Refutando a Filó

REFUTANDO A FILÓ

(Arnaldo V. Carvalho)

Corre nos meios eletrônicos um texto de frases curtas atribuídas à uma “Dra. Filó”. De fácil sedução, possui diversos pequenos componentes ideologicos, que comprometem os pensamentos gerais com alguma importância. Me chamou atenção que tenha sido repassado a mim por pessoas esclarecidas. Eles não perceberam mesmo. Viram o geral, se identificam com questões que são mesmo fundamentais na criação de filhos (limites, comunicação, verdade, superficialidades, necessidades, etc.) que estão presentes no texto, mas não chegaram a uma análise mais profunda de entrelinhas. É complicado mesmo. Afinal, o texto foi escrito para elas: uma classe média que tem capacidade de oferecer objetos caros aos filhos, como celulares e televisão no quarto, que recebe influências conservadoras das instituições que lhes perpassam, e que hoje trabalha muito, (ainda) tem seus filhos mas encontra imensa dificuldade de dedicação a eles, por uma série de razões que normalmente se combinam e geram muitas angústias.

Com a corrida do dia a dia, a enxurrada de informações que lhes chegam, por vezes caem nesse tipo de armadilha textual… É compreensível. Lê-se as palavras chaves, aprova-se o que se avaliou superficialmente como compatível com os próprios pensamentos, e repassa-se sem muito mais. Aí vem o chato aqui, leitor lento por natureza, crítico semi-permanente, e habituado a caçar apócrifos, mensagens subliminares e tendenciosismos, para frear esse repasse um mínimo. Alguns amigos acham inútil (já circulou, “já era”). Eu sigo matando a baratinha e acreditando que, mesmo tendo pisado em uma só, posso ter evitado muitas que viriam daquela.

O texto é esse aqui (e em seguida suas orações dissecadas por mim):

Extratos da palestra da Dra. Filó, pediatra, em BH.
13/3/2019

"Rio só existe porque tem margem.
A criança só será um adulto completo se tiver limites".

Criança tem que ser monitorada.

Mãe tem que ser chata.

Filho só pode ver aquilo que é próprio para a idade dele.

Filho não pode ver aquilo que está além da sua capacidade de compreensão.

Tome a frente das regras da sua casa.

Criança não dorme com celular no quarto. Recolha. Vigie.

Criança tem que dormir com tranquilidade.

Quarto não tem que ter televisão. Quarto é para dormir.

Não compare a casa do outro com a sua.

Na sua casa você tem que cuidar da integridade mental dos seus filhos.

Criança não fica trancada no quarto jogando.

Filho tem que 'socializar', tem que ver, estar com pessoas. Corpo a corpo. Olho no olho.

Criança que é rejeitada por outros tem uma tendência a buscar redes sociais. Cuidado. Isso pode causar dependência.

Precisamos ter a coragem de olhar para a vida dos nossos filhos.
As coisas acontecem debaixo dos nossos olhos. 
Criança é esperta, mas temos que ser mais ainda. Pai e mãe têm que estar perto.

Criança não tem que ter senha.

Essa tal de privacidade é só quando eles saem de casa, só quando pagam as próprias contas.

O celular do filho não pode ser igual ao do pai. 
Tem que haver hierarquia.

Cada mãe conhece o filho que tem. Mãe, no fundo, sabe o que está acontecendo com o filho. Não ignore suas sensações como mãe. 
Elas são verdadeiras. 
A mãe não erra o diagnóstico. Confie nos seus sentimentos de mãe.

A missão como pais é muito maior do que podemos imaginar. 
E não é uma missão fácil.

Mais do que dar coisas, se dêem a seus filhos.

Questione seus filhos. Pergunte! Vigie! Investigue!

Existem muitos e muitos distúrbios psiquiátricos na infância.

O segredo da prevenção é família e amor.

Criança tem que ser amada.

Filho vai tentar se impor. Mas regras devem existir. 
Tem que haver respeito. 
Tem que haver hierarquia.

Filho tem que desejar! 
Tem que querer ganhar alguma coisa! 
Tem que esperar ansiosamente pelo presente.

As coisas não são descartáveis.

Coloque na vida do seu filho que somos criadores, que vamos criá-los e que temos sonhos para eles.

Que a vida tem que ter sentido, além do dinheiro, do poder e de todas as possibilidades.

Que a vida os desafiará, mas a vida não encerra. 
Cuidado!

O que os filhos trazem para o mundo é o que plantamos neles.

Estimule-os a serem verdadeiros. A verdade abre caminhos.

Converse. Incansavelmente.

Temos que nutrir a confiança.

Olhe para os seus filhos e entenda o que eles precisam."

Mande para todos seus contatos... Formação das crianças brasileiras.

Não sei se a Dra. Filó sequer existe. Mas aqui vai uma radiografia comentada do texto dela, linha por linha, e depois no encadeamento ideológico geral. Que seja útil, e que possamos refletir sobre o texto com o tempo. (Arnaldo).

