo, uva, e vários outros.

Outra coisa que vai bem no lanchinho é a vovó sentada, biscoitinho em formato de “L”, e ainda o pãozinho . Na vendinha da esquina se compra tudo isso com facilidade, além de algumas frutas, como a banana caturra, a nossa banana d’água.

O silêncio, os passarinhos curiosos, a mais pura paz. Guaíba e seu calçadão de frente ao belo rio onde os jovens namoram, sua praça em frente a igreja onde os velhos jogam (quando muito), seus bairros cheios de verdes e quintais parados no tempo.

Com tanta riqueza simples, a cidade ainda me agraciou com uma última história que me impressionou tanto que me fez mudar muito da minha maneira de pensar. É que lá conheci uma senhora que teve muitos filhos, e quando eles eram crianças, vivia numa grande casa no centro de um grande lote. A aconchegante casa de madeira viu os filhos crescerem e envelheceu com eles. A medida que iam casando e tendo suas vidas, a velha senhora, hoje viúva, nunca teve dúvidas: foi encolhendo a casa, desmontando um cômodo após o outro. Hoje, há filhos que moram pertinho, outros longe. E a casa que antes reunia a todos agora cabe inteirinha na antiga cozinha. “pra que mais, para ter trabalho?” dizia ela… E o quintal que era enorme ficou ainda maior, para ela seguir fazendo o que mais gosta: cuidar das plantas, essas filhas que nunca se vão.

É ou não é um verdadeiro sonho de desconsumo?

Gratidão Guaíba. Cuide sempre muito bem de seus filhos. Estarei de volta em breve.

***

Teste de bem viver

Uma empresa de cartões de identificação uma vez me brindou com essas “20 dicas para viver bem”. Não sendo “fórmula para felicidade”, mas talvez uma maneira de checar como andam pequenas atitudes positivas no dia a dia, me pareceu valer a pena que dessem uma olhada nisso. (Arnaldo)

20 dicas para viver bem

Imã de consultório

Esse é o imã de consultório, versão de imã de geladeira que há no consultório onde atendo. Valeu, Tom Zé. (Arnaldo)

Ao persistirem os médicos, os sintomas devem ser consultados

 

 

Anos atrás, fui convidado por uma empresa de consultoria a analisar o perfil de stress dos funcionários de uma fábrica de frango instalada no Rio de Janeiro. O motivo era descobrir porque a mesma tinha um índice de pedidos mensais de demissão na ordem de 30%, por longo tempo (estamos falando de um universo de 2000 (dois mil) funcionários . A quantidade de funcionários afastados por lesão e L.E.R./DORT também era impressionante.

A primeira coisa que me chamou a atenção é que o responsável geral pelo processo produtivo, um veterinário, me mostrava entusiasticamente como o frango era processado, como o ambiente era higienizado, como eles eram eficientes  - mas em nenhum momento se remetia aos funcionários. Contou-me sem remorsos que no início de cada turno a esteira (linha de produção) começava com uma velocidade x, mas aos poucos era acelerada para render mais. Os frangos, que já não tinham boa vida na granja, também não tinham boa morte. Tal como na animação “Fuga das Galinhas” mostra, eles são brutalmente manipulados, tomam choque, chegam as vezes na máquina que os depena ainda com um fio de vida… É muito fácil esquecermos diante de um quadro desses, das pessoas que lá estão.

Estive nas instalações da fábrica por três vezes*, acompanhando todo o processo produtivo, e meus olhos lacrimejavam o tempo todo, por conta do forte odor dos produtos de  limpeza misturados aos vapores dos frangos; o barulho em alguns setores era excessivo, e as proteções auriculares desconfortáveis – com adesão muito limitada da parte dos funcionários. Acessórios de proteção como as luvas de aço usadas pelo pessoal do corte não impediam ferimentos, embora sem dúvida evitasse que o funcionário perdesse dedos ou a mão inteira. Manipular os frangos antes a potente serra de corte era trabalho de homens grandes e fortes, que sob tensão eram os principais candidatos a lesão por esforço repetitivo. Mesmo com vestimentas especiais, o setor de refrigeração congela o que fica de fora do seu corpo (especialmente o rosto) em poucos minutos, e a ordem é que não se fique mais de dez minutos lá dentro. Mas é impossível, porque os homens precisam empilhar, descarregar e carregar, e as vezes ficam bem mais que o estipulado. Há uma carga horária brutal e uma supervisão truculenta. Homens e frangos são tratados de um só modo, nessa RICA indústria. O que mais esperar? A industria avícola é uma fábrica anti-vida.

Ao ler o artigo abaixo, publicado na revista Radis, não pude deixar de me lembrar de tudo o que vi. Já não como frango há muitos anos; Se quando tomei essa atitude foi por pensar em mim mesmo (o frango de granja oferece a menos saudável das carnes), hoje digo que o mais importante em deixar de consumir frango industrializado é não alimentar essa cadeia produtiva nociva.

Arnaldo V. Carvalho, naturopata

* Infelizmente, quando chegamos na fase das entrevistas individuais, a consultoria foi dispensada e o trabalho foi interrompido.

 

Dores e excesso de trabalho

A Comissão de Justiça e Direitos Humanos da Câmara dos Deputados analisou em dezembro as conseqüências do ritmo intenso de trabalho na indústria avícola, que vem gerando uma legião de trabalhadores lesionados e inválidos, vítimas da aceleração do ritmo das nórias (as correntes que transportam o frango até os trabalhadores na linha de produção). Segundo a Folha de S. Paulo, os parlamentares acompanharam os depoimentos com lágrimas nos olhos. “A situação é bem mais grave do que se imaginava. Ficamos emocionados com o grau de crueldade dessa guerra econômica, que produz um exército de mutilados”, disse a deputada Luci Choinacki (PT-SC).

As exportações do setor avícola vêm crescendo vertiginosamente — de 879 milhões de dólares, em 2000, para 2 bilhões e 862 milhões de dólares, até outubro de 2005. Para atender a essa demanda, as empresas aceleram a produção. Um dos problemas dos trabalhadores é a síndrome do túnel do carpo, inflamação do nervo mediano que causa dor aguda da mão ao ombro, incapacitando a vítima e exigindo cirurgias.

FONTE: Revista Radis Súmula, fevereiro e 2006 (ed. 46)

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Aproveito para convida-los a conhecer a animação MEATRIX e suas continuações, que retratam em pouquíssimos minutos boa parte dos sérios problemas da indústria de criação de frangos, porcos e gado confinado em todo o mundo:

 

A jornada é a recompensa

(provérbio oriental)

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