_”Rio só existe porque tem margem. A criança só será um adulto completo se tiver limites”._

Eu acho que todo mundo concorda com isso. Nas entrelinhas, no entanto, vou provocar a “Dra. Filó”. Quem dá limite ao Rio é a natureza, quando é o ser humano que dá, vira canal, em geral de esgoto. Quanto a isso preciso explicar uma coisa para vocês, chamada “elemento frustrador”. Faz MUITA diferença QUEM frustra uma criança. E frustração é outro nome para o que dá contorno e limite, no começo. Para de frustrar depois que a margem está definida, porque a energia (pensamentos, sentimentos, ações) encontra outro caminho para fluir. O elemento frustrador não deve ser apenas uma pessoa o tempo todo. Não deve ser o tempo todo uma voz humana. A frustração tem de vir também daquilo que não tem cara nem boca nem braços. Tem de vir do cair no chão porque tentou andar no meio fio, do susto que tomou ao querer desafiar o mar, da coisa errada que resolveu botar na boca e doeu. O limite também tem que vir das experiências de viver e se frustrar, e receber em seguida orientação, cuidados, etc. As crianças não podem mais viver isso, e talvez para muitas o que salve é a bronquinha que tomam de um eventual irmãozinho canino. Da importância dos limites e do equilíbrio entre o sim e o não ninguém tem dúvida. Mas é preciso compreender como estão sendo vividas tais experiências nos dias de hoje. Outra coisa: dê um pito na mãe e ou no pai sobre isso, mas também ofereça soluções concretas e viáveis a eles. Primeiro porque muitos foram crianças já criados com muitas ausências de contato com os pais, o que implica também nessa falta de limites. Então eles nem tem uma referência sobre por onde começar. Segundo porque é preciso resolver a necessidade (mental, material, etc) dos dois trabalharem o dia inteiro o tempo todo, senão esse discurso Dona Filó, é só um elemento a mais para toda a culpa que as mães e pais de hoje já carregam. O que só prejudica ainda mais essas relações. “Dê seu jeito” é jogar na piscina para ver se nadam… Alguns pais até conseguirão, outros ficarão ainda mais frustrados, e podem ter certeza, transmitirão isso aos filhos, que não vão mesmo querer saber de ter os seus (uma escolha que não teria problema, caso não fosse por esse motivo).

_Criança tem que ser monitorada._

Me pergunto como um cidadão do século XIX se sentiria ao ler os dizeres “sorria, você está sendo filmado”, ou caso a ele fosse apresentado um concurso onde as pessoas que não se conhecem morariam por um tempo numa casa no centro da cidade toda feita de paredes de vidro, de modo que todos pudessem vê-los. Me pergunto como se sentiria uma mãe indígena a ver o parto de uma irmã sendo exibido na tela de um cinema no hospital, com direito a zoom e close na perereca? E como a parturiente se sentiria ao saber dessa exposição? São tempos e realidades onde imagino questionarem: que tipo de gente seria essa que se permite a esse nível de monitoramento?

Criança tem que ser monitorada sim, mas não o tempo todo. Não é honesto com ela nem com os pais. É paranoico. Criança tem que ter certeza de que as vezes fica sozinha e pode ficar sozinha. Pode dormir sozinha. Pode mexer nas genitais. Pode fazer uma arte também que as vezes provocará irritações sim. E as vezes o contrário. Pode também, nesses momentos, aprender até a concertar o que fez. E pode criar surpresas verdadeiras para os pais, que só se surpreenderão se permitirem. Ter momentos de privacidade na infância é o cultivar de um sentido que mais tarde se revela em identidade própria, em relação de confiança mútua para com quem delas cuida.

Legitimar esse pensamento sem critérios de bom senso é se aproximar de uma ideologia autoritária e nociva.

_Mãe tem que ser chata_.

Mãe não tem que ser chata. Primeiro porque é sacanagem com a mãe, atribuir a tal chatice só à mãe e eximir o pai de sua co-participação na educação (eu entendi Dra. Filó, você quer dizer: não pode ter medo de dizer não e de dar limite – mas mandou mal, sabe). A frase também evidencia a desconsideração que a família mononuclear do ponto de vista da criação de filhos, não é um modelo sábio. Crianças precisam de crianças e o revezamento de mais adultos facilita muita coisa o processo. Então a frase também reforça e legitima a regra de uma criação solitária ou semi-solitária. Eu torço que a gente consiga avançar social e relacionalmente para um outro patamar, em que haja maior alinhamento parental, e se possam viver regimes de criação mais coletivos, com creches parentais parceirísimas das escolas. Melhor: tudo uma coisa só, e com regime de vizinhança física presente. Algumas ecovilas estão vivendo isso, e a gente precisa aqui na cidade grande saber que dá certo, e sim podemos tentar isso aqui. E terceiro, uma coisa é o ato chato, outra é a pessoa chata. Pode ser chato frustrar e ser frustrado. Mas isso não resume ou conclui o que é ser mãe. Ser mãe, ser pai, ser responsável por criança(s) pode ser MUITO LEGAL PARA TODOS OS LADOS! A frase desencentiva qualquer jovem não mãe a ser mãe. Ninguém quer ser chato, ou visto como chato, embora seja possível peitar certas coisas chatas de fazer de vez em quando.

_Filho só pode ver aquilo que é próprio para a idade dele._

Qual é a idade de ver o que? O corpo do vovô no caixão? A mamãe chorando porque brigou com o papai? O mendigo nu a apontar o falo para as pessoas na rua (e ao expor seu calamitoso estado denunciar o escândalo que é a própria sociedade)? O batalhão do BOPE com seus fuzis para fora da janela do carro indo para uma operação na favela ao lado de casa? O prefeito, o governador ou o presidente falando? Os tios discutindo os rumos que a vida coletiva está tomando?

Ah, você deve estar falando de TV e Internet né… Entendi. Então devemos confiar no que os censores do governo determinam? A criança pode ver Tom&Jerry ou Pica-pau masocas, ou a propaganda da Barbie “você pode ser tudo o que quiser?”. Dificilmente a criança não pode ver aquilo que já não seria impróprio para todos os adultos. Ninguém deveria assistir diariamente assassinatos cruéis e crimes sem fim, relações conflituosíssimas de todos os tipos.

Nós temos que discutir melhor o que é ou não para ser visto, baseado numa percepção real de impactos subjetivos e objetivos em curto e longo prazo. Até porque talvez isso varie muito de uma criança para outra.

Temos que discutir essas visibilidades do mundo e também as invisibilidades.


_Filho não pode ver aquilo que está além da sua capacidade de compreensão._

Errou de novo, Dra. Filó. Então filho não pode ver uma obra de arte porque não a entende? Ou você quer com essas frases dúbias dizer que não pode ver sexo? Ou não pode ver política porque não tem condição de opinar? Será que você está tentando cooptar as pessoas para que elas apoiem o “escola sem partido” deixem de ouvir os professores para terem a mente menos pronta para resistir à doutrinação autoritária disfarçada de liberal?

Você não é inocente Não pode estar dizendo com essa frase que não criança não pode ver cubo mágico sendo feito, não pode ver uma mesa de resolução de problemas, não pode ser levado ao observatório para ver as estrelas… Por que não compreende? Não, você não está falando disso.

Aliás, como se compreende aquilo que não se compreende sem que se veja? O que você acha que a criança faz com o que não compreende? Fica um registro. E não é registro morto não: é registro em processo. Está lá na pessoa e subsidiará entendimentos mais complexos posteriormente. Os registros não compreendidos são Koans mentais, quebra-cabeças incompletos aguardando as demais peças. É assim que se encontram respostas, se tomam atitudes e se formulam novas perguntas. A senhora não deve ter estudado sobre registros e sobre memórias né Doutora?

Talvez esteja preocupada com registros negativos, traumas e complexos… Deixa eu dizer como um trauma se estabelece: não tem só a ver com o que aconteceu, não. Tem a ver com o quanto a psique é capaz de expressar e elaborar. Sabe qual é o jeito mais seguro e infelizmente o mais raro para isso acontecer? Com uma qualidade de vínculo com alguém tal que a pessoa sinta no seu mais íntimo que pode diante dela expressar o que houve, comunicar o que houve, elaborar o que houve. Era para todo mundo ter essa pessoa até ficar um pouco mais velha e a pessoa poder partir. Mas é raro porque os pais assimilaram o projeto de terem uma vida própria – o que é mesmo fundamental – e como não tem opção tiram do tempo com filhos o tempo para fazerem isso. O resultado é escassez e incompetência relacional. Sou melhor não. Faço isso também. Mas compreendo que a gente tem que desconstruir que isso que a sociedade oferece é normal, é natural ou é saudável. Não é nada disso. O começo é estudar, ouvir os estudos, colocar em discussão, exigir que haja tempo para haver essa pauta nas falas e mesmo nas leis.

_Tome a frente das regras da sua casa._

No documentário sobre o Edifício Master, o então síndico afirma que na resolução de conflitos, tenta Piaget, e quando não dá certo ele vai de Pinochet. Aquilo que é brincadeira é muito sério porque fala da desistência da democracia (“o ideal”) para a adoção autoritária como saída. De novo, eu também ajo assim muitas vezes. Especialmente quando represento “a ordem”. Especialmente, a ordem do relógio: “olha o atraso”, “já está tempo demais”, etc. Mas quer saber? Somos melhores que isso. Merecemos ter mais tempo para não precisarmos de tantas regras. E mais do que isso, precisamos de mais tempo para oferecermos mais escuta e participação dos pequenos. Se cobramos tanto dos governos, se desejamos democracia, precisamos começar. Então a cobrança aqui é para que possamos ter um reconhecimento justo do que damos para o mundo, para haver tempo disso se estabelecer. Relações mais horizontais, sabe? 100%? Não, não dá. Não dá para esquecer que nós temos décadas e as crianças menos de uma. Faz diferença. Mas não dá para acreditar que elas não tenham direito a voz e a voto. Em Summerhill, a escola inglesa que briga com o mundo por não aceitar se submeter aos ditames do que se considera “a boa escola”, todos os alunos, do pequenote ao adolescente tem semanalmente uma reunião. Todos sem exceção tem um voto cada. Com o mesmo peso do voto de cada um dos professores, e com o mesmo peso do voto dos funcionários todos. Todos tem um voto. O resultado é surpreendente, e não se pode mais dizer que é uma situação “experimental”: afinal de contas, a escola já tem oitenta anos de vida funcionando assim! (empresto livros sobre, para quem quiser).

_Criança não dorme com celular no quarto. Recolha. Vigie._

Você está supondo que criança tem celular. Criança nem deveria ter celular. Aliás, as sociedades de pediatria do mundo todo alertam dos perigos do uso de telas, especialmente na primeira infância. O uso de eletrônicos deve ser visto com muita cautela. Mas, como falei do “que não pode ser visto por eles não deveria ser visto por nós”, guardadas as devidas proporções, também aqui se aplica a lógica: todos nós deveríamos usar as telas eletrônicas por um número limitado de horas/dia. Mas tente nos dias de hoje? Criou-se um mecanismo onde estamos dependentes, por mil motivos. Mais um problema para enfrentarmos e cobrarmos. Queremos segurança nas ruas para não ficarmos ligando e vendo se nossos parentes já chegaram em casa. Queremos que o banco pague por seus computadores e funcionários para que efetuem os serviços que paguei para ter. Queremos ter viabilidade de ir e vir para não ser tão atrativo jogar pelo computador porque o trânsito faz os amigos do bairro vizinho parecerem distantes. Queremos, aliás, ter praças e muitos outros equipamentos de lazer e encontro. A solução que estão nos dando – o mundo virtual – está sendo mais nociva do que se pensa.

_Criança tem que dormir com tranquilidade._

Todos nós né?

_Quarto não tem que ter televisão. Quarto é para dormir._

Ah, entendi. Uma frase curta correta acima para se vincular a essa outra aqui abaixo. Eu sou contra também, sabe Dra.? Mas não tenho dúvidas de que a TV é ligada quando não há algo mais atrativo. E aí a gente volta para a necessidade de espaço, ar livre e segurança para tudo isso… Tendo essas coisas, a TV fica beemmm menos perigosa, sabe? Mas tem razão. Nesse esquema de vida que a gente leva, melhor não ter.

_Não compare a casa do outro com a sua._

Agora já fiquei implicante. Você solta uma frasezinha para comprar seu leitor e depois vem o xarope ideológico por cima. 😦

_Na sua casa você tem que cuidar da integridade mental dos seus filhos._

E fora de casa, não? Esse “você” é a mãe lá de cima né? Meu Deus, de novo o peso só para cima dela [a mãe].

_Criança não fica trancada no quarto jogando._

Some todas as coisas que já escrevi antes e: 1) entenda porque isso acontece; 2) por favor sugira algo viável, concreto, real que solucione o problema com relação a um filho único, de uma família mononuclear, onde ambos trabalham “ao infinito e além”. Senão, de novo, é culpa culpa culpa que não resolve, não esclarece e é justa até a página 2.

_Filho tem que ‘socializar’, tem que ver, estar com pessoas. Corpo a corpo. Olho no olho._

Isso é fácil e natural. Parece que virou um grande esforço. E o pior doutora Filó, depois de um tempo, se os pais conseguirem retomar uma rotina de contato com o mundo, terão que enfrentar um período “de abstinência” algumas vezes. Muitas crianças criaram vínculos de segurança e atenção para com o eletrônico e passam a apresentar dificuldades na relação física direta, preferindo ir para a TV ou Game, sendo capazes inclusive de deixarem seus amigos que lhe foram visitar no quarto ou no quintal e indo buscar o eletrônico.

_Criança que é rejeitada por outros tem uma tendência a buscar redes sociais. Cuidado. Isso pode causar dependência._

A frase precisa é: quem não tem atenção vai buscar. E uma fonte certa de “atenção” (ainda que pseudoatenção) é muito atraente. Simples assim. As redes são ilegais para as crianças, é bom que se diga.

_Precisamos ter a coragem de olhar para a vida dos nossos filhos. As coisas acontecem debaixo dos nossos olhos. Criança é esperta, mas temos que ser mais ainda. Pai e mãe têm que estar perto._

Olhar não, participar, ser mais time! Em toda relação existem três entes: eu, você e nós. Cada um na família precisa buscar e dar espaço para si e para o nós. Sem esse equilíbrio as coisas não funcionam. É preciso ter um espaço do nós mais forte nas famílias. Como os adultos estão com os Eus sufocados (e por vezes deficitários porque não tiveram o devido espaço para se fortalecerem nas fases certas), acabam usando o pouco tempo para suas vidas e não sobra quase nada para o “nós” que envolve os filhos. Como quebrar o círculo vicioso (pais que não são plenos por conta da própria educação que receberam cheia de deficiências de tempo, referências, afeto, estabilidades etc.)? Conseguir isso nesse mundo louco é que é a senha. Sem eela, o texto fica no apoio da vigia neurótica, que não resolve de verdade o verdadeiro buraco, bem mais embaixo.

_Criança não tem que ter senha._

Criança não tem que ter eletrônico. Lembra, estamos falando de criança. Adolescente é outro papo, e uma discussão ainda mais complexa.

_Essa tal de privacidade é só quando eles saem de casa, só quando pagam as próprias contas._

Peraí, estamos falando de criança ou de adolescente? A doutora sabe o papel do respeito à privacidade na formação identitária na adolescência? Acho que não. Não é a falta de privacidade que resolve o problema. É a falta de cumplicidade. Sem ela, você pode vigiar a vontade. O adolescente vai dar o jeito dele de fazer sem você saber. E se você for muito neurótico e vigiar DE VERDADE 24H por dia tudo o que faz, pode ter certeza, criará alguém com MUITOS problemas. Mas não vou discutir isso hoje, porque o texto começa direcionado para crianças e de repente descamba para assuntos que são território da adolescência.

_O celular do filho não pode ser igual ao do pai. Tem que haver hierarquia._

A responsabilidade da criação é da mãe. Aí na hora da posse de eletrônico a doutora Filó se refere ao pai… Dá a sensação de que é um homem quem escreve, ou no mínimo, fica claro que se trata de um texto machista.

É repetitivo eu seu, mas vamos lá: criança não tem que ter celular. Hierarquia baseada em coisas não é sinônimo de aprendizagem de respeito mútuo, menos ainda de carinho mútuo. A família precisa pensar junto o *consumo* das coisas. Um consumo saudável é baseado em *necessidades* individuais e coletivas reais, e não na propaganda ou na “hierarquia das coisas”. Por falar nisso, já assistiu ao pequeno vídeo “A História das Coisas”? Deveria.

_Cada mãe conhece o filho que tem. Mãe, no fundo, sabe o que está acontecendo com o filho. Não ignore suas sensações como mãe. Elas são verdadeiras. A mãe não erra o diagnóstico. Confie nos seus sentimentos de mãe._

Que interessante, saiu do celular, voltou a falar com a mãe. “Suspeitei desde o princípio”. Agora é enaltecer a mãe e seus sentidos tentando seduzi-la.

Me desculpem mães mas…. Sim, mães podem errar no diagnóstico, erram muitas vezes. E isso não é nenhum crime! A criação solitária pressupõe erros até certo ponto. Doutora Filó a senhora não tem o direito de fazer pesar a responsabilidade materna desse jeito, e deprimir as mães que te leem e varrendo a memória lembram que já erraram. Não funciona assim. Mais gente na criação, mais gente para pensar junto, mais suporte e atenção, menor chance de errar. Isso só para começar.

_A missão como pais é muito maior do que podemos imaginar. E não é uma missão fácil._

É, do jeito que a sociedade está é mais complicado ainda. E textos como o seu Filó não ajudam em nada.

_Mais do que dar coisas, se dêem a seus filhos._

Ah, que bom, esquecemos da hierarquia do celular. Convém. Um alerta apenas para se você comprou o discurso da Dra. Filó: pense bem no que é se dar para seus filhos. Pense na importância de haver equilíbrio eu, você e nós, para o nós e o ele (filho) fluírem. Pense no que é se dar. Não adianta voltar para casa para estar lá no computador de costas para o filho. Não adianta dar seu tempo e não ter energia. Não adianta também se conformar com o que estou escrevendo e não buscar o equilíbrio. Equilíbrio é uma busca. Vai erros e acertos na trajetória dessa infância. Com dedicação, sabedoria e a sorte de bons suportes, a tendência é de dar muito mais certo do que errado.

_Questione seus filhos. Pergunte! Vigie! Investigue!_

Por que será que lembrei de “Vigiar e Punir” de Michel Foucault? Acho que o que escrevi acima já explica um monte de coisas. Mas se me pedirem posso falar bastante mais sobre qualidade de vínculo, parceria e a verdade aberta que se estabelece naturalmente quando isso rola.

_Existem muitos e muitos distúrbios psiquiátricos na infância._

Me diga você, leitor@, o que essa frase está fazendo aqui?

Na leitura rápida da Internet, ela simplesmente entra como elemento amedrontador, colocando pressão sobre sua doutrina. É demais isso. Não tem nada a ver com o texto nem antes nem depois da frase. Bizarro!

_O segredo da prevenção é família e amor._

Seara complicadíssima, essa. Toca o terror e chantagia a emoção d@ leitor@, coagindo para que a pessoa se submeta a questão da família e do amor. O que é família? O que é amor? É o amor familiar a la Damares? Isso previne todos os problemas psiquiátricos? A escrita genérica é indutiva mesmo. Para mim perversa até.

_Criança tem que ser amada. Filho vai tentar se impor. Mas regras devem existir. _

_Tem que haver respeito._

_Tem que haver hierarquia._

Filho tenta se impor quando observa e ou vivencia comportamentos de imposição, e ou não se sente parte da estrutura. A “família alfa” é assim: os jovens desafiam os mais velhos até que ganham… Ou vão embora (quando não são destruídos pelo alfa que lhes deu vida!).

_Filho tem que desejar!_

_Tem que querer ganhar alguma coisa!_

_Tem que esperar ansiosamente pelo presente._

É. Assim pode doer bastante quando você tira, e isso estabelece a relação de poder pelas coisas entre genitor@s e filhos. Que grave isso. Aí está a raiz da meritocracia, essa coisa linda que cria a ideologia do empreendedorismo como fosse saudável se colocar pessoas tão diferentes em permanentes disputas tão desiguais. Os meritocratas estão no poder hoje, se tocaram? Junte essa frase com a da família e temos a essência do governo Bolsonaro. Podes crer. “Que beleza”

_As coisas não são descartáveis._

Dra Filó, misturando chaves de novo? O filho tem que valorizar o que ganha e o que tem. Certo. Tem que cuidar. Certo. É verdade, os pais estão loucos com o desvalor que as crianças muitas vezes dão às coisas. Em especial, as coisas caras. E essa chave seduz de novo. Quanto a isso, já comentei, é preciso repensar consumo. Totalmente. Mas sabe, noto que essa frase intermedia a ideia anterior com a próxima. E isso não é bom.

_Coloque na vida do seu filho que somos criadores, que vamos criá-los e que temos sonhos para eles._

Egotrip divinal pra cima da gente não né. “somos criadores” soou mal, tipo falar pro filho: “reconheça criatura que sou seu Deus”. Ele criou o homem à sua imagem e semelhança né. É. Tem certeza que você não é parente da Damares? Não é baixo o número de adultos que recebo em meu consultório trazendo em sua história os conflitos de quem teve uma “vida sonhada pelos pais”. É melhor ajuda-los a se tornarem criadores de suas próprias vidas. Leia mais Dra. Filó. Que tal começar pela Marcia Nader e o texto “Mãe (Desnecessária)”? https://www.viva50.com.br/a-mae-desnecessaria-por-marcia-neder/ É pequeno mas bem útil.

_Que a vida tem que ter sentido, além do dinheiro, do poder e de todas as possibilidades._

Você fala sobre hierarquia de consumo, de meritocracia e alfismo. E agora existe uma vida além disso? Agora, desmembre a sentença escrita por você mesma e me diga: o que é uma vida com sentido “além de todas as possibilidades”? A senhora pode escrever um “tratado de retórica para leituras apressadas de whatssapp”.

_Que a vida os desafiará, mas a vida não encerra. Cuidado!_

De novo! “A vida desafiará mas não encerra”. Devo imaginar que a vida não encerra os desafios? A vida não se encerra? É infinita e além? Explique melhor isso Dra, porque seus aforismos estão por fora mesmo.

_O que os filhos trazem para o mundo é o que plantamos neles._

Mais um indício de damarismo aqui. Ah Caetano, que saudade do seu dadaísmo. Agora é isso o que temos: damarismo, com suas afirmações do século XVIII. Tipos as que Fröebel (“pai” do jardim de infância, um fofo da virada do XVIII pro XIX, você precisa conhecer). As crianças NÃO SÃO TÁBULA RASA. E quanto às influências do meio, por favor, um pingo de humildade vale a pena! O que é “semeado” é o coletivo de experiências que cada um, o que inclui o contato com mãe, pai, outros parentes, os adultos e crianças da escola, etc., etc., etc. Então claro que vale reforçar: quanto mais presença de qualidade melhor gente! Mas por favor doutora, não afirme isso para as mães e pais como se elas não soubessem. Não desvalorize a inteligência delas. Ao invés disso, o meu conselho para você é puxar o assunto de preferência oferecendo pequenas ideias acerca de prioridades da mente, gerenciamento de tempo, e dicas de como driblar o dia a dia para encontrar esses momentos tão importantes.

_Estimule-os a serem verdadeiros. A verdade abre caminhos._

A senhora é mesmo sedutora. Quem não se comove? Acrescento: a melhor forma de ter fihos verdadeiros é sendo. Mas cuidado com as punições graves, cuidado com um código simples de reprovação que os pequeninos aprendem muito rápido: se mentir passa e a verdade é reprovação, como a mente infantil – amoral – se posiciona? No final das contas, é o nível de intimidade, confidência, confiança que pais e filhos vivenciam que gera um compromisso natural e saudável com a verdade.

_Converse. Incansavelmente. Temos que nutrir a confiança._

É verdade. A senhora acertou aqui. Lembrando que conversa não é monólogo, é diálogo. É preciso não só dizer, é preciso escutar. E sim, é preciso repetir as coisas um milhão de vezes. É muita informação, código, regra, estrutura para assimilar e gerenciar ao mesmo tempo. Há uma pequena competição entre essas coisas todas que estão sendo vividas e aprendidas no dia a dia de uma criança. É preciso repetir e dizer de jeitos diferentes, é preciso explorar os assuntos de muitas formas, inclusive pelo aspecto lúdico quando possível. Quanto maior conexão o aprendente tem com o que está aprendendo, melhor.

_Olhe para os seus filhos e entenda o que eles precisam.”_

Por aí. Melhor que olhar, que é mais objectual, é ouvir e sentir, é prestar atenção. Prestar atenção nas necessidades da criança – inclusive a de limites é vital. Mas repara doutora, que você deixa por último o que de certo modo contradiz muito do que você escreveu no texto todo. E isso é retórica vil. Você compra @s leitor@s com frases no início e no fim, além de pequenos reforços nos subtextos ao longo que o colocam do seu lado, para vender-lhes no pacote um conjunto de valores conservadores que se fossem bons teriam feito o mundo de hoje ser lindo, as famílias serem perfeitas, as pessoas não serem tão doentes, perversas e infelizes. Por favor, não misture o que realmente é necessário para uma reforma íntima necessária aos indivíduos, suas famílias e a criação de seus filhos, com esse discurso cheio de afirmações imperativas, que gera culpa, não aponta soluções reais, não traz a discussão para uma situação de realidade. Seu texto entra em contato com premissas que habitam as pessoas e ativa o dispositivo associativo por pura manipulação. A senhora deveria ser desmascarada. Deviam dizer quem é exatamente ou quem são exatamente a(s) voz(es) por trás da “Doutora Filó”. Mesmo que tenha sido escrito por uma pessoa só, mesmo que essa Filó exista e tenha escrito de punho ou digitalmente essa mensagem que circula de forma viral por aí, não me admiraria compreender que seu texto fala por muitos. O que é um desalento.

_*Mande para todos seus contatos… Formação das crianças brasileiras.*_

Atualmente eu tenho morrido de medo do uso de “Brasil”, e “brasileiro”. Me soa de uma ideologia conservadora e hostil – a mesma que elegeu nosso prefeito, governador e presidente. Exatamente como a desse texto.

O todo do texto é construído com objetivos claros e lembra bastante o sistema de inteligência que tornou Bolsonaro e vencedor na corrida presidencial. Atacando pontos que hoje são lacunas educacionais difíceis de resolver pelos pais de hoje em dia, com os recursos que dispõem (dinheiro, tempo, orientação, suportes humanos, etc., etc.), apela para valores rasos, para o misto entre desqualificação/culpa e bajulação para introduzir ou reforçar uma mentalidade cheia de prerrogativas estudadamente erradas, cujos efeitos práticos não são bons. Como terapeuta, pedagogo e pai, recomendo não repassarem.

* Arnaldo V. Carvalho

PS: Logo após a publicação deste escrito, uma pessoa próxima me falou que uma notória Dra. Filó existe. Não soube me dizer, no entanto, se as palavras do texto que refuto são mesmo dela, ou se é uma transcrição filtrada, etc. A “Dra. Filó” com quem dialogo e cujo texto critíco é o ente por trás do texto, seja ele quem for, que fique claro.

Palestra gratuita sobre Jogos na Educação com Arnaldo V. Carvalho (Escola Alecrim, Teresópolis – RJ)

Jogos: como usar para educar

Palestra sobre Jogos na Educação com Arnaldo V. Carvalho, pela Escola Alecrim, Teresópolis – RJ acontece no próximo sábado 10 de novembro

Os jogos de mesa ocupam pouco destaque na educação brasileira, bem como em suas tradições em família. Países com alto IDH tem a cultura do jogo de tabuleiro como uma ferramenta sócio educacional amplamente difundido e praticado.

No entanto, engana-se quem acha que os jogos de tabuleiro utilizados na educação se restringem aos tradicionais como Dominó ou Xadrez, ou ainda aos “clássicos” do século XX como Banco Imobiliário ou War.

No século XXI, o jogo de tabuleiro se caracteriza por uma grande diversidade de propostas temáticas, impressionante qualidade de materiais e engenhosidade de regras – o que os torna altamente atrativos para os estudantes, e altamente útil aos educadores! E é sobre isso que será conversado na palestra gratuita “Jogos: Como usar para Educar”, com o Prof. Arnaldo V. Carvalho, a acontecer no próximo dia 10 (sábado), em Teresópolis.

“A proposta desta palestra é apresentar essa possibilidade mágica de unir o lúdico ao educativo, no utilizar do jogo como estratégia de aprendizagem pelas famílias e pela escola”, diz Arnaldo. Pai, educador e terapeuta, nos últimos dois anos ele tem sido o responsável pelas oficinas e palestras sobre jogos na educação no Instituto de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ).

A palestra é gratuita e aberta ao público, sendo parte de um ciclo de palestras do Jardim Escola Alecrim. Organizado pela empresa parceira Ecofocus. Acontece no bairro de Vargem Grande, em Teresópolis, Rio de Janeiro. O horário programado é de 15H as 17H30m, e o telefone de contato é (21) 99449-6891.

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Palestras na Escola Alecrim – Teresópolis, RJ

Amanhã começa o Ciclo de Palestras 2018 da Escola Alecrim, em Teresópolis, RJ. Vida, ecologia, consciência, energia, prazer, saúde e educação.

Grandes profissionais com grandes temas com a escola se abrindo para a comunidade, em atividades gratuitas, clima agradável e amor no coração.

Sou grato à escola e aos meus amigos Silvia e Cadu, pais da escola e organizadores do evento, pela oportunidade.

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Infâncias, gerações e um museu.

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Uma de minhas últimas fotos do MN, na minha ida de 31 de julho de 2018

Infâncias, gerações e um museu.

Arnaldo V. Carvalho

Sem que eu soubesse, minha mãe investia pesado em minha educação. Me ofertou muitas experiências, e dentre elas, pude conhecer museus, exposições, parques, praias, arredores montanhosos, natureza, a leitura e o teatro. No terceiro dia de minha dor e de meu luto pela perda do Museu Nacional, desejo compartilhar lembranças sobre este que fez parte da construção de quem sou hoje. E particularmente, da melhor parte de mim. Esse melhor que me permitiu estender a experiência às minhas filhas.

Minha mãe me levou algumas vezes ao Museu Nacional quando eu era criança. Lembro bem de sua entrada, do meteoro imenso. Lembro dos três dinossauros na entrada do segundo andar. Lembro do caranguejo gigante – a peça que eu mais gostava. E lembro do medo que eu sentia das máscaras rituais indígenas (fugia da ala indígena por causa delas), e do fascínio das exóticas cabeças encolhidas e secas. Ah, havia o setor dedicado às civilizações americanas… Incas, Maias e Astecas, com seus potes, adornos, urnas funerárias… Também havia múmias ali. A mais impressionante era uma preservada de forma natural. Uma possível mãe e seu bebê num cesto ao lado jaziam no amor eterno dessa relação. Se foram juntas, deixando seus corpos percorrerem o tempo (séculos?) até que fossem tragadas pela tragédia do incêndio. Nem tudo ali precisava ser muito grande ou muito antigo. Meus olhos de criança recebiam a explicação de minha mãe sobre os potes de lombrigas e oxiúros, que me davam asco e uma real percepção de que não queria aquilo me habitando – reforçando assim a importância da higiene alimentar. As múmias egípcias (de gatos, jacarés e pessoas) me causavam terror e êxtase. Lembro que olhava a múmia deitada, com seus pezinhos semi-descarnados, bem “de pertinho”, pois não precisava me abaixar para estar na altura de seu corpo. E lembro delas em outra fase, onde já tinha quase o tamanho que tenho e ela andou bem mal cuidada. Sim, de muitas alas e peças, me lembro do cheiro. Um cheiro que não voltei a sentir em outra parte, nem em museus como Louvre e Prado. Era uma antiguidade própria. Esse cheiro agora é só uma memória.

De minha infância para cá, o museu havia crescido. Vinha no rumo de aprender a atrair, de se modernizar… Encontrou-se com um fabuloso artista paleontológico, colocou réplica de fóssil de tiranossauro, expandiu a ala dos dinossauros, preservou melhor a área de arqueologia, salvando as múmias que estiveram num grave sufoco em tempos anteriores. O meteoro que desde o começo abria a exposição agora apresentava a ala do início da formação da vida na terra com auxílio de um belíssimo painel cósmico para fotos e novos fósseis vegetais. A coleção de história natural só foi ficando mais arrumada e bonita. Um sambaqui apareceu em destaque numa bela ala, logo após a Luzia. O museu criou acessibilidade, montou uma pequena exposição tátil, enfim, foi criativo, ousado e organizado. Tentou seguir respirando e tocando as pessoas, mesmo quando já não tinha fôlego.

Minhas filhas, todas elas, eu levei o quanto pude. As maiores chegaram a conseguir fazer uma leitura madura de diversos pontos do museu. Cada um em seu próprio ritmo de aproveitar… Revisitamos o caranguejo gigante, que com as mais novas (com cinco anos), aprendeu a “falar”. As menores conversaram, aliás, com a “múmia princesa”, com a lhama empalhada, com os crânios do hominídeos que fazem parte da história humana. Elas conversaram com eles e descobriram que a realidade do tempo e do espaço é tão imensa.

Eu e minhas filhas tivemos um grande privilégio em termos tido acesso, em nossas infâncias, a um museu a resumir o planeta, seus tempos e espaços. Possivelmente a grande maioria de nossa população jamais terá uma nova chance de um encontro tão forte e fidedigno, “abridor de lata” da lata da mente.

Meu desejo mais profundo é que essas experiências de ida ao Museu Nacional, que pude deixar a elas, assim como minha mãe deixou em mim, siga lhes ajudando a serem pessoas melhores. Agora, cada um de nós terá de levar consigo o pouco que conseguiu. Quem sabe vestir um chapéu imaginário de arqueólogo e vasculhar a mente, em busca de novos detalhes por entre as lembranças.

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Sou Arnaldo V. Carvalho, pai, terapeuta, educador, cidadão.